Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

O cliché de Herman José. Homenagem falhada a Manoel de Oliveira


Das unanimidades, tanto positivas como negativas, é sempre de suspeitar. Manoel de Oliveira, agora que lhe comemoram o centenário, nunca esteve tão perto de ser unânime. É muito difícil, neste contexto, ter algo a dizer sobre a sua obra, porque se calam mesmo aqueles que nunca a puderam ver nem pintada. Não querem estragar a festa. Pois, mas sem inimigos a entronização ameaça, pese embora Oliveira, que conheceu desfeitas antigas, como bem lembra em alguns filmes, não pareça com vontade de se deixar levar. Mas fica algo por dizer, por compreender, então. Que foi feito de todo esse ódio disfarçado de paródia que lhe tinham? Mistério!

Por isso, a única homenagem que sou capaz de fazer, neste momento, a um realizador que muito admiro, é lançar a suspeita sobre essa unanimidade, procurando a contrapêlo perceber o que aconteceu entretanto para que a sua obra se tornasse tão mais dócil para o status quo. Parece-me que a melhor maneira de o fazer passa por indagar aquele que foi o modo como a maior parte das pessoas terá conhecido o cinema de Manoel de Oliveira. Ou seja, através dos sketches nos programas de Herman José. E digo “conhecido” com plena consciência, pois, como aqui escrevi há algum tempo, esse cliché humorístico da lentidão, que se estendeu depois dos filmes do Oliveira para uma caracterização geral do cinema português, captava então algo de verdadeiro. A languidão dos corpos, a fala arrastada e pausada, “cheia de silêncios”, sendo de facto um cliché de alguns filmes de Oliveira, era e é ainda, ao mesmo tempo, para quem veja os filmes, parte inextirpável da potência expressiva desses mesmos filmes, das sensações que ele permite.


A poderosa emoção de alguns dos seus melhores filmes, como AMOR DE PERDIÇÃO, FRANCISCA ou VALE ABRAÃO, decorre em grande parte do estado de quase transe em que essas cenas deixam o espectador. Por isso, se fosse programador da Cinemateca, e se me deixassem, claro está, teria incluído esses sketches de Herman José na retrospectiva integral da obra de Oliveira que agora decorre. Não são ofensas à obra, pelo menos os melhores não o são; pelo contrário, são quase parte integrante dela. Creio até que este assunto da eficácia do cliché humorístico na “imagem” do cinema português reveste-se de uma tal seriedade que era dos que mais justificava uma investigação académica. Tema para uma tese de mestrado bem fundamentada e tal, porque não?

E por uma daquelas coincidências espantosas, recebo finalmente, no próprio dia do aniversário de Manoel de Oliveira, a resposta que tanto esperava relativa a esta questão. Tinha feito uma pergunta por escrito sobre o assunto na página pessoal de Herman José. Respondeu-me o próprio [penúltima pergunta e resposta] (ou alguém a passar-se por ele, não interessa; como a resposta demorou dois meses e meio, vou partir do pressuposto que foi mesmo ele):

P: Caros, Gostaria de saber ao certo, para uma investigação que estou a fazer, quando começou o Herman José a fazer
sketches com os filmes do Manoel de Oliveira em particular, e sobre a lentidão do cinema português em geral, e em que séries é que os posso encontrar? Muito obrigado, André Dias

R: Caro André, do primeiro não me lembro. O melhor foi no Herman Enciclopédia !




Infelizmente, à alegria de ter obtido uma resposta à minha pergunta, de resto talvez demasiado factual e laudatória de menos, não correspondeu uma iluminação esclarecedora. Como puderam ler, a resposta de Herman é assim para o negligente. Custa-me a crer que não tenha melhor memória da sua obra, também ela com laivos de genialidade a seu tempo, e que afinal lhe deve ter custado bastante a criar, principalmente nos momentos iniciais. Duvido, portanto, que seja no Herman Enciclopédia, série bastante mais tardia (de 1997) e já decadente do seu humor, que tenham sido realizadosos os melhores sketches sobre Manoel de Oliveira e o cinema português.
A minha memória é ainda mais frágil que a de Herman, mas, e relembrando que o ponto extremo da comicidade FRANCISCA é de 1981, julgo bem mais provável que seja na série Hermanias (1984) ou Humor de perdição (1987) que se encontrará um fantástico sketch que, para mim, resume esta coincidência entre o cliché humorístico e a sensação estética. Gostava imenso de o rever. Quanto mais não fosse para verificar se, como quero acreditar, esse humor de Herman ainda hoje se sustenta por si, ou se era apenas o desdém que já então o aguentava. Talvez Herman (e os seus seguidores, incluíndo os Gato Fedorento) nunca se tenha conscientemente apercebido dessa coincidência, o que não é importante; mas, acompanhando a sua decadência como humorista, o cliché sobre o cinema português foi-se tornando cada vez mais amargo. Na ausência da visão desse sketch antigo, talvez fundador, este texto baseia-se numa pressuposição inverificável. Não pode por isso deixar de ser uma homenagem falhada a Oliveira (mas também a Herman, já agora).

