Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Filmes ‘menores’ em Junho


Bam gua nat / Noite e dia
Hong Sang-soo

2008, 145’, projecção vídeo
13h15, 16h, 21h30, (0h30)
Medeia King 3, Lisboa


Profit motive and the
whispering wind
John Gianvito

2007, 51’
A imagem-arquivo
(Doc's Kingdom 2010)
3ª, dia 8, 22h – Cinemateca*, Lisboa
cf. «Interferências...*»


A matter of life and death
Michael Powell e Emeric
Pressburger
1946, 104’
4ª, dia 9, 15h30 – Cinemateca


Raging bull
Martin Scorsese
1980, 125’
O boxe
2ª, dia 14, 21h30 – Cinemateca


Il grido
Michelangelo Antonioni
1957, 107’
3ª, dia 15, 15h30 – Cinemateca


Das Kino und der Tod /
O cinema e a morte
Hartmut Bitomsky

1988, 46’
A imagem-arquivo
(prog. José Manuel Costa, Ricardo
Matos Cabo, Nuno Lisboa)
Doc's Kingdom 2010
5ª, dia 17, 10h
Cineteatro Municipal, Serpa


The great dictator
Charles Chaplin
1940, 124’
5ª, dia 17, 19h – Cinemateca


Walkower
Jerzy Skolimowski
1965, 77’
O boxe
5ª, dia 17, 22h
2ª, dia 28, 19h30 – Cinemateca


Ghiro ghiro tondo
Yervant Gianikian e Angela
Ricci Lucchi

2007, 62’
A imagem-arquivo
Doc's Kingdom 2010
6ª, dia 18, 11h50
Cineteatro Municipal, Serpa


Deutschlandbilder /
Imagens da Alemanha
Hartmut Bitomsky

1983, 60’
A imagem-arquivo
Doc's Kingdom 2010
6ª, dia 18, 23h
Cineteatro Municipal, Serpa


Kino Flächen Bunker... /
Cinema superfícies bunker...
Hartmut Bitomsky

1991, 52’
A imagem-arquivo
Doc's Kingdom 2010
Sáb, dia 19, 15h
Cineteatro Municipal, Serpa

Das Kino und der Wind und
die Photographie... /
O cinema e o vento e
a fotografia...
Hartmut Bitomsky

1991, 56’
A imagem-arquivo
Doc's Kingdom 2010
Sáb, dia 19, 16h20
Cineteatro Municipal, Serpa

She’s gotta have it
Spike Lee

1986, 85’
Eram os anos 80
6ª, dia 25, 19h – Cinemateca


Un jour Pina m’a demandé
Chantal Akerman
1983, 57’
4ª, dia 30, 19h30 – Cinemateca


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

Ao pé da letra #97 (António Guerreiro)

Sobre o arraial das livrarias e a Feira do Livro

«Todos os anos, mal a Feira do Livro acaba, começam os balanços da operação. A contabilidade é sempre comparativa (com o ano ou os anos anteriores), e o critério mais utilizado é o do ‘volume de negócios’. A propósito de um feira que durou quase um mês, ninguém parece interessado em perguntar se as barracas montadas por tanto tempo não afastam, mais do que seria desejável, as pessoas das livrarias (não esqueçamos que é o princípio de uma saudável rede livreira, como garantia da diversidade, que se procurou defender com a lei do preço fixo). Diríamos que há aí um efeito nefasto da feira se achássemos que o arraial que grande parte das livrarias monta o ano inteiro nas suas salas fosse algo a defender contra a feira de rua e em regime de festa popular.

Entre o arraial que não ousa dizer o seu nome e a feira que arranja todos os pretextos para se alongar e perder o carácter de momento sabático há uma guerra civil disfarçada de festa, onde se lançam muitos foguetes para não se ouvirem os disparos, a não ser os dos pequenos livreiros, apanhados entre dois fogos. Esta coisa do mercado dos livros afeiçoou-se primeiro ao espectáculo e já vai, como é visível, no espectáculo grotesco.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 29.5.2010.

