Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Ao pé da letra #132 (António Guerreiro)

Não há nada mais errado e mais nefasto para o estado da democracia do que a convicção de que os políticos não se entendem, e mal o governo diz branco a oposição diz preto e vice-versa. Ora, este tipo de conflito é meramente formal e segue a regra dos papéis estereotipados que cada um desempenha. Não se trata de disputa política; pelo contrário, significa o desaparecimento da política e a sua substituição por conflitos que pertencem a outra esfera, onde se desenrola uma tragicomédia da aparência. O que se passa nestes conflitos exacerbados é o inverso do que parece à primeira vista: quanto à matéria política, quase não há desentendimento e poucas são as diferenças no modo de construir, representar e perceber os dados da situação, ainda que as medidas preconizadas à Direita e à Esquerda sejam diferentes. Na linguagem de um filósofo francês que esteve em Lisboa recentemente, Jacques Rancière, diríamos que, apesar do conflito, há a configuração de um campo de percepção comum.

E isto significa o seguinte: que estamos sempre imersos na mesma linguagem e nos mesmos gestos, condenados à repetição, sem palavras capazes de abrir o horizonte. Trata-se do discurso das táticas: táticas de gestão, táticas de sobrevivência, táticas de dissimulação, táticas argumentativas. Ora, quando tudo é cálculo pragmático e táticas, a racionalidade instaurada já não pertence à esfera da política (o mesmo Rancière diria que pertence à esfera da polícia*). E isto é tão insuportável que os cidadãos, antes de se incomodarem com o que os políticos fazem, incomodam-se com o que eles dizem: “Já não posso ouvi-los” é a manifestação primeira desse estado de exasperação. No polo oposto e simétrico, também fora da esfera política, está a experiência das multidões ‘impolíticas’, seduzidas pelas palavras do ditador carismático.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 26.3.2011.

Ao pé da letra #131 (António Guerreiro)

Um Candide nosso contemporâneo que tivesse aterrado no Japão no dia 11 haveria de repetir o que disse Candide de Voltaire a 1 de Dezembro de 1755 quando chegou a Lisboa: “O dia do Juízo Final é aqui”. Já não há nenhuma teodiceia leibniziana que possa ser objeto da ironia voltairiana do “melhor dos mundos possíveis”, mas as imagens que temos visto da catástrofe no Japão mostram-nos porque é que o terramoto tem sido, na cultura ocidental, uma metáfora poderosa com um sentido teológico e teleológico (isto é, respeitante ao sentido da História). Por sua vez, Kleist escreveu em 1807 uma novela intitulada “O Terramoto no Chile”, que, retomando questões filosóficas colocadas no livro de Voltaire, pode ser lida como uma refutação da sua sátira iluminista. Mas as imagens que nos chegam do Japão fazem-nos ver porque é que o terramoto, além de ser uma “metáfora absoluta”, além de motivo de especulação filosófica e teológica, evoca narrativas como o Apocalipse e o mito de Prometeu.

A questão da técnica, como sabemos, é a grande questão moderna. Demonizada por uns e idolatrada por outros, nada melhor a define do que uma frase de Oswald Spengler, citada por Heidegger no comentário ao hino de Hölderlin ao Reno: “O homem não pode ver um rio sem o converter mentalmente em energia.” Entre o Reno que inspira o hino de Hölderlin e o Reno que alimenta barragens há uma oposição irredutível. Mas essa oposição entre um polo mítico-poético e um polo racional-matemático tem um alcance trans-histórico e não é exclusiva da cultura moderna. As imagens que nos chegaram do Japão, captadas com os dispositivos tecnológicos mais avançados, remetem-nos no entanto para dualidades, como a referida, que tendemos a julgar arcaicas. E trazem consigo um irrepresentável que nos subtrai à nossa temporalidade histórica.

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 19.3.2011.

