Ainda não começámos a pensar
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 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Ao pé da letra #193 (António Guerreiro): A ideologia da avaliação

A passagem do analógico ao digital invadiu toda a nossa vida quotidiana e verifica-se até em domínios onde o regime de significação não era concebível em termos digitais. É o caso dos ‘estudos’ que estabelecem numericamente o índice de felicidade – e de outras coisas igualmente não quantificáveis – da população de um país. Uma vez quantificada e medida numa escala numérica, a felicidade já não se opõe a infelicidade – uma oposição própria do regime analógico. Em vez destas oposições tão velhas como a metafísica, o que temos é comparações entre vários índices de felicidade, que permitem, por exemplo, dizer que os noruegueses têm um índice de felicidade mais elevada do que os portugueses. Mas se traduzirmos este dado por uma linguagem do tipo “os noruegueses são mais felizes do que os portugueses” sentimos que não estamos a usar a linguagem correta, que há restos de uma metafísica inadequada a insinuar-se na frase, que estamos, implicitamente e sem querer, a ressuscitar a oposição felicidade/infelicidade.  
Quantificação também impossível, mas que ganhou honras e proveitos de ciências rigorosa, é a que estabelece os rankings das universidades, a nível mundial. Neste caso, é uma ideologia da avaliação (a que todos os funcionários estão hoje submetidos) que se faz passar por critério neutro e rigoroso. Como se mede a excelência ou a mediocridade de uma universidade de modo a colocá-la na posição 50 e não na posição 49 ou 51 ou noutra ainda mais desviada? Tal só é possível porque todos os critérios da avaliação se traduzem numericamente. Mas este modo de tradução só funciona de maneira convincente porque nos oculta as suas operações: apenas nos é dado o resultado. E foi assim que a ideologia da avaliação, que estabelece rankings e quantifica índices de felicidade, se tronou a verdadeira teologia do nosso tempo – uma teologia jansenista, de um Deus absconditus.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 26.5.2012.

Ao pé da letra #192 (António Guerreiro): Entrevistas e tagarelice

As entrevistas a escritores, que outrora constituíam um importante material para uso futuro, tornaram-se o género jornalístico mais enfadonho e destituído de interesse: da maior parte das entrevistas não ressalta uma única frase que um arquivo útil deva salvar. O ingresso na categoria de escritor tornou-se uma coisa banal e, por conseguinte, enorme é a possibilidade estatística (acrescentada aos critérios editoriais) de as entrevistas serem uma conversa muito banal e de mera autopromoção. Não há, porém, nenhuma razão para pensar que, em termos absolutos, não existem tantos escritores como antigamente (isto é, uns raros), capazes de, em circunstâncias favoráveis, assegurar uma entrevista suculenta. Mas a principal razão do carácter inócuo da maior parte destas entrevistas não está nesta determinação estatística. É uma questão de ritual. Uma entrevista era uma dádiva a alguém que se preparava para a receber (“O escritor X dá uma entrevista a Y”).  
Ora, a maior parte das entrevistas a escritores que lemos hoje são uma obrigação profissional que ambos cumprem: o escritor é enviado pela editora em tournée (se for um escritor de sucesso internacional) e os jornalistas apanham o escritor na sua tournée, que é feita exclusivamente para isso, segundo os protocolos estabelecidos. Eis uma fórmula comum usada pelas editoras nos seus contactos com os media: “O escritor X está à disposição dos jornalistas, no hotel Y, das tantas às tantas, para entrevistas.” O que daqui resulta são entrevistas em série, de gente entediada, mas tão profissional que, se necessário, dá o que não tem a alguém que não o quer. Nestas circunstâncias, raras são as possibilidades de aparecer um Thomas Bernhard, que olha para o gravador, pergunta ao jornalista se já está a funcionar e, recebendo uma resposta afirmativa, grita alarmado, em italiano, consciente do risco e do jogo: “dramma giocoso!”

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 19.5.2012.

