Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Ao pé da letra #151 (António Guerreiro): Os professores de bancada

Uma breve passagem — durante três anos — pelo ensino básico e secundário, como professor, não me dá autoridade para falar em nome da experiência, mas permite-me, ainda assim, perceber quão irritante é ouvir as pessoas sem qualquer ligação à escola e ao ensino fazerem profundos diagnósticos do seu estado e terem certezas sobre o tratamento a administrar. Neste exercício de demonstração de ignorância e ingenuidade, há uma série de lugares-comuns que se cristalizaram num vocabulário destituído de toda a capacidade de descrição e que já não significa nada. Por exemplo, “facilitismo” e “eduquês”. Algo relacionado com o que estas duas palavras começaram existiu certamente e ainda deve existir, mas nenhum problema elas estão hoje em condições de identificar. Mais não seja porque foram submetidas a uma profunda erosão e passaram a fazer parte de um idioma vazio. São como palavras de ordem pronunciadas para simplificar. 

Vejamos um exemplo: quando hoje se deplora — muito legitimamente — a retirada de Camilo Castelo Branco dos programas do secundário, não percebemos o fundo do problema se não verificarmos o seguinte: Camilo não está apenas ausente das escolas, está ausente da edição (alguns títulos avulsos, publicados ao sabor das circunstâncias, não alteram o panorama) e, por conseguinte, ausente das livrarias. Da vastíssima obra de Camilo não existe uma edição crítica. É certo que a escola deve ser impermeável a estas circunstâncias e, provavelmente, a retirada de Camilo significa mesmo uma perniciosa vontade de pôr a literatura à distância. Mas isso não invalida que tal expulsão só seja compreensível quando integrada num contexto mais geral. Como fazer da escola um território onde não entra o mundo profano, se o mundo profano cresce, cresce, como o deserto de Nietzsche?

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 6.8.2011.

Uma criança sobe o monte #2 (A child climbs a mountain)


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Ao pé da letra #150 (António Guerreiro): O demónio da ideologia

O que é a ideologia? No sentido em que Hannah Arendt a definiu no seu ensaio sobre o sistema totalitário, a ideologia é a lógica de uma ideia que “permite explicar o movimento da história como um processo único e coerente”. Essa lógica releva, portanto, de uma vontade de cumprimento total e tudo se conforma a ela. Enquanto “lógica de uma ideia”, a ideologia é um modo de pensamento. Esta é a razão pela qual a mudança de campo ideológico acompanha, tantas vezes, a perseverança no modo de pensar: alteram-se os ideologemas, mas permanece a ideologia. Como operação que prossegue a totalidade ideológica, demos um exemplo culto — na sua crónica no Público de 22/7, escreveu José Manuel Fernandes: “Pelo menos desde que Oswald Spengler publicou, em 1917, A Decadência do Ocidente, que se discute o fim da hegemonia europeia.”

Embora sentindo-se autorizado por um artigo no Guardian onde Timothy Garton Ash, falando da decadência dos Estados Unidos e da Europa, evoca Spengler («Call Me Spengler if You Must»), J.M.F. vai muito mais longe na utilização do recurso ideológico que um título como “A Decadência do Ocidente” lhe fornece. E porque a ideia tem de se cumprir totalmente, na maquinação de J.M.F. não resta, de Spengler, senão a vaga e triste ideia de decadência. Ignora, assim, o que Spengler entendia por Ocidente; ignora que, para ele, a decadência significa que as culturas morrem de esgotamento interno, como os organismos vivos, e que isso nada tem a ver com causas económicas ou políticas; ignora que esta concepção de uma “morfologia da história universal” tem um fundamento metafísico — e não histórico — que faz da noção de destino algo que é imanente à história; ignora, em suma, o que disse verdadeiramente o autor a que se refere para o adequar à lógica de uma ideia.
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 30.7.2011.

