Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

After modern cinema (Birth of electronic space #3)

The enlarged context of research the “birth of electronic space” is included concerns the nature and projective shadow of modern cinema and the particular role of ambiguity in it; ambiguity taken here as the operative dimension of thought within cinema. Serge Daney once described “modern” cinema as a “provocation without object and endless mourning”*. This mourning paradoxically became a condition to me, since I took it critically as a tradition that had pratically no followers. That why I do concentrate on the later moment of this cinema — a late modernity, contrary to what is usually done, with the obsession of origins, always imposing historical origins as fountains of adequate understanding, in the passage from classical forms which after all never ceased to happen. I’m more interested in the traces of disintegration of modern cinema itself, the paradoxes it has left behind, and its extreme and now abandoned forms. And of course, I take the “birth of electronic space” to be one.
* Serge Daney, «Post-scriptum», La rampe. Cahier critique 1970-1982, Cahiers du cinéma/Gallimard, 1983 (1996), p. 214.

[to be continued]

Ao pé da letra #107 (António Guerreiro)

Sobre uma conceção da cultura que não é bem uma conceção: é um estado de mutilação cultural

«É uma das frases mais fascinantes sobre cultura que alguma vez foram proferidas por um dirigente partidário. É da autoria de Nilza Mouzinho de Sena, vice-presidente do PSD, e encontra-se num artigo saído recentemente no “Público”: “A cultura não pode ser uma entidade abstracta de elites, pensada por um nicho populacional e desagregada do interesse transversal de toda a população”. A frase é fascinante, porque realiza em si mesma a conceção de cultura que defende. E, em vez de uma ideia sobre cultura, o que ela exibe é o estado de mutilação mental a que foi sujeita a autora, pelo facto de se submeter à sua própria prescrição ideológico-cultural. Se a cultura fosse o que Nilza Mouzinho de Sena pensa que é, nem haveria uma Nilza Mouzinho de Sena para dizer o que pensa da cultura. Quanto mais um Goethe, um Kafka, um Pessoa, um Rothko, um Schönberg. A sua modesta proposição não pode ser confundida com a de um filisteu (há no filisteu uma atitude cínica, um afastamento voluntário e estratégico).

Trata-se de outra coisa, desprovida de estratégia, que o poeta e ensaísta Hans Magnus Enzensberger classificou como “analfabetismo secundário”, ao pé do qual o verdadeiro analfabeto lhe parece “uma pessoa venerável”. Segunda Enzensberger, o analfabeto secundário é o produto de uma nova fase da industrialização, quando os meios de produção da imbecilidade proliferam de modo a criar os seus qualificados consumidores. O analfabeto secundário tem uma fé realista radical, o que o leva a considerar abstracto tudo o que não pode ser objecto da sua fé. Por isso, a sua preocupação e o seu zelo dirigem-se à população, à realidade demográfica. Menos do que isso, seria ceder a divisões, a cesuras, a tropismos minoritários. A população, ao menos, é um conceito que escapa a determinações culturais. É pura biologia.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 7.8.2010.

An exercise in genealogy (Birth of electronic space #2)

If paying particular attention to the singular expressive power of some cinematic works’, one might encounter unusual approaches, for instance, to the emergence of new technologies, and be tempted to establish the strangest of genealogies. The exercise in genealogy this paper amounts to — to discover the “birth of electronic space” inside the technology of film — must, nonetheless, first be comprehended within the larger context of the overwhelming emergence of the audiovisual archive. The relevance cinema might attain to our contemporary experience of the world is indeed directly connected with the struggle against the general archival of all experience. The belief in some level of irreducibility of ‘visibilities’ to discourse is perhaps the major theoretical hint we have for an understanding of cinema’s “relevance” that would be consentaneous with its most accomplished artistic exploits, exactly what one can never neglect while trying to grasp another level of intelligibility.
Film constitutes a privileged archaeological practice for understanding the orders of experience in a given historical moment, but we are nevertheless still lacking a philosophical ‘foundation’ of the audiovisual archive’s emergence that would bring film into this different level of intelligibility. In the end, we’re facing a function of film that cannot be neglected: the presentation of visibilities lacking so many technological, juridical and political statements that rule us, i.e., an intrinsic reach immanent to its material expression. But within the instance of discourse are indeed included film and art theories, with their corresponding “distributions of the sensible”, so amounting themselves to discourses that can block the ‘visibilities’ of film. That’s why a privilege of the object is always needed.

[to be continued]

Ao pé da letra #106 (António Guerreiro)

Sobre uma invenção que nunca se afigurou convincente mas que promete salvar a indústria do livro

«Depois de uma primeira tentativa falhada, há cerca de uma década, o e-book regressou como um novo fenómeno plausível da indústria do livro, capaz até de intervir na sociologia da leitura. Ao contrário de muitos outros dispositivos e instrumentos técnicos, o livro parece insuperável e ninguém sente a necessidade de o aperfeiçoar; já o sucesso do e-book depende da sua eficácia em imitar a forma livro, e não resultou da primeira vez exactamente porque a imitação era muito deficiente. Estranha invenção esta que entra no futuro às arrecuas. A exigência a que o e-book responde parece vir integralmente da indústria do livro.

Trata-se de ganhar mais camadas de leitores, segundo aquele princípio — agora potenciado pelas regras exacerbadas do consumo — que já tinha determinado a entrada em cena do livro de bolso, em 1935: há um mercado potencial enorme a explorar, não do lado dos leitores que procuram o que querem ler, mas do lado dos que comprarão qualquer livro desde que a sua tiragem seja bastante elevada e ele tenha sido comprado por uma multidão. A indústria do livro só cumpre a sua missão de maneira completamente racional, nesta condição: dirigindo-se a um leitor que não procura mas acabará, ainda assim, por encontrar; que não sabe o que quer, mas gostaria, no entanto, de escolher.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 31.7.2010.

Methodological doubts (Birth of electronic space #1)

in “Origines, pionniers, généalogies”, Cinéma & Art Contemporain 3, Paris Summer School, Institut national de l'histoire de l'art, Salle Giorgio Vasari, Paris, 30.7.2010.

