| Ainda não começámos a pensar
We have yet to start thinking
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Ao pé da letra #180 (António Guerreiro): Modernos e pós-modernos
A palavra “pós-moderno” – e seus derivados – teve a sua década de glória no final do século passado, mas definhou e, na bolsa das ideias e dos produtos intelectuais, tem hoje um valor negativo. Já só é utilizada para designar qualquer coisa pouco respeitável. Pode ser que ela tenha culpas por tal sorte, mas em sua defesa importa dizer que muitos dos ataques de que é vítima são equivocados. Ainda há pouco tempo, um cronista deste jornal referia-se a W. G. Sebald como se os seus livros, pretensamente do lado da “ilegibilidade” e da “morte do romance”, se identificassem com características da pós-modernidade. Ora, tais características (admitindo que a “ilegibilidade” caracteriza alguma coisa) são eminentemente modernas. Verifique-se então o seguinte: sempre que alguém utiliza a palavra “pós-moderno” para desdenhar, para criticar ou pura e simplesmente para usar um epíteto de sentido negativo, na verdade está, na maior parte dos casos, a referir-se involuntariamente ao modernismo. Sobretudo quando estão em causa objetos artísticos e literários. | Porque é que tal acontece? Porque é de bom tom pôr o pós-modernismo à distância (isto é, aquilo com que ele está conotado), mas ninguém ousa declarar-se antimoderno. Seria um ultraje, uma anacronia. E, no entanto, há hoje, em muitos domínios (e o da literatura é um deles, talvez o mais evidente no campo das artes), o regresso a valores estéticos e a formas de pensar que, se não são pré-modernos, são pelo menos antimodernos. E isto não pode deixar de nos fazer pensar que as experiências no domínio do pensamento e das artes nas primeiras décadas do século passado continuam a oferecer tanta resistência como na sua época. São, de certo modo, inassimiláveis, escapam à homogeneização, nunca foram integradas nos hábitos. Em suma: Joyce nunca existiu. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 25.2.2012. |
Ao pé da letra #179 (António Guerreiro): A ideologia meteorológica
Há algo de anedótico nas palavras de uma ministra da Agricultura que, confrontada com a situação de seca, profere: “Esperemos que chova”. Neste desejo de conforto meteorológico reconhecemos não a consciência do desastre, mas a expressão típica do indivíduo urbano que vai passar o fim de semana fora e diz: “Esperemos que não chova”; ou daquele que, rumo a uma estância de inverno, traduz toda a sua expectativa hedonista num “esperemos que neve”. Nas palavras da ministra, subentende-se ainda uma proximidade com a linguagem dos boletins meteorológicos, os quais, tal como são difundidos nos media, abdicaram de toda a neutralidade e são enunciados exclusivamente do ponto de vista dos interesses e cálculos da vida urbana e dos lazeres burgueses: um “belo dia” é sempre o dia de sol (mesmo num inverno em que não houve um dia de chuva) e um “dia feio”, a requerer mil precauções e muitos apelos da “proteção civil”, é invariavelmente um dia de chuva. | A ciência meteorológica é assim traduzida em pura ideologia. Para um homem do campo e um agricultor, que se estão nas tintas para os avisos da “proteção civil” e que já perceberam que a catástrofe se anuncia, pelo contrário, nas sorridentes confirmações diárias de “bom tempo”, o “esperemos que chova” é uma prova de ignorância: a chuva é antecedida de sinais que eles sabem decifrar e, além disso, é inadiável, não admite espera. Na ausência desses sinais, ninguém espera que se dê o milagre da chuva. Esta ideologia meteorológica ao serviço do lazer do homem urbano é também uma manifestação da racionalidade técnica, que Spengler caricaturava nestes termos: “o homem moderno não pode ver o curso de um rio sem o transformar logo mentalmente em produtor de energia elétrica”. A distância que se criou em relação aos fenómenos naturais, como está patente no analfabetismo urbano em relação à chuva, é uma tragédia. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 18.2.2012. |