Ao pé da letra #149 (António Guerreiro): A magia negra do jornalismo

O grande escândalo das escutas telefónicas pelos jornais ingleses do império Murdoch traz à mente a definição que o escritor austríaco Karl Kraus, que manteve durante cerca de trinta anos um anti-jornal, dava do jornalismo: a magia negra. Denunciar a venalidade e a corrupção, a tirania das frase pré-fabricadas (a fraseologia), a grande fábrica de produção da opinião pública foi a sua tarefa grandiosa, obsessiva e muitas vezes injusta. Com alguma inspiração krausiana, o semanário alemão Die Zeit dedicou há algumas semanas um dossiê à crítica do jornalismo, identificando um pecado fatal: a ausência, senão mesmo a impossibilidade, de autocrítica, a partir do momento em que se consumou uma ‘jornalização’ do mundo, a qual está em vias de engolir a literatura na reportagem universal. Este triunfo do jornalismo acaba mesmo por ser a razão da sua fraqueza atual: ele acabou por se disseminar por todo o lado, de tal modo que perdeu a sua morada e, desse modo, ficou desprovido de orientação e de instâncias de controlo e legitimação.

Como todas as instituições, dizia Kraus, a imprensa tem o hábito de responder à crítica explicando que não se pode generalizar a partir dos erros e dos vícios de um pequeno número. Mas ele, de maneira radical e sem nenhuma preocupação de ser justo, dizia que era preciso proceder exatamente ao contrário: não se pode, argumenta ele, desculpar e ainda menos absolver a imprensa generalizando a partir da honestidade e da coragem de uns poucos. Como é fácil perceber, Kraus foi muitas vezes uma figura detestável, mesmo quando era genial. Mas a sua verve, apesar de deformadora, tinha a virtude de obrigar à reflexão e de convidar à autocrítica. O que, no diagnóstico do dossiê do Die Zeit, é o que falta hoje aos media e os impede de fugir à cegueira a que estão expostos.


António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 23.7.2011.

Ao pé da letra #148 (António Guerreiro): Moral e política

Sucessivas ondas de indignação, de diferentes proveniências, trouxeram à costa o cadáver da política. A indignação em massa é um fenómeno mimético e reativo, analisável no âmbito de uma geometria das paixões, mas estranho a uma racionalidade que dá origem a um discurso de conhecimento e de legitimação A indignação não se articula numa sintaxe, não tem fôlego para construir frases — esgota-se numa palavra exclamada ou numa interjeição (por mais prolongadas que ambas sejam), proferidas com os pulmões cheios de ar e o coração acelerado. Por isso, a sua capacidade para se tornar politicamente qualificada — para entrar no espaço de representação política — é quase nula: a política é discurso, lógica, conceptualidade. O consagrado “direito à indignação” existe precisamente porque a indignação é a resposta instintiva a um dano moral e, nesse sentido, é sempre legítima. Se alguém se sente indignado é porque tem razões para tal, por mais que essas razões não sejam as mesmas que indignam os outros.

Pelo contrário, as razões para fazer uma revolta, uma insurreição ou uma revolução precisam de ser partilhadas, precisam de fundar uma comunidade (e por isso são figuras políticas). Assim, um indignado, no momento em que se manifesta enquanto tal, tem sempre razão (porque é a ‘sua’ razão, tão íntima e idiomática que, mesmo que não consigamos compreendê-la, temos de atendê-la no seu direito), e a sua indignação, se for autêntica e não encenada, é indiscutível. Já a política não funciona desta maneira: mesmo aquilo que uns clamam como óbvias “injustiças políticas” é sempre objeto de debate e de conflito; uma injustiça política não é como uma injustiça moral. Ora, quando a indignação entra num espaço tradicionalmente reservado à política, é porque esta foi substituída pela moral. A isto se chama despolitização, e nenhum bem pode daí advir.


António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 16.7.2011.

Ao pé da letra #147 (António Guerreiro): Cultura e civilização

A ideia, tão reiterada, de que há leis, procedimentos, decisões, práticas que constituem “retrocessos civilizacionais” baseia-se numa ideologia do progresso que se manifesta, na sua versão mais comum, em declinações deste tipo: “Como é que em pleno século XXI isto pode acontecer?” O espanto perante aquilo que é visto como um recuo da civilização nasce da conceção de que esta segue uma marcha imparável em direção a um ponto onde se atinge a perfeição absoluta. Mas o próprio conceito de civilização é bastante impreciso, e percebemos que ele é suscetível das maiores confusões quando nos lembramos que, no século XIX, na Alemanha, se forma a oposição — o “antagonismo abissal”, dizia Nietzsche — entre cultura e civilização. De certo modo, reivindicar a “Kultur”, contra a “Zivilisation”, como o faz Thomas Mann nas suas “Considerações de Um Impolítico”, significa defender a unidade, a forma, o estilo, o gosto, aquilo a que na época se chamava ainda ‘organização espiritual’, contra o domínio da civilização material.