Ao pé da letra #191 (António Guerreiro): No reino dos equívocos ortográficos

Na semana passada, cometi a imprudência de usar uma palavra contra a qual o Acordo Ortográfico dispara com uma fúria cega as suas regras de aniquilação e entra em desvario: a palavra ‘panóptico’, que designa uma arquitetura carceral, o panopticon, imaginada no século XVIII por Jeremy Bentham. Quem reviu o texto emendou para ‘pan-ótico’, por analogia com outras palavras formadas com “pan” que levam hífen. Mas o mais importante é a supressão do ‘p’, que parece obrigatória, segundo o AO. Ora, tratando-se de uma palavra que sempre teve um uso culto, nunca conheceu outra pronúncia que não fosse a da “norma culta”. Ou seja, “panóptico”. Mas ninguém, nem sequer quem reviu o texto, tem obrigação – e os meios, porque não se fixou ainda um vocabulário ortográfico comum – de saber tudo aquilo que é necessário para aplicar corretamente uma das muitas exceções que o AO consagra para tentar salvar as suas regras: teria de saber que em todo o espaço da língua portuguesa a palavra se pronuncia com ‘p’ e que, por conseguinte, não há lugar à supressão da consoante, porque ela não é muda (note-se que tal saber impossível também é requerido para o uso das muitas facultatividades).  

Uma amiga brasileira confirmou-me por e-mail: “Nós aqui dizemos e escrevemos ‘panóptico’ como vocês.” Como vocês? Isso era dantes, porque o AO, estúpido como é – de uma estupidez cómico-grotesca –, promove constantemente erros de hipercorreção, sem fornecer meios que os possam evitar. E, hipertélico, acaba por ir além dos seus próprios fins e anulá-los. Sem o ‘p’, a palavra refere-se à audição e não à visão, ou então é usada no campo da química para designar um corante. Não é tudo isto absurdo, próprio de uma terra onde Ubu é rei, ainda por cima quando temos um ministro da Educação e Ciência que, antes de o ser, corroborou famigeradas denúncias de “imposturas intelectuais”?

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 12.5.2012.

Ao pé da letra #190 (António Guerreiro): O Estado liberal

No seu curso sobre o nascimento da biopolítica, Michel Foucault afirma que “o panóptico é justamente a fórmula de um governo liberal”. O panóptico, recordemos, é uma arquitetura carceral imaginada pelo filósofo Jeremy Bentham, no século XVIII, que permitia a um só indivíduo, instalado num determinado ponto da estrutura, ter um ângulo de visão total sobre o conjunto das celas dos prisioneiros, sem que estes pudessem perceber que estavam a ser observados. As análises de Foucault são fundamentais para percebermos este aparente paradoxo com que estamos confrontados e do qual passámos a ter uma dolorosa experiência quotidiana: quanto mais o Estado pretende reduzir-se a um regime de frugalidade e intervir o menos possível, mais ele desenvolve os seus panópticos, os seus dispositivos de controlo e vigilância, as suas práticas e tecnologias policiais (em suma, um Estado que suspende o fundamento político e ganha fundamento policial).  

O bom funcionamento do Estado liberal só é conseguido à custa da submissão da sociedade e dos indivíduos a um regime de transparência total, até do que antes pertencia à esfera da vida privada. Deste modo, quando o Estado liberal celebra a “sociedade civil”, ele não está a celebrar o seu exterior, o que lhe permite governar apenas o suficiente, está a celebrar simultaneamente algo que é o seu produto: a sociedade civil é o que é autorizado pelo Estado e que ele pode reivindicar como prova de que funciona de maneira eficaz. Tendo em conta estes paradoxos, não admira que a questão da segurança esteja hoje tão presente no discurso político. Isso mostra bem que o liberalismo político e económico triunfante já não tem a segurança conquistadora que teve no passado: tornou-se louco, cínico, inquieto, reenviando para a verdade nua das suas contradições atuais e da sua perda de sentido.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 5.5.2012.

