Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

dentro do lado de fora

Elephant (1989) Alan Clarke

um rapaz caminha em direcção a um edifício. percorre os corredores, entra no recinto da piscina, abre e fecha portas à procura. quando encontra o homem das limpezas nos lavabos dispara sobre ele sem hesitação. a câmara fica em suspenso fixando o corpo morto atirado contra um canto. o rapaz sai para a rua e desaparece numa esquina.
a sequência cinge-se ao movimento do assassino, o assassinato, o assassinado, o movimento de fuga do assassino. é apenas isto que vemos e é apenas isto que sabemos. o que dá a sensação de que não há mais nada para saber, de que se trata de um gesto gratuito. o assassinato resume-se ao ter-se dado e o que disso resta é um corpo morto no espaço. esta é a primeira sequência e é a que instala o filme. no entanto, a dado momento aparecem dois assassinos. o facto de serem dois leva-nos a pressupor um entendimento, isto é, um momento anterior que se precipita naquele que assistimos. mas o filme não cede, permanece à mesma distância, assistimos sempre do mesmo sítio, mesmo quando há, de repente, a aparição de um jogo de futebol e há uma conversa.
sabemos, desde cedo, que o filme vai ser uma série de assassinatos onde estamos sempre do lado de fora, isto é, nenhum contexto nos põe dentro, há uma distância insuperável. esta crueza produz uma abstracção onde somos afectados directamente. não há nenhuma narrativa que nos entretenha, que nos resguarde. o filme instala uma opacidade narrativa que faz cessar a interpretação e é numa espécie de secura que assistimos morte atrás de morte, todas elas descarnadas de razões. a impossibilidade de uma expectativa narrativa esvazia-nos de perguntas, ficamos unicamente atentos ao acontecimento em bruto. estamos longe, sempre deslocados e a única coisa que esperamos, atentos, é ver o modo como aquele corpo cede ao seu peso morto, como a cara se distorce e se fixa num último esgar, como o sangue mancha a parede, como a morte produz uma vibração no espaço.

1 comentário:

ana disse...

Francis Bacon

«... no outro dia pintei a cabeça de alguém e aquilo que fazia o encaixe dos olhos, do nariz, da boca eram, quando os analisávamos, apenas formas que nada tinham a ver com os olhos, narizes ou bocas; mas a tinta movendo-se de um contorno para outro fazia a semelhança dessa pessoa que eu estava a tentar pintar. Parei; pensei por um momento que tinha conseguido uma coisa muito mais próxima do que queria. Então no dia seguinte tentei levá-la mais adiante e tentei torná-la mais comovente (poignant), mais próxima, e perdi completamente a imagem. Porque a imagem é uma espécie de caminho na corda bamba entre o que é chamado pintura figurativa e abstracção. Ela sai directamente da abstracção mas não tem realmente nada a ver com isso. É uma tentativa de trazer, mais violentamente e mais comoventemente (poignantly) a coisa figurativa para o sistema nervoso.(...) o que nunca ainda foi analisado é porque é que esse modo particular de pintar é mais comovente do que a ilustração. Suponho que é porque tem uma vida completamente sua. Vive por si só, como a imagem que estava a tentar apanhar; vive por si só, e por isso transfere a essência da imagem mais comoventemente. Então para que o artista seja capaz de abrir ou antes, devo dizer, destrancar as válvulas do sentimento e assim devolver o espectador para a vida mais violentamente.» p17

«...é muito muito difícil saber porque é que algumas pinturas atravessam directamente o sistema nervoso e outras pinturas nos contam uma história numa longa diatribe através do cérebro.» p18

«...no momento em que há várias figuras - de qulaquer forma várias figuras na mesma tela - a estória começa a ser elaborada. E no momento em que a estória começa a ser elaborada, o aborrecimento instala-se; a estória fala mais alto do que a pintura. Isto é porque na verdade estamos de novo em tempos muito primitivos e não temos sido capazes de eliminar o contar-estórias entre uma imagem e outra.» p22

bocadinhos de Interviews with Francis Bacon de David Sylvester (tradução minha)


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