Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Ao pé da letra #142 (António Guerreiro)

O impasse do presente, a que corresponde o fechamento da representação política, determina uma atitude que poderia ser assim definida: é contra o voto que se continua a votar. Nos movimentos dos jovens e dos “precários”, dificilmente encontramos uma linguagem que aponte para uma nova ordem. E é preciso perceber que os limites da ação política são os limites da linguagem. Desde logo, o termo ‘precário’ significa uma definição em relação à esfera do trabalho, uma reverência à ordem do mundo que chegou ao fim, mas a cuja salvação se entrega hoje um exército de alcance universal. Como o homeostato de Ashby, essa máquina funciona apenas para se alimentar a si própria, assim é o sistema paradoxal de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, de uma multidão de supranumerários que representa um perigo enorme: o de sabotar a máquina, deslumbrada com o seu próprio mecanismo.

Na mobilização geral pelo trabalho, reforça-se uma evidência que seria, pelo contrário, necessário abolir: a de que não há outra maneira de existir senão trabalhando. De tal modo que trabalhar, hoje, corresponde menos a uma necessidade económica de produzir mercadorias do que a uma necessidade política de produzir produtores e consumidores. A produção tornou-se sem objeto. A figura de Bartleby, o escrivão de Melville que respondia às ordens para trabalhar com a fórmula “I would prefer not to”, poderia servir de inspiração para desativar o sistema laborioso que suscita tanta mobilização: dos que o defendem para que nada se passe e dos que o atacam por ele se ter tornado tão exclusivo. E se, em vez da mobilização total com a qual se glorifica o trabalhador, que foi uma figura tanto do fascismo como do comunismo, o novo exército de não-trabalhadores recusasse assumir-se como multidão de desempregados e em vez de reivindicar o impossível gritasse em todas as praças “I would prefer not to”?

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 4.6.2011.

Ao pé da letra #141 (António Guerreiro)

Pierre Bourdieu chamou “paradoxo da objetivação” a uma atitude que consiste em olhar de fora, como um objeto, as pessoas, as coisas da vida, a vida intelectual, suscitando a revolta das pessoas assim objetivadas. Antes de Bourdieu lhe dar nome, Karl Kraus já tinha identificado tal paradoxo: “E mesmo que eu não faça senão copiar ou transcrever, diariamente, o que eles fazem e dizem, eles tratam-me como detrator.” Experimentemos ‘objetivar’ três semanas de maio na vida de um jovem escritor que acaba de publicar um romance, a partir do relato que ele próprio faz no seu blogue: leitura de um dos seus livros na Livraria Barata; ida ao programa “Nada de Cultura”, na TVI24; conversa no programa “Livraria Ideal”, na TVI24; presença no programa “Ah, a Literatura”, Canal Q; três sessões de leitura em escolas do concelho de Salvaterra de Magos; autógrafos na Praça Leya (Feira do Livro); autógrafos no espaço da Presença (Feira do Livro); debate sobre os melhores livros de ficção do ano no Auditório da Feira; conversa com a Comunidade de Leitores na Livraria Almedina do Atrium Saldanha; conversa com alunos do Colégio do Sagrado Coração de Maria sobre escrita e livros; dois dias em Viana do Castelo para participar no festival literário “Contornos da Palavra”; outra sessão de autógrafos na Praça Leya (Feira do Livro); conversa com os alunos da Escola Alemã do Estoril sobre livros e imaginação.

Durante o tempo em que decorreram estas actividades, os livros do escritor foram objeto de recensão ou crónica em dois jornais; o escritor foi entrevistado para um outro jornal; ficou disponível no YouTube o programa “Ler Mais Ler Melhor”, da RTPN, sobre o seu último livro. Tudo isto é contado pelo próprio no seu blogue. Abstemo-nos de dizer o nome do escritor, porque, se o fizéssemos, a crónica deixaria de ser sobre o “paradoxo da objetivação”.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 28.5.2011.