Ao pé da letra #178 (António Guerreiro): Crime e punição
Ficámos a saber, esta semana, que os clientes do Deutsche Bank podem apostar na morte de pessoas da terceira idade, de tal modo que a rentabilidade do investimento é tanto maior quanto mais prematura for a morte. Por outro lado, um estudo do Instituto de Ciências Sociais agora divulgado mostra que os jovens portugueses têm um baixo índice de solidariedade para com os mais pobres. Estas duas notícias mostram que está em curso um sistema de avaliação que identifica certos grupos de indivíduos com o desperdício, o puro gasto sem contrapartida. A categoria dos criminosos gastadores é cada vez mais vasta e já dificilmente alguém escapa de ser apontado, indiciado, através de diversos mecanismos, como um indivíduo que está a mais: um excedentário, um supranumerário. Por isso, a criminologia já não é só uma disciplina auxiliar do aparelho judicial: tornou-se uma figura da ordem social e os governos têm vindo a desenvolver mecanismos de controlo que se inscrevem neste paradigma criminológico. | Ao populismo que consiste em explorar a ideia de que os políticos são todos uns criminosos, corresponde, noutro plano, a figura do indivíduo que é um gasto potencial a reduzir e, por isso, representado – também pela comunidade – como suspeito. Tal como a medicina moderna declarou que qualquer pessoa é um doente que se ignora enquanto tal, o poder político atual caminha para a declaração de que todo indivíduo, mesmo o mais honesto, é um criminoso gastador de tempo (roubado ao tempo de trabalho) e de dinheiro público. Nestas circunstâncias, as exigências dos serviços sociais de saúde, de todos os serviços públicos e do próprio sistema económico alargam-se fatalmente a domínios que não podem ser aferidos por uma contabilidade: aqueles que têm que ver com as liberdades públicas e políticas. Sabemos bem que o espaço de pensamento crítico é sempre o primeiro gasto inútil a suprimir. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 11.2.2012. |
Ao pé da letra #177 (António Guerreiro): Sismografias e sintomas
Maria do Rosário Pedreira, sismógrafo apuradíssimo que deteta a grande distância os mínimos abalos tectónicos provocados pela erupção do jovem talento literário, escreveu esta semana no seu blogue (“Horas Extraordinárias”) um texto onde formula em voz alta e com o zelo profissional de uma editora à altura do seu tempo uma exigência que foi ganhando forma desde há muito, mas que por uma última reserva permanecia como um não-dito. Diz a editora, em registro franco, que, sendo hoje de sete semanas, nas livrarias, a longevidade de um livro (excetuando os raros sobreviventes), a crítica literária nos jornais é incapaz de acompanhar esta rotação veloz e, por isso, torna-se um esforço inútil, conversa de afásicos para surdos. A coisa pode mesmo ser tão anedótica como uma tartaruga a falar com uma lebre em corrida: “Já vi críticas que saíram um ano depois da publicação dos livros a que diziam respeito. Não serviram a quem as escreveu nem a quem publicou o livro. Talvez sejam iguais ao silêncio, enfim.” | Nesta visão límpida, a crítica ou serve para vender livros ou não serve para nada; ou é um derivado da publicidade ou sucumbe no silêncio inócuo. E os críticos ou são agentes de difusão ou então não têm maneira de justificar o seu trabalho. Estas verdades nunca tinham sido pronunciadas com tanta clareza porque, apesar dos desvios e contingências, permanecia como princípio (e regra de pundonor) a necessidade de a crítica preservar idealmente a autonomia em relação ao mercado e responder a uma exigência de leitura dos textos e não aos modos e tempos de circulação de uma mercadoria. Este novo episteme crítico fundado espontaneamente por Maria do Rosário Pedreira baseado no critério da rotação das novidades, já não é obra de um apurado sismógrafo, mas manifestação de um eloquente sintoma. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 4.2.2012. |