Although fully recognizing the methodological primacy of object analysis, I will start here with a somewhat long introduction to the research context in which the specific intuition this paper deals — which regards the “birth of electronic space” in Michael Snow’s Back & Forth and La Région centrale — can make some sense. Instead of doing a descriptive zoom on these films, I suggest we first take a more sinuous path, a panoramic through some theoretical “problems” to which the cinematic “cases” the “birth of electronic space” is concerned with might depend upon, give answer to or at least throw some light. (I’m consciously not using the term “examples” here; for this important conceptual clarification, see Agustin Zarzosa’s wonderful and to be published essay «The Case of the Illustrious Example».)
The fact is that description as a method became more complicated, since its textual form is now usually accompanied by the presentation of still images and even clips of the videos themselves, which could be argued, substitute themselves to the analysis or, in some more unfortunate cases, render it irrelevant. One cannot but wonder what effects this might have on writing – critical and theoretical writing first of all concerned with giving an answer to what captivated the spectator of the film. Description is indeed full of traps and becomes problematic specially if it doesn’t provide along with it a corresponding theoretical gesture that would at least try to account for the significance of its artistic object, its singularity; a theoretical gesture that would then, surprisingly, unburden from the weight of analysis, by relating the works to the outside world and so providing connections for its intelligibility.

[to be continued]

Ao pé da letra #105 (António Guerreiro)

Sobre as falácias da ‘identidade sexual’, a propósito de um poeta que fez filhos por desfastio e ocultação

«O livro de São José Almeida sobre Os Homossexuais no Estado Novo repesca uma velha história sobre a sexualidade de Jorge de Sena e a sua expulsão da Marinha, por via de dois depoimentos, de Eduardo Pitta e de Fernando Dacosta. Deste último, podemos ler esta sentença, extraída da mais elevada doutrina analítica: “Casou. Fazia praticamente um filho por ano, o que é uma atitude muito normal nos homossexuais.” Traduzindo em termos técnicos: cada filho de Jorge de Sena é o resultado de um acto de denegação (uma Verleugnung freudiana). Neste método um pouco selvagem (no sentido em que se fala de “psicanálise selvagem” de tratar da ociosa questão da sexualidade de outrem, ainda que escritor, o pressuposto é o de que o teor de verdade está todo no que na vida de um indivíduo foi exceção (se essa exceção foi um comportamento homossexual, algo de que, no caso de Jorge de Sena, foi sempre apresentado como insegura matéria de especulação) e não no que ele exibiu publicamente como regra.

Nesta perspectiva, que psicologiza sem hesitações e apresenta uma comédia muito apreciada — a comédia da identidade —, a homossexualidade reconduz-se sempre à questão do “quem é ele, verdadeiramente?”, a qual deve ser fixada numa identidade que não tem nada de versátil: uma vez homossexual, homossexual a vida inteira, ainda que por denegação. Estes pressupostos identitários são exactamente simétricos aos da norma heterossexual. Eis a armadilha a que estão presos os classificadores, fiscalizadores da verdade e reivindicadores naturalistas de identidades. A psiquiatria do século XIX falava dos homossexuais como “doentes do instinto sexual”, baseada em métodos de diagnóstico semelhantes aos do discurso que nos assegura que fazer um filho por ano “é uma atitude muito normal nos homossexuais”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 24.7.2010.

A ecologia política (António Guerreiro)

«Numa passagem da sua trilogia Esferas, o filósofo alemão Peter Sloterdijk observa que foi só depois das crises ecológicas que se soube verdadeiramente que o mundo era redondo, porque as consequências das nossas ações acabam sempre por regressar a nós. E dá este exemplo: as aves selvagens do Ártico e da Antártida assimilam as resistências aos antibióticos dos animais domésticos. Em suma: estão completamente globalizadas. Por mais que a ecologia política oficial tente despolitizarr a questão da ecologia, o facto de as crises ecológicas transformarem o mundo, na sua totalidade, em espaço público tem levado a reclamar uma repolitização da ecologia, o que implica inventar a representação política dos humanos com os seus associados não humanos. O sociólogo francês André Gorz (que se suicidou em 2007) foi uma das figuras fundamentais que, desde os anos 70 do século passado, tentaram pensar uma ecologia política. A sua posição, muito embora crítica em relação ao capitalismo e tentando encontrar novas orientações no interior do socialismo, opõe-se à dos ‘naturalistas’, às aspirações nostálgicas a uma sociedade comunitária que caracterizaram os grupos de extrema-esquerda. A convicção de Gorz era a de que havia uma proximidade entre esses grupos que marcaram o nascimento da ecologia política com os integrismos religiosos e os nacionalismos de extrema-direita. Uns e outros faziam da modernidade e dos seus projectos de emancipação um inimigo a abater. A utopia dos ‘verdes’ mais radicais consistia na desindustrialização, reatualizando de forma regressiva o projecto da sociedade comunista. E como, para a realização desta utopia, não havia um sujeito social ou histórico, acreditava-se que o capitalismo nem precisava de ser combatido por uma classe revolucionária, ele cumpriria pelos seus próprios meios um destino de ruína e catástrofe da civilização industrial. Uma ordem natural seria assim restabelecida.

André Gorz cita um fundamentalista ‘verde’, Jürgen Dahl, que já em 1990 escrevia no jornal Die Ziet: “O mundo é vítima da opulência na qual viveu às suas custas, mas desse modo ele também se renova e acabará por encontrar um equilíbrio com um pouco menos de habitantes, de beleza e de riqueza. Uma grande pobreza será a consequência necessária da opulência. Só a pobreza nos poderá salvar.” A natureza da ecologia política de Gorz, pelo contrário, não é a dos naturalistas, consiste na defesa do mundo vivido, de uma cultura do quotidiano. Segundo ele, a reestruturação ecológica da sociedade exige que a racionalidade económica seja subordinada a uma racionalidade ecossocial. O que é incompatível com o paradigma capitalista da maximização do lucro. É isso que o leva a defender a necessidade de uma saída da ‘sociedade do trabalho’ para uma sociedade onde as atividades sem objectivo económico, públicas e privadas, serão preponderantes. A sua ideia era a de que, verificando-se uma diminuição contínua do volume de trabalho disponível (o que leva a um crescimento imparável do número de desempregados), a única maneira de evitar a exclusão seria a redistribuição do trabalho, tornando o salário independente não do trabalho mas da duração do trabalho. Não se tratava, na sua teoria, de instituir um ‘rendimento universal’ que se adquire pelo simples facto da cidadania, mas de garantir a toda a gente um salário inteiro, ainda que trabalhando um número de horas reduzido. A ecologia política de Gorz passava precisamente pelas questões do trabalho e fundava-se num otimismo antropológico que está em contraste com a afirmação de Lévi-Strauss, no fim de Tristes Trópicos: “O mundo começou sem o homem e acabará sem ele.”»

