Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Meros filmes em Abril


Haut bas fragile
Jacques Rivette
1995, 170’
3ª, dia 1, 21h30
6ª, dia 4, 22h
Cinemateca
*, Lisboa

Ballade vom kleinen Soldaten /
A balada do pequeno soldado
Werner Herzog e Denis Reichle
1984, 45’ [projecção dvd ou pior]
Filmes com jantar

3ª, dia 1, 22h30 – Bacalhoeiro
Rua dos Bacalhoeiros, 125, 2º, Lx


Coeurs
Alain Resnais
2006, 120’
estreia dia 3
14h30, 17h, 19h30, 22h, (00h30)
Medeia King 1 e Monumental 4, Lisboa


The crowd
King Vidor
1928, 104’
Sáb, dia 5, 19h30
Cinemateca

Mahanagar / A grande cidade
Satyajit Ray
1963, 130’
Sáb, dia 5, 21h45
Cinemateca

Silvestre
João César Monteiro
1981, 118’
2ª, dia 7, 22h
Cinemateca

Les statues meurent aussi
1953, 30’
Toute la mémoire du monde
1956, 21’
Alain Resnais
Sáb, dia 12, 22h
Cinemateca

I vitelloni
Federico Fellini
1953, 100’
2ª, dia 14, 19h30
Cinemateca


True heart Susie
D. W. Griffith
1919, 83’
Sáb, dia 19, 19h30
Cinemateca

Der müde Tod / A morte cansada
Fritz Lang
1921, 100’
Sáb, dia 19, 22h
Cinemateca

Faust
F. W. Murnau
1926, 99’
5ª, dia 24, 19h
Cinemateca

Respite
Harun Farocki
2007, 40’ / in Memories
– Jeonju Digital Project 2007

IndieLisboa 2008* – Observatório
Sáb, dia 26, 19h15
(tb. 6ª, dia 2 Maio, 19h15)
Teatro Maria Matos 1, Lisboa

Staub /
Harmut Bitomsky
2007, 90’
IndieLisboa 2008 – Observatório
Dom, dia 27, 16h
(tb. 6ª, dia 2 Maio, 16h)
São Jorge 2, Lisboa

Il mistero di Oberwald
Michelangelo Antonioni
1981, 129’
4ª, dia 30, 21h30
Cinemateca

Pic - nic
Eloy Enciso
2007, 75’
IndieLisboa 2008 – Laboratório
2ª, dia 28, 21h15 – Londres 2, Lisboa

Roz [Pink]
Alexander Voulgaris

2007, 90’
IndieLisboa 2008 – Comp. Internacional
3ª, dia 29, 15h45
– Londres 1

[apenas filmes vistos, sem repetições]

«Instalações, acontecimentos, happenings, improvisações: tudo orienta a pesquisa para uma espécie de teatralidade generalizada [...]»
Alain Badiou, Le siècle, Seuil, Paris, p. 220 [sublinhado meu]


Aproximações à biopolítica

6ª, dia 14 de Março, 10h - Culturgest, Sala 2
Programa Espectros da vida nua

O medo da morte e a conservação da vida por António Bento
Sabe-se como é de uma determinada articulação entre o medo da morte violenta (a paixão mais poderosa) e o direito à conservação da vida (o direito mais sagrado) que Thomas Hobbes deduz o seu Leviathan. Sabe-se também como uma boa parte – a grande parte – da tradição da filosofia política moderna provém da racionalização deste «medo» e da naturalização deste «direito». A um medo «natural» racionalizado faz ela corresponder um direito «racional» naturalizado. O que isto imediatamente significa é que a economia política da vida moderna se define por um cálculo racional de riscos e de benefícios no qual o «medo» é disposto como o fundamento prático e a garantia especulativa do «direito». Mais: a naturalização do direito à conservação da vida só pode ter como corolário o aumento do medo da morte violenta e a consequente existência de um «direito» que deve modernamente apresentar-se – e justificar-se – como uma segurança – mítica, e, portanto, sagrada – contra o medo. Foi neste ponto que Thomas Hobbes nos colocou e do qual ainda hoje permanecemos cativos: a política concebida como fábrica de segurança e o direito como apólice universal contra o medo.

A biopolítica como sintoma do arcaico por José Bragança de Miranda
A ideia de biopolítica é proposto por Michel Foucault para conceptualizar um domínio detectado por Marx, mas por este deixado em suspenso. Trata-se da «vida», qualquer coisa que se jogaria entre o jurídico-político (Estado) e a economia política (o trabalho). Foucault visa-o directamente através de uma série de estudos sobre a prisão, a família ou a clínica, etc. – o famoso «arquipélago» institucional –, servindo a «biopolítica» para apreender o que há de comum em estratégias tão diversas, mas finalmente convergentes. Nesta comunicação procede-se a uma crítica desta concepção, mostrando que o biopolítico é um sintoma do retorno de algo bem mais arcaico e que atravessa subterraneamente toda a cultura desde os seus primórdios e que pode ser descrito como a «energologia» ocidental (a acumulação e o uso de energia animais e humanas de acordo como uma série de «formas» ou tipos). Estamos a assistir à crise desse modelo e à correspondente instauração de uma «extaseologia» geral (a economia geral dos «prazeres» e dos «terrores»). Defender-se-á a necessidade de retraçar politica e artisticamente o programa arcaico, dado o manifesto esgotamento por que está a passar.