Ao pé da letra #176 (António Guerreiro): Bouvard e Pécuchet
A mais cómica fotografia publicada na imprensa, em tempos recentes, é a da passagem de testemunho, de António Mega Ferreira para Vasco Graça Moura, à porta do Centro Cultural de Belém. A coreografia é elementar – o primeiro sai e o segundo entra – e admite imaginariamente a reversibilidade: o que entra podia estar no lugar do que sai e o que sai podia estar no lugar do que entra. Os dois estão ligados por uma função gramatical, a conjunção copulativa e, tal como Bouvard e Pécuchet. Podemos mesmo dizer que eles atualizam esse famoso par flaubertiano de copistas enciclopédicos que perseguem a totalidade do conhecimento e das artes, mas com suficiente sobriedade para não se prestarem a uma comédia do saber. Na hora de os classificar, um e outro angariam qualidades que, somadas nas suas diversas parcelas (e são tantas), resultam numa totalidade muito lisonjeira para ambos. Reconhecidos por igual na competência para governar a coisa cultural, qualidade rara em quem habita os empíreos das letras, das artes e da cultura, eles são dotados daquela inteligência que não pode ser olhada sem o polo oposto da “bêtise” (no sentido flaubertiano do termo, que não iremos atraiçoar com uma tradução). | E, no entanto, apesar de ambos serem sempre considerados os homens certos nos lugares certos, eles são projeções de algo errado que os persegue e ultrapassa: estão sempre lá, sempre eles, a transpor uma porta que se abre para os dois lados, a fazer a figura do mesmo, da existência irrevogável, do ser-assim de um estado de coisas que nos cerca de todos os lados. Eles são ur-fenómenos, fenómenos originários, morfologias goethianas, quase arquétipos, perante os quais não há história a desenvolver-se no horizonte. Este bloqueio de toda a possibilidade do novo e a submissão ao irreparável, o eterno retorno do mesmo, é a regra em que vivemos em todos os domínios. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 28.1.2012. |
Ao pé da letra #175 (António Guerreiro): O desconforto da burguesia
Assistiu-se no século XX, nos países ocidentais, à emergência de uma burguesia remunerada. É possível que no século XXI, a avaliar por alguns sinais que emergem com evidência, se assista ao seu declínio. Aquilo que no discurso político se chama “ataque à classe média” corresponde à instauração de uma nova ordem que até há pouco tempo não era previsível. A expansão e universalização da lei do mercado precisou também da generalização do que começa agora a ser visto como um sobressalário, até porque a paz social era garantida através da promessa aos trabalhadores da satisfação das suas necessidades, cada vez mais amplas, quer porque o horizonte se alargava quer porque foram sendo suscitadas à medida das exigências das exigências do sistema económico. Ora, neste momento, em que a lei do mercado se estendeu ao mundo inteiro, uma nova ordem dá os seus primeiros passos, com base na convicção pragmática de que a burguesia custa demasiado caro e “vivemos acima das nossas possibilidades”. | Daí, a entrada em cena de uma nova regra da ação e do discurso políticos: a de que é necessário empobrecê-la, subtraí-la à sua “zona de conforto”. Mas, deste modo, vem à luz uma contradição fundamental: como é possível manter o desenvolvimento capitalista ao mesmo tempo que se dá o declínio desta burguesia maioritária? Uma questão afim é a de pensar criticamente o trabalho e dar conta das suas metamorfoses, quando é a privação do trabalho e a humilhação do desemprego que estão a fazer-nos regressar a modelos de dominação conhecidos de fases anteriores do capitalismo. Marx, que tinha enunciado como axioma da economia política que os coveiros da burguesia seriam também os coveiros do capitalismo, estava longe de prever o que já está a ser anunciado por alguns índices: que o próprio capitalismo será em breve o coveiro da burguesia. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 21.1.2012. |