Ao pé da letra #189 (António Guerreiro): Exercícios de medialogia

Breve e modesto contributo, à maneira flaubertiana, para o medialeto em uso. ADN: sigla que serve para biologizar e essencializar (“está no ADN da nossa empresa...”), o que outrora era exclusivo do pensamento da Direita; Álvaro Santos Pereira: sempre Álvaro; Ativos: tudo o que pode ser convertido em valor económico e financeiro, até o património cultural, que era dito, numa definição clássica, “sem preço”; Balanço: sempre provisório; Bom tempo: sempre sol, sem frio, mesmo que nem uma erva medre; Competitivo: é a virtude das virtudes, em época de darwinismo social e económico, comparada com a qual o espírito olímpico é uma mariquice; Contextualizar: operação jornalístico-didática de alcance filosófico-narrativo que, embora esquecida do que é um texto, não esquece que tudo tem uma causa e uma circunstância; Disparar: versão popular da teoria das catástrofes, designa um efeito súbito e inesperado; nesta aceção o verbo tem um aspeto reflexo: ninguém dispara, as coisas disparam-se;  

Em alta/Em baixa: ao contrário do revisionismo histórico, que revê e usa o passado, o revisionismo das entidades que regulam e quantificam a vida económica e financeira revê o que tinha sido anunciado como futuro; Em linha com: tradução literal de “in line with something”, tem a vantagem de aludir simultaneamente ao imperativo da conformidade e da norma (“comporta-te na linha”) e à potência do online; Empreendedorismo: “ismo” que, à semelhança do futurismo, do dadaísmo, do expressionismo e outros “ismos” designa a única vanguarda do nosso tempo, a vanguarda depois da época das vanguardas; Figura: sempre emblemática; Ícone: o mesmo que “ídolo”, mas com a vantagem (ignorada, aliás, pelos iconófilos falantes) de recuperar um sentido religioso em matéria tão profana; Leitor: sempre voraz e compulsivo, isto é, estúpido como um ogre; Marcelo Rebelo de Sousa: sempre professor.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 28.4.2012.

Ao pé da letra #188 (António Guerreiro): Indústria da consciência

Quando entramos numa livraria de uma grande cadeia para comprar o livro X do autor Y, o mais certo é termos de o procurar seguindo códigos de exposição concebidos pela própria livraria e que obedecem a uma racionalidade que consiste em condicionar a consciência do cliente. A livraria pensa por nós e exibe com garbo os seus bons ofícios, retirando-nos a soberania da qual julgamos ser possuidores. Servimo-nos habitualmente do conceito de indústria cultural para explicar este modo de funcionamento de quem venda esta singular mercadoria, mas talvez o conceito forjado por Adorno e Horkheimer se revele inadequado. Já nos anos 60 do século passado um grande poeta e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger, sentiu a necessidade de introduzir um conceito que era um corretivo ao da Escola de Frankfurt: o conceito de Bewußtseins-Industrie, de indústria da consciência, que se revela ainda hoje com um maior poder analítico.  

O que Enzensberger viu com uma enorme acuidade é que a noção de “indústria cultural” resulta de uma enorme “ilusão ótica” dos críticos da cultura. Porque não se trata de uma indústria que produz cultura, nem sequer de uma indústria que produz qualquer coisa; produzir não é o que lhe interessa, mas sim a mediação derivada, secundária ou terciária, do produto, fazendo-o passar por aquilo que ele não é. Se a palavra “indústria” encontra ainda o seu lugar, é para sugerir que é a consciência que é induzida, instilada, mediada e reproduzida – mas não produzida – industrialmente. Segundo esta conceção, chamar-lhe “indústria cultural” só serve para esconder e fazer parecer inócuas as consequências verdadeiramente “culturais” do funcionamento da indústria da consciência. E é isto que, como um laboratório, sem comparação com um supermercado – onde se explora um impulso e não uma consciência induzida –, nos mostram hoje as livrarias.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 21.4.2012.

[Programa de cinema: ‘En nuestros jardines se preparan bosques’]

Ao pé da letra #187 (António Guerreiro): Modos de dizer

Günter Grass escreveu um poema, que foi publicado no “Süddeutsche Zeitung” – “O que deve ser dito” –, contra o que ele entende ser a ameaça bélica de Israel, que não é verdadeiramente um poema. Se fosse, pelo teor de conflito e polémica que já provocou, merecia ser dado como exemplo da problemática relação entre poesia e política. De poema, tal texto só tem as cesuras que lhe dão a forma versificada, e a questão que se coloca é por que razão o escritor quis que o seu teto com carácter de manifesto tivesse a forma de um poema e não de um texto em prosa. É verdade que, dessa maneira, ele pode vagamente reclamar-se dos mais antigos poemas políticos em língua alemã, os poemas gnómicos, sentenciosos, chamados Sprüche, mas é mais plausível que tivesse antes querido introduzir um fator de obliquidade, por pudor ou má consciência em isolar completamente o conteúdo político do texto. Através dessa dissimulação poética, paradoxal porque óbvia (tanto mais que há uma alusão a Hölderlin no título), o escritor Günter Grass assinala implicitamente que entrou em conflito com a sua tomada de posição política.  