Ao pé da letra #96 (António Guerreiro)

Sobre as boas causas que se fixam numa linguagem falsa

«A luta contra a “homofobia”, com o seu dia simbólico comemorado no princípio desta semana, é uma causa justa que se serve de um péssimo discurso. A palavra ‘fobia’, de origem grega, significa um medo irracional de certos objectos e situações. Por exemplo: o medo incontrolável dos répteis ou o pânico que certas pessoas experimentam quando se encontram num espaço fechado. Cooptada pela psicologia e vulgarizada na linguagem corrente, essa palavra teve o mesmo destino de uma outra, posta ao serviço de uma ideologia pedagógica: “trauma”. Ora, aquilo que que um discurso de reivindicação fixou como “homofobia” é, antes, da ordem de preconceito, com origem em códigos sociais, culturais e religiosos muito persistentes (mas não universais nem trans-históricos).

Nos desvios a que foi submetida, até se tornar um discurso imóvel, a “homofobia” cristalizou-se como uma mitologia (no sentido que lhe deu Barthes), um fenómeno relacionado com a gregaridade. Não é que o problema seja inexistente. Mas nenhum problema verdadeiro pode ser combatido com palavras falsas; e nenhuma posição pode ser correcta politicamente se não for correcta do ponto de vista da linguagem.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 22.5.2010.

Ao pé da letra #95 (António Guerreiro)

Sobre imagens poderosas que não valem uma palavra 

«Uma fotografia de dois jogadores do Barcelona, encostados a um carro, em pleno idílio amoroso, teve na semana passada um enorme sucesso no YouTube, depois de ter sido publicada por um jornal inglês. Tal foto é um peremptório desmentido da ideia sem fundamento de que uma imagem vale por mil palavras. Ela exibe, até no olhar enternecido dos fotografados, uma troca íntima de afectos. Mas, no entanto, convida-nos a não acreditar no que vemos: é demasiado evidente para ser verosímil. Considerá-la verdadeira ou falsa depende do modo como a traduzimos através de palavras: “Ibrahimovic e Piqué trocam gestos de amor” ou “Ibrahimovic e Piqué não trocam gestos de amor”.

Dizendo isto, estamos a relacionar o que vemos na foto com dados de facto, exteriores a ela. Apanhados nesta lógica da referência, esquecemos que há ali uma verdade imanente que não precisa de certificação, irredutível às palavras: a eloquente expressão gestual do pathos amoroso. Mesmo que se trate de uma fraude, I pode não amar P e vice-versa, pode não haver uma história por trás da imagem, mas há uma história que a imagem suscita e nenhum desmentido a pode anular: I e P continuarão a amar-se como fantasmas.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 16.5.2010.

Ao pé da letra #94 (António Guerreiro)

Sobre o fascínio de César pelo Reino de Deus

«Muita gente tem manifestado incómodo, por razões pragmáticas, e reprovação, por razões de princípio, com o facto de o Governo e o Presidente da República, na visita do Papa, terem suspendido algumas regras da separação entre a Igreja e o Estado, mostrando-se muito pouco firmes na laïcité – esse conceito que é, na verdade, a versão francesa do secularismo. Seria ingénuo pensar que os nossos governantes cederam a uma genuína vocação religiosa. O que os move, manifestamente, é outra coisa: o fascínio por um poder que mantém a majestade cerimonial e litúrgica; a reverência pela aclamação gloriosa que o Papa representa; a estética do poder que as democracias contemporâneas não admitem.

É nestes momentos que se torna ainda mais evidente o que alguns filósofos têm demonstrado – que os dispositivos políticos da governação moderna, sendo embora construídos com base na ordem do profano e da “religião civil” (Rousseau) e não na do Reino de Deus, situam-se no paradigma da teologia política, segundo aquele princípio enunciado por Carl Schmitt: “Todos os conceitos decisivos da moderna doutrina do Estado são conceitos teológicos secularizados”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 8.5.2010.

As personagens entre si são os espectadores (Manoel de Oliveira)

«Cahiers. Fala de gestos como expressão de um desejo de possessão, mas há também todo um sistema de olhares, as direcções e os encaixes no interior de um plano, que acompanham isso.
M. de Oliveira.
Sim, é um bocado complicado. O cinema é um pouco circular. É antigo, omnipresente, etc. Tenho mesmo a impressão... chego mesmo a pensar que, por vezes, basta-se a si próprio. Faz as coisas de uma tal forma que chego a pensar esta coisa bizarra: é o grande ecrã que filma e volta a filmar com as suas personagens entre si. Não têm necessidade de pessoas que assistam. Bastam-se a si próprias. É um pouco absurdo. Chegamos a pensar que a personagem existe por si própria e que é tudo assim. As personagens entre si são os espectadores. Uma delas é a sempre a espectadora da outra. Nós estamos aqui, dizem elas, e não temos necessidade do público. O cinema é um jogo de coisas tais que acabamos por pensar que se basta a si próprio. É uma coisa horrível e é absurda.»