Ao pé da letra #174 (António Guerreiro): O CEO foi de baixa
Alguém que tentasse hoje examinar as mitologias quotidianas construídas pelos media, seguindo o exemplo de Barthes, haveria de se aplicar com tanta verve analítica na fábula para adultos do colapso do CEO do Lloyds Bank como Barthes se aplicou na análise da mitologia do escritor em férias. Por uma espécie de justiça imanente própria dos heróis, o nosso homem ‘fabuloso’, o protagonista de uma fábula, vive numa relação tão íntima e total com a sua missão – jamais poderemos reduzi-la a um trabalho – que contraiu a doença do sistema bancário onde está imerso: stresse ampliado por privação do sono. Moral da fábula: os mercados não dormem, mas um CEO precisa de dormir. Um super-homem que comprou dois bancos comerciais num fim de semana, enquanto o Lehman Brothers falia, que no primeiro semestre do ano passado pagou 60 mil milhões de libras ao Banco de Inglaterra, que geriu 12 bancos em três países, descobre-se subitamente humano e passa por uma “experiência de humildade”. | Esta descoberta da condição humana é um topos obrigatório de toda a hagiografia, e em nada a fragilidade que ela implica tem um efeito de desmistificação. Pelo contrário, é aí que um CEO alia a sua ‘fabulosa’ – mítica – competência com a nobreza da sua humanidade e a finitude do seu corpo que também precisa de dormir. Em suma: aquilo que faz com que um herói ganhe espessura humana e seja selecionado pelo génio. E se há a musa dos poetas, há também a musa do CEO: a sua mulher. Mais do que uma figura de invocação, essa musa é o anjo da guarda, o espírito lúcido e benfazejo que não se deixa alienar por heroísmos, sejam eles vãos ou nobres, e leva o herói do nosso tempo até ao lugar onde começa o processo de reparação (como se diz também dos pecados), onde ele irá iniciar a sua “experiência de humildade”. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 14.1.2012. |
Ao pé da letra #173 (António Guerreiro): A engenhoca ortográfica
Regressemos ao Acordo Ortográfico, a convite de uma entrevista que um dos pais do monstro deu ao Diário de Notícias. O que diz o professor Malaca Casteleiro? Que o que muda é “a imagem gráfica da palavra” e só temos agora de “fazer um esforço de adaptação”. Esta conceção da ortografia como engenhoca gráfica baseia-se numa total desvalorização da gramma (a inscrição) em favor da phone (e daí o privilégio concedido à representação fonética), como se aquela fosse uma mera representação desta. A filogénese da escrita mostra que esta é autónoma do oral, o que levou Barthes a afirmar: “Tudo se passa como se a escrita já tivesse sido inventada antes de ser posta em relação com a língua, antes de ser fonetizada.” Ora, este dado filogenético transpõe-se para o nível do indivíduo:: aprender a ler e escrever é entrar numa ordem ortográfica que transporta uma memória cultural e um imaginário que nos constituem, tal como a língua. | É nesse sentido que a ortografia é sempre mais do que o design convencional das palavras: na ontogénese da consciência, há uma escrita que precede a fala (leia-se a crítica de Derrida a Saussure). E essa escrita acaba por se confundir, para cada uma de nós, com uma manifestação ortográfica, de um modo tão profundo como o sonho é uma espécie de texto que transcreve a imagem latente. É certo que a resistência a uma nova ortografia só pode vir de quem foi constituído pela ordem da ortografia anterior. Mas nem por isso ela pode ser vista com o simplismo do professor Casteleiro, que, com uma perna na Academia, outra na escola primária, e a cabeça numa órbita que não é a da Linguística, afirma: “Se pensarmos nas crianças que estão a aprender a escrever, para elas é muito mais fácil escrever sem as consoantes mudas.” Este álibi manhoso da literacia foi o mesmo que serviu para expulsar em larga escala os textos literários do ensino da língua. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 7.1.2012. |