É verdade que na Herman Enciclopédia um dos episódios se chama precisamente “Cinema”, e incluí dois sketches a que Herman se pode estar a referir. Mas não só estes não são muito inspiradores, como são isentos da generosidade necessária ao humor (embora o d“a tradutora” tenha alguma piada, por causa do linguajar; conferir o outro: sobre “salas de cinema portuguesas”). Já no Herman Sic se pode comprovar, sem dúvida alguma, como o desdém tomou conta do humor, quebrando a coincidência que outrora ele tinha sido tão capaz de apreender, quando sabia menos do que captava. Isso é prova da sua enorme falência, por comparação com Oliveira, certamente. Neste aspecto, a passagem do tempo foi bem cruel para Herman.
Convém dizer, no entanto, que a evolução da obra de Oliveira contribuiu igualmente para a dissolução da coincidência entre o cliché humorístico e a sensação estética, pois perdeu entretanto muita da sua radicalidade. Diluiu-se, por assim dizer. Ao que não será alheio o facto de a produção ter aumentado exponencialmente. Os seus inúmeros filmes recentes continuam imensamente livres, pois Oliveira é antes de tudo um intuitivo, ao contrário do que pensam os seus detractores, pseudo-intelectualizando-o. Mas nem todos os filmes se sustentam já por inteiro. As partes falhadas ferem o todo, o que não acontecia anteriormente. Talvez por isso já não sejam tão agressivos, disruptivos, inovadores, e, precisamente por isso, passíveis de humor. Podem enfim servir à comemoração.

P.S.: Luís Miguel Oliveira encontra uma outra genealogia, mais profunda, “uma espécie de mito fundador da repulsa”.

4 comentários:

Anónimo disse...

No sabía ni de la existencia de ese "humorista" llamado Herman José, pero visto "Herman Sic" no me apetece ver nada más. No sólo no le veo gracia alguna, sino que es común al derechismo populista berlusconiano que parece dominar (ya casi en exclusiva) todas las televisiones del mundo. Valdría para lo poco interesante del cine español o francés. Por lo demás, si es cierto que toda unanimidad es sospechosa, también es fácil detectar cuando encubre fingimientos múltiples, que ocasiones necrológicas o conmemorativas propician. Más pertinente sería observar que, dentro de un alto nivel general, no todos los films de Manoel de Oliveira son igualmente buenos, que quizá no sean precisamente los últimos los mejores, y que sus cortos chistecitos humorísticos no están a su nivel, son poca cosa; otro no perdería el tiempo haciéndolos, aunque parece que él siente por delante toda la eternidad y puede permitirse desperdiciar un rato en mero entretenimiento.
Miguel Marías

André Dias disse...

Herman José é (ou foi) um humorista sem aspas. Aliás, é preciso dizer que foi extremamente importante em Portugal, pois revolucionou por completo o humor, que, como se sabe, é um bem de primeira necessidade. Foi verdadeiramente uma lufada de ar fresco, tal como o Oliveira. Nunca foi unanimemente admirado, mas teve um apoio público alargado durante bastantes anos, com um humor mais sofisticado e arrojado. Dizer isto é um lugar comum. Mas, precisamente, convém não esquecer estes factos, que já são históricos, mesmo ou sobretudo quando os artistas entram em decadência. Depois de se ver censurado pela televisão pública, e talvez em reacção magoada, perdeu um pouco o pé e entregou-se a programas de regime e aos textos de outros jovens humoristas sem a sua genialidade.
O excerto que viste do Herman Sic é seguramente o pior de todos por relação ao Manoel de Oliveira e ao cinema português. Mas, se algum dia encontrar o sketch exacto, fundador, e ele mantiver a graça, publico-o aqui...