Ao pé da letra #130 (António Guerreiro)

As reportagens que têm sido publicadas sobre os hábitos, os divertimentos e a cultura dos jovens deixam-nos um sabor a deceção: afinal, a bateria de inquéritos e verificações de uma sociologia empírica e espontânea não acrescenta nada. Estes exercícios de demonstração do óbvio, em vez de nos convencer de que aquilo que todos sabemos está certo, fazem-nos suspeitar de que esse saber só se pôde constituir a partir de ideias a priori que determinam o sentido único das conclusões. Um exemplo: quando os interrogatórios incidem sobre os “consumos culturais”, imediatamente se obtém o inventário dos produtos que as novas tecnologias fazem circular. Ora, o que devemos questionar é a própria ideia de “consumo cultural”, porque não se trata de uma descrição objetiva, como fica claro se lhe dermos um outro nome que já teve: indústria da consciência. Os “consumos culturais” são manifestações de superfície, mas é preciso ter o génio de um Simmel para penetrar através delas na essência de uma época. 

A noção de “consumo cultural” está cheia de ideologia e diz muito mais sobre quem a utiliza do que sobre os “consumidores”. Para que tais reportagens avançassem alguma coisa no conhecimento, elas teriam de perceber não apenas o que os jovens “consomem”, mas como formam uma racionalidade das suas práticas culturais, isto é, que representações conscientes — que ideia — têm delas, que experiência intelectual, ou ausência dela, fazem (sim, porque alguém que lê Sade como filósofo não “consome” a mesma coisa que o leitor de Sade interessado em pornografia). Mas se a noção de “consumo cultural” se revela aqui falaciosa, a partir do momento em que passou a justificar a lógica do “ao serviço do consumidor”, adotada por editoras, instituições, suplementos e revistas culturais, tornou-se pura e simplesmente criminosa. 

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 12.3.2011.

A beleza exótica da Bette Davies às matinés... (Mário Fernandes): Folha da Cinemateca Portuguesa




[Nota de rodapé: amizade selada (à Hawks).]

... l’agressivité, ce piteux semblant d’audace.”


... a agressividade. Lastimoso fingimento de audácia.

Henri Michaux, Poteaux d'angle (trad. Natália Correia)

Human inventiveness




Three dogmas of documentarism [a Visible Evidence 18, NY conference rejection]

The larger theoretical context of an enquiry on the irreducibility of (documentary) ‘visibilities’ to statements (discourse) seem to require an analogous evaluation of the effects of discourse preceding, accompanying, justifying and legitimizing the cinematic practice of documentaries, as employed by critics, theoreticians, in pedagogic practices or, last but not least, the statements of directors themselves. In this enlarged discourse field we’re calling ‘documentarism’, three complementary capitalized notions — Real, Gaze, the Other — seem to lay around available to a constant and overbearing use, despite not being generally required to attain a proper conceptual definition, and undoubtedly providing a loose and easily accountable for community of meaning. Perhaps that conceptual inconsistency is not merely accidental, but a necessary condition so as to have some particular perspectives circulating more freely.
Such general notions are then to be taken as operations that, on one hand, block the emergence of more precise ones that would be closer to the filmic materials and simultaneously allow other more abstract and transversal approaches; and, on the other, somewhat paradoxically, these notions, serving as a background without definition, seem to allow some of its users the invention of nonetheless creative approaches. So, in this complicated setting, our starting theoretical effort will consist in trying to briefly sketch a three step genealogic path of these referred notions’ — Real, Gaze, the Other — discourse existence in ‘documentarism’. Firstly, we’ll acknowledge these topos apparently common conceptual origin in post-War Continental philosophy, namely on psychoanalysis (Lacan), art phenomenology (Merleau-Ponty) and the ethics of recognition (Lévinas); secondly, we’ll go through some important film theory instances (Bazin, Nichols, Mulvey, etc.); and, finally, we’ll evaluate the extension of these notions’ operations by exemplifying some contemporary pedagogic experiences, like Les Atelier Varan.

[Sensibilidade de sismógrafo + Socialismo da imagem = ?]