Ao pé da letra #172 (António Guerreiro): Tetas e divertimento
Se seguirmos a lição de Simmel, dando importância sociológica ao que ele chamava “manifestações de superfície”, a publicidade surge-nos com a eloquência patética de um sintoma: o da infantilização generalizada a que nos sujeita a sociedade capitalista na sua fase tardia. O consumidor construído pela publicidade é um indivíduo em estado de regressão a um narcisismo primário, em que triunfa o princípio do prazer. Dir-se-á que esse é desde sempre o princípio de toda a publicidade e nada de novo se vislumbra. Mas não é verdade: nunca a tendência regressiva e o convite à ausência de todos os limites atingiram o grau superlativo que têm hoje, acompanhados, aliás, por outras manifestações de superfície, como é o caso da proliferação da atividade artística. Como a entrada no mercado de trabalho é cada vez mais tardia ou está mesmo bloqueada, as atividades ‘diletantes’, que requerem o lazer, aumentam. Assim, a sociedade infantilizada pelos mecanismos da publicidade, do consumo e do discurso político que segue a lógica da despolitização é um imenso ateliê de ofícios artísticos. Em suma: um parque infantil. | Tanta atividade artística faz-nos temer aquilo que Nietzsche exprimiu nestes termos: “Se acreditarmos que a cultura tem uma utilidade, acabamos por confundir o que é útil com a cultura” (um aviso aos que rejubilaram com a ‘descoberta’, feita por alguns economistas, de que a cultura é de um grande interesse económico) Está assim garantido o projeto do tittytainment – um mot-valise formado por tits, seios, no calão americano, e entertainment –, concebido em 1995 pelos poderosos deste mundo, reunidos em São Francisco, e destinado a apaziguar uma população de supranumerários, cada vez mais numerosa. Tetas e entretenimento, alimentação suficiente e divertimento: eis o que fazer a 80 por cento de população infantilizada e excedentária. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 30.12.2011. |
Ao pé da letra #171 (António Guerreiro): A miséria da ortografia
Estes linguistas que engendraram um acordo ortográfico que nos foi politicamente imposto têm uma ideia tão pindérica e instrumental da ortografia que jamais perceberão o ‘hénaurme’ em vez de ‘énorme’, de Flaubert, e a ‘dansa’, de Sophia – alguém consegue imaginá-la como ‘Sofia’ – de Mello Breyner Andresen, que a poeta justificava assim: “Deve-se escrever com ‘s’, como era antes, porque o ‘ç’ é uma letra sentada, uma letra pesada.” Podemos argumentar que há algo na literatura que passa por um texto irredutivelmente gráfico e podemos isolar nela o jogo da forma e da substância da expressão (ortho) gráfica. Mas todos nós desenvolvemos o sentido de um valor icónico-semântico-performativo da ortografia que faz com que sintamos como uma violência e uma amputação a queda das consoantes mudas, por exemplo. Aqueles que recusam seguir as normas do acordo ortográfico não são, em princípio, uns snobs: são objetores (isto é, ‘objectores’) de consciência. | Mas a questão coloca-se ainda com mais acuidade nas palavras que passam a ser utilizadas como conceitos. Alguém que escreva sobre a teoria da ‘acção’ (da vita activa), de Hannah Arendt, que esforço tem de fazer para prescindir daquele ‘c’ sem cair na debilidade? E alguém que estude a teoria da soberania de Carl Schmitt conseguirá rebaixar-se ao nível da ‘exceção’ que está no centro da noção schmittiana do soberano: “Soberano é aquele que decide sobre o estado de excepção”? Garantem-nos que tudo isto é uma questão de hábito, mas a verdade é que há uma espécie de arquigrafia que nenhuma reforma ortográfica conseguiu ainda liquidar (o Acordo, em muitos casos, parece aplicado nessa tarefa criminosa). Estes linguistas que colocaram os seus bons ofícios científicos ao serviço da elaboração deste Acordo são avatares anedóticos daquela que já foi considerada a “ciência farol das ciências humanas”. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 23.12.2011. |