«Cahiers. Vouz parlez de gestes comme expression d’un désir de possession mais il y a aussi tout un système des regards, les directions et les emboîtements à l’interieur d’un plan, qui vont de pair avec ça.
M. de Oliveira.
Oui, c’est un peu compliqué. Le cinéma, c’est un peu circulaire. Il est ancien, omniprésent, etc. J’ai même l’impression,... il m’arrive même de penser parfois qu’il se suffit à lui-même. Il fait les choses d’une telle façon qu’il m’arrive de penser cette chose bizarre : c’est le grand écran qui tourne et retourne avec ses personnages entre eux. Ils n’ont pas besoin des gens qui assistent. Ils se suffisent à eux-mêmes. C’est un peu absurde. On arrive à penser que le personnage existe par lui-même et que tout est comme ça. Les personnages entre eux, ce sont des spectateurs. L’un d’eux est toujours le spectateur de l’autre. Nous sommes ici disent-ils, et nous n’avons pas besoin du public. Le cinéma est un jeu de choses telles que nous finissons par penser qu’il se suffit à lui-même. C’est une chose affreuse et c’est absurde.»

«Entretien avec Manoel de Oliveira 
[à propos de Francisca par Charles Tesson et Jean-Claude Biette in Cahiers du cinéma 328, Octobre 1981, p. 15.

Filmes ‘menores’ em Maio


Antônio das Mortes
Glauber Rocha

1969, 98’
2ª, dia 3, 19h30
Cinemateca*, Lisboa


Texasville
Peter Bogdanovich

1990, 123’
2ª, dia 3, 21h30
3ª, dia 4, 19h30 – Cinemateca


Caro Diario
Nanni Moretti
1993, 100’
3ª, dia 4, 19h – Cinemateca


Toutes les nuits
Eugène Green
1999, 112’
Eugène Green
4ª, dia 5, 21h30 – Cinemateca


Le monde vivant
Eugène Green
2003, 70’
Eugène Green
5ª, dia 6, 21h30 – Cinemateca


Belle toujours
Manoel de Oliveira
2006, 70’
2ª, dia 10, 19h – Cinemateca


No quarto da Vanda
Pedro Costa

2000, 180’
Rupturas
2ª, dia 10, 22h – Cinemateca


Le Pont des Arts
Eugène Green
2004, 126’
Eugène Green
6ª, dia 14, 22h – Cinemateca


Land of the Pharaohs
Howard Hawks

1955, 105’
História permanente do cinema
Sáb, dia 15, 15h30 – Cinemateca


Bringing up Baby
Howard Hawks
1939, 102’
4ª, dia 19, 15h30 – Cinemateca


Va zendegi edame darad /
E a vida continua
Abbas Kiarostami

1992, 91’
Rupturas
2ª, dia 24, 22h – Cinemateca


All that heaven allows
Douglas Sirk
1999, 112’
História permanente do cinema
Sáb, dia 29, 19h – Cinemateca


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

Ao pé da letra #93 (António Guerreiro)

Sobre especulação e tragédia filosófico-financeira  

«Nas últimas semanas, uma ‘metáfora absoluta’ – a tragédia grega – fez uma caminhada triunfal nos media. Ela seguiu a par de outra que com ela compete em títulos de nobreza na história do pensamento ocidental: a metáfora da especulação. O capitalismo é um sistema sem pretensões filosóficas, mas não se pode subtrair à linguagem da nossa racionalidade. Desta vez, a conjunção das duas metáforas parece obra do destino, não ditado pelos deuses mas pelas ideias trans-históricas. Mal sabem os oráculos desta ideia ‘trágica’ novamente polarizada em solo grego que desde Hölderlin se foi explicitando uma interpretação da tragédia como origem daquilo a que se chamou, depois de Kant, o pensamento especulativo. 