Civilização era essencialmente uma invenção francesa, com a qual a nação revolucionária tinha tentado atribuir um valor universal ao que se passava, no campo das ideias e dos acontecimentos políticos, no hexágono. Contra a civilização que se alimenta de cosmopolitismo e de progresso tecnológico, de iluminismo e de ceticismo, a Alemanha reivindicou a “Kultur”, o enraizamento cultural. De tal modo que a “Kultur” alemã acabou por se tornar suspeita de conduzir ao nazismo, como se houvesse uma lógica que segue em linha reta do romantismo alemão ao Terceiro Reich, do hino ao Reno de Hölderlin à Solução Final. Seja como for, suspeitar da cultura e manter algumas reservas em relação às promessas progressistas da civilização deveria ser uma questão de método e de exigência crítica.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 9.7.2011.

Ao pé da letra #146 (António Guerreiro): O crédito e a fé

A primeira lição que os leigos tiveram de aprender, nos últimos anos, com o clero internacional da economia e das finanças é que o dinheiro, como Deus, é aquilo que falta — o que, através da sua ausência, estrutura o mundo. Por isso, o investimento é esperado nesta terra como uma graça divina concedida pelo sponsor supremo. O dinheiro como “presença real” existe algures, tem de existir (se não, diz-nos o princípio da razão suficiente, existiria o Nada), mas é na falta que ele se manifesta. E o crédito não é senão a fé de que ele existe e é dotado de força messiânica. A segunda lição é que o espaço da fé é cada vez menor e o movimento de secularização avança, pondo fim ao “creditismo”. Com este neologismo, o filósofo alemão Peter Sloterdijk designou um modo de vida que se desenvolveu a partir do Renascimento, baseado na promessa, fundado na antecipação do futuro.

Ora, nesta perspetiva, nós teríamos entrado recentemente, e em estado de choque, numa época em que está cada vez mais bloqueada a capacidade de o crédito abrir um futuro, pois já toda a gente percebeu que os créditos só servem para reembolsar créditos anteriores. Esta contração drástica do futuro transforma o presente em tragédia e introduz uma racionalidade (eis o renascimento do logos grego, dois mil e quinhentos anos depois) que limita os horizontes da fé, isto é, do “creditismo”. Diz Sloterdijk: “Perguntem a um americano como é que ele encara o reembolso das dívidas acumuladas pelo governo federal. A sua resposta será: ‘Ninguém sabe.’” Mas se acabar a fé e começar a vontade de saber, o “creditismo” entra na sua crise final e a nossa civilização choca contra um muro de dívidas. Esta é a imagem moderna do Apocalipse bíblico. “The horror! The horror!”

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 2.7.2011.

Ao pé da letra #145 (António Guerreiro): O sacerdócio cultural

Diga-se, sem reservas nem ironia: seria difícil encontrar um secretário de Estado da Cultura tão perfeitamente identificado com o mundo cultural como Francisco José Viegas. O seu currículo é o do perfeito agente cultural: o indivíduo que tudo converte à linguagem da cultura e a amplifica nas suas saborosas astúcias. Escritor, o seu mundo é o da cultura literária; editor, a sua tarefa é a cultura editorial; diretor de uma revista literária, a cultura foi no entanto o seu verdadeiro sacerdócio; comentador de futebol, ele responde às exigências profanas da cultura futebolística; homem de gostos mundanos, sejam eles a gastronomia regional, os vinhos ou os charutos, ele inscreve-os na ordem dos requintados interesses culturais. Eis alguém que faz a síntese total com que sempre sonharam os espíritos iluminados pela chama da cultura. A sua vocação de agente cultural é um percurso de santidade: é uma capacidade pacificadora que consiste não apenas em conviver com tudo, mas em fazer com que tudo conviva com tudo, sem exclusões nem conflitos.