Quanto às homenagens, pois sim, são ocasião para muita coisa, nem toda boa. Mas não enfio a carapuça dos fingimentos. O que tenho a dizer digo-o com clareza suficiente. O que mais me irrita nestas efemérides, no fim de contas, é uma certa obrigatoriedade de dizer alguma coisa. De dar a sua opinião, quase o seu consentimento, à própria efeméride. Precisa o Oliveira, na sua alegre soberania, de tantas palmadinhas nas costas? Algo há aí de estranho. Talvez uma condescendência bem escondida...

Há certamente muito de pertinente a dizer sobre a obra de Oliveira, mesmo a mais recente. Estou precisamente a tentar acompanhar o mais que posso a retrospectiva integral na Cinemateca de Lisboa, pois fui deixando escapar muitos filmes ao longo dos anos. Mas, do que tenho visto, e ainda me faltam uns quantos, parece-me que, desde a sua última obra-prima - VALE ABRAÃO, há apenas um filme verdadeiramente indispensável, que é VIAGEM AO PRINCÍPIO DO MUNDO (1997).

Carlos Vidal disse...

Permita-me que discorde de duas ideias dentre as que expõe: uma, parece uma ideia arreigada, não sei porquê - felizmente, Oliveira não é uma figura consensual, nada mas mesmo nada consensual. Não sei porque o considera, talvez alguma falta de experiência no terreno da crítica (de arte em geral) ou qq outra coisa. Como Pedro Costa e Straub não são consensuais. Por uma razão: Oliveira viola as nossas expectativas enquanto espectadores de uma linguagem que se convencionou chamar "cinema". A tal ponto que o que Oliveira faz o faz com tão grande mestria que a mim não me interessa saber se é ou não cinema. Mas quem tem a "expectativa" rígida do que é "cinema" fica perplexo ou não suporta. Há três reacções pelo menos para com Oliveira: a adesão (o meu caso), a perplexidade e a rejeição. Consenso não há.
De resto, depois de Vale Abraão muito há para dizer e ver além de "Viagem ao Princípio do Mundo".

André Dias disse...

Carlos Vidal, obrigado pelo seu comentário.

Parece-me dificilmente negável que se gerou uma insólita unanimidade em torno da figura de Oliveira por ocasião do seu centenário. Isto, obviamente, não é o mesmo que afirmar que o seu cinema por inteiro seja hoje unânime. Longe disso. No entanto, está bem mais próximo de o ser do que alguma vez esteve. Digamos a coisa de uma forma meio enigmática. Não se pode colocar ao mesmo nível a exasperação que um espectador sente perante AMOR DE PERDIÇÃO e perante O QUINTO IMPÉRIO.

Quanto à minha “falta de experiência no terreno da crítica (de arte em geral)”, adivinhou. Na verdade, não tenho mesmo nenhuma experiência. E, no nosso contexto, nem sequer a invejo. A crítica, tal como é praticada correntemente, nos jornais e ainda mais online, repetindo sabe-se lá porquê razão os piores vícios da imprensa, e salvo raríssimas excepções, parece-me manifestamente insuficiente para dar conta do cinema. Dito isto, é evidente que a tradição da crítica cinematográfica é, por excelência, o lugar onde o cinema foi pensado. Qualquer tentativa, mesmo “científica”, que a menospreze para dar lugar, por exemplo, a um qualquer cinema como filosofia, agora em voga, é por isso enganadora. De resto, aquilo que faço, ou que pelo menos tento fazer, é toda uma outra coisa. Não concerne a forma, porventura vantajosa, da crítica cinematográfica.

A “violação das expectativas” que refere tem muito que se lhe diga. Pode descrever de forma geral a irrupção do novo que, supostamente, acontece em cada obra conseguida. Não é, no entanto, por aí, ou sobretudo por aí, que uma obra cinematográfica singular se afirma. Esse espanto pela recusa do habitual pode até ser extremamente desagradável, se a obra for apenas inábil. Muitos gestos cinematográficos precoces pecam precisamente por essa soberba das rupturas. Adrian Martin, crítico australiano e editor da Rouge, numa entrevista a publicar aqui em breve, coloca precisamente a questão da insuficiência dessa visão da ruptura das convenções. E, prolongando essa “violação das expectativas”, parece que você acredita que ela põe mesmo em causa o que “é ou não cinema”, que não lhe interessa saber. Tomo para mim, para o cinema, a fabulosa ingenuidade com que, passe as diferenças, Deleuze desprezava os fins declarados da filosofia ou da metafísica. Por isso vejo a coisa ao contrário. Cinema não são os filmes, é antes tudo o que de vivo neles acontece, o pensamento... incluindo os belíssimos gestos intuitivos de Oliveira.