O nacional-socialismo e a política sobre a vida
por Alexandre Franco de Sá
Autores como Michel Foucault ou Giorgio Agamben propõem-nos uma leitura do fenómeno nacional-socialista como uma experiência política resultante de a vida se constituir como o objecto de uma hiper-soberania, tornando-se puramente exposta a um poder que torna indiferente a vida e a morte. A presente comunicação pretende abordar o fenómeno nacional-socialista a partir não do objecto do poder mas do seu sujeito, problematizando a possibilidade da caracterização de um tal sujeito a partir do conceito de soberania.

Figuras contemporâneas do biopoder por José Caselas
Trata-se de analisar algumas formas de biocontrolo implicadas no governo de si e dos outros, que derivam da aplicação da medicina e da biologia à gestão das populações e à economia. Que modalidades éticas se constituem nestas formas emergentes de vida? Que tipo de subjectividade, que jogos de linguagem daí resultam? Importa problematizar a questão da liberdade e do determinismo nestas tecnologias biomédicas.

Autópsia in vivo por André Dias
Pode a biopolítica ser pensada como "autópsia geral in vivo do mundo"? Ensaiamos esta hipótese, ela própria paradoxal, como mera ilustração da expressão cinematográfica do pensamento no documentário PRIMATE de Frederick Wiseman, uma das "figuras da autópsia" que definem a biopolítica no cinema contemporâneo. Abordaremos, neste contexto, os problemas da relação ao animal, da insuficiência da compaixão, das invisibilidades necessárias, bem como, numa perspectiva mais cinematográfica, do esvaziamento do ponto de vista, da proximidade não enfática, procurando sugerir uma crítica da lógica paradoxal em prol de uma "ambiguidade livre" e o vislumbre de um horizonte biopolítico centrado na "produção da natureza".

6ª, dia 14 de Março, 15h - Culturgest, Sala 2
Programa Concretudes do poder

A mais-valia do poder e a avaliação por José Gil
A partir das noções de bio-poder e biopolítica tal como Foucault as definiu e Toni Negri as retomou, procurou-se mostrar a pertinência da noção de "mais-valia de bio-poder". Procurou-se com estas noções caracterizar a natureza da "governação Sócrates" e descrever um dispositivo essencial das tecnologias biopolíticas dessa governação: a avaliação.

Modelos evolutivos e ideologia por António Bracinha Vieira
Desde as primeiras teorizações transformistas, e depois evolucionistas, da origem das espécies e das formas vivas, que as ideologias políticas, económicas e religiosas nelas têm procurado caução para os seus desígnios, como se lhes proporcionassem uma justificação dos objectivos ideológicos baseada em tendências inarredáveis inerentes à própria natureza. Por isso se tem assistido, nos últimos dois séculos de História, a apropriações e manipulações sistemáticas dos modelos evolucionistas por parte das diversas tendências do Poder que sucessivamente têm entrado em cena.

Criticar Negri, ignorar Foucault, tomar o poder por José Neves
A reflexão de Foucault sobre biopolítica é um elemento principal no pensamento de Negri nos últimos anos, momento em que a sua obra volta a suscitar as mais diversas críticas. Entre estas, encontramos a crítica de teóricos que se reclamam das tradições comunistas dominantes. Estes, contudo, têm criticado Negri sem se interessarem pela relação que o Império de Negri estabelece com a biopolítica de Foucault. À procura do que se joga neste desinteresse, esta comunicação debruçar-se-á sobre a história do comunismo no século XX.




A luta sem futuro de revolução por Eduardo Pellejero
Substituir as relações de produção pelo agenciamento da vida – como dimensão constituinte das formações de poder –, não implica uma mudança no quadro conceptual da análise sem implicar ao mesmo tempo uma profunda renovação das questões que contornam a prática militante. A partir da obra de Deleuze e Guattari, procuramos explorar o sentido de uma fidelidade ao marxismo que, reformulando os seus objectos e os seus instrumentos, pretende acolher a imponderabilidade de novos saberes, de novas técnicas, de novos dados políticos.

O inconsciente biopolítico do arquivo audiovisual por Susana Duarte
Uma incursão na obra do cineasta alemão Harun Farocki, a partir do que a aproxima do pensamento do filósofo Michel Foucault: não só o interesse pelas sociedades disciplinares e pela passagem às sociedades de controlo (trazendo à superfície os traços simultaneamente não visíveis, mas não escondidos, que permitem evidenciar a ordem biopolítica que nos governa hoje), mas também uma escrita cinematográfica indissociável de uma análise arqueológica dos discursos e das imagens na sua materialidade e mediatização.
6ª, dia 14 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Mitologia da Segurança
por Andrea Cavalletti


A fórmula de Hobbes «fora do Estado nenhuma segurança» exprime o paradoxo da política moderna. Ela define o perigo a partir do Estado (como o "seu" próprio fora) e, ao mesmo tempo, o Estado a partir do perigo. A fórmula torna assim desde logo evidente como o dispositivo estatal não pode nem deve anular alguma vez o risco, mas antes evidenciá-lo, procurá-lo continuamente e, não o encontrando, inventá-lo. É precisamente esta impossibilidade constitutiva que torna o Estado moderno capaz de tudo.




Andrea Cavalletti
ensina Estética e Literatura Italiana na Universidade Iuav de Veneza. Ocupou-se, entre outros, de Warburg, Benjamin, Bialik, de filosofia política, e da ciência do mito, com a edição da obra de Furio Jesi. Publicou, para além de vários ensaios, o livro La città biopolitica (Mondadori, Milão, 2005).

Sáb, dia 15 de Março, 11h - Culturgest, Peq. Aud.
Mesa-redonda Um desafio à política?

Mesa-redonda que procura avaliar a eventual relevância da biopolítica para a interpretação dos fenómenos políticos contemporâneos, com Rui Tavares, José Neves, Ivan Nunes e André Freire, moderada por António Guerreiro.