Isto é: especulação e tragédia têm a mesma matriz, algo que a Grécia (e todos nós) fica a saber pela segunda vez: a primeira, por via do idealismo especulativo; a segunda, por via da especulação financeira. Talvez fosse mais correcto admitir, lembrando Marx, que esta metafórica tragédia se dá sob a forma de farsa, mas não advém daí nada que tranquilize porque é sabido que a repetição em farsa pode ser mais terrificante do que a tragédia inicial.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 1.5.2010.

Ao pé da letra #92 (António Guerreiro)

Sobre um espírito islandês comediante e filosófico 

«Um jornalista do Le Monde retido na Islândia por causa das cinzas do vulcão, aproveitou para fazer uma reportagem sobre a reacção dos islandeses ao que se estava a passar. E estes, ao contrário do resto do mundo, mostravam-se bem dispostos, irónicos, e às vezes eufóricos. Um deles manifestava assim o seu gozo: “Tenho vindo a implorar, o mais perto possível da cratera, para o vulcão acalmar. Mas ele não responde aos meus apelos e continua a lançar cinzas. A última vez que tínhamos disseminado matéria tóxica sobre a Europa eram os nossos produtos financeiros.” Este islandês parece ter aprendido com Marx que tudo o que é sólido se dissolve no ar.  

Mas também leu em Heidegger que a Técnica é o nosso Destino: daí a ironia e o orgulho com que exibia o facto de pertencer à terra de onde emergiu, de repente, algo que não é calculável nem manipulável e provocou uma espécie de mobilização planetária. Outro islandês dava um exemplo de pragmatismo: “Se pudéssemos aproveitar a energia que o vulcão liberta, saíamos rapidamente da bancarrota”. Este é o islandês que dá razão a Spengler: “Não podemos olhar uma cascata sem a transformar mentalmente em energia eléctrica”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 24.4.2010.


 love’s labour’s lost



Ao pé da letra #91 (António Guerreiro)

Sobre a tradução que não conhece mediação crítica  

«Também por cá vamos tendo as traduções simultâneas e entrando nos percursos do internacionalismo literário. Estes livros, quase sempre de ficção, chegam a outras línguas quase ao mesmo tempo em que é editado o original, configuram um tráfico – sintoma de uma perda de afirmação das literaturas nacionais – que destrói o sentido que tinha a troca intercultural da tradução, ao qual se referia Goethe com o seu conceito de Weltliteratur, de literatura mundial. A tradução como operação histórica plena de sentido, linguística e culturalmente, tal como foi teorizada pelo Romantismo, significava uma operação duplamente crítica: porque se exercia no pressuposto da intraduzibilidade de um texto; porque implicava uma forte mediação crítica nessa tarefa de apropriação.

Nestas traduções simultâneas, abdica-se de qualquer gesto crítico: os livros são negociados e atravessam fronteiras, antes de serem lidos, para entrar no mercado mundial dos conteúdos, e contam depois, em todo o circuito, com um passaporte diplomático que lhes dá direito a benefeciarem desta regra, outrora formulada por Guy Debord: “Tudo o que aparece é bom, e tudo o que é bom aparece”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 17.4.2010.

Instância, exemplo e caso (Agustin Zarzosa)

Traduzo aqui, com amável autorização do autor, um texto — daquela que foi, a meu ver, a mais brilhante apresentação da primeira Film-Philosophy Conference, em Bristol, 2008 — que me parece fundamental para começar a compreender as relações entre cinema e filosofia.