António Guerreiro, «A ecologia política», Expresso-Actual, 17.7.2010.

Ao pé da letra #104 (António Guerreiro)

Sobre uma espécie comum que não conhece outra lei senão a do darwinismo da indústria cultural: o filisteu

«A palavra ‘filisteus’ foi esta semana recuperada por Pedro Mexia para designar “os indivíduos de uma direita dogmaticamente ‘liberal’, aliados a uma esquerda analfabeta”, que não perdem uma oportunidade para atacarem os subsídios às artes e manifestarem a sua ignorância sobre o que é a independência de um artista. Para uma definição do filisteu, devemos ler um texto de Hannah Arendt incluído em Between Past and Future. Ficamos aí a saber que a palavra foi utilizada pela primeira vez como conceito pelo escritor alemão Clemens Brentano para designar uma atitude que, julgando tudo pelo critério pragmático da utilidade, olha com sobranceria a inutilidade da arte. E Hannah Arendt forja a partir daqui a categoria do ‘filisteu cultivado’ — aquele que se apropria da arte e da cultura como um mero capital com o qual adquire uma posição superior na sociedade.

Entre nós, um recente relatório que demonstrava o razoável interesse económico das “indústrias culturais” veio servir de argumento para o investimento e a protecção dessa área. Mesmo utilizado com manha a estratégia, o argumento segue sem hesitações a lógica do filisteu, daquele que faz da cultura e da arte uma moeda de troca. Trata-se de um argumento perigoso, porque não opõe qualquer resistência ao mecanismo bem oleado das “indústrias culturais” (a que está longe de se reduzir toda a cultura e toda a arte), as quais, na verdade, não precisam de subsídios, mas engendram e promovem, muito mais do que estes, a dependência dos artistas. A situação grotesca é que esta forma de dependência é tida como um ‘habitat natural’, e já se tornou comum pensar que, para além dela, só existe uma reserva exótica que os arautos do darwinismo cultural acham artificial e custosamente protegida e só sobrevive como uma aberração a que as leis da ‘natureza’ já teriam posto fim.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 17.7.2010.

Ao pé da letra #103 (António Guerreiro)

Sobre Cristiano Ronaldo como fenómeno sociológico total e pai poderoso que não partilha os seus poderes

«Se o conceito de mitologia, formulado por Barthes, fosse ainda válido para analisar os fenómenos da sociedade mediática e de consumo, o dinheiro de Cristiano Ronaldo poderia ser visto como um objeto mítico do mesmo tipo que o cérebro de Einstein. Mas o conceito já perdeu grande parte do seu poder e surge hoje com o charme de um objeto do passado. A mitologia do dinheiro do atleta e a do seu corpo reificado dizem muito pouco se não percebermos que Cristiano Ronaldo se tornou um fenómeno sociológico total. E a história da sua paternidade fornece matéria importante a esta totalidade. Enquanto pai, Cristiano Ronaldo cumpre uma etapa de redenção do grande fornicador improdutivo. Acabou o potlach, como diriam os antropólogos, foi restabelecida a ordem da economia produtiva. Qualquer regime familiar ou contrato conjugal só poderia ser uma ameaça potencial ao poder que incorporou (no sentido literal) e que não pode ser partilhado: infidelidades, divórcios, divisões de bens e de tutelas seriam fatais.

Por isso, teve de ser pai em regime autárquico, eclipsando a instância da família e reduzindo a maternidade a trabalho anónimo e operário. Assim, salvaguarda a sua segurança (empreendimento que não admite quebras de vigilância), ao mesmo tempo que não cede poderes a quem, por via da maternidade, poria o seu território em perigo. Mas, enquanto fenómeno sociológico total, ele é também uma figuração do ideal contemporâneo da procriação por encomenda, do filho engendrado na mais completa racionalidade. Por outro lado, a sua condição de pai autárquico não deixa que o seu poder se dilua e se relativize na procriação. E o filho chamar-se-á, obviamente, Cristiano Ronaldo. A história — todos pressentimos — está suspensa de uma intervenção do destino. Cristiano Ronaldo tem os ingredientes do herói da tragédia grega.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 10.7.2010.

Filmes ‘menores’ em Julho


Shirin
Abbas Kiarostami

2008, 99
14h, 16h30, 19h, (00h)
UCI Cinemas 6
El Corte Inglés, Lisboa


Va savoir
Jacques Rivette

2001, 90’
In memoriam William Lubtchansky
2ª, dia 5, 22h
Cinemateca*, Lisboa


Tempos difíceis
João Botelho
1988, 95’
Eram os Anos 80
(prog. Antonio Rodrigues)

3ª, dia 6, 19h30 – Cinemateca


Notorious
Alfred Hitchcock
1946, 99’
6ª, dia 9, 15h30 – Cinemateca


Número deux
Jean-Luc Godard
1975, 90’
In memoriam William Lubtchansky
2ª, dia 12, 22h – Cinemateca


Von heute auf morgen
Jean-Marie Straub e
Danièle Huillet
1996, 122’
In memoriam William Lubtchansky
4ª, dia 21, 22h – Cinemateca


The quiet man
John Ford
1952, 129’
2ª, dia 26, 19h – Cinemateca


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

Ao pé da letra #102 (António Guerreiro)

Sobre um cronista tão obcecado com a estupidez alheia que decidiu colocar-se sempre do lado contrário

«Marx não estava certamente a pensar nas crónicas de Vasco Pulido Valente quando disse que “a estupidez é o direito consuetudinário de uma opinião”, mas as crónicas do historiador pensam com bastante frequência que devem estar à altura da definição marxiana. O caso é estranho, dado que Vasco Pulido Valente atravessou o nosso tempo como uma elevada encarnação da inteligência. Quem leu uma célebre conferência de Musil sabe, no entanto, que “cada inteligência tem a sua estupidez”. O que explica o mistério Pulido Valente, que nas suas crónicas é uma versão exasperada do Mr. Teste, a personagem de Valéry que dizia: “La bêtise n'est pas mon fort.” No caso do nosso cronista, podemos mesmo dizer que a bêtise é a sua fobia, o que lhe ditou um método seguro: fugir sempre em sentido contrário. Contrário em relação a quem? Em relação ao inimigo eleito. Mas primeiro elege-se o inimigo circunstancial e depois foge-se. De outro modo, o cronista não saberia em que sentido fugir.