Tendo escolhido a forma do verso, introduziu interrupções, hiatos, quis significar que “o que deve ser dito” é algo de que não se pode falar. A forma da poesia não lhe serviu senão para prolongar um subentendido. E isso é o que o seu texto tem de mais polémico, porque se trata da mais funda questão alemã desde a II Guerra Mundial, com violentas emergências cíclicas (antes de Grass, tinha sido outro escritor, Martin Walser, a provocar uma polémica semelhante, em 1998, no discurso de agradecimento do Prémio da Paz dos Livreiros Alemães). O efeito que Grass quis produzir com o seu poema faz lembrar uma frase de um outro escritor alemão, Tucholsky, que morreu em 1935: “Por causa do mau tempo, a revolução alemã produziu-se no domínio da música.”

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 14.4.2012.

[‘Atelier’ de Susana Duarte]

Ao pé da letra #186 (António Guerreiro): Políticos e cronistas

Surgiu e prosperou em Portugal uma categoria que não existe em nenhum país: a do político que tem colunas de opinião nos jornais e assento como comentador na televisão. Este prodígio de ubiquidade, naturalizado pelo hábito, está ao serviço da hipertrofia da opinião – essa “magia negra”, como dizia Kraus – e da política dos ‘protagonistas’ (palavra fatal) que prescindiu das ideias. O político cronista e comentador segue um protocolo de denegação da sua incompatibilidade: faz pequenas inflexões que não o subtraem ao território pragmático de fé e conveniência, mas que lhe permitem exibir um je-ne-sais-quoi e um presque-rien de autonomia, adquirindo aura de autor no mundo mimético dos atores. Estas pequenas deslocações, propiciadas por um stock de operações retóricas, servem dois critérios: garantem o mínimo de crédito à opinião (já que ela não se deve confundir com propaganda) e simulam o alargamento da esfera pública.  
Os políticos investidos de cronistas fazem uma incursão redentora no mundo profano, como quem se desembaraça provisoriamente das suas vestes. O problema, porém, como está bem patente no que escrevem e dizem, é que se trata de um jogo de representações que tem como resultado não o alargamento da esfera pública e civil mas uma extensão do palco para o mero jogo político. O teor de pensamento crítico que produzem é nulo. A incompatibilidade entre o lugar de político em funções e cronista político, reconhecida em todo o lado, não sofre nenhum desmentido pelos hábitos nacionais, a não ser num plano meramente formal. Muito haveria a ganhar, no debate político, se esta forma de colonização fosse, como em todo o lado, considerada inadmissível, e fossem convidados, com a mesma frequência e generosidade, os “autores” do mundo civil a entrar no território que ocupam os políticos-atores.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 6.4.2012.

O último espectador | The last spectator



Câmara de gelo legendado (Érica Zíngano)


Érica Zíngano

Ao pé da letra #185 (António Guerreiro): Revolta e revolução

As cargas policiais contra manifestantes, tal como elas se deram, mostram que há um medo latente da revolta, numa altura em que a revolução desapareceu completamente do horizonte. Num livro sobre a revolta spartakista, em que foi assassinada Rosa Luxemburgo, o grande mitólogo Furio Jesi distingue a revolta e a revolução segundo um critério que tem a ver com duas diferentes experiências do tempo: a revolta é a suspensão do tempo histórico e tem um valor em si mesma, independentemente das suas consequências e das suas relações com a historicidade; pelo contrário, a revolução implica um cálculo estratégico de longa duração, visa transformações no tempo histórico. Quando deixa de haver lugar para a revolução, mas apenas há para a revolta, é porque a única experiência do tempo é a do quotidiano e não a da história, é a do vivido e anão a do que há de vir. A revolta não precisa de se projetar em nenhum horizonte.  
As coisas podem ganhar uma feição dum pouco diferente se pensarmos no “comité invisible”, que surgiu há alguns anos em França e, sob anonimato, publicou um livro que teve uma enorme repercussão, L'insurrection qui vient. Podemos perceber que este “comité invisível” entende por insurreição algo que não é diferente da revolta. Mas, ao contrário de toda a mitologia esquerdista vinda do maio de 68, propõe a tática da invisibilidade, da sabotagem, do anonimato, recusando dar a ver a sua causa (isto é, “mediatizá-la”), furtando-se assim aos ataques e abdicando de toda a retórica do heroísmo. Tornar visível é, segundo o “comité invisível”, a grande armadilha em que cai toda a ação política — não apenas a da revolta – do nosso tempo. Daí que, em vez da linguagem primária própria da estratégia da visibilidade, usem uma linguagem complexa e elaborada, de feição literária. No fundo, ao defender uma “insurreição que vem”, o “comité invisível” reformula a ideia da revolta.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 31.3.2012.