Em A Metafísica da Moral, Immanuel Kant distingue uma instância de um exemplo. Uma instância, explica, é um particular contido sob um universal; um exemplo, por outro lado, é um caso particular de uma regra prática. O argumento de Kant é que a regra prática não contém as acções que a exemplificam; enquanto regra prática, a lei moral não é um universal composto de particulares, e uma acção moral exemplar prova apenas a possibilidade de agir em conformidade com o dever.
Vou empregar esta distinção entre instância e exemplo para abordar a questão acerca do papel dos conceitos na crítica de cinema. A minha estratégia consiste em classificar as diferentes funções que os filmes operam em relação aos conceitos. Sustento, primeiro, que as funções da instância e exemplo têm dominado a crítica de cinema e, segundo, que estas duas funções são, na verdade, modos deficientes de uma terceira função, mais lateral, o caso. De acordo com isto, a primeira parte desta apresentação é dedicada à discussão das diferenças entre instância e exemplo; e a segunda parte é dedicada à explicação da noção de caso.
Começo então com a instância, que, seguindo Kant, podemos definir como qualquer filme específico contido sob um conceito. A partir do momento em que este tipo de conceito se comporta como um conjunto contendo particulares, refiro-me a ele como uma classe. Identificamos filmes como membros de uma classe se incluem as características necessárias e suficientes que o conceito especifica. A característica principal de uma instância é a sua substituibilidade; uma instância está no lugar de qualquer outro membro da sua classe. A lógica da instância reside em dois princípios complementares: o princípio de homogeneidade, que postula a identidade sob o género, e o princípio de especificação, que postula a variedade em espécie apesar do seu acordo sob o género.



Ao classificar objectos artísticos ou técnicos como o cinema, enfrentamos o desafio insuperável de o conceito não determinar os filmes que contém. Consequentemente, o próprio conceito é posto em causa em cada um destes filmes. Por exemplo, o conceito de Western está em questão em cada filme que reclama a sua pertença a este género. Ao procurarem uma alternativa a este modelo de classificação clássico, alguns críticos recorreram à noção de Wittgenstein de semelhanças de família, noção que propõe como um princípio de unidade não a presença invariável de uma propriedade comum, mas antes a interacção entre um conjunto de critérios combinados de modos imprevistos. Apesar desta alternativa certamente complicar o modo como estabelecemos a pertença de um filme a uma determinada classe, permanecemos dentro da lógica da instância na medida em que as semelhanças de família ainda propõem um modo de subsumir elementos sob um conceito.
Vou agora extrapolar a noção de Kant de exemplo moral para explicar o que constitui um exemplo no reino dos estudos cinematográficos. Como expliquei anteriormente, para Kant, os exemplos morais não são elementos de um conjunto; provam apenas a possibilidade de agir em conformidade com o dever. De modo análogo, os exemplos nos estudos cinematográficos provam a possibilidade de aplicar um conceito – ou, mais precisamente, um campo conceptual – aos filmes; por outras palavras, os exemplos provam a relevância de um campo conceptual no contexto do cinema.




O que distingue em primeiro lugar as instâncias dos exemplos é o tipo de relação que mantêm com os conceitos. Na medida em que uma classe contém uma instância, a sua relação é principalmente espacial. Um campo conceptual, por outro lado, atravessa um exemplo; logo, a sua relação é melhor descrita em termos da acção do campo conceptual e do suportar do exemplo. Neste sentido, conceito e exemplo mantêm uma relação dinâmica: o campo conceptual deve demonstrar a sua capacidade para agir sobre o filme – ou seja, tornar o filme inteligível; o filme, por outro lado, deve mostrar a sua adaptabilidade, quer dizer, a sua capacidade para ceder ao campo conceptual.
Instâncias e exemplos diferem também no que considera a como se relacionam com outros filmes. Instâncias relacionam-se com outros filmes enquanto membros da mesma ou de diferentes classes, ou seja, em termos de similitudes e diferenças. Os exemplos não partilham necessariamente similitudes com outros filmes; o que torna um filme exemplar é o modo como reage à acção exercida pelo campo conceptual. Nesta medida, um exemplo não determina à partida a extensão do campo conceptual, ou seja, um exemplo não antecipa que outros filmes o campo conceptual pode compreender ou que sentido a acção do campo conceptual pode exercer a partir doutro filme. Logo, em termos estritos, o que é exemplar não é o próprio filme, mas antes a análise do filme.