Por exemplo: se num contexto preciso começa a impor-se publicamente a estúpida ideia de que o “factor Nobel” serve para medir a grandeza de um escritor, Vasco Pulido Valente, habitado pelo demónio da simetria, dirá: “O Prémio Nobel não garante a importância literária de ninguém. Basta ver a longa lista de mediocridades que o receberam.” Demasiado generoso seria limitar-lhe o parentesco ao Mr. Teste, se ignorássemos outro ramo da família ainda mais ilustre: o genial par constituído por Bouvard e Pécuchet. As crónicas de Vasco Pulido Valente são a manifestação extrema daquilo a que chamamos ‘estilo’; quando este se confunde com uma forma vazia, limitam-se a erguer a efígie do nome próprio e obstinam-se em não dizer senão isto: “Eu sou o Vasco Pulido Valente.” E assim criou uma multidão de descendentes.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 3.7.2010.

Ao pé da letra #101 (António Guerreiro)

«Qual é a medida justa e adequada para o funeral de um escritor que obteve a máxima consagração pública e cujos livros entraram na categoria de património literário reconhecido pelos poderes públicos e pelas instâncias que determinam o cânone. Um funeral à Victor Hugo ou um funeral à Baudelaire? A questão colocou-se agora, entre nós, tendo como motivo o funeral de José Saramago. O que é que nos leva a esta interrogação, por mais que não esteja em causa o alto valor atribuído ao escritor? Antes de mais, o modo como representamos um escritor, o seu papel e o seu estatuto torna-o inimigo de um figura com a qual ele pode ser naquele momento de luto confundido: com a figura do “chargé d'affaires” do espírito da nação. Ou seja, tememos que ele seja anexado e transformado numa instituição.

Em segundo lugar, as mais altas honrarias prestadas a um escritor, mesmo que determinadas pelo momento de luto, amplificam o mito do autor, que é quase sempre inimigo da obra: quanto maior é a dimensão do autor, da pessoa, mais riscos existem de a leitura da sua obra ser perturbada por condições exteriores a ela e que nada têm a ver com fatores de ordem literária. Em terceiro lugar, porque a literatura, mesmo que não seja contestação de mais nada, tem de ser contestação de si mesma enquanto poder – o seu maior pecado é a autocomplacência (e é essa autocomplacência que receamos ver instalada nas grandes honrarias). Em quarto lugar, porque atribuímos à literatura um irredutível núcleo antissocial que surge de repente suspenso.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 26.6.2010.

Europeeing Academic/Cinephile Tour 2010


Birth of electronic space
Institut National de l'Histoire de l'Art, Paris, 28 June-9 July

The animal as a cinematic problem
University of Glasgow, 2-4 July

FID Marseille 2010
Marseille, 7-12 July

To have done with the possible:
Involuntarism as the other (necessary) side of biopolitics
University of Amsterdam, 12-14 July

The reach of a thoughtful cinephile pedagogy
in ‘The exile of reality: On Hartmut Bitomsky’s films on film’
University of Warwick, 15-17 July

Ao pé da letra #100 (António Guerreiro)

Sobre um certo desaparecimento das mulheres e o aparecimento inflacionado do género

«Em 1972, pronunciando uma conferência em Milão, o doutor Jacques Lacan lançou para o auditório uma daquelas suas fórmulas que lhe valeram ser aclamado, pelos fiéis, como o Moisés da nação psicanalítica: “A mulher não existe.” Sem as subtilezas conceptuais do doutor Lacan, muitos são aqueles que nos últimos anos fazem desaparecer a mulher (mais do que o homem) pela utilização de uma palavra inflacionada: ‘género’. Por exemplo, a violência doméstica (exercida, em larguíssima maioria, pelos homens sobre as mulheres) passou a ser denominada “violência de género”. O conceito que tinha como finalidade libertar a mulher de determinações biológicas e de todo o essencialismo (em suma: libertar a mulher da “condição feminina”, já que a “condição masculina” é, historicamente, o estado normal de liberdade) acabou por lhe retirar a arma com que ela empreendeu históricos combates, pois foi como mulher que sofreu e sofre.

A questão do género, nalguns casos, deita a deita o bebé fora com a água do banho. Entendido como construção social, o género é o conceito para desfazer identidades e superar a diferença masculino/feminino, a diferença de todas as diferenças, convertida em poder de um sobre o outro, e por isso entendida quase sempre segundo o modelo da luta de classes (com todos os equívocos que daí advieram). Mas aquilo que foi atirado pela janela regressa pela porta e encarna na chamada “identidade de género”. Este discurso, que se tornou pregnante e se transferiu sem rigor para o âmbito político, traduz na linguagem do ser o que é da ordem do devir: não há um devir masculino da mulher, mas sim um devir feminino da mulher. Foi o que Simone de Beauvoir intuiu quando disse uma frase que se prestou a tantos equívocos: “On n’est pas femme, on le devient”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 19.6.2010.

O alcance de uma pedagogia cinéfila pensante | The reach of a thoughtful cinephile pedagogy

Sobre os filmes sobre filmes de Hartmut Bitomsky

Ensinar cinema, para quê? Ao contrário de outros cineastas igualmente envolvidos em actividades pedagógicas, Hartmut Bitomsky reflectiu sobre essa mesma condição nos seus filmes, que constituem uma poderosa confluência entre os gestos aparentemente diversos da crítica, da pedagogia e da realização. Esta expressão unificada não pode ser separada de uma aguda e lutuosa cinefilia que só se tornou possível depois do cinema moderno. A par de Harun Farocki, Bitomsky emergiu das perturbações de Maio de 68, com a sua politização extrema de todas as dimensões – nomeadamente, a da produção de imagens –, mas permaneceu fiel a uma prática da “distanciação” de modo a poder acompanhar a proliferação avassaladora das imagens. Trabalhando sempre com found footage, seja previamente existente seja pela “citação” de planos filmados por si, nos seus filmes não deve ser visto um mero desmascarar da ideologia constante nas imagens. A par das obras de Pasolini, Marker e Godard, a especificidade do cinema e da sua história no interior de um dominador arquivo audiovisual é abordada por Bitomsky na sua série Antologia do Cinema, um projecto à primeira vista não demasiado ambicioso, que, no entanto, apenas tem como comparação as Historie(s) du Cinéma de Godard, dispensando apenas a manipulação das características internas das imagens mas acentuando a contextualização da sua exposição. Se a maior ambição da antologia de Bitomsky é resgatar o que foi enterrado vivo nos filmes, a singular invisibilidade, diríamos, do que está à vista, a evolução desta série é também eloquente no que diz respeito ao estatuto tecnológico da imagem fílmica, começando “contra” o vídeo em Das Kino und der Tod e terminando numa aproximação às instalações em Playback.