A recusa (Maurice Blanchot)

A dado momento, face aos acontecimentos públicos, sabemos que devemos recusar. A recusa é absoluta, categórica. Não discute nem faz ouvir as suas razões. Ainda que permaneça silenciosa e solitária, mesmo quando se afirma, como deve ser, à luz do dia. Os homens que recusam e que estão ligados pela força da recusa sabem que não estão ainda juntos. O tempo da afirmação comum, precisamente, foi-lhes retirado. O que lhes resta é a irredutível recusa, a amizade desse Não certo, inabalável, rigoroso, que os torna unidos e solidários.
O movimento de recusar é raro e difícil, ainda que igual e o mesmo em cada um de nós, assim que o apreendemos. Difícil porquê? É que nos faz recusar, não apenas o pior, mas um razoável aparente, uma solução que se diria feliz e mesmo inesperada. Em 1940, a recusa não teve de exercer-se contra a força invasora (não a aceitar era evidente). Mas contra essa sorte que o marechal Pétain, cheio de boa-fé certamente, afirmava ser e contra todas as justificações de que se podia reclamar. Hoje, a exigência da recusa não interveio por ocasião dos acontecimentos de 13 de maio (que se recusam por si mesmos), mas face a esse poder que pretendia reconciliar-nos honradamente com eles pela autoridade única do nome.
Aquilo que recusamos não é desprovido de valor ou de importância. É mesmo por isso que a recusa é necessária. Há uma razão que já não aceitaremos, há uma aparência de sabedoria que nos horroriza, há uma oferta de acordo e de conciliação que não escutaremos. Uma ruptura produziu-se. Fomos levados a essa franqueza que já não tolera a cumplicidade.
Quando recusamos, recusamos num movimento sem desprezo, sem exaltação, e anónimo, tanto quanto se pode, pois o poder de recusar não se cumpre em nós mesmos, nem apenas em nosso nome, mas a partir de um começo bastante pobre que pertence antes de mais àqueles que não podem falar. Hoje dir-se-á que é fácil recusar, que o exercício desse poder comporta poucos riscos. É sem dúvida verdade para a maior parte de entre nós. Creio, no entanto, que recusar nunca é fácil, que devemos aprender a recusar e a manter intacto esse poder de recusa que daqui em diante cada uma das nossas afirmações deveria verificar.

Maurice Blanchot, «Le refus» (1958),
Écrits politiques, éd. Éric Hoppenot, Gallimard, Paris, 2008, pp. 11-12.

[Vozes, Conivência, Extensão vazia: Encontro a partir de «O esgotado» de Deleuze sobre Beckett]

Ao pé da letra #140 (António Guerreiro)

A propósito da crise, temos ouvido muitas vezes dizer que, no fundo, “somos todos responsáveis” e “não nos sabemos governar”. Que ‘nós’ é este? A que corresponde tal sujeito de culpa coletiva? Não é o ‘nós’ de uma pertença nacional, como é uma certa noção de povo — uma entidade que não se constitui com base numa oikonomia, isto é, num governo da casa. É antes um ‘nós’ social. Mas como deduzir uma culpa e uma responsabilidade coletivas com base numa ideia de sociedade que as regras da economia precisamente extinguiram? Devemos lembrar a famosa frase de Margaret Tatcher, numa entrevista: “A sociedade não existe.” Mais do que a verificação de um facto, era uma prescrição: para que o sistema da economial liberal capitalista funcione bem, é preciso que não haja sociedade. E, quando há sociedade, em que é que ela consiste? Do ponto de vista ingénuo dos governantes e dos que distribuem culpas coletivas, a sociedade é uma trama de relações, de pactos e factos livremente decretados e escolhidos por homens livres e iguais.

Se lermos um texto profético de Gabriel Tarde, «O Que É Uma Sociedade?», publicado em 1884, obtemos uma resposta muito mais lúcida e válida. A sociedade, diz Tarde, é imitação, e o homem é produto de um “sonambulismo social”. Para Tarde, os homens são semelhantes a formigas e, como tal, seguem uma ordem que se institui por contágio imitativo e por atração magnética. Este sistema produz alucinações, e aquilo a que hoje chamamos ‘público’ corresponde a este sujeito que segue uma via psicótica. As regras da economia em que vivemos apostam na formação desse monstro que são os públicos e na extinção da sociedade. Há quem pense que se trata de uma intoxicação voluntária. Mas a teoria do sonambulismo social coloca hipóteses muito mais fecundas.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 21.5.2011.

