Ao pé da letra #151 (António Guerreiro): Os professores de bancada
Uma breve passagem — durante três anos — pelo ensino básico e secundário, como professor, não me dá autoridade para falar em nome da experiência, mas permite-me, ainda assim, perceber quão irritante é ouvir as pessoas sem qualquer ligação à escola e ao ensino fazerem profundos diagnósticos do seu estado e terem certezas sobre o tratamento a administrar. Neste exercício de demonstração de ignorância e ingenuidade, há uma série de lugares-comuns que se cristalizaram num vocabulário destituído de toda a capacidade de descrição e que já não significa nada. Por exemplo, “facilitismo” e “eduquês”. Algo relacionado com o que estas duas palavras começaram existiu certamente e ainda deve existir, mas nenhum problema elas estão hoje em condições de identificar. Mais não seja porque foram submetidas a uma profunda erosão e passaram a fazer parte de um idioma vazio. São como palavras de ordem pronunciadas para simplificar. /¶ | Vejamos um exemplo: quando hoje se deplora — muito legitimamente — a retirada de Camilo Castelo Branco dos programas do secundário, não percebemos o fundo do problema se não verificarmos o seguinte: Camilo não está apenas ausente das escolas, está ausente da edição (alguns títulos avulsos, publicados ao sabor das circunstâncias, não alteram o panorama) e, por conseguinte, ausente das livrarias. Da vastíssima obra de Camilo não existe uma edição crítica. É certo que a escola deve ser impermeável a estas circunstâncias e, provavelmente, a retirada de Camilo significa mesmo uma perniciosa vontade de pôr a literatura à distância. Mas isso não invalida que tal expulsão só seja compreensível quando integrada num contexto mais geral. Como fazer da escola um território onde não entra o mundo profano, se o mundo profano cresce, cresce, como o deserto de Nietzsche? António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 6.8.2011. |
Ao pé da letra #150 (António Guerreiro): O demónio da ideologia
O que é a ideologia? No sentido em que Hannah Arendt a definiu no seu ensaio sobre o sistema totalitário, a ideologia é a lógica de uma ideia que “permite explicar o movimento da história como um processo único e coerente”. Essa lógica releva, portanto, de uma vontade de cumprimento total e tudo se conforma a ela. Enquanto “lógica de uma ideia”, a ideologia é um modo de pensamento. Esta é a razão pela qual a mudança de campo ideológico acompanha, tantas vezes, a perseverança no modo de pensar: alteram-se os ideologemas, mas permanece a ideologia. Como operação que prossegue a totalidade ideológica, demos um exemplo culto — na sua crónica no Público de 22/7, escreveu José Manuel Fernandes: “Pelo menos desde que Oswald Spengler publicou, em 1917, A Decadência do Ocidente, que se discute o fim da hegemonia europeia.” /¶ | Embora sentindo-se autorizado por um artigo no Guardian onde Timothy Garton Ash, falando da decadência dos Estados Unidos e da Europa, evoca Spengler («Call Me Spengler if You Must»), J.M.F. vai muito mais longe na utilização do recurso ideológico que um título como “A Decadência do Ocidente” lhe fornece. E porque a ideia tem de se cumprir totalmente, na maquinação de J.M.F. não resta, de Spengler, senão a vaga e triste ideia de decadência. Ignora, assim, o que Spengler entendia por Ocidente; ignora que, para ele, a decadência significa que as culturas morrem de esgotamento interno, como os organismos vivos, e que isso nada tem a ver com causas económicas ou políticas; ignora que esta concepção de uma “morfologia da história universal” tem um fundamento metafísico — e não histórico — que faz da noção de destino algo que é imanente à história; ignora, em suma, o que disse verdadeiramente o autor a que se refere para o adequar à lógica de uma ideia. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 30.7.2011. |
Ao pé da letra #149 (António Guerreiro): A magia negra do jornalismo