On Hartmut Bitomsky's films on film

Why teach film? Unlike other filmmakers also engaged in pedagogic activities, Bitomsky actually reflects on that condition, and his films constitute a powerful confluence between the seemingly different gestures of criticism, pedagogy and film directing. This unified expression cannot be detached from an acute and mournful cinephilia that only became possible after modern cinema. Alongside Harun Farocki, Bitomsky emerged from the turmoil of May ‘68, with its extreme politicisation of all matters—namely the production of images—, but remained faithful to a practice of ‘distanciation’ in order to encompass the overwhelming proliferation of images. Always handling found footage, whether previously existing or of his own making as materials to quote from, his films should not merely be taken as ideological disclosures of images. Alongside the work of Pasolini, Marker and Godard, the specificity of film and its history within the overwhelming audiovisual archive is dealt with by Bitomsky in his “Cinema Anthology”; a seemingly unambitious project that nevertheless is only measured by Godard’s “Historie(s) du cinéma”, only lacking the manipulation of the images’ inner features and underlining the contextualization of their showing. If the main ambition of Bitomsky’s anthology is to grasp what is buried alive in film, the singular invisibility, one could say, of what is visible, the evolution of the series is also eloquent regarding the technological status of the filmic image, starting “against” video and ending with an approach to installations.




Porque os filmes são capazes de se focar na sua própria feitura e desenvolver uma análise das suas potencialidades e perigos, alguns problemas metodológicos, quando tornados manifestos, deveriam preocupar igualmente os chamados filósofos do cinema. O papel alterado que toma a descrição, por exemplo, na crítica focada conceptualmente, em que fotogramas fixos e excertos vídeo se disponibilizam para solicitar, acompanhar e, em alguns casos, quase substituir-se à análise, deve ser uma preocupação particular, e para tal os filmes de Bitomsky são repositórios de variadas instâncias descritivas. Outro problema concerne a pertinência de privilegiar um dado momento num filme – seja uma sequência, uma cena, um plano, etc. – para o fim da análise, como se se tratasse de uma selecção neutra sem necessidade de justificação. O pensamento sobre o cinema deve confrontar-se com a estética dos fragmentos que envolve a montagem dos excertos presentes nestes filmes, de forma a poder compreender a selectividade da sua própria actividade teórica.


As films are capable of focusing on their own making and developing an analysis of their own potentialities and dangers, certain methodological problems, when made manifest, should preoccupy film philosophers. The changing role of description, for instance, in conceptually focused criticism, where freeze frames and moving images have become more and more available to solicit, accompany, and in some cases almost substitute analysis, is a particular concern, and Bitomsky’s films are repositories of various descriptive stances. Another problem regards the pertinence of privileging a given moment in a film – be it a sequence, a scene, a shot, etc. – for the purpose of analysis, as if it was a neutral selection in no need of justification. Film philosophy must confront the aesthetics of fragments surrounding the montage of excerpts present in these films, in order to understand its own selective theoretical activity.



Para a nossa compreensão de como se pode produtivamente relacionar cinema e pensamento – i.e., sem negligenciar as expressões mais ambiciosas de um e doutro – é fundamental abordar um particular problema teórico: o da irredutibilidade das “visibilidades” ao discurso. Uma incomensurabilidade entre visibilidades e enunciados foi explicitamente avançada tanto na leitura da arqueologia do saber/genealogia do poder foucauldiana por Deleuze como na sua exploração paralela do cinema. Apesar de Bitomsky ter trabalhado sobretudo (fora desta série específica de filmes sobre filmes) com “material cinematográfico ideologicamente carregado” e oferecido o seu próprio discurso sobre as imagens expostas, talvez a dimensão mais produtiva do seu trabalho resida nessa sua capacidade para, ultrapassando o próprio discurso, procurar e apreender uma camada que pertence à expressão visível das próprias “instituições” e da sua ordem correspondente. O cinema constitui uma prática arqueológica privilegiada para compreender as ordens da experiência num dado momento histórico, mas estamos, no entanto, ainda na ausência de uma “fundação” filosófica para a emergência do arquivo audiovisual que dê ao cinema um diferente nível de inteligibilidade. Por fim, estamos perante uma função do cinema que não pode ser negligenciada: a apresentação das visibilidades em falta nos inúmeros enunciados tecnológicos, jurídicos e, talvez e sobretudo, políticos que nos regem; i.e., de um alcance imanente para a sua expressão material.


Fundamental to our understanding of how can we productively relate film and thought — i.e., without neglecting the most ambitious expressions of one or the other — should be the tackling of a theoretical problem: the irreducibility of ‘visibilities’ to discourse. An incommensurability between visibilities and statements was explicitly put forward both by Deleuze’s reading of Foucault’s archaeology of knowledge/genealogy of power and his parallel exploration of film. Although Bitomsky has worked mainly (outside the films on film series) with “ideological laden film material” and provided his own discourse over the shown images, perhaps the most productive dimension of his work seems to reside in its ability to surpass discourse, to find and grasp a layer which belongs to the visible expression of ‘institutions’ themselves and their corresponding order. Film constitutes a privileged archaeological practice for understanding the orders of experience in a given historical moment, but we are nevertheless still lacking a philosophical ‘foundation’ of the audiovisual archive’s emergence that would bring film into a different level of intelligibility. In the end, we are facing a function of film that cannot be neglected: the presentation of visibilities lacking in so many technological, juridical and political statements that rule us; i.e., a political reach immanent to its material expression.