 


para Miguel Marías  

Ao pé da letra #184 (António Guerreiro): Democracia e demofobia

Este texto foi escrito na véspera de uma greve geral. No entanto, não é um exercício de futurologia, mas de ciência exata, dizer que amanhã o número dos grevistas apresentado pelo Governo não é de perto nem de longe comparável ao que reivindicarão os sindicatos. Este é um ritual imutável. O efeito da greve consiste num número virtual, e por isso ele é minimizado de um lado e maximizado de outro. Mas a manipulação dos números, por ambas as partes, mostra com toda a evidência que a democracia é uma formalidade que até consente a demofobia. Para os governos democráticos, o povo é soberano no voto, mas nunca é soberano – está sempre a ser submetido à manipulação – quando decide protestar ou pôr em causa a infalibilidade governamental. Por mais que seja reconhecido formalmente o direito à manifestação e à greve, a atitude dos governos (e, simetricamente, também dos sindicatos) consiste em diminuir a legitimidade desses atos e, de um modo geral, em não reconhecer aos cidadãos o sapere aude, o ousar pensar, que Kant dizia ser a saída do estado de menoridade que a razão iluminista consagrava.  
A demofobia, bem visível em todas as circunstâncias da prática democrática da governação e não apenas no momento das greves, mostra que aquilo a que chamamos democracia releva de uma profunda ambiguidade, que um lúcido filósofo italiano definiu nestes termos: ela é, por um lado, uma racionalidade político-jurídica e, por outro, uma racionalidade económico-governamental. O problema é que estas duas racionalidades se tornaram completamente heterogéneas, opostas, de tal modo que aquilo que política e juridicamente é legítimo e constitui a democracia acaba por ser negado no plano económico-governamental. Num momento como o que vivemos, em que esta última é a regra e o critério de tudo, a democracia, como já todos percebemos, não passa de tagarelice.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 24.3.2012.

Ao pé da letra #183 (António Guerreiro): Política e linguagem

Quem leu os jornais no passado fim de semana pôde percorrer quase duas dezenas de artigos de opinião sobre o ministro da Economia, que viu o seu nome próprio passar a nome impróprio. Esta proliferação cancerosa de uma monotemática diz muito acerca do regime tautológico da “opinião” e ainda mais sobre aquilo que se chama vulgarmente de “comentário político”. Tal como é praticado, este comentário não é a interpretação de um discurso, não é uma linguagem sobre a linguagem (a política é essencialmente isso: linguagem), não é um modo de criar uma esfera pública crítica e racional. É, antes, a amplificação de um ruído de fundo e o exacerbar de um pragmatismo de curto alcance, onde parece que só existem táticas e estratégias. Como se as palavras dos políticos fossem meramente instrumentais e não a própria matéria política. O comentário ficou assim reduzido ao mero objectivo de querer saber o que os políticos fazem ou querem fazer com o discurso que proferem ou com o silêncio que guardam.  
Isso está bem patente nos comentários ao famigerado prefácio do Presidente, que incidiram sobre a dimensão pragmática, as intenções, os cálculos e os efeitos produzidos (mas ele só produz efeitos pelos comentários que suscita, o que os coloca numa relação de funcionalidade relativamente ao discurso político). Mais interessante e importante do que isso é a análise do discurso em si, na sua literalidade e independentemente do efeito que provoca na realidade. Uma análise imanente desse discurso encontra algo muito mais essencial, que motiva as perguntas: que pensamento (político ou outro) emerge de uma tão pobre redação escolar?, que densidade pode ter a sintaxe e o vocabulário daquele prefácio?, não é uma tal incapacidade de ir além da redação escolar uma prova de que as palavras do Presidente são uma expropriação da política?