Sáb, dia 15 de Março, 15h - Culturgest, Sala 2
Programa A arte, a vida

O animal profundo por Maria Filomena Molder
Ó animal gracioso e benigno… assim se dirige Francesca da Rimini ao único vivo que atravessa a terra dos mortos, o poeta Dante. Maravilhamento, a que se mistura uma estranheza natural, é o que sentimos quando escutamos aquelas palavras, que servirão de mote para o que está em causa no reconhecimento do ser humano como "animal profundo". Concepção de Giorgio Colli que se cruza com concepções afins, em particular, em Wittgenstein e Guido Ceronetti.

Os corpos inimagináveis por Jorge Leandro Rosa
Entre o "defeito de visibilidade" e a "imagem totalitária", quatro fotografias captadas no crematório V de Auschwitz-Birkenau continuam náufragas e inclassificáveis. Para além da polémica sobre o seu valor documental e imagético, essas imagens abrem-nos um lugar para a reflexão sobre uma fenomenologia da Shoa. O que aí se fecha, contudo, forma a própria experiência dessas imagens. Que fios da experiência encerram os corpos de Auschwitz?



Sobreviventes - O silêncio do corpo que cai
por Eugénia Vilela
A política contemporânea cria modos de silêncio onde os corpos singulares se transformam em espaços orgânicos de aniquilação. Homens, mulheres e crianças sobrevivem em espaços de abandono – campos de refugiados, espaços de deslocação, campos de detenção – onde a linguagem é suturada ao mutismo do corpo que se dobra sobre si mesmo, caindo num silêncio sem infância. E no entanto, no interior desses espaços outros, pressentimos a intimidade do silêncio entre o corpo e o tempo, num gesto que é a matéria da vida como uma obra de arte.

Na zona cinzenta por Nuno Lisboa Afonso
A partir da análise do filme-testemunho S21 – La Machine de Mort Khmère Rouge, em que Rithy Panh desenvolve uma autêntica microfísica dos gestos, procura-se interrogar o espaço aparentemente vazio onde se move a câmara do cineasta, na "zona cinzenta (descrita por Primo Levi), de contornos mal definidos, que liga simultaneamente senhores e escravos" no campo de concentração.
Sáb, dia 15 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Riscos e potencialidades da biopolítica global
por Roberto Esposito


A mudança de época no final dos anos 1980 levou ao uso e à difusão do paradigma de biopolítica, elaborado no decénio precedente por Foucault. A partir da sua definição, será necessário reconstruir a sua progressiva transformação, nos anos 30 do século xx, de uma política da vida numa política da morte. Esta incidência sobre a tanatopolítica nazi permitirá diagnosticar a fase actual da biopolítica global, com os seus riscos e potencialidades, e sugerir a possível relação entre biopolítica e prática filosófica.




Nascido em 1950, Roberto Esposito é professor de Filosofia na Università degli Studi de Nápoles, Itália. Através da análise das categorias políticas clássicas e modernas, o seu pensamento vai sublinhando os limites do político na época contemporânea. Entre as suas obras, ainda não editadas em Portugal, destacam-se Categorie dell'impolitico (Il Mulino, 1988) e Communitas. Origine e destino della comunità (1998), Immunitas. Protezione e negazione della vita (2002), Bíos. Biopolitica e filosofia (2004) e o recente Terza persona. Politica della vita e filosofia dell'impersonale (2007), publicadas pela Einaudi.

Survivor, entre aspas


The Survivor , episódio 39 da 4ª série de Curb your enthusiasm de Larry David (HBO)

[Lembrei-me desta imagem humorística, tão elucidativa dos tempos interessantes que nos fazem viver, enquanto via SHOAH de Claude Lanzmann no escuro da sala da Cinemateca;
dedico-a ao Yesterday Man; roubada a edenleviathan; para os curiosos mórbidos, eis o outro “survivor”]

«Quem quer viver está condenado à esperança.»
– Filip Müller (que sobreviveu a cinco liquidações do Sonderkommando em Auschwitz), no filme SHOAH

O que é a biopolítica? #5

3ª, dia 11 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Espaços de controlo
por Fernando Poeiras (ESAD Caldas da Rainha)

A expansão de tecnologias de vigilância e de segurança alterou o controlo social, introduzindo diferentes estratégias de biopoder. Como a distinção norma/desvio tende a ser substituída pela de normalidade/acidente e a coerção pela necessidade, o exercício do controlo social é reconfigurado.
Ciclo de conferências O que é a biopolítica?
12, 19, 26 de Fevereiro, 4 e 11 de Março - Culturgest, Lisboa


Ciclo de cinema Figuras da autópsia. A biopolítica no documentário contemporâneo
de 4 a 11 de Março - Cinemateca, Lisboa

Ciclo de conferências Aproximações à biopolítica
6ª 14 e Sáb 15 de Março -
Culturgest


Shoah (1985) de Claude Lanzmann /Figuras da autópsia #4
Sáb, dia 8, 15h30 1ª época: 149’+117’ / 21h 2ª época: 142’+142’ - Cinemateca [sala pequena]