Ao pé da letra #99 (António Guerreiro)

Sobre a missão de uma editora e dos seus rapazes

«“Missão: reconstruir uma literatura nacional”: a pessoa que vale por uma literatura inteira e está à altura de tão grandiosa tarefa foi encontrada pelo Público (numa entrevista com o título citado), é editora e chama-se Maria do Rosário Pedreira. A entrevistada não só reivindica tal missão mas também dá a sua caução a esta admirável ideologia dos agentes de difusão, promotores, pedagogos, curadores e editores como produtores. E, embalada pelo deslumbramento acrítico da jornalista (Raquel Ribeiro), desliza para os gestos de tutora, quando diz que alguns escritores deveriam ter tido um editor que lhes dissesse: “Precisou de escrever isto, fez-lhe bem, agora guarde outra vez na gavetinha”.

Certamente que já muito escritores ouviram algo semelhante, só que não neste tom infantilizante. Depois da infantilização dos leitores, eis chegada a infantilização dos escritores não emancipados de um génio tutelar. Sintonizada com esta felicidade pedagógica, a jornalista faz uma pergunta sobre as “descobertas” da editora. “E por que razão são todos rapazes?” Os “rapazes” são três – José Luís Peixoto, valter hugo mãe e João Tordo – e arriscam-se a tornar-se uma espécie de pacote editorial.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 12.6.2010.

“Deuses especiais” | “Dèi speciali” (Giorgio Agamben)

«Ao problema da génese dos nomes divinos dedicou uma monografia o grande filólogo – e, a seu modo, teólogo – Hermann Usener e é significativo que desde a data daquela publicação (1896) não se tenham dado contributos igualmente relevantes para a questão. Reflecte-se sobre a então célebre reconstrução da formação dos nomes daqueles núcleos germinais das divindades que Usener chama “deuses especiais” (Sondergötter). Tratam-se de divindades acerca das quais nem as fontes literárias nem as artísticas dizem coisa alguma, e que foram notadas apenas nas citações dos indigitamenta, os livros litúrgicos dos pontífices que continham o elenco dos nomes divinos a pronunciar nas circunstâncias cultuais apropriadas. Os Sondergötter fizeram-se notar, então, apenas através dos seus nomes e, a julgar pelo silêncio das fontes, viviam apenas no seu nome, cada vez que o sacerdote os invocava ritualmente (indigitabat). Até uma competência etimológica elementar permite reconstruir o sentido destes nomes e a função dos “deuses especiais” que esses nomeavam: Vervactor refere-se ao primeiro cavar do pousio (vervactum); Reparator ao segundo lavrar; Inporcitor ao último lavrar que traça as porcae, ou seja, os relevos da terra entre sulco e sulco; Occator ao trabalhar da terra com a grade (occa); Subruncinator à extracção das ervas com o sacho (runco); Messor à operação de colher (messis); Sterculinius ao fertilizar com o esterco. “Para cada actividade e situação que podia ser importante para os homens de então – escreve Usener – eram criados e nomeados com um apropriado cunho verbal [Wortprägung] deuses especiais: deste modo, não apenas se tornavam divinizadas actividades e situações na sua integralidade, mas também partes, actos singulares e momentos das mesmas”.
Usener mostra que mesmo divindades que entraram na mitologia, como Proserpina e Pomona, eram originalmente “divindades especiais” que nomeavam respectivamente o despontar dos rebentos (prosero) e o amadurecer dos frutos (poma): todos os nomes dos deuses – esta é, aliás, a tese do livro – são de início nomes de acções ou eventos momentâneos, Sondergötter que, através de um lento processo histórico-linguístico, perdem a sua relação com o vocabulário vivo e, devindo pouco a pouco ininteligíveis, transformam-se em nomes próprios. Neste momento, quando por fim se ligou estavelmente a um nome próprio, “o conceito divino [Gotesbegriff] adquire a capacidade de receber uma forma pessoal através do mito e do culto, da poesia e da arte.”
Mas isto significa que, como é evidente nos Sondergötter, no seu núcleo originário o deus que preside à actividade singular e à situação singular não é outro que o próprio nome da actividade e da situação. Divinizado, no Sondergött, está, assim, o próprio evento do nome; a própria nomeação, que isola e torna reconhecível um gesto, um acto, uma coisa, cria um “deus especial”, é uma “divindade momentânea” (Augenblicksgott). O nomen é imediatamente numen e o numen imediatamente nomen

«Al problema della genesi dei nomi divini ha dedicato una monografia il grande filologo – e, a suo modo, teologo – Hermann Usener ed è significativo che dalla data di quella pubblicazione (1896) non ci siano stati contributi altrettanto rilevanti alla questione. Si rifletta sulla ormai celebre ricostruzione della formazione dei nomi di quei nuclei germinali della divinità che Usener chiama “dèi speciali” (Sondergötter). Si tratta di divinità di cui né le fonti letterarie né quelle artistiche ci dicono nulla, e che ci sono note solo da citazioni dagli indigitamenta, i libri liturgici dei pontefici che contenevano l’elenco dei nome divini da pronunciare nelle circostanze cultuali appropriate. I Sondergötter ci sono, cioè, noti solo attraverso il loro nome e, a giudicare dal silenzio delle fonti, vivevano solo nel loro nome, ogni volta che il sacerdote li invocava ritualmente (indigitabat). Anche una elementare competenza etimologica permette di ricostruire il senso di questi nomi e la funzione degli “dèi speciali” che essi nominavano: Vervactor si riferisce al primo dissodamento del maggese (vervactum); Reparator alla seconda aratura; Inporcitor all’ultima aratura che traccia le porcae, cioè i rialzi di terra fra solco e solco; Occator alla lavorazione della terra con l’erpice (occa); Subruncinator all’estirpazione delle erbacce col sarchiello (runco); Messor all’operazione del mietere (messis); Sterculinius alla concimazione con lo sterco. “Per ciascuna attività e situazione che poteva essere importante per gli uomini di allora – scrive Usener – venivamo creati e nominati con una apposita coniazione verbale [Wortprägung] degli dèi speciali: in questo modo, non soltanto venivano divinizzate attività e situazioni nella loro integrità, ma anche parti, singoli atti e momenti delle stesse” (p. 75).
Usener mostra che anche divinità che sono entrate nella mitologia, come Proserpina e Pomona, erano in origine “divinità speciali” che nominavano rispettivamente lo spuntare dei germogli (prosero) e il maturare dei frutti (poma): tutti i nomi degli dèi – questa è, anzi, la tesi del libro – sono all’inizio nomi di azioni o eventi momentanei, Sondergötter che, attraverso un lento processo storico-linguistico, perdono la loro relazione col vocabolario vivo e, diventando a poco a poco inintelligibili, si trasformano in nomi propri. A questo punto, quando si è ormai stabilmente legato a un nome proprio, “il concetto divino [Gotesbegriff] acquista la capacità di ricevere una forma personale attraverso il mito e il culto, la poesia e l’arte” (ivi, p. 316).
Ma ciò significa che, come è evidente nei Sondergötter, nel suo nucleo originario il dio che presiede alla singola attività e alla singola situazione non è altro che il nome stesso dell’attività e della situazione. Divinizzato, nel Sondergött, è, cioè, l’evento stesso del nome; la stessa nominazione, che isola e rende riconoscibile un gesto, un atto, una cosa, crea un “dio speciale”, è una “divinità momentanea” (Augenblicksgott). Il nomen è immediatamente numen e il numen immediatamente nomen