Ao pé da letra #170 (António Guerreiro): Significantes flutuantes
Em Portugal, o Governo anda atarefadíssimo a fazer reformas. Mas, se nos deslocarmos para Itália, também a prioridade são as reformas; e para Espanha, e para França... A palavra ‘reforma’ segue à frente, na torrente quotidiana de discursos. ‘Reforma’ tornou-se uma palavra vazia de sentido ou com um significado indeterminado, apta a ser preenchida, como quisermos, isto é, como os decisores políticos quiserem. É qualquer coisa, aliquid, uma palavra-maná. Foi o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss quem, na introdução à obra de Marcel Mauss, se referiu a estas palavras de tipo maná, sem referente nem sentido precisos, dando-lhes o nome de significantes flutuantes. Que se dê o nome de palavra-maná ao significante flutuante mostra bem como este é dotado de uma mágica substância mística. Cada governo precisa pelo menos de uma destas palavras para poder apoderar-se de um sentido que dê a ilusão de preencher o lugar vazio que ocupa. Para Cavaco, foi a ‘modernização’, para Guterres, a ‘solidariedade’, para Sócrates, a ‘tecnologia’, para Passos Coelho, a ‘reforma’. | A existência de significantes flutuantes deve-se a uma fundamental inadequação entre significantes e significados, isto é, a um excesso de significantes e a uma falta de significados. Saber tirar partido desta condição é a grande arte dos feiticeiros, dos xamãs, dos profetas. Sem esta inadequação não haveria palavra mágica, nem divina, nem qualquer invenção mítica e estética. Nem haveria poesia nem outras formas de literatura. E também nunca teria havido revoluções. O espantoso, apenas isso, é que os significantes flutuantes já não são daqueles que despertam o sonho, incitam à ação e nos elevam o olhar. Parecem reconduzir-nos sem ilusões para as camadas inferiores, sem substância mística, para as regiões do baixo materialismo, onde a forma se enforma e, redundandemente, se reforma. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 17.12.2011. |
Ao pé da letra #169 (António Guerreiro): Homo culturalis
O regozijo nacional por o fado ter sido classificado pela UNESCO como Património Cultural Imaterial não nos deve fazer esquecer que não há foco de luz que não projete também a sua sombra. E, neste caso, a sombra é aquela que, expandindo-se a alta velocidade, cobre o mundo de museus e mausoléus. Com a noção de “património imaterial”, o museu estende-se mesmo além do espaço físico e captura no seu culto comportamentos, práticas, formas de vida. Aloïs Riegl, diretor de um museu em Viena e considerado o inventor da noção moderna de património, escreveu no princípio do século XX um livro sobre o culto moderno dos monumentos, onde analisa o dilema destruição/conservação (um dilema muito moderno, muito próprio das épocas das vanguardas), na medida em que a destruição pode ser criadora e a conservação esterilizante. | Mas não se pode pensar a museificação sem o seu correlato, a culturalização: a capacidade pan-inclusiva da cultura, os mecanismos de homogeneização de que ela é dotada, enquanto dissolvente de todas as asperezas. Anima-a um dispositivo mortal de apaziguamento, como observou algures Blanchot: “Que existam acontecimentos interessantes e mesmo importantes e que, no entanto, nada possa ter lugar que nos perturbe, esta é a filosofia de todo o serviço da cultura.” O homo culturalis é uma espécie triunfante, em estado de proliferação cancerosa. É a forma encarnada de filisteísmo. Onde quer que ainda exista vida, experiência e aura, lá estará o homo culturalis para edificar um museu, uma reserva, um parque. É certo que, patrimonializado, o fado não fica submetido a nada, nenhuma incumbência o vem condicionar, e difunde-se o seu acrescido capital simbólico. A sombra de que falávamos está noutro lado: nas representações plácidas e tranquilizantes, com o brilho do ouropel, sem pecado nem partes malditas, induzidas por estas operações estético-culturais de patrimonialização e museificação. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 10.12.2011. |