Vinte e um anos depois da sua passagem na televisão (RTP), doze anos depois da sua última projecção na Cinemateca no âmbito do ciclo «Cinema e real», é possível voltar a ver, na sua integralidade, o monumento cinematográfico que é SHOAH de Claude Lanzmann. Trata-se de um longo filme documentário sobre o extermínio dos judeus pelos nazis, baseado nas imagens contemporâneas dos lugares do extermínio e nos testemunhos orais de sobreviventes, em particular dos chamados Sonderkommando, «grupos especiais» de judeus encarregues da aniquilação de outros judeus nos fornos crematórios.
Neste hiato temporal, houve toda uma geração de cinéfilos e interessados, na qual me incluo, que ficou limitada ao desconhecimento, ao ouvir falar, ou, mais recentemente, à edição em dvd estrangeira. Recentemente, tornou-se clara a necessidade de o voltar a projectar. Por ocasião da comemoração dos sessenta anos da libertação de Auschwitz, num debate na livraria Buchholz em Lisboa, os intervenientes pareciam obrigados a passar pela menção ao filme, que gerou muita e interessante literatura teórica e polémica, mas não integravam na sua reflexão o terem-no visto.
Essa visão não pode de todo ser considerada acessória. Tanto mais que, tratando-se apenas de um filme, é também uma experiencia de vida inesquecível. Paradoxalmente, é também uma experiência a que apenas uns quarenta e sete happy few terão direito neste próximo sábado.

P.S.: Não há, repito, não há cinquenta pessoas em Lisboa e arredores para (re)ver SHOAH. A Cinemateca tinha portanto mais do que razão para o programar na sua sala pequena. E a imprensa para sobranceiramente desprezar a sua passagem (bem como ao ciclo). Começaram quarenta e três espectadores às 15h30 e, já depois das 2h da madrugada, restavam apenas dezasseis espectadores.

Certos textos, tidos como sérios, cedo se percebe serem afinal inconsciente e simplesmente a gozar. Muito mais raro e difícil é o inverso, como neste exigente exemplo pós-PRIMATE.
Nem toda a cinefilia tem de ser adepta dessas listagens dos melhores em geral que abundam. Essa redução exclui os filmes que, não sendo talvez os melhores (mas que interessa isso?), ainda assim... Por esses, algumas listas valem bem a pena.

O que é a biopolítica? #4

3ª, dia 4 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Biotecnologia e novos mundos possíveis da vida
por Hermínio Martins (St. Antony's College, ICS)

As descobertas e invenções da biociência, biotecnologia, bioengenharia, convergindo com a nanotecnologia e as tecnologias da cognição, sugerem perspectivas de transformações radicais no mundo da vida. No da vida não-humana, um planeta geneticamente modificado, e mesmo redesenhado pela biologia sintética. No da vida humana, as transformações podem afectar os parâmetros fundamentais da sua condição.
Ciclo de conferências O que é a biopolítica?
12, 19, 26 de Fevereiro, 4 e 11 de Março - Culturgest, Lisboa


Ciclo de cinema Figuras da autópsia. A biopolítica no documentário contemporâneo
de 4 a 11 de Março - Cinemateca, Lisboa

Ciclo de conferências Aproximações à biopolítica
6ª 14 e Sáb 15 de Março -
Culturgest

Meros filmes em Março


Zui Hao De Shi Guang /
Três tempos
Hou Hsiao Hsien
2005, 139’
14h15, 21h45, (00h30)
Medeia King 1, Lisboa

Primate
Frederick Wiseman
1974, 105’
Figuras da autópsia. A biopolítica
no documentário contemporâneo #1
(prog. André Dias)

3ª, dia 4, 21h30
Cinemateca, Lisboa
debate com Hermínio Martins
e José Manuel Costa

Silverlake life: the view from here
Peter Friedman e Tom Joslin
1993, 99’
Figuras da autópsia #2
4ª, dia 5, 19h30
Cinemateca


La règle du jeu
Jean Renoir

1939, 110’
4ª, dia 5, 21h30
Cinemateca


Nuit et brouillard
Alain Resnais

1956, 31’
Figuras da autópsia #3a
5ª, dia 6, 19h
Cinemateca

Level five
Chris Marker
1997, 106’
Figuras da autópsia #3b
5ª, dia 6, 19h
Cinemateca

Shoah
Claude Lanzmann

1985, 544’
Figuras da autópsia #4
Sáb, dia 8, 15h30 1ª época: 149+117
Sáb, dia 8, 21h 2ª época: 142’+142
Cinemateca [sala pequena]

M
Fritz Lang
1931, 100’
Sáb, dia 8, 21h30
Cinemateca

S21, la machine de mort Khmère rouge
Rithy Panh
2003, 101’
Figuras da autópsia #5
2ª, dia 10, 19h30
Cinemateca

De l'autre côté
Chantal Akerman
2003, 103’
Figuras da autópsia #6
3ª, dia 11, 22h30
Cinemateca

Hurlevent
Jacques Rivette
1955, 98’
2ª, dia 17, 19h30
3ª, dia 18, 19h30

Cinemateca

[apenas filmes vistos, sem repetições]

Co-spectatorship

«To catch a death actually happening and embalm it for all time is something only cameras can do, and pictures taken by photographers out in the field of the moment of (or just before) death are among the most celebrated and often reproduced of war photographs. There can be no suspicion about the authenticity of what is being shown in the picture taken by Eddie Adams in February 1968 of the chief of the South Vietnamese national police, Brigadier General Nguyen Ngoc Loan, shooting a Vietcong suspect in a street in Saigon. Nevertheless, it was staged – by General Loan, who had led the prisoner, hands tied behind his back, out to the street where journalists had gathered; he would not have carried out the summary execution there had they not been available to witness it. Positioned beside his prisoner so that his profile and the prisoner's face were visible to the cameras behind him, Loan aimed point blank. Adam's picture shows the moment the bullet has been fired; the dead man, grimacing, has not started to fall. As for the viewer, this viewer, even many years after the picture was taken... well, one can gaze at these faces for a long time and not come to the end of the mystery, and the indecency, of such co-spectatorship.»
Susan Sontag,
Regarding the pain of others, Penguin, 2004, pp. 53-54