Giorgio Agamben, Il sacramento del linguaggio. Archeologia del giuramento, Laterza, Bari, 2008, pp. 61-63.

tradução dedicada a Rita Benis

[tenho a intuição que Straub e Huillet — desde logo Pavese — sabiam bem isto quando fizeram DALLA NUBE...]

Ao pé da letra #98 (António Guerreiro)

Sobre o dinheiro e as suas manifestações abstractas

«Por mais de um século permaneceu válida a afirmação de Hegel: “A leitura do jornal é a oração matinal do homem moderno”. O homem de hoje cumpre a sua oração matinal informando-se sobre os movimentos da Bolsa. É aí que está agora sediado o centro meteorológico para a captação do fim do mundo (que, no seu tempo, Karl Kraus disse que era Viena). Em pouco tempo, todos fomos iniciados nessa matéria esotérica, antes reservada a especialistas. Ficámos assim a perceber que o dinheiro enquanto sistema mundial é algo muito mais abstracto que a fenomenologia do espírito.

Das suas argúcias metafísicas sabiam os leigos pouco até ao momento em que perceberam que os euros que tinham no bolso estavam ‘indexados’ a factores com nomes estranhos, que atingem o seu mais alto grau de abstracção quando se tornam irradiações de um estratosférico Banco Central. O sociólogo Georg Simmel estudou, há um século, os efeitos da monetarização universal das relações sociais sobre a liberdade e a cultura. A esse estudo monumental, para onde converge a tese, já antes formulada, de que “a máquina se intelectualizou mais do que o operário” chamou A Filosofia do Dinheiro

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 5.6.2010.

Filmes ‘menores’ em Junho


Bam gua nat / Noite e dia
Hong Sang-soo

2008, 145’, projecção vídeo
13h15, 16h, 21h30, (0h30)
Medeia King 3, Lisboa


Profit motive and the
whispering wind
John Gianvito

2007, 51’
A imagem-arquivo
(Doc's Kingdom 2010)
3ª, dia 8, 22h – Cinemateca*, Lisboa
cf. «Interferências...*»


A matter of life and death
Michael Powell e Emeric
Pressburger
1946, 104’
4ª, dia 9, 15h30 – Cinemateca


Raging bull
Martin Scorsese
1980, 125’
O boxe
2ª, dia 14, 21h30 – Cinemateca


Il grido
Michelangelo Antonioni
1957, 107’
3ª, dia 15, 15h30 – Cinemateca


Das Kino und der Tod /
O cinema e a morte
Hartmut Bitomsky

1988, 46’
A imagem-arquivo
(prog. José Manuel Costa, Ricardo
Matos Cabo, Nuno Lisboa)
Doc's Kingdom 2010
5ª, dia 17, 10h
Cineteatro Municipal, Serpa


The great dictator
Charles Chaplin
1940, 124’
5ª, dia 17, 19h – Cinemateca


Walkower
Jerzy Skolimowski
1965, 77’
O boxe
5ª, dia 17, 22h
2ª, dia 28, 19h30 – Cinemateca


Ghiro ghiro tondo
Yervant Gianikian e Angela
Ricci Lucchi

2007, 62’
A imagem-arquivo
Doc's Kingdom 2010
6ª, dia 18, 11h50
Cineteatro Municipal, Serpa


Deutschlandbilder /
Imagens da Alemanha
Hartmut Bitomsky

1983, 60’
A imagem-arquivo
Doc's Kingdom 2010
6ª, dia 18, 23h
Cineteatro Municipal, Serpa


Kino Flächen Bunker... /
Cinema superfícies bunker...
Hartmut Bitomsky

1991, 52’
A imagem-arquivo
Doc's Kingdom 2010
Sáb, dia 19, 15h
Cineteatro Municipal, Serpa

Das Kino und der Wind und
die Photographie... /
O cinema e o vento e
a fotografia...
Hartmut Bitomsky

1991, 56’
A imagem-arquivo
Doc's Kingdom 2010
Sáb, dia 19, 16h20
Cineteatro Municipal, Serpa

She’s gotta have it
Spike Lee

1986, 85’
Eram os anos 80
6ª, dia 25, 19h – Cinemateca


Un jour Pina m’a demandé
Chantal Akerman
1983, 57’
4ª, dia 30, 19h30 – Cinemateca


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

Ao pé da letra #97 (António Guerreiro)

Sobre o arraial das livrarias e a Feira do Livro

«Todos os anos, mal a Feira do Livro acaba, começam os balanços da operação. A contabilidade é sempre comparativa (com o ano ou os anos anteriores), e o critério mais utilizado é o do ‘volume de negócios’. A propósito de um feira que durou quase um mês, ninguém parece interessado em perguntar se as barracas montadas por tanto tempo não afastam, mais do que seria desejável, as pessoas das livrarias (não esqueçamos que é o princípio de uma saudável rede livreira, como garantia da diversidade, que se procurou defender com a lei do preço fixo). Diríamos que há aí um efeito nefasto da feira se achássemos que o arraial que grande parte das livrarias monta o ano inteiro nas suas salas fosse algo a defender contra a feira de rua e em regime de festa popular.

Entre o arraial que não ousa dizer o seu nome e a feira que arranja todos os pretextos para se alongar e perder o carácter de momento sabático há uma guerra civil disfarçada de festa, onde se lançam muitos foguetes para não se ouvirem os disparos, a não ser os dos pequenos livreiros, apanhados entre dois fogos. Esta coisa do mercado dos livros afeiçoou-se primeiro ao espectáculo e já vai, como é visível, no espectáculo grotesco.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 29.5.2010.