Os ofícios sacerdotais da cultura, tal como FJV sempre os exerceu, são uma esponja que apaga rugosidades e anula asperezas: constroem o consenso, exaltam o conformismo, glorificam uma arte de viver que sabe aderir, em cada momento, à superfície lisa do tempo. A cultura — sabe muito bem o mestre dela, agora secretário de Estado — rege-se pelo princípio da conformidade. Com os seus mecanismos mediáticos bem afinados, a cultura nada tem de irredutível, de resistente. É uma matéria plástica, pronta a ser moldada, convertida, traficada — tarefas que os mais dotados agentes culturais exercem com zelo. O poder da cultura é mimético e extensivo. Sem reservas nem ironia: quem agora acedeu a secretário de Estado da Cultura sabe, das argúcias culturais, tudo o que há a saber.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 25.6.2011.

Hermínio Martins, a erudição paradoxal



Hermínio Martins será certamente, dos poucos pensadores portugueses dignos desse nome, o mais mal conhecido de todos. Talvez porque viveu muitos anos fora, exilado numa qualquer universidade estrangeira (Oxford), talvez porque sempre circulou — melhor dizer, pairou — entre disciplinas com um à-vontade assombroso. De qualquer forma, é lamentável esse desconhecimento, pois da sua insuperável erudição e agudeza estamos bem precisados — nós que, com a mais desavergonhada ligeireza, pretendemos resolver todos os problemas que se nos deparam com exclamações do tamanho permitido pelas caixas de comentários. A quem vive de tais ilusões não convém, para não se assustar, defrontar-se com as suas notas de fim de texto que ocupam páginas inteiras, cada uma delas cheias do sumo de tantos livros bem espremidos. A nossa falsa erudição é de tal forma moeda corrente que quase nem acreditamos, quase somos levados a crê-la paradoxal, quando alguém consegue ainda pensar, consegue fazer viver uma quantidade infindável de elementos relevantes num texto vivo. Seria de esperar que um mundo crescentemente complexo exigisse pessoas dispostas a afrontar essa complexidade sem a ela ceder...
Este sábio totalmente inesperado no nosso contexto, para além de um profundo sentido crítico, possui ainda, e em doses elevadíssimas, aquele que é o maior indicador de inteligência: um humor do mais acutilante, com grandes laivos de ironia e sarcasmo, de pendor por vezes de um delicioso cáustico, com o qual investe contra qualquer assomo conhecido ou anónimo de prepotência ou inconsciência intelectual ou científica, mas sem um pingo de arrogância. De resto, muito daquilo a que na sua obra, por força da clarividência, somos confrontados, seria simplesmente insuportável sem essa específica dinâmica libertadora que só humor permite. Por exemplo, naquele que será talvez o meu ensaio preferido de Experimentum Humanum. Civilização Tecnológica e Condição Humana, antologia de ensaios recentes que vem de ser publicada, ainda que se leia «Experimentos com Humanos, Guerra Biológica e Biomedecina Tanatocrática», uma descrição dos feitos e implicações da guerra biológica do Japão na Segunda Guerra Mundial, como as terrificantes aventuras de um Arthur Gordon Pym erudito percorrendo os meandros históricos praticamente desconhecidos da profunda promiscuidade entre a experimentação científica, a guerra e a medicina moderna, é também o lugar onde nos asseguramos que tempos houve — e, de alguma forma, não podemos deixar de lamentar a sua perda — em que os próprios médicos, antes de outros, se sujeitavam à sua imaginação experimental fulgurante. Um excerto, retirado da conclusão do referido ensaio:

Há material mais do que suficiente nos casos históricos referidos para um amplo Livro Negro da Medicina e da Psiquiatria do século XX (eugenista ou não), comparável ao Livro Negro do Comunismo, sem falar de episódios e práticas duvidosas na medicina, cirurgia e psiquiatria civil. Ou para um Livro Negro dos “experimentos científicos” ou tecnológicos desumanos só do século XX (sem falar de certas práticas experimentais com animais, assunto curiosamente mais estudado que os experimentos amorais ou imorais, ou pelo menos duvidosos, sobre humanos). Poderíamos imaginar também um Livro Cinzento para listar tantos experimentos de valor científico discutível, mas implicando sofrimento humano, sem contestação, só nos últimos cem anos, na melhor das hipóteses devido ao “fanatismo da pesquisa”. É verdade que, antigamente, cientistas, especialmente biólogos, costumavam praticar auto-experimentos, experimentos perigosos, em si próprios [...] em vez de arriscar a vida, a saúde ou a integridade física dos outros. O filósofo Hans Jonas sugeriu que a experimentação sobre seres humanos devia ser restrita aos próprios cientistas experimentadores, tanto por razões científicas, porque a classe que desenha os experimentos estará em melhores condições para assegurar a probidade e relatar os resultados dos experimentos, como por razões éticas, para não pôr em perigo as vidas dos outros (fazendo coincidir a classe dos experimentadores com a classe dos experimentados), proposta muito pouco discutida, ao que parece. [...]
(pp. 256-7)

Parecerá talvez coisa pouca, um livro contra esta tempestade avassaladora, mas colmata a grave lacuna — como ele próprio escreve — da constatação da força dos ventos que sopram...

O livro de Hermínio Martins Experimentum Humanum. Civilização Tecnológica e Condição Humana, editado pela Relógio D’Água, será lançado hoje, 20 de Junho, segunda-feira, pelas 18.30 horas, na livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa, e apresentado por Viriato Soromenho-Marques, José Bragança de Miranda e José Luís Garcia.


Como reconhecer a esquerda? (António Guerreiro)

 

Ao pé da letra #144 (António Guerreiro)

Uma metáfora da doença marcou este ano o discurso do Presidente da República, no 10 de junho, quando disse que acreditava que os portugueses queriam ser curados da doença que afeta Portugal. As suas palavras inscrevem-se numa história das metáforas de má memória. A um Presidente da República não se exige conhecimentos de metaforologia, ainda que neste caso bastasse a intuição para perceber que estava a entrar num terreno perigoso. Mas essa metáfora jogo com outra dimensão semântica: ela atribui a Portugal qualidade de um ser biológico. Se quiséssemos procurar um antepassado ilustre para este pensamento (chamemos-lhe assim), poderíamos citar Oswald Spengler, quem em 1918 publicou “O Declínio do Ocidente”, onde defendia que a civilização ocidental, na sua história, cumpria um ciclo semelhante ao de um organismo: um ciclo “natural” de nascimento, crescimento e morte. Spengler imaginava-se assim a fazer um diagnóstico da civilização ocidental e a detetar os sintomas da sua decrepitude.

Semelhante tropismo biológico está presente na metáfora do Presidente. Vendo o país como um organismo vivo, Cavaco Silva vai ao encontro do pensamento mais reacionário do século XX (não apenas representado por Spengler). Faz mais do que isso: imagina-se como um pastor cheio de solicitude e preocupação pelo seu rebanho, vê o exercício da presidência como uma pastorícia e os seus discursos como pastorais. Ele quer a saúde e a salvação do rebanho, quer que a criação do parque aceite voluntariamente tratar-se. A isto poderia chamar-se biopolítica em estado bucólico. Mas talvez lhe possamos chamar a “síndrome de Mr. Chance”, em homenagem à personagem do filme de Hal Ashby, que chegou a Presidente dos Estados Unidos por fazer metáforas que ninguém entendia.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 18.6.2011.

Ao pé da letra #143 (António Guerreiro)

Os primeiros-ministros demitidos pelo voto têm uma hipótese de salvação relegada para mais tarde, para o dia do Juízo Final da História. É o que sugerem aqueles que, no dia de eleições (e é quase sempre nesse dia) afirmam que “A História encarregar-se-á de fazer justiça a X”. Ou então augura-se que nesse dia ficará definitivamente decidido que não há redenção possível para X e estão-lhe reservadas as penas eternas e terríficas. Num caso como noutro (e eles são exatamente simétricos) atualiza-se a representação que encontramos numa anotação de Kafka: o Juízo Final — da História, neste caso — como uma corte marcial. Quem ousa fazer estas proferições enfáticas, como quem antecipa um veredicto, está a colocar-se exatamente no lugar de juiz todo-poderoso, à imagem do que ele julga ser o procedimento da História.