[Lumen]

Ao pé da letra #139 (António Guerreiro)

Pierre Bourdieu publicou em 1999 um texto sobre os efeitos da concentração editorial que se chamava “Uma Revolução Conservadora na Editoria”. Ele mostrava aí que o campo editorial estava a seguir o modelo de todos os sectores produtivos e a tornar-se uma indústria do entertainment. Quem visita a atual Feira do Livro e não sente repulsa pelo populismo editorial dominante, ou tem um enorme poder de atravessar, imune, uma paisagem de destroços, ou perdeu a capacidade de reconhecer a violência que sobre ele é exercida. Quando, há mais de duas décadas, na linguagem dos media surgiu a noção de “indústria dos conteúdos”, estávamos ainda longe de imaginar que a atividade editorial ia alcançar esse estádio último do fetichismo da mercadoria. A concentração não é apenas uma condição empresarial: é um método e um habitus (como diria Bourdieu). Por isso, a sua lógica difundiu-se e não se resume aos grupos editoriais. Um populismo literário e editorial implantou as suas regras em todas as fases de produção de um livro, desde a origem à comercialização.

A velha questão kantiana — “O que é um livro?” — precisa de ser reformulada, porque o Iluminismo não podia prever que os livros se tornassem inimigos de um ideal de socialização da cultura e emancipação. Nem previa que muitos os escrevem, editam e, de alguma forma, fazem parte da cadeia se tornassem cúmplices de uma barbárie que condiciona ferozmente o espaço público literário. Aproximamo-nos da situação em que os géneros literários são absorvidos pelos géneros editoriais, e tudo o que não segue esta regra tem uma existência clandestina. Para onde nos leva a barbárie? Esperemos que seja, segundo uma velha lição de Walter Benjamin, à destruição que obriga a recomeçar tudo de novo.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 14.5.2011.

Ao pé da letra #138 (António Guerreiro)

Regressemos à “filosofia portuguesa”, porque a coisa cresce, multiplica-se e invade. Na semana passada, tratava-se de uma revista que restaura o que, na sua primeira versão, já se proclamava como “renascença”: a Nova Águia, reinventada agora como órgão de uma imaginária panlusofonia; esta semana, trata-se de um colóquio internacional “Nietzsche, Pessoa e Freud” que, inspirado no poder mágico do triângulo, deambulou pela Faculdade de Letras, Universidade Nova de Lisboa e Fundação Calouste Gulbenkian. O quadro teórico-literário, filosófico e ideológico preponderante no colóquio (apesar da participação de estudiosos que nada têm que ver com tal coisa, desde logo Eduardo Lourenço) deixava-se facilmente reconhecer no tal ‘pensamento português’, cujas operações para colonizar Fernando Pessoa não começaram agora. Na perspectiva destes ideólogos, Pessoa ganha o estatuto de um ‘pensador’, no mesmo plano de Nietzsche e Freud.

À primeira vista, até pode parecer engrandecimento, mas é na verdade uma manipulação grosseira, destinada a reduzir a sua poesia a ideologemas, filosofemas, mitologemas e outros ‘emas’. O título do colóquio — “Nietzsche, Pessoa e Freud” — parece designar um enorme continente cosmopolita, mas explorado por tais ideólogos transforma-se numa pequena província platónica, onde podemos ouvir falar de coisas como os “arquétipos de Portugal” (na verdade, de quem eles gostam verdadeiramente é de Jung, não de Freud), visando construir uma dimensão esotérica e mitológica da história, que faz lembrar a “Alemanha secreta” de Stefan George. Ocultismos, esoterismos, o mito do poeta mediúnico que oblitera completamente o método e tempo de trabalho revelados pelo espólio — eis o que faz pensar num dito de Adorno: “O ocultismo é a metafísica dos imbecis”.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 7.5.2011.

— Où est l’argent ?

