Ainda não começámos a pensar
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 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Não guardo rancor, embora...


«Ich Grolle Nicht» (op. 48, n.º 7) de Robert Schumann, segundo poema de Heinrich Heine, cantada em dinamarquês por Gurli Plesner, que faz nesta cena a voz de Gertrud (interpretada por Nina Pens Rode) em Gertrud (1964) de Carl Th. Dreyer.

Não guardo rancor, embora o meu coração se parta,
Amor perdido para sempre! Não guardo rancor.

Mesmo quando brilhas radiante entre diamantes,
Nenhum raio de luz chega à noite do teu coração.
Sei-o há tanto tempo.

Não guardo rancor, embora o meu coração se parta...

Vi-te num sonho,
E vi a noite que reina no teu coração,
E vi a serpente que te aperta o coração,
E vi, meu amor, como és miserável.
Não guardo rancor.

3 comentários:

André Dias disse...

Ich grolle nicht, und wenn das Herz auch bricht,
Ewig verlor’nes Lieb! Ich grolle nicht.
Wie du auch strahlst in Diamantenpracht,
Es fällt kein Strahl in deines Herzens Nacht.
Das weiß ich längst.

Ich grolle nicht, und wenn das Herz auch bricht,
Ich sah Dich ja im Traum,
Und sah die Nacht in deines Herzens Raum,
Und sah die Schlang’, die dir am Herzen frißt,
Ich sah, mein Lieb, wie sehr du elend bist.
Ich grolle nicht.


[ esta tradução alemã que acompanha o cd do schumann é obviamente uma aldrabice. reparem como se prolonga, apesar dela já não a poder cantar... a portuguesa, pela nossa mão tantas vezes inábil, não está nada mal, embora seja verdade que daquela língua não percebemos nem uma palavra. talvez por isso... ah, que saudades do original dinamarquês, tão vacilante, sons de piano, cheio de ais, suspiros, barulhos de pessoas a cair, passos... que bela língua! mas tão difícil... ninguém nos quer ajudar na sua tradução? ]

Margarida Vale de Gato disse...

Conheces isto? Não é por eu ter traduzido mas... (claro que é, caso contrário, boba, também não conhecia. De Sharon Olds, livro Satan Says

SALAS DE ESTAR REPUBLICANAS

Conheço bem as salas de estar republicanas,
espaçosas, com sua mobília descomunal,
empalhadas de linho florido, as grandes
mesas de café de mogno pesadas como mesas de mapas
numa sala de armas, as enormes patas com garras
fendendo fundo o papel à largura da parede,
os candeeiros de mesa, desmesurados, brutais,
os biombos de seda selvagem sobranceiros
espargindo um imenso halo de ouro,
a luz dos ricos, os tectos altos,
a incongruência dos espaços entre cadeiras e sofás
depois da maioria dos convidados ter partido.
Os que ficam estão bêbedos, pelo que ocupam
mais espaço, as suas espessas auras
financeiras dilatando-se no silêncio. Tudo
suspenso no brilho de 14 quilates
das luzes acesas no máximo.
Não reparamos logo que qualquer coisa
se passa junto à entrada
da irrepreensível sala de jantar —
uma qualquer barafusta. Na carpete, o anfitrião
ajoelha-se sobre o pescoço de uma mulher,
o rosto tingido de sangue. As faces
dele rebrilham de suor e felicidade.
Quando ela morre, cintila extasiado, a sua vida
faz sentido. Tem um breve instante,
antes que alguém se aproxime,
de imaculada graça — finalmente descobriu algo
de que realmente gosta, algo que pode fazer
por desporto. E o melhor é que não custa
absolutamente nada.

(bolas, acho que não dá para formatar, mas enfim...)

André Dias disse...

obrigado... estranhamente, porque no gertrud se trata apenas de um desmaio (além do facto enganador de lá para cima serem monárquicos), o poema tem a ver. talvez sejam «as espessas auras (...) dilatando-se no silêncio», antes de um "momento de verdade" (nesta cena do filme há outro que o antecede, quando um homem chora)... mas não será talvez mais subtil quando nada se resolve, ninguém se aparta, e temos apenas a visão das vidas desperdiçadas, sem que cheguem a ser anuladas?


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