O que é a biopolítica? #3

3ª 26 de Fevereiro, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
A ocultação bioética
por António Fernando Cascais

A bioética surge como alternativa à deontologia médica e à teologia moral, mas facilmente tende a ser reabsorvida por uma ou por outra. Definida por Foucault como o próprio processo de apropriação da vida biológica pela política na modernidade, a biopolítica moderna constitui-se, para Agamben, como um verdadeiro paradigma concentracionário. Nesta perspectiva, a regulação (bio)ética da biotecnociência não é impeditiva da inumanidade biopolítica.
Ciclo de conferências O que é a biopolítica?
12, 19, 26 de Fevereiro, 4 e 11 de Março - Culturgest, Lisboa


Ciclo de cinema Figuras da autópsia. A biopolítica no documentário contemporâneo
de 4 a 11 de Março - Cinemateca, Lisboa

Ciclo de conferências Aproximações à biopolítica
6ª 14 e Sáb 15 de Março -
Culturgest

World Press Photo?

«Na fotografia de atrocidades, as pessoas querem o peso de testemunhar sem a contaminação do artístico, que é identificado com a falta de sinceridade ou com a mera artificialidade. Imagens de acontecimentos infernais parecem mais autênticas quando não têm o aspecto que resulta de serem 'correctamente' compostas e iluminadas, ou porque o fotógrafo é um amador ou – o que também serve – porque adoptou um dos vários estilos anti-arte que nos são familiares. Ao voarem baixinho, no sentido artístico, pensa-se que estas imagens serão menos manipuladoras – todas as imagens de sofrimento amplamente distribuídas estão agora sob suspeita – e que será menos provável que suscitem a compaixão ou identificação fácil.»
«For the photography of atrocity, people want the weight of witnessing without the taint of artistry, which is equated with insincerity or mere contrivance. Pictures of hellish events seem more authentic when they don't have the look that comes from being 'properly' lighted and composed, because the photographer either is an amateur or – just as serviceable – has adopted one of several familiar anti-art styles. By flying low, artistically speaking, such pictures are thought to be less manipulative – all widely distributed images of suffering now stand under suspicion – and less likely to arouse facile compassion or identification.»

Susan Sontag, Regarding the pain of others,
[trad. Joana Frazão,] Penguin, 2004, pp. 23-24

O que é a biopolítica? #2

3ª 19 de Fevereiro, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
O governo como problema
por José Luís Câmara Leme

Alguns pensadores diagnosticaram recentemente uma crise de governamentalidade nas sociedades ocidentais que teria duas dimensões principais: da parte dos governantes consistiria na incapacidade de dar sentido às políticas promovidas; da parte dos governados, existiria uma descrença nas instituições e nos objectivos propostos pelos governos.
Ciclo de conferências O que é a biopolítica?
12, 19, 26 de Fevereiro, 4 e 11 de Março - Culturgest, Lisboa


Ciclo de cinema Figuras da autópsia. A biopolítica no documentário contemporâneo
de 4 a 11 de Março - Cinemateca, Lisboa

Ciclo de conferências Aproximações à biopolítica
6ª 14 e Sáb 15 de Março -
Culturgest


Sobre a função social da maternidade
Uma conversa com Maria Speth, realizadora de MADONNEN / MADONAS

Porquê a insistência num filme que passou quase desapercebido? Trata-se do filme mais inteligente a abordar a maternidade desde o fabuloso M/OTHER de Nobuhiro Suwa, com o qual partilha aliás bastantes afinidades estilísticas. Se não tivesse estreado nas salas de Lisboa, teria sido incluído no recente ciclo sobre a Nova Escola de Berlim, a que pertence por várias razões.
Sobre a inacreditável apatia crítica com que foi acolhido, com uma única excepção, haveria muito que pensar. Também a sua lamentável distribuição não ajudou (apenas duas semanas em cartaz! mas como censurar a Atalanta, quando as outras distribuidoras nem sequer reconhecem a existência destes filmes?). Guardo, no entanto, alguma esperança que o filme tenha chegado alguém que dele verdadeiramente precisasse, a uma dessas pessoas que sentem a falta.
Esta conversa decorreu um pouco à pressa, no aeroporto de Lisboa, antes da partida de retorno a Berlim de Maria Speth, depois da passagem do filme num Festival de Cinema Europeu do Estoril às moscas. Teve a preciosa ajuda de Reinhold Vorschneider (marido dela e seu director de fotografia, bem como dos filmes de Angela Schanelec), que foi traduzindo e contribuindo. Agradeço também a Simone Stricker pela ajuda na transcrição. É dedicada aos martirizados cinéfilos da cidade do Porto, que têm uma oportunidade esta semana (mas é mesmo só esta semana, até 4ª, dia 20!) para o ver.


André Dias – Acompanhando o modo como compreende a função social de maternidade, a construção narrativa do seu filme faz com que se vá apenas recebendo a informação à medida que nele vamos avançando. Isso reflecte-se grandemente na caracterização das personagens. Não nos apercebemos imediatamente quem são ou qual é a relação de parentesco que têm entre si. Se bem me lembro, nenhuma personagem se dirige a outra chamando-a de “mãe” ou “filha”. Essas relações são apenas clarificadas à medida que o filme se desenvolve. Uma construção tão marcada só pode ser intencional...