Ao pé da letra #137 (António Guerreiro)

A chamada “filosofia portuguesa” conheceu nos últimos anos alguns ressurgimentos editoriais, um dos quais é a revista Nova Águia, herdeira da Águia, que foi o órgão do movimento da Renascença Portuguesa. Apesar da sua aparente apolitia, a Nova Águia (cujo primeiro número era sobre “A Ideia de Pátria” e o mais recente tem por tema o célebre dito de Bernardo Soares: “Minha pátria é a língua portuguesa”) pode ser identificada com uma cultura de Direita. É típico da Esquerda não saber o que é a cultura da Direita, até para evitar o embaraço de verificar o quanto está impregnada dela (por exemplo, a poesia portuguesa mais próxima da cultura de Direita é a de Manuel Alegre). A principal característica desta cultura é o facto de funcionar como uma máquina mitológica que constrói uma identidade, reduzindo o passado — com o qual mantém uma relação viciada — a uma papa indistinta de destino e devir, de passado mítico e presente incognoscível, porque nenhuma ciência humana ou social pode penetrar na linguagem das ideias sem palavras.

Um exemplo de ideia sem palavras é a da saudade como uma fundamental “Stimmung”, tonalidade afetiva, que marca o “pensamento português”. Desse território das ideias sem palavras só pode nascer uma retórica do sublime, cujo pressuposto é o da existência de um núcleo mítico e profundo, onde o idealismo triunfa sobre a racionalidade e tudo se espiritualiza. A cultura de Direita é monumental e fundacional. Por isso, o património cultural é, por excelência, um lugar de pertença que a cultura de Direita reivindica como a sua mais legítima morada. Manipular o passado é a sua grande arte, tanto quanto a Esquerda pretende ter o monopólio do futuro. E se a Esquerda não é capaz de pensar a cultura de Direita, a Direita situa-se num campo onde nem existe tal dialética para ser pensada.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 30.4.2011.

Sobre a politização da estética (cinematográfica)



A sessão 7 do Seminário Questões de Estética será realizada a 3 de Maio de 2011 (3ª feira), entre as 15h-18h, na Sala 07, piso 0, Edifício I&D da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Av de Berna), enquadrada no âmbito de actividades do Instituto de Filosofia da Linguagem.

Sobre a politização da estética (cinematográfica)
por André Dias e Ilana Feldman
Se tomarmos como campo a análise da expressão cinematográfica, somos forçados a reconhecer nela uma dimensão política, intrínseca mas não por isso necessariamente privilegiada, que se revela afinal irredutível. Estas obras parecem constituir uma expressão do pensamento que, significativamente, é capaz de mostrar, de construir “visibilidades” que resistem aos discursos. Para apreender a especificidade deste modo de conhecimento temos de ser capazes de focar a sua composição, i.e., a sua (hetero)génese, as potencialidades e perigos que acolhe, e, sobretudo, o processo aberto das suas capacidades (habitualmente entendidas como) formais. Isto porque, presa entre as pesadas heranças do formalismo e da ideologia, a leitura dessa dimensão política se dissipou em dois processos: por um lado, numa acentuada metaforização da política na forma; por outro, numa delimitação excludente da política na arte. Como poderão então os paradoxos (políticos) do contemporâneo, mais expressos do que representados pelo cinema, ser aproximados pela atividade crítica? É que, pela sua natureza de arte popular e proximidade a um “conteúdo” (visível), o cinema é particularmente permeável a investimentos culturais que, muitas vezes, negligenciam a sua materialidade, a própria sensualidade, em prol de definições apressadas e funcionais.



O desafio é aqui, portanto, o de tatear essa relevância política sem nesse gesto atribuir valor às instâncias ideológicas, concentrando-nos nos problemas que constituem, simultaneamente, figurações das condições do mundo e das capacidades de cada obra em expressá-las, bem como nos paradoxos tantas vezes aí apresentados que oferecem resistência ao entendimento do mundo em que vivemos. Um dos paradoxos a partir do qual partimos é o da biopolítica contemporânea, estratégia através da qual as imagens e sons que conformam o cinema contemporâneo não se dissociam do modo como a política opera sobre a vida e, simultaneamente, do modo como a vida se torna um operador da política.