«Sabemos desde os seus filmes dos anos 60 que Godard tem uma sensibilidade de sismógrafo. Pressente agitações subterrâneas antes de elas se notarem à superfície: Made in USA, La Chinoise ou Weekend são os filmes que melhor explicam o Maio de 68, e foram feitos antes de Maio de 68. De resto, isto não é nada demais: é apenas o que ele tem como o “dever do cinema”, e faz por cumpri-lo. É curioso notar, a este propósito, a quantidade de coisas que aconteceram no espaço central de Filme Socialismo (o Mediterrâneo) depois de Godard o ter feito: a Grécia (“Hell As”) foi transformada num pária da Europa; outros países (a Espanha, a Itália, e mesmo nós, mediterrânicos por afinidade) fazem o possível para evitar que a Sra. Merkel (“na Alemanha nunca se passa nada”, dizia-se no mais godardiano dos Fassbinders, Der Amerikanische Soldat) os conduza ao mesmo destino; do “outro” lado, a Tunísia revoltou-se, o Egipto revoltou-se, a Líbia entrou em combustão e na Europa teme-se o momento em que um “líbio oprimido” se transforme num reles “imigrante”. Só em Israel e na Palestina, por onde o navio de Godard também passa, é que não aconteceu nada, o que é o mesmo que dizer que continua a acontecer tudo. “Alheado do mundo”, Godard? Só se para reconhecer o mundo já não dispensarmos a empática condução de Javier Bardem (aludimos ao tão celebrado Biutiful, cuja Barcelona também é visitada por Filme Socialismo, e não somos originais na alusão). Não veremos este ano filme mais ligado, mais “em linha”, com o mundo do que Filme Socialismo

Luís Miguel Oliveira, Público-Ípsilon, 4.3.2011.
«Há ainda uma outra forma de socialismo, que vem da montagem. É que Filme Socialismo parece alinhar e conter todas as imagens do mundo, as produzidas, as naturais e as sonhadas, as ‘puras’ e as ‘impuras’, como se, a partir daqui, tivesse nascido um equilíbrio entre elas (podia dizer-se, em jeito de provocação, uma liberdade, uma igualdade e uma fraternidade), venham essas imagens de uma câmara HD ou de um telemóvel, de uma obra-prima de cinema, de um direto da TV ou de um ‘diálogo de gatos’ do YouTube. Como se em cada imagem existisse agora a hipótese de um filme a fazer. Neste ponto, Filme Socialismo é um corte profundo (o primeiro) com História(s) do Cinema, filme matricial da última fase do trabalho de Godard. O cinema vai certamente partir daqui, deste fabuloso e profético nomadismo, para continuar o seu caminho. A sua revolução. Sem copyright, num socialismo da imagem.»

Francisco Ferreira, Expresso-Atual, 5.3.2011.

Ao pé da letra #129 (António Guerreiro)

Más, e singelamente burocráticas, são as razões que levaram o Ministério da Educação a não deixar que fossem afixados nas escolas os cartazes de uma campanha contra a discriminação e a violência exercida sobre os alunos homossexuais. No entanto, os cartazes fornecem boas razões — que não são as do Ministério — para serem rejeitados. Retirando as mensagens escritas — “Um de nós é gay”/ “Uma de nós é lésbica” —, tudo neles poderia ser transferido sem obstáculos para uma revista de paróquia: o grafismo, a imagem e a pose dos três rapazes e das três raparigas que foram fotografados. O que é que estes cartazes promovem, afinal? Uma imagem muito limpinha da homossexualidade, sem mácula nem espessura, que responde aos cânones mais respeitáveis. Ali, não há nenhuma inquietação, não se insinua qualquer linha de fuga imprevista, a homossexualidade é perfeitamente integrada na normalidade das relações sociais e responde a uma grande reivindicação de igualdade, própria de uma sociedade muito polida — não há diferença entre a homossexualidade e a heterossexualidade. 

É a esta grande operação ideológica que se têm entregado com zelo um número apreciável de pessoas — surgidas nos últimos tempos —, muito ativas, muito apreciadas, muito presentes, tão cheias de boas intenções como as madrinhas de guerra do Movimento Nacional Feminino. Talvez pareça injusto desqualificar-lhes o trabalho e introduzir dúvidas no seio de tanto entusiasmo. Mas se a visão da homossexualidade que anima estas brigadas de gente moderna, culta e generosa as leva a defender o que nos cartazes se pode entrever (isto é, um mundo completamente normalizado e estetizado à medida do Kitsch ideológico e luminoso), então o melhor é os homossexuais começarem a defender-se dos seus defensores. 

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 5.3.2011.

