Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #10: Aos leitores de Etty Hillesum


Não li ainda Etty Hillesum. Nem o diário nem as cartas, onde se encontram as suas reflexões sobre a vida na Holanda ocupada e no campo de Westerbork durante a Segunda Guerra Mundial. Conheço-a apenas do ensaio que Maria Filomena Molder publicou na revista Intervalo, bem como dos bonitos fragmentos partilhados e comentados pela Cristina nos dias felizes. Hesito em escrever estas breves notas, pois não possuem nem o rigor nem o tempo de maturação que deviam. E estou consciente que não é de todo suficiente proteger o seu risco com a profusão de “talvez”. Mas respondo à urgência da coincidência, no mesmo dia, da exibição do filme de Harun Farocki RESPITE/ADIAMENTO, incluído em MEMORIES, e de um artigo no jornal Público sobre Etty Hellisum, que vai ser publicada entre nós.
O filme de Farocki, mudo e com intertítulos, é composto estritamente das imagens que nos chegaram de um filme inacabado de divulgação (!) do Campo de Trânsito para Judeus de Westerbork, e delas constitui uma análise. Ao vê-lo, comecei a interrogar-me se pode a sombra de Etty Hellisum, a deixada pela sua vida e obra, que se confundem, ser parcialmente compreendida pelo conhecimento das condições de vida particulares em que se desenrolou.


Talvez estas condições na Holanda ocupada, e em Westerbork em particular, fossem substancialmente diferentes do que seria suposto esperar, e tenham assim permitido a singularidade do seu testemunho e reflexão, por relação aos outros testemunhos conhecidos. Será certamente uma pergunta inadequada de fazer, mas... Teriam as reflexões de Etty Hillesum sido possíveis em Auschwitz? Materialmente, não. E quanto à sua substância? Nunca saberemos o que diria Etty Hellisum perante Auschwitz, pois ela não restou para testemunhar. Sobre as condições de vida em Westerbork, o filme de Farocki está cheio de desagradáveis surpresas, cujo carácter apenas ilusório é difícil de aceitar. Embora, numa primeira leitura, explicável pela condição da sua feitura – uma encomenda do responsável militar do campo –, que possibilitaria uma encenação generalizada, as imagens acabam por cumulativamente ir desmentindo essa ilusão pacificadora. Ainda menos nos ilibam de as olhar com atenção. De Etty Hellisum, à luz destas imagens, ficamos com um testemunho que compreende apenas a expectativa do extermínio, não o próprio.
Tudo nos pertuba nestas imagens, desde as existências relativamente despreocupadas, ao trabalho não-escravo, à mera existência de sorrisos, ao espectáculo de cabaret e vaudeville (durante o qual os artistas em palco retiravam as estrelas amarelas), aos exercícios de ginástica em campo aberto, a um jogo de futebol, à pacatez inesperada, e ao culto do trabalho próprio, precisamente por não terem nada de perturbante. É assim que tudo nelas aponta para um horizonte diferente do que se esperaria de imagens de um campo, um horizonte do qual o extermínio está ausente, ou profunda e paradoxalmente escondido.
A ausência de perturbação que mais nos interpela, ou antes, que mais faz problema nestas imagens, é a partida filmada de um comboio para Auschwitz, numa data específica que foi possível estabelecer pela leitura detalhada de uma das imagens, posteriores à partida de Etty Hellisum para esse mesmo campo de concentração e extermínio, onde viria a morrer. Nessa partida sobressai a pacatez dos passageiros, a ausência de qualquer tipo de violência e, principalmente, esse gesto, do mais extremo, e de um humor macabro, de um vagão de mercadorias carregado de pessoas ser fechado com a ajuda solícita de um passageiro [conferir imagem]. Como escreve no seu filme Farocki, a 19 de Maio de 1944, “um comboio com 691 pessoas saiu de Westerbork”; “neste dia uma criança acenava adeus” de dentro de uma carruagem e “um homem ajudava a fechar a porta do vagão que o levava”.


Era este efectivamente o campo que Etty Hellisum visitava e onde depois ficou definitivamente retida, antes de ser enviada para Auschwitz. Ao vermos estas imagens, emerge um primeiro paradoxo, por confronto a elementos do testemunho dela. Como compreender o conhecimento que parece possuir do extermínio que lhe está reservado, a ela e aos outros judeus, ciganos e restantes detidos de Westerbork? Seria ela uma das excepções informadas? Estariam igualmente a generalidade dos outros detidos cientes do seu destino? Ou teriam os informados, num silêncio apenas aparentemente semelhante ao dos judeus dos comandos especiais que tinham chegado à conclusão da profunda inutilidade do contar, compassivamente suprimido a informação dos restantes?
Aquilo que se lê, que Farocki nos lê, nas imagens do filme de divulgação de Westerbork, é a impossibilidade, pelo menos a evidente improbabilidade, desse mesmo conhecimento do destino, dado o comportamento revelado tanto pelos que sobem para os vagões como pelos que os convidam a subir. O seu comportamento apaziguado ao entrarem para os vagões, para nós hoje pesadamente isento de quaisquer sinais de perturbação, não o indica de todo.
No Crematório IV de Auschwitz “trabalhava” Filip Müller, sobrevivente de cinco liquidações do Sonderkommando, com cujo testemunho, posterior ao extermínio, por oposição ao, em parte anterior, de Etty Hellisum, se deveria talvez comparar (não é a palavra adequada, bem sei), seja o publicado em livro seja o constante no filme SHOAH.
Maria Filomena Molder concerteza corrigir-nos-ia, salientando que não se trata de todo de esperança. Filip Müller, de dentro de uma câmara de gás, simultaneamente objecto e, ainda que pouco, sujeito-agente de uma das mais supliciantes experiências humanas, afirma, no entanto: «quem quer viver está condenado à esperança». Talvez, por relação a Etty Hellisum, o acento devesse ser posto na primeira parte da frase de Müller, na condição de «quem quer viver». Porque, se bem que a experiência dos campos se defina, aos nossos olhos de hoje, como a da irredutível sobrevivência, a história humana é fértil em casos de abdicação da vida, pelo menos da orgânica ou vegetativa, em prol de uma outra vida, mística ou íntima, que os sujeitos dessa abdicação entendem poder dispensar.

Talvez seja esse o paradoxo de Etty Hellisum, mais um dos que Auschwitz produziu e que continuam a atormentar-nos, e aos quais não podemos virar os olhos: o da (quase) coincidência de uma abdicação mística da vida com o lugar e tempo da sua mais extrema aniquilação. E cumpre-nos tentar compreender se se trata de um gesto de uma recusa libertadora ou de uma profunda e penosa renúncia. Talvez estes dois gestos, que estamos habituados, que somos forçados a julgar incompossíveis no tempo de uma vida, sejam, na figura de Etty Hillesum, paradoxalmente confundíveis.

Sem comentários:


Arquivo / Archive