Ilana Feldman é pesquisadora, crítica e realizadora. Formada em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Comunicação e Imagem também pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, é, atualmente, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação na Universidade de São Paulo, onde desenvolve pesquisa sobre o documentário brasileiro contemporâneo, a partir de questões concernentes à filosofia, à política e aos modos de produção de subjetividade. É colaboradora da revista eletrônica Cinética, na qual co-editou a publicação “Estéticas da Biopolítica - audiovisual, política e novas tecnologias”, realizada por meio do Programa Cultura e Pensamento para publicações em mídia eletrônica do Ministério da Cultura brasileiro.

Precariedade (dos filmes)

Por contraste aos filmes feitos com todos os recursos técnicos e de produção sofisticada que, por demasiado “bem feitos”, ainda que apenas em estrito sentido técnico, acabam por bloquear ou ocultar a aparição dos gestos cinematográficos singulares que prometiam, limitando, por conseguinte, a própria experiência estética que é neles possível, existem outros filmes, feitos em condições de filmagem precárias e material de base reduzido que, não ocultando essas circunstâncias, constituem uma certa menoridade que é também, de início, uma promessa, pois nela se projeta a esperança de uma justeza para com as personagens e as situações perante as quais se coloca, muitas vezes também elas marginais e precárias. São, no entanto, alguns os perigos, intrínsecos a essa condição, que se colocam à consistência destes filmes.
Em primeiro lugar, nem sempre é possível escamotear de forma criativa, através da montagem, a fragilidade inerente a ter pouco material de base. Aparenta ser bastante difícil construir uma densidade temporal e existencial quando os planos filmados são reduzidos e não contemplam as personagens atravessando o quotidiano. E quando, em paralelo, existe uma excessiva dependência da força existencial que algumas personagens emanam, seja pela sua peculiaridade, seja pelo caricato do seu discurso, corre-se muitas vezes o risco de as tornar em caricaturas. Essas evidências que emanam as personagens, que parecem inicialmente um ganho, acabam por severamente limitar a complexidade dos filmes. A suposta riqueza dos personagens constitui então, paradoxalmente, um perigo para a composição do filme enquanto obra, cuja força intrínseca se dá menos por isso do que pela conjugação, com o seu quê de misterioso, de muitos outros elementos.
Também no tratamento dado a personagens que estão, por si mesmas, numa situação interpretada socialmente como marginal e, por isso, particularmente expostas a olhares siderados e juízos fáceis, como no caso dos alcoólicos, dos indigentes, toxicodependentes, doentes mentais, etc., existe um perigo para a composição do filme. Se as regras servissem para alguma coisa no cinema, seria de seria de evitar que fossem possíveis essas facilidades do olhar e do juízo, não sublinhando, mas também não escondendo, alguns aspectos que podem indiciar essa marginalidade.
Outro elemento de risco diz respeito à aparição, principalmente em contexto documental, de pessoas que, sobretudo por falta de habituação à presença da câmara, a defrontam com o olhar, criando muitas vezes uma hiperconsciência da situação no espectador, que pode resultar numa atrofia. São posições ainda mais complicadas quando, a esse olhar na câmara insistente e prolongado, se acrescenta o carácter aparentemente precário da sensibilidade dessas pessoas. Em IMPERIAL GIRL de Salomé Lamas, há um momento muito forte, mas também muito incómodo, em que uma mulher idosa e aparentando um estado de espírito não muito claro, a meio do seu percurso na pensão, confronta a câmara durante aquilo que parece ser uma eternidade. Se, por um lado, esse defrontar é perturbador ao ponto do fascínio, por outro surge quase completamente isolado, não nos permitindo entender verdadeiramente como essa mulher, que afinal nos foi apresentada, vive. Ou talvez a nossa sideração incómoda seja o mais próximo que dela podemos chegar...



A brevidade de uma situação de filmagem torna-se ainda mais notória quando a câmara oscila algumas vezes, procurando por entre os interlocutores aquele que emitirá o elemento de discurso ou a expressão do rosto mais significativa. Isto acontece, em especial, quando várias pessoas se encontram no mesmo espaço e é difícil passar de uma a outra em diálogos bastante sincopados. O prolongamento da filmagem, caso seja possível, bem como a experiência adicional criada, forneceriam talvez a capacidade e a confiança para saber perder alguns desses elementos, só aparentemente mais significativos, em prol da continuidade de outros, quase desapercebidos.
Mas aquilo que, em última análise, parece definir o gesto que tenta compensar a precariedade em alguns filmes, neste sentido que lhe demos, e o seu maior risco, encontra-se na introdução de uma dimensão meta-fílmica, que é em geral bem mais difícil de integrar do que pensamos. Nela, o filme parece desejar questionar-se a si próprio e, simultaneamente, justificar o seu fim e mesmo os seus limites. No entanto, esse espelhamento súbito, pese embora possa potencialmente dar conta dos limites do filme e da sua construção, acrescentando-lhe uma complexidade rude, quase sempre nos subtrai da realidade até então composta, que era já de si de uma natureza frágil, afastando-nos do segredo da subtileza.