Pelo contrário: poema de Pedro Costa perante “Film Socialisme”



[Nota: o “poema de JMM” — ou seja, de Joaquim Manuel Magalhães, nascido em Peso da Régua, 1945, autor de inúmeros livros de poesia, entre os quais Alta noite em alta fraga (2001, renegado) e Um toldo vermelho (2010), obra que “exclui e substitui toda a anterior” — compõe aqui a secção 2, a que se inicia com “Apenas o real. // Diferendo...”, e inaugura «Traço» de Um toldo vermelho, p. 67 (obrigado, Mathilde!)... A propósito de uma ligação entre a obra de Pedro Costa e a de Joaquim Manuel Magalhães, conferir a frágil sugestão inscrita na última frase de «Outro final para o 25 de Abril» (2007). Resta averiguar a que ponto esta outra “carta-poema” — como a de Ventura a partir de Desnos — é também ela um trabalho mais geral de rescrita.]

Filmes que restam em Março


The Barefoot Contessa
Joseph L. Mankiewicz

E.U.A., 1954, 128
Sáb, dia 5, 15h30
Cinemateca*, Lisboa


Film socialisme
Jean-Luc Godard

França, 2010, 101
Sáb, dia 5, 18h30, 21h30
Culturgest, Lisboa


Xavier
Manuel Mozos

Portugal, 1992-2003, 100’
5ª, dia 17, 19h30 – Cinemateca


Ghost dog:
The way of the samurai
Jim Jarmuch

E.U.A., 1999, 116
5ª, dia 17, 22h – Cinemateca


Die tausend Augen des
Dr. Mabuse

Fritz Lang
Alemanha, 1960, 103’
Sáb, dia 19, 22h – Cinemateca


Our daily bread
King Vidor
E.U.A., 1934, 73’
2ª, dia 21, 15h30 – Cinemateca


Comment ça va?
Jean-Luc Godard, Anne-Marie
Miéville
França, 1971, 78’
Elogio de Jean-Luc Godard
5ª, dia 24, 19h
2ª, dia 28, 19h30 – Cinemateca


Nouvelle vague
Jean-Luc Godard

França, 1990, 89
Elogio de Jean-Luc Godard
2ª, dia 28, 21h30 – Cinemateca

48
Susana Sousa Dias
Portugal, 2009, 93’
3ª, dia 29, 21h30 – Cinemateca


Puissance de la parole
Jean-Luc Godard
França, 1988, 25’
Elogio de Jean-Luc Godard
4ª, dia 30, 22h – Cinemateca


Les enfants jouent à la Russie
Jean-Luc Godard

França, E.U.A., 1993, 63
Elogio de Jean-Luc Godard
4ª, dia 30, 22h – Cinemateca


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

Ao pé da letra #128 (António Guerreiro)

A ideia de geração, que nunca teve uma definição precisa e sempre consentiu ser determinada por critérios diferentes, tornou-se recentemente, na cultura dos filisteus, uma palavra-maná. Uma meta-história que se dedique ao estudo dos ritmos históricos partirá desta verificação: a tendência da nossa época para escandir o tempo em períodos cada vez mais breves e para encurtar os ciclos dos balanços, das retrospetivas e das efemérides faz com que se esteja constantemente a cavalgar o tempo para proceder à atualização das novas formas e tendências da época, criando a ilusão de que algo de novo se está sempre a passar. Assim, a ideia de geração tronou-se mais plástica e flutuante do que nunca e passou a servir uma débil sismografia sociológica que tem nos media a sua estação meteorológica. Esta vaga ideia de geração foi suscitada sobretudo por outra vaga ideia, que é a de juventude. 

A atual categoria de juventude é uma invenção recente. Simultaneamente etária e cultural, surgiu nos anos 50 do século passado, nos tempos áureos do acesso ao consumo, da cultura pop e da contracultura. Expressão suprema desses tempos eufóricos, a juventude foi quase entendida como um novo sujeito da História. Desse lugar de vanguarda, passou nos últimos tempos — segundo o discurso da nossa sensibilidade epocal — para o lugar dos que nem chegam a ter lugar na dialética histórica. Provavelmente, esta narrativa será reescrita de outra maneira. Entretanto, convém saber que no início do século passado, meio século antes da invenção da nossa categoria de juventude, surgiram os movimentos de estudantes e juvenis. Mas, então, a juventude, mais do que uma categoria etária e sociológica, reivindicava-se como uma “categoria do espírito”, dotada de uma força crítica que queria assumir uma missão que, na altura, se dizia com estas palavras: “tarefa histórica”. 

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 26.2.2011.