O grande escândalo das escutas telefónicas pelos jornais ingleses do império Murdoch traz à mente a definição que o escritor austríaco Karl Kraus, que manteve durante cerca de trinta anos um anti-jornal, dava do jornalismo: a magia negra. Denunciar a venalidade e a corrupção, a tirania das frase pré-fabricadas (a fraseologia), a grande fábrica de produção da opinião pública foi a sua tarefa grandiosa, obsessiva e muitas vezes injusta. Com alguma inspiração krausiana, o semanário alemão Die Zeit dedicou há algumas semanas um dossiê à crítica do jornalismo, identificando um pecado fatal: a ausência, senão mesmo a impossibilidade, de autocrítica, a partir do momento em que se consumou uma ‘jornalização’ do mundo, a qual está em vias de engolir a literatura na reportagem universal. Este triunfo do jornalismo acaba mesmo por ser a razão da sua fraqueza atual: ele acabou por se disseminar por todo o lado, de tal modo que perdeu a sua morada e, desse modo, ficou desprovido de orientação e de instâncias de controlo e legitimação. /¶ | Como todas as instituições, dizia Kraus, a imprensa tem o hábito de responder à crítica explicando que não se pode generalizar a partir dos erros e dos vícios de um pequeno número. Mas ele, de maneira radical e sem nenhuma preocupação de ser justo, dizia que era preciso proceder exatamente ao contrário: não se pode, argumenta ele, desculpar e ainda menos absolver a imprensa generalizando a partir da honestidade e da coragem de uns poucos. Como é fácil perceber, Kraus foi muitas vezes uma figura detestável, mesmo quando era genial. Mas a sua verve, apesar de deformadora, tinha a virtude de obrigar à reflexão e de convidar à autocrítica. O que, no diagnóstico do dossiê do Die Zeit, é o que falta hoje aos media e os impede de fugir à cegueira a que estão expostos. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 23.7.2011. |
Ao pé da letra #148 (António Guerreiro): Moral e política
Sucessivas ondas de indignação, de diferentes proveniências, trouxeram à costa o cadáver da política. A indignação em massa é um fenómeno mimético e reativo, analisável no âmbito de uma geometria das paixões, mas estranho a uma racionalidade que dá origem a um discurso de conhecimento e de legitimação A indignação não se articula numa sintaxe, não tem fôlego para construir frases — esgota-se numa palavra exclamada ou numa interjeição (por mais prolongadas que ambas sejam), proferidas com os pulmões cheios de ar e o coração acelerado. Por isso, a sua capacidade para se tornar politicamente qualificada — para entrar no espaço de representação política — é quase nula: a política é discurso, lógica, conceptualidade. O consagrado “direito à indignação” existe precisamente porque a indignação é a resposta instintiva a um dano moral e, nesse sentido, é sempre legítima. Se alguém se sente indignado é porque tem razões para tal, por mais que essas razões não sejam as mesmas que indignam os outros. /¶ | Pelo contrário, as razões para fazer uma revolta, uma insurreição ou uma revolução precisam de ser partilhadas, precisam de fundar uma comunidade (e por isso são figuras políticas). Assim, um indignado, no momento em que se manifesta enquanto tal, tem sempre razão (porque é a ‘sua’ razão, tão íntima e idiomática que, mesmo que não consigamos compreendê-la, temos de atendê-la no seu direito), e a sua indignação, se for autêntica e não encenada, é indiscutível. Já a política não funciona desta maneira: mesmo aquilo que uns clamam como óbvias “injustiças políticas” é sempre objeto de debate e de conflito; uma injustiça política não é como uma injustiça moral. Ora, quando a indignação entra num espaço tradicionalmente reservado à política, é porque esta foi substituída pela moral. A isto se chama despolitização, e nenhum bem pode daí advir. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 16.7.2011. |
Ao pé da letra #147 (António Guerreiro): Cultura e civilização
A ideia, tão reiterada, de que há leis, procedimentos, decisões, práticas que constituem “retrocessos civilizacionais” baseia-se numa ideologia do progresso que se manifesta, na sua versão mais comum, em declinações deste tipo: “Como é que em pleno século XXI isto pode acontecer?” O espanto perante aquilo que é visto como um recuo da civilização nasce da conceção de que esta segue uma marcha imparável em direção a um ponto onde se atinge a perfeição absoluta. Mas o próprio conceito de civilização é bastante impreciso, e percebemos que ele é suscetível das maiores confusões quando nos lembramos que, no século XIX, na Alemanha, se forma a oposição — o “antagonismo abissal”, dizia Nietzsche — entre cultura e civilização. De certo modo, reivindicar a “Kultur”, contra a “Zivilisation”, como o faz Thomas Mann nas suas “Considerações de Um Impolítico”, significa defender a unidade, a forma, o estilo, o gosto, aquilo a que na época se chamava ainda ‘organização espiritual’, contra o domínio da civilização material. | Civilização era essencialmente uma invenção francesa, com a qual a nação revolucionária tinha tentado atribuir um valor universal ao que se passava, no campo das ideias e dos acontecimentos políticos, no hexágono. Contra a civilização que se alimenta de cosmopolitismo e de progresso tecnológico, de iluminismo e de ceticismo, a Alemanha reivindicou a “Kultur”, o enraizamento cultural. De tal modo que a “Kultur” alemã acabou por se tornar suspeita de conduzir ao nazismo, como se houvesse uma lógica que segue em linha reta do romantismo alemão ao Terceiro Reich, do hino ao Reno de Hölderlin à Solução Final. Seja como for, suspeitar da cultura e manter algumas reservas em relação às promessas progressistas da civilização deveria ser uma questão de método e de exigência crítica. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 9.7.2011. |