Ao pé da letra #136 (António Guerreiro)

Flaubert formulou uma vez a sua convicção quanto às relações entre editores e escritores: “Um editor explora-vos, mas não tem o direito de vos apreciações”. Para Flaubert, a defesa de uma radical autonomia da literatura e da arte implicava que o editor ficasse remetido ao seu papel de publisher e renunciasse às veleidades de editor literário (editor). Essa mesma conquista de autonomia implicava que o mercado do livro deveria ser uma espécie de mundo económico às avessas. E os grandes editores eram aqueles que mais sabiam permanecer escondidos. Em Itália, um dos fundadores da Adelphi, Roberto Bazlen (1902-1965), tornou-se pela sua forma de retirada uma figura mítica da edição. Não seria possível que as regras continuassem hoje a ser as mesmas (porque a autonomia deixou de ser uma exigência e porque o mercado dos bens simbólicos, como é o livro, já pouco se distingue do mercado dos bens reais), mas um dos aspectos mais conspícuos das transformações da edição em Portugal é o lugar espetacular conquistado por alguns editores, nos últimos anos.

Não se trata já do editor que acolhe, seleciona e cria um catálogo de prestígio, mas aquele que inventa, produz, difunde e especula na bolsa dos valores. Esta superstrutura do mundo literário tornou-se muito visível e facilmente categorizável em tipologias. Por exemplo, a tipologia do mandarinato. Neste movimento irreversível, os autores começam a ter o mesmo destino de outras classes profissionais, tais como os professores e os jornalistas, que tiveram um passado glorioso de autonomia. Esse destino é o da proletarização. De certo modo, todo o escritor está sob a ameaça de se tornar um ghost writer, que trabalha ao serviço de outrem (ainda que essa alteridade seja o seu nome próprio) e de uma instituição que já não é a literatura tal como Flaubert a entendia.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 22.4.2011.

Ao pé da letra #135 (António Guerreiro)

O tom aberta ou vagamente apocalíptico que se foi fixando desde há pouco tempo nos discursos de diagnóstico económico e político faz lembrar aquilo que na época de Weimar ficou conhecido como katastrophische Denkweise, o modo de pensar por catástrofes. Mas esse velho catastrofismo exprimia ainda uma visão apocalíptica do processo histórico da modernidade, própria de melancólicos e trágicos. Era o tempo em que Carlo Michaelstaedter, um filósofo italiano de Gorizia, perto de Trieste, impregnado de cultura vienense, se espantava que o mundo histórico pudesse continuar depois da leitura dos pré-socráticos, do Eclesiastes, de Leopardi, de Ibsen, suicidando-se a seguir (em 1910, aos 23 anos). Mais de meio século depois, Pasolini entendia que o agente do fim do mundo era a classe média, a pequena-burguesia, que ele responsabilizava pela destruição totalitária da pluralidade cultural e da tradição pré-moderna. Para Pasolini, o Maio de 68 dos estudantes foi um fenómeno clássico de mobilização da pequena-burguesia (por isso se colocou do lado da polícia).

Quando, no final dos anos 80 do século passado, por mediação da leitura que Kojève tinha feito de Hegel, se falou do triunfo planetário das democracias liberais como o fim da História, este fim não era mais um na sucessão das catástrofes, mas o contrário: era um prometedor recomeço. Ora, hoje começamos a perceber os contornos de uma nova fase que já se iniciou: a classe média, a mais forte e expansiva, capaz de se alargar e conquistar cada vez mais espaço — a classe, em suma, que se reproduziu alimentando-se de tudo —, começa a declinar enquanto classe universal, imortal e infinitamente dúctil. Aquilo a que hoje chamamos ‘crise’ é isto: a condição de fragilidade deste larguíssimo estrato intermédio, o fim do triunfo da classe média, cujo advento tinha sido o verdadeiro fim da História.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 16.4.2011.