Ao pé da letra #168 (António Guerreiro): Os animadores do gosto
O suplemento literário do El País publicou na semana passada uma “radiografia da crítica literária”, sob a forma de um inquérito feito a 20 “influentes líderes da opinião literária da Europa e da América” (assim os apresentava o jornal). Desse inquérito, podemos tirar as seguintes conclusões: a crítica literária está em crise em todo o lado e em risco de se tornar uma coisa do passado; a crítica literária não está a morrer de morte natural (ninguém defende que se tornou obsoleta), mas foi vítima de um conjunto de condições que levaram a que se tomasse de assalto a esfera pública literária. Na medida em que a crítica literária é uma matriz da crítica de todas as disciplinas artísticas, fácil é perceber o que se passa em todos os domínios. Houve um tempo, ainda não muito distante, em que o motivo de debate eram o modo como ela se situava no interior das ciências humanas (era o tempo em que a diferença entre a “crítica impressionista” e a “crítica universitária” tinha um valor importante na economia dos discursos). | Esse tempo, e tudo o que nele estava em jogo, tornou-se caduco, ultrapassado pelas circunstâncias. E nada representa melhor essa caducidade do que as famigeradas estrelas, as listas, os balanços anuais, as antecipações de “o que aí vem”. Com estes métodos de classificação e de hierarquização, a crítica, que tinha consistido em transformar a opinião em conhecimento (como dizia Samuel Johnson), é solicitada a fazer o contrário: transformar o conhecimento em opinião. Nesta época pós-crítica e da hipertrofia da opinião, o papel do crítico está reduzido ao de um animador do gosto ou animador cultural. E tão impositivo se tornou este modelo que até os comentadores políticos surgem investidos nesse papel de animadores, onde os de gosto mais à esquerda contracenam com os de gosto mais à direita, num palco onde se desenrola o espetáculo de variedades. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 3.12.2011. |
A ideologia não existe (Deleuze)
Todas as sociedades são, ao mesmo tempo, racionais e irracionais. São forçosamente racionais pelos seus mecanismos, engrenagens, sistemas de ligação, e mesmo pelo lugar a que assignam o irracional. No entanto, tudo isto pressupõe códigos ou axiomas que não são produto do acaso, mas que também não têm uma racionalidade intrínseca. Como na teologia: tudo é de facto racional se se aceita o pecado, a imaculada concepção, a encarnação. A razão é sempre uma região talhada no irracional. Não de todo ao abrigo do irracional, mas uma região atravessada pelo irracional e definida apenas por um certo tipo de relações entre factores irracionais. No fundo de toda a razão, o delírio, a deriva. Tudo é racional no capitalismo, salvo o capital ou o capitalismo. Um mecanismo bolsista é efetivamente racional, pode compreender-se, aprende-lo, os capitalistas sabem dele servir-se; no entanto, é completamente delirante, é demente. É neste sentido que dizemos: o racional é sempre a racionalidade de um irracional. Há algo que não foi suficientemente notado em O Capital de Marx: a que ponto está ele fascinado com o mecanismos capitalistas, precisamente porque estes são, ao mesmo tempo, dementes e funcionam muito bem. Então, o que é racional numa sociedade? É – estando definidos os interesses no quadro dessa sociedade – a maneira como as pessoas os perseguem, perseguem a sua realização. Mas nisso existem desejos, investimentos de desejo que não se confundem com os investimento de interesse, e dos quais os interesses dependem nas suas determinações e na sua própria distribuição: todo um enorme fluxo, toda a espécie de fluxos libidinais-inconscientes que constituem o delírio dessa sociedade. A verdadeira história é a história do desejo. Um capitalista ou um tecnocrata atuais não desejam da mesma maneira que um mercador de escravos ou que um funcionário do antigo império chinês. Que