Acontecimentos visuais sem teleologia ou direcção narrativa (Michael Snow)


«Distingue entre “filmes de galeria”e “filmes de sala”, em que reside a diferença?
Há uma diferença importante. Quando se vai ao cinema há uma tradição, vai-se a um sítio que tem cadeiras e um ecrã, sentamo-nos e espera-se assistir a algo com uma certa duração. Nesta experiência existe um contrato social em que determino ir a um sítio, sentar-me e prestar atenção ao que vai acontecer. O cinema de sala tem palco, os espectadores estão sentados, as sessões têm horas marcada, durações definidas, etc. Na galeria de um museu o público é deambulante e está em permanente promenade. Para este contexto é preciso fazer trabalhos com a consciência de, possivelmente, o público só ver um pequeno fragmento. Têm de ser contínuos, sem aspectos climáticos, etc., e a duração é um problema. Eu fiz filmes muito longos com três ou quatro horas e sei que nunca os poderei projectar numa galeria.

Cada vez mais o museu está a assumir o cinema como território de exploração e exibição. Gosta da ideia do cinema no museu?
São duas formas diferentes de mostrar imagens em movimento. Hoje a situação é mais complexa do que há 20 anos: há imensos tipos de ecrã, os telefones, os DVD portáteis, o computador. Gosto das galerias dos museus, porque se faço trabalhos com algumas regras de instalação (por exemplo: tamanho da imagem, tipo de som, inclusão de objectos, etc.) sei que só funcionam naquele contexto espacial. Por isso os meus trabalhos de galeria (por exemplo “Solar Breath”, 2002) são acontecimentos visuais sem teleologia ou direcção narrativa. Têm uma mesma origem formal, mas estão sempre a acontecer coisas diferentes. Esta é a única maneira dos filmes funcionarem num museu.»
Michael Snow
entrevistado por Nuno Crespo, in «Uma câmara pode ser agarrada como se quiser», Público-Ípsilon, 16.2.2011.

Ao pé da letra #127 (António Guerreiro)

Sobre o uso imoderado das obscenidades como traço de estilo e expressão de uma ‘incorreção’ infantil  

Umas das manifestações da democratização dos media e do fácil acesso à autoedição é o uso imoderado da obscenidade. Quando vemos o regozijo com que se escrevem palavras obscenas, recordamo-nos da abertura de “O Grau Zero da Escrita”, de Roland Barthes: “Hébert nunca começava um número do ‘Père Duchêsne’ sem introduzir alguns foutre e alguns bougre. Essas grosserias não significavam nada, mas assinalavam. O quê? Toda uma situação revolucionária.” Esclareça-se que o “Père Duchêsne” é um jornal radical criado durante a Revolução Francesa e editado por Jacques Hébert; esclareça-se, ainda, que seria um risco — o risco da contradição — traduzir as duas palavras que, na citação, ficaram em francês. Hoje, não é uma posição revolucionária que se adota através das obscenidades. É, antes, uma situação de proximidade coloquial e de convívio com o leitor, promovida como uma exigência, que se quer simular. Assim, obscena é também uma utilização do Eu nos meios de comunicação, quando a impessoalidade deveria ser a regra, e não apenas por pudor. 

Mas a disseminação das palavras obscenas tem outra razão de ser: elas conferem ao texto um estilo desenvolto e despachado e colocam imediatamente o autor do lado da força natural que não se detém diante das convenções da correção. Acontece assim com a escrita jornalística (categoria que não se limita ao que se escreve nos jornais) o que aconteceu, por cá, ao “politicamente correto”: é coisa de má fama, conotada com umas delicadezas exageradas e artificiais, que são determinadas pela ideologia e deturpam toda a verdade. Não é que isso não seja com frequência verdade. Mas há ideologia mais óbvia do que a do “politicamente incorreto” por reação? Escrever obscenidades tornou-se mais do que uma interjeição: é um expressionismo infantil. 

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 12.2.2011.

Filmes ‘menores’ em Fevereiro


Breakfast at Tiffany’s
Blake Edwards

E.U.A., 1961, 115
2ª, dia 7, 22h
Cinemateca*, Lisboa

Sunset Boulevard
Billy Wilder

E.U.A., 1950, 110
Sáb, dia 26, 15h30 – Cinemateca


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]


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