Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Filmes ‘menores’ em Janeiro


Krotkie ustrechi /
Breves encontros
Kira Muratova

U.R.S.S., 1967, 96’
Carta branca a
João Pedro Rodrigues
5ª, dia 6, 19h30
Cinemateca*, Lisboa


Khaneh siah ast /
A casa é negra
Forough Farrokhzad

Irão, 1963, 22
O que é programar
uma cinemateca hoje?
Sáb, dia 8, 22h – Cinemateca


Welfare
Frederick Wiseman

E.U.A., 1975, 167’
O que é programar
uma cinemateca hoje?
3ª, dia 11, 21h30 – Cinemateca


Goshogaoka
Sharon Lockhart

Japão, E.U.A., 1997, 63’
O que é programar
uma cinemateca hoje?
3ª, dia 11, 22h – Cinemateca


79 Primaveras
Santiago Álvarez

Cuba, 1969, 25
Carta branca a Inês Sapeta Dias
4ª, dia 19, 22h – Cinemateca


Words and silk
Philip Tyndall
Austrália, 1989, 86’
Carta aberta a André Dias
5ª, dia 20, 19h30 – Cinemateca


Behindert
Stephen Dwoskin
Reino Unido, 1974, 96’
Carta aberta a André Dias
6ª, dia 21, 19h30 – Cinemateca


A herança
Ozualdo Candeias
Brasil, 1971, 83’
Carta aberta a André Dias
6ª, dia 21, 22h – Cinemateca


Near death
Frederick Wiseman

E.U.A., 1989, 358
Carta aberta a André Dias
Sáb, dia 22, 18h – Cinemateca

Broken lullaby
Ernst Lubitsch
E.U.A., 1932, 77’
O que é programar
uma cinemateca hoje?
2ª, dia 24, 21h30 – Cinemateca


L’Atalante
Jean Vigo
França, 1934, 78’
O que é programar
uma cinemateca hoje?
3ª, dia 25, 19h – Cinemateca


Du soleil pour les gueux
Alain Guiraudie
França, 2000, 55’
Carta aberta a Miguel Gomes
4ª, dia 26, 22h – Cinemateca

RR
James Benning

E.U.A., 2007, 112
Carta aberta a Miguel Gomes
5ª, dia 27, 19h – Cinemateca



Mein Stern
Valeska Grisebach
Alemanha, 2001, 61’
Carta aberta a Miguel Gomes
2ª, dia 31, 19h30 – Cinemateca


A espada e a rosa
João Nicolau
Portugal, 2010, 142’
O que é programar
uma cinemateca hoje?
2ª, dia 31, 21h30 – Cinemateca


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

[Desemprego] (Giorgio Agamben)

Eu trabalhava sobre os anjos, enquanto ministros e funcionários da providência, quer dizer, do governo divino do mundo. A angelologia é, neste sentido, o paradigma da burocracia. Ora, nos teólogos, uma pergunta estava sempre a aparecer. O que acontece aos anjos depois do juízo final, quando a obra do governo divino do mundo e a história da salvação estiverem concluídas de uma vez por todas? Sobre isto, os teólogos são formais: os anjos serão destituídos das suas funções, não terão literalmente mais nada para fazer. Desemprego e inoperância [désœuvrement] são no paraíso o estado normal. E a inoperância não diz respeito apenas aos anjos, mas também aos bem-aventurados e ao próprio Cristo, que no paraíso não têm rigorosamente nada para fazer.
Ora, perante esta inoperância, os teólogos têm dificuldade em concebê-la. Assim, no final da sua obra-prima, A Cidade de Deus, no momento de descrever a condição dos bem-aventurados, que se situa para lá tanto da ação como do otium, Agostinho vê-se obrigado a confessar que ela “ultrapassa toda a inteligência”. Foi aí que me pareceu que a inoperância — ou seja, essa figura da praxis que não é nem produção nem repouso — é verdadeiramente aquilo que a nossa cultura é incapaz de pensar.