as pessoas numa sociedade desejem a repressão, para os outros e para si mesmos, que haja sempre pessoas que querem chatear os outros, e que tenham a possibilidade de o fazer, o “direito” de o fazer, é isto que manifesta o problema de uma ligação profunda entre o desejo libidinal e o campo social. Um amor “desinteressado” pela máquina opressiva: Nietzsche disse belas coisas sobre este triunfo permanente dos escravos, sobre a maneira como os amargurados, os deprimidos, os estúpidos nos impõem o seu modo de vida. > | Justamente, em tudo isso, o que é verdadeiramente específico do capitalismo? Será que, no capitalismo, o delírio e o interesse, ou então o desejo e a razão, se distribuem de uma maneira de facto nova, particularmente “anormal”? Creio que sim. O dinheiro, o capital-moeda, é um ponto de demência tal que não teria na psiquiatria senão um equivalente: aquilo a que se chama estado terminal. É demasiado complicado, apenas uma observação de pormenor. Nas outras sociedades existe exploração, existem igualmente escândalos e segredos, mas isso faz parte do “código”, existem mesmo códigos explicitamente secretos. No capitalismo é muito diferente: nada é secreto, ao menos em princípio e segundo o código (é por isso que o capitalismo é “democrático” e se reclama da “publicidade”, mesmo em sentido jurídico). E, no entanto, nada é confessável. É a própria legalidade que não é confessável. Por contraste com outras sociedades, trata-se do regime, ao mesmo tempo, do público e do inconfessável. É específico do regime do dinheiro, um delírio efetivamente particular. Veja-se aquilo a que se chama de escândalos atualmente: os jornais falam bastante, toda a gente finge defender-se ou atacar, mas procuramos em vão o que há de ilegal naquilo, tendo em conta o regime capitalista. A declaração de impostos de Chaban, as operações imobiliárias, os grupos de pressão e, mais em geral, os mecanismos económicos e financeiros do capital, tudo é mais ou menos legal, salvo pequenas manchas; sobretudo, tudo é público, ainda que nada seja confessável. Se a esquerda fosse “razoável”, contentar-se-ia em fazer a vulgarização dos mecanismos económicos e financeiros. Nem seria preciso publicar o privado, contentar-nos-íamos em fazer confessar aquilo que é público. Encontrar-nos-íamos numa demência sem equivalente algum nos hospícios. Em vez disso, falam-nos de “ideologia”. Mas a ideologia não tem importância alguma: o que conta não é a ideologia, não é sequer a distinção ou oposição “económico-ideológico”, é a organização de poder. Porque a organização de poder é a maneira na qual o desejo já está no económico, na qual a libido investe o económico, assombra o económico e alimenta as formas políticas de repressão. |
A ideologia é uma ilusão de perspectiva [trompe-l’oeil]? Nada disso. Dizer «a ideologia é uma ilusão de perspectiva» é ainda a tese tradicional. Metemos a infraestrutura de um lado, o económico, o sério, e depois, do outro lado, metemos a superstrutura, da qual a ideologia faz parte, e rejeitamos os fenómenos de desejo na ideologia. É uma boa maneira de não ver como o desejo trabalha a infraestrutura, como a investe, como dela faz parte, como deste modo organiza o poder, como o sistema repressivo se organiza. Não dizemos: a ideologia é uma ilusão de perspectiva (ou um conceito que designa certas ilusões). Dizemos: a ideologia não existe, trata-se de um conceito ilusório. Por isso convém tão bem ao PC, ao marxismo ortodoxo. O marxismo deu tanta importância ao tema das ideologias para melhor esconder o que se passava na URSS: a nova organização do poder repressivo. A ideologia não existe; não existem senão organizações de poder, uma vez dito que a organização de poder é a unidade do desejo e da infraestrutura económica. Gilles Deleuze, «Sur le capitalisme et le désir» (1973), in L’île déserte. Textes et entretiens 1953-1974, ed. David Lapoujade, Minuit, Paris, 2002, pp. 365-68. |
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