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 17.3.2012.

Ao pé da letra #182 (António Guerreiro): Quem sentir falta que leia

A intervenção mais inteligente e intempestiva, vinda da área cultural, nos últimos tempos, foi a de Hélia Correia, no programa Câmara Clara, ao responder assim a quem lhe perguntou que medidas deviam ser tomadas para tornar mais conhecida a obra de Maria Gabriela Llansol. “Nenhumas. Quem sentir falta que leia”. Interromper o proselitismo e o nauseabundo ambiente de campanha instalados desde há muito em várias áreas culturais, nomeadamente nos livros, é uma tarefa urgente, se queremos sobreviver a estas formas de condicionamento dos espíritos – suprema manifestação do niilismo contemporâneo. É preciso destituir esta ‘fala’ sobre os livros endereçada a quem presumidamente pouco ou nada sabe. Porque o contrário é que é necessário supor: que todo o discurso tem como interlocutor alguém que sabe muito mais. E isto tanto vale para as manifestações onde se difundem títulos de livros e nomes de autores, como para a crítica, cujas regras, protocolos e modos discursivos foram completamente subvertidos e adulterados pelo estúpido imperativo de aconselhar, de dizer implícita ou explicitamente que é “obrigatório”, de presumir a incapacidade e a falta de saber de quem está do outro lado.  
A crítica de um livro que não suponha a inteligência e a soberania intelectual do leitor entra imediatamente numa outra categoria: a do marketing, a da difusão, a da propaganda. Não há nada a difundir, nada a aconselhar, nada que seja obrigatório. Presumir o contrário é entrar fatalmente no discurso da estupidez que se manifesta em injunções deste tipo: “Este livro faz-lhe falta, aceite o meu conselho.” Conseguir, no entanto, que alguém sinta, por si, em total soberania, uma falta que não sentira antes, isso sim, é a única tarefa capaz de nos salvar da horda triunfante de defensores dos livros e da literatura, dos quais, todavia, ela precisa de ser salva.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 10.3.2012.

Ao pé da letra #181 (António Guerreiro): A ideia de universidade

Uma reportagem do Público de terça-feira sobre “a fusão orgânica” entre as universidades Clássica e Técnica de Lisboa mostra, com grande evidência, que se trata de perseguir um consabido modelo empresarial transnacional, que coloca toda a ênfase na noção tecno-burocrática de excelência, e em que os alunos são os clientes. Este é o modelo das universidades americanas que toda a Europa parece querer importar. Porém, é preciso não esquecer que há uma “ideia da Europa” que está intrinsecamente ligada à “ideia de universidade”, e quando uma entra em ruína a outra tem o mesmo destino. “A ideia de universidade” designa uma problemática de carácter filosófico desde que, em 1923, Karl Jaspers escreveu um texto com esse título sobre a universidade alemã. Foi na Alemanha, recordemos, que nasceu a ideia moderna de universidade. Primeiro com Kant, que introduz o ideal de uma unidade orgânica dos saberes, sob a égide do conceito de razão e como projeto histórico para a humanidade.  
Mas é com Humboldt, e o modelo que ele instituiu na Universidade de Berlim, que nasce propriamente a universidade moderna, em que a ideia alemã de cultura do idealismo está no centro, e não já a ideia kantiana de razão. Quando, já perto de nós, esta ideia de cultura e o seu projeto de socialização e emancipação entram em crise de existência e legitimidade, é a própria universidade que perde a sua “ideia” e passa a incidir-se nos métodos do benchmarking universitário. É aí que a universidade da excelência emerge no lugar da universidade da cultura. E isso acontece quando já não há uma ideologia da cultura nacional em que se baseava a universidade moderna. Nesta circunstância, a pergunta que se começou a fazer (fá-la, por exemplo, o universitário americano Samuel Weber) é se há ainda uma “ideia” de universidade, e não qual é hoje a ideia de universidade.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 3.3.2012.


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