Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Ao pé da letra #152 (António Guerreiro): Governar com estilo

A partir do momento em que o pacto que liga os partidos aos cidadãos deixou de se basear nos antigos critérios de representação, a questão do estilo ganhou enorme importância. Cada governo que entra em funções conquista a sua autoridade através de um estilo, marcando assim a diferença em relação ao estilo do governo anterior. Um corte bem saliente torna-se necessário e nem sequer um grande treino, porque basta seguir intuitivamente pelo espaço de respiração que se abre, fugindo ao sufoco a que fôramos submetidos. Assim é porque cada governo caminha para a exaustão do seu estilo, até chegar o momento em que este passa a ser uma espécie de mímica com o seu código elementar. Atinge-se então o triunfo do vazio: os traços do estilo convertem-se em tiques, e os cidadãos, incomodados, começam a dizer: “Já não posso ouvi-los.” Tem sido assim com os governos anteriores e assim será certamente com este.  

A noção de estilo é vaga e maleável, por mais que façamos apelo aos tratados clássicos. Mas só usando de muito rigor é que chamamos estilo àquilo que, no discurso e no comportamento dos políticos, é definido por uma intenção e não por uma necessidade. Ao contrário do estilo na literatura e na arte, o estilo dos governantes é uma mera questão de técnica, de escolha tática, e não de compromisso autêntico. Por isso – porque não é a transformação formal de uma verdade – é que se esgota tão depressa e entra na lógica da caricatura e do exacerbamento. É um mecanismo cego, exibicionista e sem consciência de si. Curioso é verificar que são cada vez mais breves os ciclos de afirmação e esgotamento do estilo. Nem é necessária muita atenção crítica para verificar que o estilo do atual governo já começa a ficar saturado dessa infralinguagem a que chamamos tiques. E ainda nem tivemos tempo de esquecer os automatismos exasperados do estilo do governo anterior. 

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 13.8.2011.

Uma criança sobe o monte #10 (A child climbs a mountain)


...

Ao pé da letra #151 (António Guerreiro): Os professores de bancada

Uma breve passagem — durante três anos — pelo ensino básico e secundário, como professor, não me dá autoridade para falar em nome da experiência, mas permite-me, ainda assim, perceber quão irritante é ouvir as pessoas sem qualquer ligação à escola e ao ensino fazerem profundos diagnósticos do seu estado e terem certezas sobre o tratamento a administrar. Neste exercício de demonstração de ignorância e ingenuidade, há uma série de lugares-comuns que se cristalizaram num vocabulário destituído de toda a capacidade de descrição e que já não significa nada. Por exemplo, “facilitismo” e “eduquês”. Algo relacionado com o que estas duas palavras começaram existiu certamente e ainda deve existir, mas nenhum problema elas estão hoje em condições de identificar. Mais não seja porque foram submetidas a uma profunda erosão e passaram a fazer parte de um idioma vazio. São como palavras de ordem pronunciadas para simplificar. 

Vejamos um exemplo: quando hoje se deplora — muito legitimamente — a retirada de Camilo Castelo Branco dos programas do secundário, não percebemos o fundo do problema se não verificarmos o seguinte: Camilo não está apenas ausente das escolas, está ausente da edição (alguns títulos avulsos, publicados ao sabor das circunstâncias, não alteram o panorama) e, por conseguinte, ausente das livrarias. Da vastíssima obra de Camilo não existe uma edição crítica. É certo que a escola deve ser impermeável a estas circunstâncias e, provavelmente, a retirada de Camilo significa mesmo uma perniciosa vontade de pôr a literatura à distância. Mas isso não invalida que tal expulsão só seja compreensível quando integrada num contexto mais geral. Como fazer da escola um território onde não entra o mundo profano, se o mundo profano cresce, cresce, como o deserto de Nietzsche?

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 6.8.2011.


Arquivo / Archive