É preciso dizer que esta conceção começa por ser ingénua e, nalguns casos, pode acabar por se tornar criminosa. Não há nenhum ditador, nenhum energúmeno ao serviço do ideal da pátria e da nação, nenhum providencial homem de Estado, que não se sinta a cumprir um dever que a História, no seu Juízo Final, há de ratificar, aplaudir e glorificar para a eternidade. É coisa para obscurantistas esta ideia de que pessoas e acontecimentos ditos “históricos” serão submetidos a um juízo neutro, omnisciente e irrevogável por uma instância tribunalícia chamada História que, assim concebida, é a versão teológico-política de uma ordem profana, que nos desvia do tempo e da história dos homens. Porque esta é sempre obra de historiógrafos que não têm o poder de submeter ninguém a um Juízo Final e quando se arrogam esse poder passam a ser presumidos profetas como os patéticos políticos do Juízo Final. O historiador só é um profeta na definição paradoxal de Schlegel: um profeta que olha para trás.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 10.6.2011.

Governo eterno, paradigma infernal da política moderna (Giorgio Agamben)

Que o problema de como pensar a figura inoperante da divindade representa, na teologia cristã, uma verdadeira e específica crux, é provado pela dificuldade com que, desde Santo Irineu e Santo Agostinho, se deparam as tentativas de responder à pergunta blasfema por excelência: «Que fazia Deus antes de criar os céus e a terra? E se não fazia nada, porque não continuou sem fazer nada como antes?». Já Santo Agostinho [...] menciona também a resposta irónica — que denuncia, na verdade, um insuperável embaraço: «Preparava o inferno para aqueles que fazem perguntas demasiado profundas» [...]. Doze séculos depois, como testemunho da persistência do problema, Lutero retoma-a sob a forma: «Estava num bosque, talhando vergas para açoitar a quem faz perguntas impertinentes.»
A pergunta — que provém, não por acaso, de pagãos e de gnósticos, aos quais não colocava qualquer dificuldade — era particularmente embaraçante para os cristãos, precisamente por a economia trinitária ser essencialmente uma figura da ação e do governo. Ela corresponde perfeitamente,
a parte ante, à pergunta sobre o estado não apenas de Deus, mas também dos anjos e dos beatos depois do fim do mundo.
A glória é então aquilo que deve cobrir com o seu esplendor a figura inarrável da inoperância divina. Ainda que se possam com ela preencher [...] volumes inteiros, a
theologia gloriae é, por assim dizer, uma página em branco do discurso dos teólogos. É por isto que a sua forma mais própria é a mística, a qual, defronte à figura gloriosa do poder, não pode senão calar. [...]