Giorgio Agamben, in Aliocha Wald Lasowski, «Le désoeuvrement, pratique humaine et politique» («Oeuvrer / désoeuvrer : en quête d'un nouveau paradigme. Entretien avec Giorgio Agamben», Agenda de la pensée contemporaine, nº 16, Primavera 2010)

Ao pé da letra #121 (António Guerreiro)

Sobre o discurso da opinião enquanto pensamento “straight” que está sempre conforme ao que se espera dele

«Na nossa “grande época” — como dizia Karl Kraus da sua — há um fluxo de linguagem em todas as direções e que escorre por todos os meios a que chamamos “opinião”. A opinião, que Kraus identificou como aquilo a que ele chamava “fraseologia”, triunfou de tal maneira que já ninguém se lembra que ela começou por significar algo muito próximo do que os gregos chamavam doxa, que se opõe ao conhecimento. Neste sentido, a ideia de uma opinião heterodoxa é uma contradição nos termos: para se ser heterodoxo, é preciso sair do discurso da opinião, da sua linguagem servil e do seu espaço único de conformidade. A categoria straight, usada no discurso sobre a sexualidade (uma feminista e uma lésbica radical, Monique Wittig, definiu num livro de ensaios o que era o straight mind), poderia servir também para este campo. A opinião, tal como ela invadiu a esfera pública para se tornar espetáculo de variedades, é o pensamento straight.

Ele consiste essencialmente no equívoco de que é preciso dizer as coisas de outra maneira (e é sobretudo nesta arte da variação e da fuga que se aplicam os profissionais da opinião), esquecendo que há outras coisas a dizer. E aí é que reside uma urgência que não é da ordem daquela que a opinião julga estar a cumprir. A opinião é tendencialmente straight porque se submete à regra da conformidade. Pode ser maioritária ou minoritária, politicamente correta ou incorreta, mas a sua funcionalidade relativamente aos papéis mediáticos estereotipados cumpre-se da mesma maneira. Esta lógica encontrou na grande maioria dos blogues uma atualização caricatural. Aí, a opinião existe em estado de histeria: uns contra os outros, os outros a favor de todos ou de alguns — tudo se resume a uma guerra de opiniões e a convívios de gente “porreira” ou execrável, mas sempre muito straight

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 23.12.2010.

Coisa de subversivo (Ozualdo Candeias)


Em jeito de homenagem a este grande realizador brasileiro, por ocasião de um ciclo de cinema falhado...

«[S]ubversivo é igual a relógio: gosta de trabalhar de graça. [...] É aquilo que já falei: muita gente acha que não se deve mostrar a miséria num país tão bonito como o Brasil, mas só mostrar lugares e pessoas bonitas porque exibir pobreza é coisa de subversivo. Por isso muitas vezes fui chamado de subversivo. [...]
Outra vez eu estava procurando um viaduto p’ra filmar quando vi uma mulher esmolando, com quatro ou cinco filhos. Resolvi tirar umas fotos dela e depois filmar, quando apareceu uma mulher elegante, mandona, perguntando por que eu estava fazendo fotos daqueles pobres. Porque ela pediu e eu vou dar a ela as fotos que ela não pode comprar. Então a mulher elegante perguntou para a pobre: você pediu para ele fazer as fotos? A pobre respondeu: pedi. A mulher elegante foi embora com raiva.»

Ozualdo Candeias,
in Moura Reis, Ozualdo Candeias. Pedras e sonhos no Cineboca, Imprensa Oficial, São Paulo, 2010, pp. 120, 134-135.

Ao pé da letra #120 (António Guerreiro)

Sobre a diferença entre patriotismo e nacionalismo, numa altura em que também a pátria é difícil de reivindicar

«Os candidatos a Presidente da República são sempre, por definição, patriotas. Sejam eles de esquerda ou de direita, reivindicam o patriotismo e nem por nada querem ser associados ao nacionalismo. Na história semântica destas duas palavras, por mais que elas pareçam vindas de um lugar aparentado, uma passou a designar uma virtude e a outra um pecado. De onde vem esta diferença? Como mostrou um grande historiador dos conceitos, Reinhart Koselleck, a categoria do patriota, aquele que afirma o seu amor pela pátria, nasce no século XVIII e torna-se a figura-guia do Iluminismo político. O patriota já existia na Antiga Grécia, mas designava um conacional da mesma proveniência, muitas vezes um bárbaro ou um escravo da mesma origem, não o cidadão. A pátria tem os seus heróis monumentalizáveis; os heróis da nação, pelo contrário, são suspeitos. No entanto, devemos hoje perguntar o que significa ser patriota num quadro em que já não é a pátria, na sua configuração nacional-estatal, o princípio capaz de organizar uma ação política?