Ao pé da letra #96 (António Guerreiro)

Sobre as boas causas que se fixam numa linguagem falsa

«A luta contra a “homofobia”, com o seu dia simbólico comemorado no princípio desta semana, é uma causa justa que se serve de um péssimo discurso. A palavra ‘fobia’, de origem grega, significa um medo irracional de certos objectos e situações. Por exemplo: o medo incontrolável dos répteis ou o pânico que certas pessoas experimentam quando se encontram num espaço fechado. Cooptada pela psicologia e vulgarizada na linguagem corrente, essa palavra teve o mesmo destino de uma outra, posta ao serviço de uma ideologia pedagógica: “trauma”. Ora, aquilo que que um discurso de reivindicação fixou como “homofobia” é, antes, da ordem de preconceito, com origem em códigos sociais, culturais e religiosos muito persistentes (mas não universais nem trans-históricos).

Nos desvios a que foi submetida, até se tornar um discurso imóvel, a “homofobia” cristalizou-se como uma mitologia (no sentido que lhe deu Barthes), um fenómeno relacionado com a gregaridade. Não é que o problema seja inexistente. Mas nenhum problema verdadeiro pode ser combatido com palavras falsas; e nenhuma posição pode ser correcta politicamente se não for correcta do ponto de vista da linguagem.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 22.5.2010.

Ao pé da letra #95 (António Guerreiro)

Sobre imagens poderosas que não valem uma palavra 

«Uma fotografia de dois jogadores do Barcelona, encostados a um carro, em pleno idílio amoroso, teve na semana passada um enorme sucesso no YouTube, depois de ter sido publicada por um jornal inglês. Tal foto é um peremptório desmentido da ideia sem fundamento de que uma imagem vale por mil palavras. Ela exibe, até no olhar enternecido dos fotografados, uma troca íntima de afectos. Mas, no entanto, convida-nos a não acreditar no que vemos: é demasiado evidente para ser verosímil. Considerá-la verdadeira ou falsa depende do modo como a traduzimos através de palavras: “Ibrahimovic e Piqué trocam gestos de amor” ou “Ibrahimovic e Piqué não trocam gestos de amor”.

Dizendo isto, estamos a relacionar o que vemos na foto com dados de facto, exteriores a ela. Apanhados nesta lógica da referência, esquecemos que há ali uma verdade imanente que não precisa de certificação, irredutível às palavras: a eloquente expressão gestual do pathos amoroso. Mesmo que se trate de uma fraude, I pode não amar P e vice-versa, pode não haver uma história por trás da imagem, mas há uma história que a imagem suscita e nenhum desmentido a pode anular: I e P continuarão a amar-se como fantasmas.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 16.5.2010.

Ao pé da letra #94 (António Guerreiro)

Sobre o fascínio de César pelo Reino de Deus

«Muita gente tem manifestado incómodo, por razões pragmáticas, e reprovação, por razões de princípio, com o facto de o Governo e o Presidente da República, na visita do Papa, terem suspendido algumas regras da separação entre a Igreja e o Estado, mostrando-se muito pouco firmes na laïcité – esse conceito que é, na verdade, a versão francesa do secularismo. Seria ingénuo pensar que os nossos governantes cederam a uma genuína vocação religiosa. O que os move, manifestamente, é outra coisa: o fascínio por um poder que mantém a majestade cerimonial e litúrgica; a reverência pela aclamação gloriosa que o Papa representa; a estética do poder que as democracias contemporâneas não admitem.

É nestes momentos que se torna ainda mais evidente o que alguns filósofos têm demonstrado – que os dispositivos políticos da governação moderna, sendo embora construídos com base na ordem do profano e da “religião civil” (Rousseau) e não na do Reino de Deus, situam-se no paradigma da teologia política, segundo aquele princípio enunciado por Carl Schmitt: “Todos os conceitos decisivos da moderna doutrina do Estado são conceitos teológicos secularizados”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 8.5.2010.

As personagens entre si são os espectadores (Manoel de Oliveira)

«Cahiers. Fala de gestos como expressão de um desejo de possessão, mas há também todo um sistema de olhares, as direcções e os encaixes no interior de um plano, que acompanham isso.
M. de Oliveira.
Sim, é um bocado complicado. O cinema é um pouco circular. É antigo, omnipresente, etc. Tenho mesmo a impressão... chego mesmo a pensar que, por vezes, basta-se a si próprio. Faz as coisas de uma tal forma que chego a pensar esta coisa bizarra: é o grande ecrã que filma e volta a filmar com as suas personagens entre si. Não têm necessidade de pessoas que assistam. Bastam-se a si próprias. É um pouco absurdo. Chegamos a pensar que a personagem existe por si própria e que é tudo assim. As personagens entre si são os espectadores. Uma delas é a sempre a espectadora da outra. Nós estamos aqui, dizem elas, e não temos necessidade do público. O cinema é um jogo de coisas tais que acabamos por pensar que se basta a si próprio. É uma coisa horrível e é absurda.»

«Cahiers. Vouz parlez de gestes comme expression d’un désir de possession mais il y a aussi tout un système des regards, les directions et les emboîtements à l’interieur d’un plan, qui vont de pair avec ça.
M. de Oliveira.
Oui, c’est un peu compliqué. Le cinéma, c’est un peu circulaire. Il est ancien, omniprésent, etc. J’ai même l’impression,... il m’arrive même de penser parfois qu’il se suffit à lui-même. Il fait les choses d’une telle façon qu’il m’arrive de penser cette chose bizarre : c’est le grand écran qui tourne et retourne avec ses personnages entre eux. Ils n’ont pas besoin des gens qui assistent. Ils se suffisent à eux-mêmes. C’est un peu absurde. On arrive à penser que le personnage existe par lui-même et que tout est comme ça. Les personnages entre eux, ce sont des spectateurs. L’un d’eux est toujours le spectateur de l’autre. Nous sommes ici disent-ils, et nous n’avons pas besoin du public. Le cinéma est un jeu de choses telles que nous finissons par penser qu’il se suffit à lui-même. C’est une chose affreuse et c’est absurde.»

«Entretien avec Manoel de Oliveira 
[à propos de Francisca par Charles Tesson et Jean-Claude Biette in Cahiers du cinéma 328, Octobre 1981, p. 15.


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