A evacuação dos ministérios angélicos depois do Juízo Final mostra que o governo divino do mundo está constitutivamente a prazo, que a economia teológica é essencialmente finita. O paradigma cristão do governo, tal como a visão da história que dele é solidária, dura da criação ao fim do mundo. A concepção moderna da história, que recolhe em muitos aspectos sem beneficio de inventário o modelo teológico, encontra-se por isto numa situação contraditória. Por um lado, ela abole a escatologia e prolonga ao infinito a história e o governo do mundo, por outro, vê constantemente reemergir o carácter finito do próprio paradigma [...].
O princípio segundo o qual o governo do mundo cessará com o Juízo universal conhece, na teologia cristã, uma única e importante exceção. Trata-se do inferno. Na questão 89 [da Summa Theologiæ], São Tomás de Aquino pergunta-se, com efeito, se os demónios levarão a cabo a sentença dos danados [...]. Contra a opinião daqueles que consideravam que, com o Juízo Final, cessam todas as funções de governo e todos os ministérios, São Tomás afirma, ao contrário, que os demónios desenvolverão eternamente a sua função judiciária de executores das penas infernais. Como tinha sustentado que os anjos deporão os seus ministérios, mas manterão para sempre a sua ordem e a sua hierarquia, assim escreve agora que «será conservada uma ordem das penas e os homens serão punidos pelos demónios, de modo a que não seja aniquilada integralmente a ordem divina, que instituiu os anjos como intermediários entre a natureza humana e a divina (...) os demónios são os executores da justiça divina no que diz respeito aos malvados» [...]. O inferno é, então, o lugar no qual o governo divino do mundo sobrevive eternamente, ainda que sob uma forma puramente penitenciária. E enquanto os anjos no paraíso, apesar de conservarem a forma vazia da sua hierarquia, abandonarão toda a função de governo e já não serão ministros, mas apenas assistentes, os demónios são, ao contrário, os ministros indefectíveis e os carnífices eternos da justiça divina.
Isto significa, no entanto, que, na perspectiva da teologia cristã, a ideia de um governo eterno (que é o paradigma da política moderna) é propriamente infernal. E, curiosamente, este eterno governo penitenciário, esta colónia penal que não conhece expiação, tem um inesperado desenlace teatral. Entre as perguntas que São Tomás se coloca a propósito da condição dos beatos, está a de saber se eles podem ver as penas dos danados [...]. Ele dá-se conta de que o horror e a turpitudo de um semelhante espetáculo não parecem convir aos santos; todavia, com um candor psicológico perante as implicações sádicas do seu discurso, que para nós modernos não é fácil de aceitar, afirma sem reservas que «afim que os beatos se possam melhor comprazer na sua beatitude (...) é-lhes concedido ver perfeitamente as penas dos ímpios» [...]. E não só. Neste atroz espetáculo, os beatos, e os anjos que com eles o contemplam, não podem sentir compaixão, mas apenas gozo, dado que a punição dos danados é expressão da ordem eterna da justiça divina [...].
O «esplendor dos suplícios», de que Foucault mostrou a solidariedade com o poder do Ancien régime, tem aqui a sua eterna raiz.

Giorgio Agamben, «Angelologia e burocrazia», Il Regno e la Gloria. Per una genealogia teologica dell’economia e del governo (Homo sacer, II, 2), Neri Pozza, Vicenza, 2007, pp. 179-182.

Ao pé da letra #142 (António Guerreiro)

O impasse do presente, a que corresponde o fechamento da representação política, determina uma atitude que poderia ser assim definida: é contra o voto que se continua a votar. Nos movimentos dos jovens e dos “precários”, dificilmente encontramos uma linguagem que aponte para uma nova ordem. E é preciso perceber que os limites da ação política são os limites da linguagem. Desde logo, o termo ‘precário’ significa uma definição em relação à esfera do trabalho, uma reverência à ordem do mundo que chegou ao fim, mas a cuja salvação se entrega hoje um exército de alcance universal. Como o homeostato de Ashby, essa máquina funciona apenas para se alimentar a si própria, assim é o sistema paradoxal de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, de uma multidão de supranumerários que representa um perigo enorme: o de sabotar a máquina, deslumbrada com o seu próprio mecanismo.

Na mobilização geral pelo trabalho, reforça-se uma evidência que seria, pelo contrário, necessário abolir: a de que não há outra maneira de existir senão trabalhando. De tal modo que trabalhar, hoje, corresponde menos a uma necessidade económica de produzir mercadorias do que a uma necessidade política de produzir produtores e consumidores. A produção tornou-se sem objeto. A figura de Bartleby, o escrivão de Melville que respondia às ordens para trabalhar com a fórmula “I would prefer not to”, poderia servir de inspiração para desativar o sistema laborioso que suscita tanta mobilização: dos que o defendem para que nada se passe e dos que o atacam por ele se ter tornado tão exclusivo. E se, em vez da mobilização total com a qual se glorifica o trabalhador, que foi uma figura tanto do fascismo como do comunismo, o novo exército de não-trabalhadores recusasse assumir-se como multidão de desempregados e em vez de reivindicar o impossível gritasse em todas as praças “I would prefer not to”?

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 4.6.2011.