Por isso, ao ouvirmos os candidatos à presidência a reivindicarem as virtudes patrióticas, sentimos que as suas palavras se tornam de um vazio intolerável quando as confrontamos com o que se desenrola diante dos nossos olhos. Digamos que eles se distanciam do nacionalismo, mas acabam por cair na aspiração arcaica de encontrar uma pátria que já só existe como objeto de um impulso irracional. Haverá ainda lugar para a pátria, mesmo num grau mínimo, quando todas as pátrias deixaram de ser unidades políticas ou culturais e perderam a sua capacidade de ação soberana? Há um fantasma que se esconde hoje em todo o patriotismo e que em breve fará desta palavra algo tão maldito e de má reputação como o nacionalismo que reivindica o solo e o sangue.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 18.12.2010.

Ao pé da letra #119 (António Guerreiro)

Sobre a mística dos segredos diplomáticos e a deceção que provocam as revelações que nada revelam

«Quando soubemos que o site Wikileaks iria divulgar um enorme volume de informações confidenciais da diplomacia dos Estados Unidos, sentimo-nos como os místicos na via do conhecimento último — aquele que nos faz aceder à essência e ao nome, ao quê e ao quem. Mas, como ensinou um grande teólogo judeu do século XX, Gershom Scholem, a doutrina do objeto do conhecimento último redunda sempre em deceção porque não existem enigmas, apenas a aparência deles. O que acabou por nos ser revelado mostra bem que assim é, e que a estrutura interna da diplomacia, mesmo a americana, não é muito diferente da que governa a família, onde todos os grandes enigmas não passam de pequenos segredos sujos. A propósito, devemos recordar uma parábola de Kafka que surge em “O Processo”: um camponês chega diante da porta da lei, vigiada por um guarda, e fica aí a vida inteira sem conseguir entrar, até que finalmente fica a saber que a porta estava guardada para poder entrar nela. A porta estava aberta — aberta para o nada — e a lei era, afinal, guardada por um guardião que não guardava nada.

Assim são também os segredos diplomáticos: sem enigma e sem além. Podemos dizer deles o que Adorno dizia do ocultismo: é a metafísica dos imbecis. Mas tudo isto não significa que o esvaziamento do enigma — e a deceção que tal implica — não seja, em si mesmo, importante. Há um sentido da distância que fica destruído. Podemos pensar que se cumpre aqui uma promessa do saber e da razão, mas também sabemos bem como funciona a dialética do Iluminismo: o mito da razão e da luz engendra o seu contrário e, neste domínio, além de não haver conquistas definitivas, quanto mais tudo se revela transparente e sem enigma, mais precisamos de supor o reino do segredo e da opacidade.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 4.12.2010.

Ao pé da letra #118 (António Guerreiro)

Sobre salário proletário e sobressalário burguês que se pode realizar em tempo ou em dinheiro

«Sursalaire é uma palavra francesa a que o filósofo Jean-Claude Milner deu o estatuto de conceito num pequeno livro de 1997 intitulado “Le salaire de l’idéal”. Experimentemos traduzi-la por ‘sobressalário’. Milner parte da seguinte verificação: os títulos de pertença à burguesia já não dependem da propriedade mas do nível de remunerações e do modo de vida que estas permitem. Mas para o burguês remunerado não é válida a análise marxista do salário do proletário. O salário proletário, do ponto de vista marxista, é sempre iníquo; o salário burguês, esse, é arbitrário. Depende de arbítrios políticos e da definição de poderes. Aquele que é considerado poderoso num determinado momento ganha um sobressalário e está sujeito a perdê-lo se perder o poder (quer porque o delapidou, quer porque houve uma alteração da distribuição de poderes na sociedade). Tem um sobressalário aquele que ganha à medida da sua sobrepotência.

A proletarização de algumas classes profissionais (por exemplo, professores e jornalistas) mede-se não apenas pelo facto de terem perdido autonomia intelectual mas também porque o tempo de que dispõem para ganhar dinheiro é cada vez menor e o tempo de trabalho aproxima-se do correspondente ao salário proletário. Ora, a questão do tempo tem de ser equacionada quando falamos em salário e em sobressalário. Como mostra Milner, não há apenas uma burguesia do sobressalário, há também uma burguesia do sobretempo. A burguesia sobrerremunerada, ao contrário da antiga burguesia da propriedade, em geral não dispõe de tempo: é a realidade de muitos quadros das empresas. A burguesia que converte o salário em tempo — a burguesia do sobretempo —, pelo contrário, é désoeuvrée: não faz obra, ou a obra que faz não corresponde a um operare. Em suma: é a ‘parte maldita’ da economia produtiva.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 27.11.2010.