O que acho curioso são os fenómenos de aparar as heterodoxias. Por exemplo, o crítico espanhol Miguel Marías, que é um generoso comentador, fê-lo duas vezes em textos meus que punham em causa, a seu ver, o carácter insuspeito dos mestres contemporâneos portugueses – Manoel de Oliveira e Pedro Costa. É, na verdade, uma pena não termos por cá mais mestres para “ofender”, para que outros os possam defender de heterodoxias. Que sintomático é este desejo de alinhamento! Não é esse o meu jogo, nem aceito essas regras. Parece-me possível afirmar simultaneamente o génio concreto desses mestres, e incluamos Straub só porque o invocou também, sem ter que engolir tudo o que fazem ou dizem. A nossa posição, por mais humilde que seja, não se pode confundir, no fim, à de alguém que percorre cegamente o labirinto das suas obras e dizeres. Esta bipolarização entre adeptos e detractores é, a meu ver, um sintoma de pobreza. Num caso ou noutro, pró ou contra, o que se pode dizer não é assim tão interessante. Se virmos bem, nada há aí para dizer senão o assentimento ou a recusa. Em ambos os casos, não se cria nada. Mais, do que trata muitas das vezes são de estatutos cultu(r)ais, que se pretendem erguer como inatacáveis, para os indefectíveis se sentarem à sombra, mais do que o concreto dessas obras, o que elas por si próprias afirmam. Pela minha parte, cada pequeno e modesto texto que escrevo, tem que ver com essas afirmações parciais, e não com a hierarquização e hieratização de uns poucos nomes próprios, por mais belos que sejam.

Uma coisa é certa. Não vale a pena entrar em concursos para ver quem gosta mais de Oliveira. Até me fiz convidado para um colóquio internacional que era suposto realizar-se em Serralves, mas que ainda não viu a luz do dia, não é João Fernandes? Cf. o prometido Simpósio Internacional dedicado à obra de Manoel de Oliveira (datas a anunciar). Mas é verdade que quando vi VALE ABRAÃO pela primeira vez saí da sala a dada altura, quando não fui capaz de tragar um diálogo de Leonor Silveira de gato ao colo com João Perry. Que ao mesmo tempo já papasse SÁTÁNTANGÓ não me desculpa, evidentemente. Mas acho perfeitamente natural estas rejeições. E tal não impede que a cada visão desse filme de Oliveira fique hoje absolutamente fascinado. Prefiro afirmar estas aparentes fraquezas às exaltadas concordâncias. Desconheço quase por inteiro a ideia de guilty pleasures, que é sinal de uma dissensão entre a permissão do gosto e o estatuto cultural. Mas lembro-me bem de filmes que adorei, em que terei mesmo chorado, e que hoje abomino sobremaneira. Isto sim causa-me alguma vergonha, mesmo que comedida. Mas deve ser muito mais pesado para quem tente apagar esses rastos da sua própria passagem. Não te servem os atalhos dos outros, dizia Michaux. Um ensinamento que se aplica também, e sobremaneira, à cinefilia. Porque esta não é coisa estaque; é antes construtiva, evolutiva, mas não necessariamente no sentido de um qualquer progresso. Como noutras coisas, parece apenas haver uma complexidade crescente. Certas formas cinematográficas são inicialmente muito difíceis de apreensão, sobretudo se protegidas por um desviante estatuto autoral, enquanto outras se tornam com o tempo insuportáveis, pois reconhecemos depois como aquilo que parecia beleza era apenas um tremendo fetichismo, as lambidelas de certas maneiras cinematográficas. No meu caso, acontece-me reconhecê-las em bastantes formas actuais, supostamente mais empolgantes...

Nem estava a fazer de advogado do diabo perante Oliveira. Creio que esta história da recepção do cinema português é extremamente importante. Convém não deitar os olhos para o lado, apenas porque a sua obra perdeu algo do seu carácter mais intempestivo. Oliveira continua um realizador importante e em todos os filmes, mesmo nos mais falhados, como UM FILME FALADO ou O QUINTO IMPÉRIO, se encontram gestos originais, planos inauditos e precisos, coisas muito belas. Do que falei, acerca da sua obra mais recente, foi de obras indispensáveis, quer dizer, imperdíveis ou, pelo menos, necessárias. Não uso essa qualificação ao calhas. Aparte os belos filmes franceses, sobretudo JE RENTRE À LA MAISON mas também BELLE TOUJOURS, há coisas no último Oliveira que são, infelizmente, menos conseguidas. Mas o seu menos conseguido ainda é muito...


Arquivo / Archive