Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

A ética é uma questão de travellings

Nuit et brouillard (1955) de Alain Resnais (excerto)

«(...) a Ética, ou seja, uma tipologia dos modos de existência imanentes, substitui a Moral, que refere sempre a existência a valores transcendentes.» (1)

«Rohmer: (...) tenho algumas reservas, na medida em que certos elementos de Hiroshima não me seduziram tanto como outros. Nas primeiras imagens havia algo que me incomodava. De seguida, rapidamente, o filme faz-me desaparecer esta sensação de incómodo. No entanto, compreendo que se pode amar e admirar Hiroshima e, ao mesmo tempo, considerá-lo em certos momentos irritante.
Doniol-Valcroze: Moralmente ou esteticamente?
Godard: É a mesma coisa. O travelling é uma questão de moral.
» (2)

«(...) Isto produz também uma coerência da encenação: o travelling que se prende às corridas dos homens, que esquadrinha e segue “a deslocação dos [seus] pés”. A moral do cineasta consiste em manter-se fiel a esse acto de cinema original: um ritmo, um estilo, um olhar, uma encenação que mostra o corpo do homem e mais particularmente os seus pés. “A moral é uma questão de travellings” , escreve então Luc Moullet para autenticar essa ética formal, que atesta algumas linhas mais abaixo designando com humor Samuel Fuller como “o único cineasta que filma com os pés”.
Moullet forja aqui uma expressão que, retomada em seguida por Godard e Rivette, se vai tornar célebre. Dado que não é nem o tema nem o discurso de um filme que importa, é preciso julgar Fuller com base na sua encenação, na sua maneira puramente cinematográfica de contar uma história e de mostrar os corpos (particularmente os pés). E aqui que reside a única ética do filme, “a moral é uma questão de travellings...”, fórmula reutilizada com algumas variantes na ocasião da estreia parisiense de Pickup on South Street, taxado de anticomunismo primário: “Notemos que o anticomunismo se limita ao tema: nem os enquadramentos, nem a mistura, nem a montagem são moscovofóbicos...” Algumas semanas mais tarde, em Julho de 1959, na ocasião de uma mesa redonda sobre Hiroshima mon Amour, Godard inverte os termos: “O travelling é uma questão de moral”. A inversão é também o sinal de um golpe de força: uma generalização do conceito que associa previamente cada gesto do cinema a um significado” moral, forma de reencontrar o olhar moral caro a Rossellini. Para Moullet, a moral é uma questão de forma; para Godard, é o olhar sobre o cinema que, em si, contém essa moral. Aliás, ao retomar e ao inverter a proposição de Moullet, Godard associa-a essencialmente à representação dos campos de extermínio. É sem dúvida um dos primeiros a querer avançar uma moral da representação do extermínio de um ponto de vista estético. O que de facto choca Godard “é uma certa facilidade em mostrar cenas de horror, porque se passa rapidamente para lá da estética”. Ele denuncia, tomando o exemplo de um filme recente, Judgment at Nuremberg, a obscenidade que há em “estilizar o horror”, comparando este género de procedimento com “as imagens pornográficas”.
Em Junho de 1961, Jacques Rivette intervirá no mesmo terreno para condenar o maneirismo de um filme de Gillo Pontecorvo, Kapo. Os temas de Fuller apontam-no à vindicta dos “bem pensantes”, mas a sua moral de cinema salvava-o aos olhos dos Cahiers; Kapo representa exactamente o caso inverso: o seu tema é gravemente importante (trata-se de um filme sobre os campos nazis), mas a sua ausência de ética cinematográfica torna-o obsceno. “Da abjecção”, assim titula Rivette, que escreve então uma análise determinante: “Citou-se muito, à esquerda e à direita, e na maioria das vezes muito tolamente, uma frase de Moullet: ‘A moral é uma questão de travellings’ (ou a versão de Godard); quis-se ver aí o cúmulo do formalismo... Vejam entretanto, em Kapo, o plano em que Riva se suicida, atirando-se sobre o arame farpado electrificado; o homem que decide, nesse momento, fazer um travelling para a frente de modo a reenquadrar o cadáver em contra-picado, tendo o cuidado de inscrever exactamente a mão levantada num ângulo do seu enquadramento final, esse homem só merece o mais profundo desprezo.”» (3)

1. Deleuze, Spinoza – Philosophie pratique, Minuit, Paris, p. 35.
2. «Hiroshima, notre amour», [mesa-redonda entre Rohmer, Godard, Kast, Rivette, Doniol-Valcroze sobre o filme de Resnais] Cahiers du cinéma, n.º 97, Julho 1959; tradução port. in Nouvelle vague, Catálogo da Cinemateca Portuguesa, p. 387.
3. Antoine de Baecque, «A moral é uma questão de travellings», [principalmente sobre a recepção crítica de Fuller em França] Trafic, n.º 25 [Primavera] & 26 [Verão], 1998; tradução port. in Nouvelle vague, Catálogo da Cinemateca Portuguesa, p. 301-302.

5 comentários:

C. disse...

ainda (em inglês):

The Tracking Shot in Kapo, Serge Daney

pedroludgero disse...

É bom ouvir falar de novo do grande Samuel Fuller, que mesmo ao nível do discurso sempre me pareceu transcender o primarismo yankee.
É mau ter de constatar que quem vai ao cinema ainda não tenha percebido a verdade elementar aqui transcrita.
Abraço

André Dias disse...

prefiro pensar que no cinema não há verdades elementares.

pedroludgero disse...

Peço que não interprete as minhas palavras como se estas tivessem um subtexto opressivo. É claro que não há verdades elementares em lado nenhum. Foi uma maneira desajeitada de falar.
Há, isso sim, verdades La Palisse. O cinema é apenas uma montagem de imagens e sons (por definição e condição). A "narrativa", o "discurso" não são a sua essência última. Se falo em "verdade", deveria dizer "evidência". Mas defendo a "elementaridade" dessa evidência, porque se trata de reduzir o cinema aos seus elementos de origem.
Quanto à questão de "ética", isso é muito mais discutível.

André Dias disse...

caro pedro, perdoa a minha agressividade. deve ser por falta de hábito em ser interpelado... não sei se não há verdades elementares em lado nenhum. posso até concordar vagamente quanto à “evidência” dos “elementos” no cinema. no entanto, não estavas a falar de “discurso”?... queria também esclarecer que não encontrei nenhum “subtexto” opressivo nas tuas palavras, pois é mesmo o “texto” que é opressor. a tua frase era: «é mau ter de constatar que quem vai ao cinema ainda não tenha percebido a verdade elementar aqui transcrita». é opressiva porque está a fazer um juízo, para mais mascarado de “constatação”, e, principalmente, por nem sequer descreveres o “elemento” “verdadeiro” a que te referes (os textos citados diziam muita coisa). sinceramente, não percebi do que estavas a falar (da avaliação do fuller pelo moullet?). assim sendo, fica um sabor “retórico” um pouco desagradável. bom, mas não é assim tão grave... já agora, que a «questão de “ética”» seja «muito mais discutível» também te esqueceste de “discutir”... nada disto, obviamente, tem alguma coisa a ver com uma avaliação da obra do fuller. de resto, és sempre bem-vindo. um abraço, andré


Arquivo / Archive