Ao pé da letra #146 (António Guerreiro): O crédito e a fé
A primeira lição que os leigos tiveram de aprender, nos últimos anos, com o clero internacional da economia e das finanças é que o dinheiro, como Deus, é aquilo que falta — o que, através da sua ausência, estrutura o mundo. Por isso, o investimento é esperado nesta terra como uma graça divina concedida pelo sponsor supremo. O dinheiro como “presença real” existe algures, tem de existir (se não, diz-nos o princípio da razão suficiente, existiria o Nada), mas é na falta que ele se manifesta. E o crédito não é senão a fé de que ele existe e é dotado de força messiânica. A segunda lição é que o espaço da fé é cada vez menor e o movimento de secularização avança, pondo fim ao “creditismo”. Com este neologismo, o filósofo alemão Peter Sloterdijk designou um modo de vida que se desenvolveu a partir do Renascimento, baseado na promessa, fundado na antecipação do futuro. | Ora, nesta perspetiva, nós teríamos entrado recentemente, e em estado de choque, numa época em que está cada vez mais bloqueada a capacidade de o crédito abrir um futuro, pois já toda a gente percebeu que os créditos só servem para reembolsar créditos anteriores. Esta contração drástica do futuro transforma o presente em tragédia e introduz uma racionalidade (eis o renascimento do logos grego, dois mil e quinhentos anos depois) que limita os horizontes da fé, isto é, do “creditismo”. Diz Sloterdijk: “Perguntem a um americano como é que ele encara o reembolso das dívidas acumuladas pelo governo federal. A sua resposta será: ‘Ninguém sabe.’” Mas se acabar a fé e começar a vontade de saber, o “creditismo” entra na sua crise final e a nossa civilização choca contra um muro de dívidas. Esta é a imagem moderna do Apocalipse bíblico. “The horror! The horror!” António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 2.7.2011. |
Ao pé da letra #145 (António Guerreiro): O sacerdócio cultural
Diga-se, sem reservas nem ironia: seria difícil encontrar um secretário de Estado da Cultura tão perfeitamente identificado com o mundo cultural como Francisco José Viegas. O seu currículo é o do perfeito agente cultural: o indivíduo que tudo converte à linguagem da cultura e a amplifica nas suas saborosas astúcias. Escritor, o seu mundo é o da cultura literária; editor, a sua tarefa é a cultura editorial; diretor de uma revista literária, a cultura foi no entanto o seu verdadeiro sacerdócio; comentador de futebol, ele responde às exigências profanas da cultura futebolística; homem de gostos mundanos, sejam eles a gastronomia regional, os vinhos ou os charutos, ele inscreve-os na ordem dos requintados interesses culturais. Eis alguém que faz a síntese total com que sempre sonharam os espíritos iluminados pela chama da cultura. A sua vocação de agente cultural é um percurso de santidade: é uma capacidade pacificadora que consiste não apenas em conviver com tudo, mas em fazer com que tudo conviva com tudo, sem exclusões nem conflitos. | Os ofícios sacerdotais da cultura, tal como FJV sempre os exerceu, são uma esponja que apaga rugosidades e anula asperezas: constroem o consenso, exaltam o conformismo, glorificam uma arte de viver que sabe aderir, em cada momento, à superfície lisa do tempo. A cultura — sabe muito bem o mestre dela, agora secretário de Estado — rege-se pelo princípio da conformidade. Com os seus mecanismos mediáticos bem afinados, a cultura nada tem de irredutível, de resistente. É uma matéria plástica, pronta a ser moldada, convertida, traficada — tarefas que os mais dotados agentes culturais exercem com zelo. O poder da cultura é mimético e extensivo. Sem reservas nem ironia: quem agora acedeu a secretário de Estado da Cultura sabe, das argúcias culturais, tudo o que há a saber. António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 25.6.2011. |
Subscrever:
Mensagens (Atom)





















