[Problemas espirituais] (Giorgio Agamben)

Faulkner escreveu uma vez que o verdadeiro problema do nosso tempo é já não existirem problemas espirituais.

O significado deste diagnóstico é mais cruel do que parece e diz-nos muito respeito. Que já não existam problemas espirituais, que estes já não sejam sentidos como algo de decisivo e de iniludível, gera, com efeito, uma angústia sem precedentes. Longe de nos libertar do mal-estar, o facto de os problemas da humanidade se terem tornado calculáveis, questões factuais urgentes e eventualmente complicadas, mas que, em última instância, requerem ser governadas e não vividas nem pensadas, é precisamente o que nos remete para uma especial angústia, tanto mais intolerável quanto mais, pelo menos na aparência, resolúvel. No seu diário, Fallot conta ter tido assim a experiência mais profunda da angústia diante da morte quando, depois de no restaurante ter pedido a sua sobremesa habitual, ouviu responder que, naquele dia, não havia. Naquele instante soube com absoluta certeza que daquela angústia jamais se libertaria, que esta o acompanharia para toda a vida.

Se o filme giallo é o paradigma de um mundo no qual tudo depende unicamente da solução de um problema factual, então, num universo já sem problemas espirituais, os homens ficam ansiosos e alheios perante a sua vida como as personagens de uma detective story diante do delito. E enquanto economia, medicina e tecnologias de toda a espécie (que são sempre, em última análise, técnicas de governo) assumem a direção dos destinos humanos, os problemas espirituais (e as técnicas que transmitiam a sua experiência: poesia, filosofia, arte) escorregam impercetivelmente para a esfera da cultura, ou seja, deixam de ser decisivos.
Porque hoje — é preciso lembrá-lo? — continuam a construir-se museus (e até, sem darem conta da contradição, “museus de arte contemporânea”), auditórios e teatros, mas é claro que tudo isso já não concerne às questões que decidem acerca da nossa possibilidade de viver e ser felizes. O assim chamado “espírito”, que não era senão o nome que os homens davam ao ponto de maior intensidade em cada domínio da sua vida, torna-se assim uma esfera autónoma e separada, tudo somado, dispensável e frequentemente aborrecida. Aquilo pelo qual cada coisa vale a pena ser vivida transforma-se numa distração cada vez mais manchada pela dúvida de que talvez “não vale a pena”, que se possa viver apenas procurando na internet uma outra vida e um rosto que parece mais verdadeiro, precisamente por ser constitutivamente marcado pela falsidade e pela máscara.

Significa isto, como alguns bem pensantes aconselham, que se deva voltar às “coisas do espírito” (expressão ainda mais contraditória que “museu de arte contemporânea”) como se poesia, arte e filosofia estivessem à espera, separadas e acessíveis, algures? Ou antes, como sugere Humphrey Bogart no final de Relíquia Macabra, que verdadeiramente espiritual e poética é a consciência de que as coisas e os factos a que estamos irrevogavelmente remetidos são apenas, como a estatueta do falcão, “a matéria de que são feitos os nossos sonhos”? Que, no nosso errar por entre os factos e as coisas, não devemos esquecer a recordação daquele ponto de intensidade (espiritual, ou seja, evanescente e subtil) que decide a cada vez o nosso desejo e a nossa forma de vida?

Giorgio Agamben in piazzaemezza (nottetempo), 23.10.2009 (por via daqui e dali; conferir também isto).

[Lançamento do livro “Classe” de Andrea Cavalletti]

Ao pé da letra #117 (António Guerreiro)

Sobre a constante dita de Enzensberger que um editor português, dado a contas, pode invalidar

«Vasco Teixeira, responsável editorial pela Porto Editora, o maior grupo editorial português, fez as contas e concluiu: “Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, dir-lhe-ei que não. Quando muito, teremos algumas edições artesanais (...). E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares que os amantes de poesia comprarão.” Em 1989, um grande poeta e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger, também tinha feito as suas contas (a matemática não é uma ciência que lhe seja estranha) e chegara a um número muito mais rigoroso do que o do empresário português: mais ou menos 1354. E como tentava demonstrar que esse número era uma constante universal, para todas as comunidades linguísticas e em todos os tempos, chamou-lhe “a constante de Enzensberger”. O escritor alemão explicava esta constante através desta anomalia: é impossível transformar poemas em dinheiro. Sempre assim foi e sempre assim será.