Maria Speth – Esse princípio de construção do filme veio da posição de observação que se tem ao conhecer uma pessoa normalmente na vida de todos os dias. Quando se conhece alguém não se sabe imediatamente tudo sobre ela. É pouco a pouco. Se se é convidado para um jantar e não se conhece os presentes, pomo-nos a pensar quais serão as relações entre eles. Foi esta ideia – sentir como na vida – que permitiu construir o filme assim.
Um outro aspecto é o de cada figura revelar apenas a si própria, dizendo coisas sobre si, não sobre as outras. Cada uma tem a sua participação no todo, e depois juntam-se. Há assim uma espécie de meta-estrutura em que se vai conhecendo Rita, a sua mãe Isabella, e a filha Fanny, separadamente. Trata-se do sentimento que eu tenho, enquanto realizadora, de não querer saber mais do que o público. Quero observar da sua posição. Por isso, mesmo as relações entre as pessoas devem evoluir a partir das próprias pessoas e pelo desenrolar das cenas ou da estória. Não deve haver uma espécie de meta-consciência do realizador que está a construir a estória com termos e pontos óbvios.
{Brigitta Wagner diz, a este propósito: «O ritmo a que a informação nos é revelada permite-nos especular [...]. As personagens não constituem tipos definidos por uma exposição prévia, antes works in progress, esboços de pessoas que poderiam existir, cheias de incertezas, ansiedades, “sonhos adiados” e percentagens flutuantes de amor e dor.»}


Refere-se, por vezes, à maternidade, ao facto de se ser mãe, como um constrangimento, uma função social que força as mulheres a confrontar-se com aquilo que se espera que uma mãe seja. Se ainda é possível considerar um filme como feminista, será este, no sentido em que nele se interroga a condição da mulher, não dando uma resposta, mas colocando claramente o problema.




Não diria que é um filme feminista. É sobre as mães, mas também sobre os pais. Existem certos papéis na vida que têm que ser preenchidos. Por exemplo, se alguém se torna mãe, tem que ser responsável. Ao mesmo tempo, é confrontada com a expectativa em torno desse papel. Os pais aparecem no filme, mas não nesse papel. A personagem de Marc tem a ver, em parte, com essa posição de se preocupar com o cuidar. A sociedade também vê o homem nesse papel de pai, mas este não é tão sancionado se não o cumpre como se espera. E há momentos no filme em que se tem a sensação que ninguém quer ficar com o papel de mãe. Este acaba por cair para cima da filha mais velha, Fanny, porque ela se preocupa.
Estava portanto interessada no conflito entre uma mulher específica e as expectativas sociais relacionadas com a maternidade. Essa era uma ideia do filme ou mesmo um dos seus pontos de partida. Porque eu própria fui mãe e tive que lidar com essas expectativas. Neste sentido, talvez se possa chamar feminista ao filme, porque de certa forma desconstrói as expectativas sociais.


No filme, lidamos ao mesmo tempo com o comportamento sexual promíscuo de Rita e com a sua negligência materna. Ela tem simultaneamente uma vida sexual activa, com vários parceiros, livre nesse sentido, mas é vista como uma mãe negligente, que não presta atenção aos seus filhos. O filme parece associar os dois comportamentos, o que poderia talvez ser complicado. Mas como, ao filmar, suspende quaisquer tipos de juízos, acaba por ser uma aproximação natural. Pergunto-me, no entanto, se seria ainda o mesmo filme caso Rita não tivesse tantas relações com homens.





Como ponto de partida, parti da minha experiência sobre o que significa comportar-se por relação a este papel de mãe. Pensando nisso, consegue reconhecer-se as dificuldades envolvidas com o criar de crianças, e pode simpatizar-se com outras pessoas. Conheci depois outras mães, em pesquisa, que não são tão privilegiadas, que estão, por exemplo, na prisão ou que fizeram algo de errado. Percebi que muitas destas mulheres ficam retidas num estado infantil, negando as suas responsabilidades, tanto no sentido criminal, como no de tomarem conta dos seus filhos. Não se podem tornar responsáveis, não reconhecem a própria responsabilidade, porque são mulheres que não cresceram. Para assumir responsabilidades é necessário que se tenha crescido, para que se consiga separar o bom do mau. Para estas mulheres é muito complicado lidar com esta separação. Não têm a consciência, a necessidade moral, de serem responsáveis. Estão por isso para lá do juízo moral enquanto seres humanos. Não faria sentido julgá-las moralmente, porque não está na dimensão do seu reconhecimento pessoal.
Interrogava-me sempre porque tinham elas aquela quantidade de filhos, numa situação que é económica e pessoalmente tão difícil. Mas nunca me conseguiram responder. Mas não queria que se associasse isto a mulheres de certos milieu, como o das mulheres na cadeia, e que o espectador pudesse dizer: “isto não tem nada a ver comigo”. Não, trata-se de algo válido para todos. Cumprir estes papéis na vida, assumir responsabilidades, é para as pessoas um verdadeiro desafio.
Quanto a se uma mulher que vive a sua vida sexual activa se pode reconhecer no seu papel de mãe, há efectivamente uma conexão entre os dois aspectos no filme. Mas trata-se de uma pessoa singular e não de uma afirmação de carácter geral. Era isto que eu queria descrever, este ser humano específico. Uma mulher que tem uma sexualidade especial, porque as suas relações com os homens são livres, ou aparentemente livres, mas na verdade está sempre à procura de algo que não vai encontrar, uma ligação. Não se tratam de verdadeiras relações, porque, quando se tornam próximas, ela foge, tentando manter os homens fora da intimidade afectiva. E este é um ponto essencial.


Permanecemos muito envolvidos emocionalmente durante o filme. Estamos sempre tensos, agarrados à cadeira, ou quase a chorar, e sempre à espera que algo de terrível suceda. As crianças parecem continuamente em perigo. No entanto, não deixa que nada de verdadeiramente mau lhes aconteça. E essa parece-me uma das maiores qualidades do filme.