Ao pé da letra #134 (António Guerreiro)

O retrato do artista enquanto saltimbanco, tão difundido ao longo do século XIX em imagens hiperbólicas e voluntariamente deformadoras, renasceu, no nosso tempo, graças aos ‘festivais de literatura’. Curiosamente, a arte literária, que tinha ficado fora do retrato, tornou-se entretanto o seu modelo de eleição. Os festivais onde o escritor se apresenta como saltimbanco têm os seus antepassados no teatro de feira, nas fêtes foraines, no mundo cómico e farsante das troupes, dos bouffons e dos acrobatas. Pese embora o esforço que muitos participantes fazem para disfarçar essa incómoda linhagem, ela surge com toda a evidência quando entra em ação o grande clown da commedia literária — misto de Pierrot e Arlequim — que se chama Eduardo Pitta. Leia-se o que este rei da irrisão involuntária escreveu no seu blogue (http://daliteratura.blogspot.com) sobre o Festival Literário da Madeira para percebermos o que é esse mundo feérico, onde as proezas funambulescas do escritor se dissipam numa apoteose gastronómica.

Quando ele chega, uma glória fácil espalha a sua luz e converte tudo em luxo, degustação e volúpia. Ou, nas palavras do artista, “gossips & drinks”. Não fosse ele poeta, não fosse a sua exuberância de clown admirada pelos seus pares como um equivalente alegórico do ato poético e aplaudida como um feito da mais genial bouffonnerie (é ele que fala da “versão madeirense de ‘La grande bouffe’”) e ninguém lhe perdoaria a licenciosidade com que transforma um festival literário num piquenicão para “happy few” (utilizando uma expressão que lhe é cara). A um festival, mesmo literário, não se pede ascetismo. Mas, para o seu prestígio, não convém a pantomima de um Arlequim que descreve como “grande bouffe” o que os seus anfitriões apresentam como pura substância espiritual.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 9.4.2011.

Ao pé da letra #133 (António Guerreiro)

Jean Baudrillard, nos seus tempos áureos de cartógrafo e analista do presente, dava este exemplo da “estratégia fatal” dos objetos e da ação que, por excesso, se torna inércia: solicitada a justificar, por suspeita de fraude, as contas anuais que tinha apresentado, uma empresa americana depositou à porta da secção de finanças local um contentor cheio de papéis que, se fossem verificados como estava previsto, entupiriam por longo tempo todos os serviços da secção. A metáfora do entupimento, como sabemos muito bem, aplica-se também a outro exemplo de inércia forçada pelo excesso de mobilidade: as filas de carros parados nas ‘vias rápidas’ para entrar ou sair de uma cidade. Desta forma de entropia, as caixas de comentários dos sites dos jornais são hoje o melhor exemplo: elas foram criadas para alargar a esfera pública mediática, para criar a ágora virtual, apta a realizar as promessas mais amplas da democracia.

Mas o que acontece, afinal? Tão aberto e sem controlo é o espaço que os primeiros a aceder a ele são os que se alimentam do combustível mais forte: os enraivecidos, os despeitados, os ressentidos, os voluntariosos, os tagarelas. Esta gente toda a trocar mensagens e insultos, a disseminar ódios e opiniões, a gritar impropérios e calúnias, ocupa a ágora de maneira tão ruidosa e tão avessa ao “agir comunicacional” que afasta quem, com saber ou racionalidade argumentativa, se dispõe a intervir. A “dialética do Iluminismo”, que Adorno e Horkheimer identificaram na reversibilidade da razão moderna, encontrou aqui a sua realização extrema: uma esfera pública totalmente aberta e ilimitada, exatamente por o ser, redunda no seu contrário; a promessa ‘iluminista’ por excelência torna-se o reino das trevas; e os meios que julgávamos poderem cumprir a promessa de uma sociedade racional tornam-se os instrumentos da barbárie.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 2.4.2011.


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