Menos dado à matemática, Vasco Teixeira formula a sua constante não em termos de valor numérico (há um intervalo demasiado grande entre os dois números que avança no seu prognóstico) mas em termos de lei económica: a lei do mercado não admite anomalias. A constante dita de Vasco Teixeira pode invalidar a constante dita de Enzensberger por uma razão fraudulenta: quem detém um tão grande grupo editorial e também a maior rede de livrarias do país (a Bertrand) tem algum poder para fazer com que a sua profecia se realize, para que ela seja uma self-fulfilling prophecy. Mas sabendo nós que anteriores mortes anunciadas foram uma falsa notícia, talvez a constante dita de Vasco Teixeira admita as suas exceções e as espécies minoritárias sobrevivam em microclimas. Vamos então suspeitar da constante dita de Vasco Teixeira: “30 ou 50” não é afirmação de ciência certa.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 20.11.2010.

Até que todo o passado seja recolhido (Benjamin)

Pequena proposta metodológica para a dialética da história cultural. É muito fácil estabelecer dicotomias para cada época, em seus diferentes “domínios”, segundo determinados pontos de vista: de modo a ter, de um lado, a parte “fértil”, “auspiciosa”, “viva” e “positiva”, e de outro, a parte inútil, atrasada e morta de cada época. Com efeito, os contornos da parte positiva só se realçarão nitidamente se ela for devidamente delimitada em relação à parte negativa. Toda negação, por sua vez, tem o seu valor apenas como pano de fundo para os contornos do vivo, do positivo. Por isso, é de importância decisiva aplicar novamente uma divisão a esta parte negativa, inicialmente excluída, de modo que a mudança de ângulo de visão (mas não de critérios!) faça surgir novamente, nela também, um elemento positivo e diferente daquele anteriormente especificado. E assim por diante ad infinitum, até que todo o passado seja recolhido no presente em uma apocatástase* histórica. [N 1a, 3]

* Apocatastasis = a “admissão de todas as almas no Paraíso” [...].

Walter Benjamin, Passagens,
Editora UFMG, Belo Horizonte, 2006.

Ao pé da letra #116 (António Guerreiro)

Sobre a ilusão de que a bancarrota está iminente quando nela já entrámos há muito tempo

«No discurso político em que estamos envolvidos, a velha questão da classe permanece, da Direita à Esquerda e vice-versa, apenas como vestígio na referência generalizada a uma “classe média” que não é mais do que a não-classe em que as velhas classes se dissolveram: a pequena-burguesia universal, que encurtou a distância entre o gosto das massas e o das elites. Dir-se-ia que ela é uma alusão deturpada da consciência de classe que Lukács reelaborou, nos anos 20 do século passado, como categoria fundamental de uma teoria da história. Por isso é que assistimos hoje, em todo o espectro político, à tragicomédia onde se representa a reconciliação de tudo com o seu contrário: a poupança com o consumo, o capital com o trabalho, o ‘crescimento’ com a abstinência, o espetáculo mediático com a democracia, o valor de uso com o valor de troca, a política económica com a economia política. Nesta dança sacrificial pela salvação a todo o preço de velhos potentados político-ideológicos que bloquearam o horizonte, renunciou-se completamente a explorar novas possibilidades e a reconhecer que, tal como fora anunciado por uma mente lúcida, o estado de exceção se tornou a regra e a bancarrota que tanto receamos já se deu.

Reconhecer que se esgotaram os meios para pagar as dívidas — não as materiais, mas as culturais e políticas — que durante décadas fomos contraindo como conquistas e direitos é o passo necessário para recomeçar de novo. Que a bancarrota pode chegar de forma impercetível (como o Messias da mística judaica) é o que nos dizem estas palavras do poeta grego Kavafis dirigidas a Forster: “Vocês, os Ingleses, não podem compreender-nos; nós, os Gregos, entrámos em bancarrota há muito tempo.” Quase um século depois, a Grécia está a tentar salvar-se da bancarrota como se nela nunca tivesse entrado e nem por sombras quer escutar o seu demónio — o poeta de Alexandria.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 13.11.2010.


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