É um aspecto que diz respeito à dependência das crianças em relação aos adultos. Era importante este estar em perigo das crianças, pois é esse o estado em que estão geralmente. Elas têm a necessidade, mais ainda, a obrigação de crescer num espaço a salvo. Por causa disso existe sempre uma retracção e sentem-se tão atraídas pela mãe, não importando tanto o que ela faz ou como se comporta de facto.
É algo de físico, e é bom que o público sinta também esse perigo. Porque assim sente o que talvez não se consegue descrever com palavras, o que não se pode descrever intelectualmente. O cinema é um bom meio, para mim, para gerar estados físicos. É uma forma para descrever estados. E para isto é preciso o público, pois, dessa maneira, não é só para mim, se verdadeiramente funciona é para toda a sala de cinema. Mas nem sempre tem que acontecer algo de dramático. Basta a descrição dos estados que proporcionam as condições para que algo aconteça. Portanto, não estava interessada em ter uma irrupção, uma explosão, ou mesmo de ter um dano físico nas crianças.


A última meia-hora final é longa e exasperante. Desde o momento em que Rita tenta reunir toda a família, até à compreensão lenta de que isso vai falhar... O comportamento das personagens revela-se muito errático: Rita parece querer a estabilidade, mas acaba por escapar; também Marc, um bom homem que parece gostar dela, vai voltar afinal para os Estados Unidos. É um final em aberto, mas muito duro.


Por um lado, isso tem a ver com o problema de Rita, a sua dificuldade nas relações, com as quais não está habituada a lidar e que a assustam. Tem medo das responsabilidades, também no que respeita aos homens. Tem uma atracção afectiva por Marc mas, ao mesmo tempo, afasta-o. Essa é uma dimensão do seu carácter. No seu caso é extrema, mas acontece a todas as pessoas, querer algo intelectualmente e não ser capaz de o viver. Ao passo que Marc, um G.I. americano, está estacionado na Alemanha por pouco tempo, como em geral acontece. Não é aquela a sua casa. As relações destes homens com as mulheres alemãs são assim, limitadas no tempo. Procuram uma família, mas apenas para a sua estadia na Alemanha.
O final do filme tem assim concretamente a ver com a vida particular destas pessoas, Rita e Marc. Estavam destinadas a conhecer-se, porque têm apenas o presente, sem passado nem futuro. Nunca falam sobre o passado, pois Rita é uma mulher transgressora. Não lhes é permitido acalentar esperanças.


O que é a biopolítica? #1

3ª 12 de Fevereiro, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Uma introdução à biopolítica
por António Guerreiro (Crítico literário do Expresso, publicou o livro de ensaios O Acento Agudo do Presente)

A matéria política com que hoje estamos confrontados é eminentemente bio­política. A guerra contra o terrorismo, as medidas de segurança e as legislações que controlam o movimento dos cidadãos no interior dos Estados, a fuga em massa das populações do terceiro mundo, as políticas demográficas e de saúde, as discussões sobre o aborto e a eutanásia: a importância que ganharam todas estas questões nos debates públicos e nos cálculos de toda a governação mostra que a politização da vida, a implicação mútua do “bios” e do político, se tornou um facto maior do nosso tempo.
Deve-se a Michel Foucault, no final de A Vontade de Saber, a formulação que define o modo como, a partir da época moderna, a vida natural do homem passou a ser objecto dos mecanismos do poder. As investigações de Foucault, neste domínio, ficaram por desenvolver. Mas foi a partir delas que se começou a pensar a crescente sobreposição dos dois âmbitos, fenómeno que tem uma afirmação absoluta nos totalitarismos do século xx, muito especialmente no nazismo, para o qual a política se torna intrinsecamente biológica e a vida tem imediatamente uma dimensão política.
O paradigma biopolítico dos Estados totalitários, na sua dimensão exacerbada, é um revelador daquilo que se tornou entretanto politicamente decisivo nas democracias parlamentares do nosso tempo: a vida biológica. Sem a referência à biopolítica, não podemos compreender o movimento de despolitização generalizada que tomou conta de projectos e instituições e reduziu o discurso político à discussão e gestão das contingências sociais e económicas. O factor biopolítico obrigou a repensar as categorias políticas tradicionais. (António Guerreiro)


Ciclo de conferências
O que é a biopolítica?
12, 19, 26 de Fevereiro, 4 e 11 de Março - Culturgest, Lisboa


Ciclo de cinema Figuras da autópsia. A biopolítica no documentário contemporâneo
de 4 a 11 de Março - Cinemateca, Lisboa

Ciclo de conferências Aproximações à biopolítica
6ª 14 e Sáb 15 de Março -
Culturgest

Christian Petzold em Lisboa



O realizador Christian Petzold está em Lisboa na Quarta, dia 6 de Fevereiro, para a apresentação e discussão dos seus filmes no âmbito do ciclo dedicado à Nova Escola de Berlim no Cinema São Jorge.