Ao pé da letra #141 (António Guerreiro)

Pierre Bourdieu chamou “paradoxo da objetivação” a uma atitude que consiste em olhar de fora, como um objeto, as pessoas, as coisas da vida, a vida intelectual, suscitando a revolta das pessoas assim objetivadas. Antes de Bourdieu lhe dar nome, Karl Kraus já tinha identificado tal paradoxo: “E mesmo que eu não faça senão copiar ou transcrever, diariamente, o que eles fazem e dizem, eles tratam-me como detrator.” Experimentemos ‘objetivar’ três semanas de maio na vida de um jovem escritor que acaba de publicar um romance, a partir do relato que ele próprio faz no seu blogue: leitura de um dos seus livros na Livraria Barata; ida ao programa “Nada de Cultura”, na TVI24; conversa no programa “Livraria Ideal”, na TVI24; presença no programa “Ah, a Literatura”, Canal Q; três sessões de leitura em escolas do concelho de Salvaterra de Magos; autógrafos na Praça Leya (Feira do Livro); autógrafos no espaço da Presença (Feira do Livro); debate sobre os melhores livros de ficção do ano no Auditório da Feira; conversa com a Comunidade de Leitores na Livraria Almedina do Atrium Saldanha; conversa com alunos do Colégio do Sagrado Coração de Maria sobre escrita e livros; dois dias em Viana do Castelo para participar no festival literário “Contornos da Palavra”; outra sessão de autógrafos na Praça Leya (Feira do Livro); conversa com os alunos da Escola Alemã do Estoril sobre livros e imaginação.

Durante o tempo em que decorreram estas actividades, os livros do escritor foram objeto de recensão ou crónica em dois jornais; o escritor foi entrevistado para um outro jornal; ficou disponível no YouTube o programa “Ler Mais Ler Melhor”, da RTPN, sobre o seu último livro. Tudo isto é contado pelo próprio no seu blogue. Abstemo-nos de dizer o nome do escritor, porque, se o fizéssemos, a crónica deixaria de ser sobre o “paradoxo da objetivação”.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 28.5.2011.

A recusa (Maurice Blanchot)

A dado momento, face aos acontecimentos públicos, sabemos que devemos recusar. A recusa é absoluta, categórica. Não discute nem faz ouvir as suas razões. Ainda que permaneça silenciosa e solitária, mesmo quando se afirma, como deve ser, à luz do dia. Os homens que recusam e que estão ligados pela força da recusa sabem que não estão ainda juntos. O tempo da afirmação comum, precisamente, foi-lhes retirado. O que lhes resta é a irredutível recusa, a amizade desse Não certo, inabalável, rigoroso, que os torna unidos e solidários.
O movimento de recusar é raro e difícil, ainda que igual e o mesmo em cada um de nós, assim que o apreendemos. Difícil porquê? É que nos faz recusar, não apenas o pior, mas um razoável aparente, uma solução que se diria feliz e mesmo inesperada. Em 1940, a recusa não teve de exercer-se contra a força invasora (não a aceitar era evidente). Mas contra essa sorte que o marechal Pétain, cheio de boa-fé certamente, afirmava ser e contra todas as justificações de que se podia reclamar. Hoje, a exigência da recusa não interveio por ocasião dos acontecimentos de 13 de maio (que se recusam por si mesmos), mas face a esse poder que pretendia reconciliar-nos honradamente com eles pela autoridade única do nome.
Aquilo que recusamos não é desprovido de valor ou de importância. É mesmo por isso que a recusa é necessária. Há uma razão que já não aceitaremos, há uma aparência de sabedoria que nos horroriza, há uma oferta de acordo e de conciliação que não escutaremos. Uma ruptura produziu-se. Fomos levados a essa franqueza que já não tolera a cumplicidade.
Quando recusamos, recusamos num movimento sem desprezo, sem exaltação, e anónimo, tanto quanto se pode, pois o poder de recusar não se cumpre em nós mesmos, nem apenas em nosso nome, mas a partir de um começo bastante pobre que pertence antes de mais àqueles que não podem falar. Hoje dir-se-á que é fácil recusar, que o exercício desse poder comporta poucos riscos. É sem dúvida verdade para a maior parte de entre nós. Creio, no entanto, que recusar nunca é fácil, que devemos aprender a recusar e a manter intacto esse poder de recusa que daqui em diante cada uma das nossas afirmações deveria verificar.

Maurice Blanchot, «Le refus» (1958),
Écrits politiques, éd. Éric Hoppenot, Gallimard, Paris, 2008, pp. 11-12.


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