Ainda não começámos a pensar
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 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Ao pé da letra #91 (António Guerreiro)

Sobre a tradução que não conhece mediação crítica  

«Também por cá vamos tendo as traduções simultâneas e entrando nos percursos do internacionalismo literário. Estes livros, quase sempre de ficção, chegam a outras línguas quase ao mesmo tempo em que é editado o original, configuram um tráfico – sintoma de uma perda de afirmação das literaturas nacionais – que destrói o sentido que tinha a troca intercultural da tradução, ao qual se referia Goethe com o seu conceito de Weltliteratur, de literatura mundial. A tradução como operação histórica plena de sentido, linguística e culturalmente, tal como foi teorizada pelo Romantismo, significava uma operação duplamente crítica: porque se exercia no pressuposto da intraduzibilidade de um texto; porque implicava uma forte mediação crítica nessa tarefa de apropriação.

Nestas traduções simultâneas, abdica-se de qualquer gesto crítico: os livros são negociados e atravessam fronteiras, antes de serem lidos, para entrar no mercado mundial dos conteúdos, e contam depois, em todo o circuito, com um passaporte diplomático que lhes dá direito a benefeciarem desta regra, outrora formulada por Guy Debord: “Tudo o que aparece é bom, e tudo o que é bom aparece”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 17.4.2010.

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