Christian Petzold é autor de nove longas-metragens com um estilo inconfundível e o representante mais conhecido da Nova Escola de Berlim. O seu cinema articula-se numa relação complexa entre os géneros de policial ou terror e uma inspiração documental e discursiva sobre a sociedade capitalista contemporânea. Este último aspecto advém-lhe certamente da participação na obra de Harmut Bitomsky (DER VW KOMPLEX de 1989 de Bitomsky é uma inspiração clara para WOLFSBURG) e da colaboração dramatúrgica intensa que mantém com Harun Farocki, portanto, com dois importantíssimos documentaristas políticos alemães.
No seu último filme, YELLA, peça terminal da sua autodenominada «Trilogia dos Fantasmas» (com DIE INNERE SICHERHEIT e GESPENSTER), percebe-se a inspiração mútua e explícita de duas obras tão diferentes como o filme de terror de Herk Harvey CARNIVAL OF SOULS (1962) e o documentário "anti-Big Brother" sobre capital de risco de Harun Farocki, NICHT OHNE RISIKO (2004).
Presente no festival com dois dos seus filmes mais recentes, GESPENSTER, que tem um dos finais mais terríveis da história do cinema, e WOLFSBURG, que antecipa em muitos aspecto o seu mais recente YELLA (que não foi possível integrar no ciclo, mas para o qual se espera estreia em breve pela Atalanta), Christian Petzold estará disponível para conversar sobre a sua obra.


Quarta, dia 6.2, 19h - São Jorge 3
com a presença do realizador

WOLFSBURG / WOLFSBURGO
Alemanha, 2002, 35mm, 93'

O vendedor de automóveis Philip Wagner guia por entre uma estrada secundária usada pelos habitantes como um atalho para Wolfsburgo. Está a ter uma discussão ao telemóvel com a sua noiva quando, de repente, atropela uma criança. Vê o corpo da criança no retrovisor, hesita, trava, mas não sai. Fica onde está na sua vida – e simplesmente avança. Parece que terá sorte desta vez, o rapaz sai de coma e a polícia está à procura de outro carro que não o seu. A vida de Philip continua. Mas então a criança morre. Destroçada pela morte do filho, Laura decide encontrar o assassino. Ela procura em várias sucatas, em várias oficinas, sem sucesso algum. Com a ajuda da sua amiga Vera, Laura tenta juntar os cacos da sua vida. Então, por acaso, conhece Philip. Philip toma Laura por protegida, tenta ajudá-la a levantar-se e dá-lhe apoio. De súbito, uma sensação de segurança e proximidade começa a crescer. Mas Laura não faz ideia com quem se está a envolver...
Quarta, dia 6.2, 21h30 - São Jorge 1
com a presença do realizador
GESPENSTER / FANTASMAS
Alemanha, 2005, 35mm, 85'

Um homem, Pierre, viaja de Paris para Berlim à procura da sua mulher, Françoise. Encontra-a num hospital psiquiátrico e leva-a de volta para Paris. Todos os anos a mulher faz esta viagem a Berlim, procurando desesperadamente a sua filha que fora raptada em 1989 com apenas três anos e nunca foi encontrada. Françoise acaba por conhecer uma jovem chamada Nina que trabalha na limpeza de um parque. Nina vagueia pela cidade com a sua amiga Toni. Juntas, vivem o dia a dia, roubando tudo o que podem, aqui e ali. Françoise está convencida que Nina é a sua filha perdida. E esta não deseja mais do que encontrar a mãe que nunca teve.

«Fantasmas são os espíritos daqueles que se recusam a acreditar que estão mortos. Os fantasmas assombram os reinos de entre a vida e a morte, esperando que o amor os ajude a voltar à vida. São estes fantasmas que são o assunto do filme.» (Christian Petzold)

Christian Petzold
Nasceu em Hilden, 1960, e mudou-se para Berlim em 1981. Estudou língua alemã e literatura. Em 1988-94 estudou na dffb em Berlim, tempo durante o qual foi também assistente de realização de Harun Farocki e Hartmut Bitomsky. Recebeu o Deutschen Filmpreis in Gold por DIE INNERE SICHERHEIT.

Restante filmografia:
YELLA (2007) Estreia prevista pela Atalanta
TOTER MANN (2001) QueerLisboa 2002 – «Imagens alemãs»
DIE INNERE SICHERHEIT (2000) Festival de Cinema Alemão 2002 / IndieLisboa 2007 – «Um cinema alemão»
DIE BEISCHLAFDIEBIN (1998)
CUBA LIBRE (1996)
PILOTINNEN (1995)

Outros filmes de Fevereiro


Bungalow
Ulrich Köhler
2002, 84’
Nova Escola de Berlim
(prog. André Dias)

6ª, dia 1, 21h30
São Jorge 3, Lisboa

Marseille
Angela Schanelec

2004, 95’
Nova Escola de Berlim
Sáb, dia 2, 19h
São Jorge 3
cf. «Du mußt dein Leben ändern»

Ferien / Férias
Thomas Arslan
2007, 91’
Nova Escola de Berlim
Sáb, dia 2, 21h30
São Jorge 3

Che cose sono le nuvole?
Pier Paolo Pasolini
1967, 22’
Sáb, dia 2, 21h30
Cinemateca, Lisboa

Nachmittag / Tarde
Angela Schanelec

2006, 97’
Nova Escola de Berlim
Dom, dia 3, 21h30
São Jorge 3
cf. «damals»

Gespenster / Fantasmas
Christian Petzold
2005, 85’
Nova Escola de Berlim
4ª, dia 6, 21h30
São Jorge 1
com a presença do realizador
cf. «Soberania»

Kiss me deadly
Robert Aldrich
1955, 105’
Sáb, dia 9, 21h30
Cinemateca


Yokihi / A imperatriz
Yang Kwei Fei

Kenji Mizoguchi
1955, 98’
2ª, dia 25, 19h
Cinemateca

Out 1 - Spectre
Jacques Rivette
1971-74, 260’
4ª, dia 27, 21h30
Cinemateca

Céline et Julie vont en bateau
Jacques Rivette
1974, 185’
5ª, dia 28, 21h30
Cinemateca

[apenas filmes vistos, sem repetições]


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