A lógica dos exemplos domina aquilo que Francesco Cassetti chamou de teorias metodológicas do cinema. Como explica Cassetti, as teorias metodológicas consistem em campos disciplinares – tal como a semiologia ou a psicanálise – que tentam demonstrar a possibilidade de compreender o cinema dentro da sua esfera. Como uma aplicação de la grande syntagmatique, a análise de Christian Metz a Adieu Philippine de Jacques Rozier instancia o uso de exemplos. Ao destacar os segmentos autónomos no filme, Metz caracteriza certamente a estrutura narrativa do filme; no entanto, Metz em última análise ambiciona demonstrar a possibilidade de aplicar la grande syntagmatique, e a semiótica em geral, ao cinema. Em vez de antecipar o sentido dos outros filmes analisados sob a lente da semiótica, a análise mostra a aplicabilidade do campo conceptual a qualquer filme; de forma significativa, Metz afirma numa nota que escolheu o filme sobretudo porque “se dava o caso de gostar muito do filme”. Apesar de, muito provavelmente, o tipo, a ordem e o número de sintagmas poderem ter variado caso Metz tivesse escolhido outro filme, a análise permanece exemplar na medida em que prova a aplicabilidade do modelo aos filmes em geral. Consequentemente, aplicar o campo conceptual de uma disciplina não nos dá, em termos estritos, qualquer conhecimento sobre o próprio filme; torna simplesmente o filme inteligível dentro dos parâmetros do campo conceptual. Um exemplo, em última análise, demonstra o poder de compreensão do campo conceptual, e não a constituição do filme.



Devemos notar que, de modo análogo ao facto da noção da classe ser posta em causa por cada membro que a ela pertence, um campo conceptual também é posto em causa a cada análise que elabora. Aqui, no entanto, a questão não é como os filmes específicos alinham pelas condições suficientes e necessárias que a classe estabelece, mas antes quão eficientemente compreende o campo conceptual o filme em jogo. Na sua análise de Adieu Philippine, Metz nota a resistência que o filme oferece ao seu modelo, e indica como o modelo pode ser concebido de novo para dar conta dos sintagmas que não se adequam completamente à la grande syntagmatique.
Gostava de salientar que a instância e o exemplo não são objectos cinematográficos discretos, mas antes funções que um filme pode operar no mesmo texto. No ensaio de Metz, Adieu Philippine funciona simultaneamente como exemplo e como instância. Assim que Metz estabelece as frequências, carências, e ausências de sintagmas no filme, ele indica que o estilo do filme é típico daquilo a que chama cinéma nouveau, um cinema caracterizado pela aparente liberdade formal e transparência narrativa, desagrado por dispositivos retóricos óbvios, e ênfase no elemento verbal. Metz observa que a dependência do filme no sintagma cena instancia como este cinéma nouveau transmite um sentido de realismo global. Neste ponto do ensaio, Adieu Philippine já não demonstra a sua adaptabilidade ao campo conceptual, mas antes a possibilidade de estender os resultados da análise a um universo predeterminado de filmes. O filme cessou de ser um exemplo que demonstra o poder de um campo conceptual para se tornar numa instância que determina as características de um universo.
A terceira função que discuto – o caso – tenta contrariar a homogeneidade entre classe e instância e a heterogeneidade entre campo conceptual e exemplo. Um caso envolve circunstâncias particulares que implicam conceitos; esta implicação, no entanto, não nos proporciona qualquer conhecimento do filme em causa ou sequer a possibilidade de aplicar estes conceitos a outros filmes. O caso oferece uma oportunidade para pensar conceitos do ponto de vista de circunstâncias particulares.



Através da sua interpretação da mónada de Leibniz, Deleuze ofereceu-nos uma concepção convincente do caso. Uma mónada diz respeito ao átomo do universo leibniziano, um átomo que não tem partes, sem extensão, e sem janelas através das quais algo podia entrar ou sair dela. Apesar do seu fechamento, as mónadas expressam o universo todo a partir do seu ponto de vista; as mónadas actuam como espelhos, reflectindo, desdobrando ou expressando distintamente aquelas partes do universo que se encontram mais próximas ou mais amplamente relacionadas com ela. No entanto, dado que as complicações do mundo se estendem ao infinito, as mónadas podem apenas expressar o todo de forma confuso.
Esta concepção leibniziana do universo subjaz ao modelo do cinema de Deleuze, mesmo que Deleuze o retire principalmente de Matéria e Memória de Bergson. Mais em particular, Deleuze fala tanto através de Leibniz como de Bergson para descrever um universo regido por dois princípios: os princípios do dobrar e do desdobrar. Ao elogiar Leibniz como o filósofo que levou estes dois princípios mais longe, Deleuze escreve: “Estes dois pólos são: Tudo é sempre a mesma coisa, há apenas uma e mesma Base; e: Tudo é distinguível por grau, tudo difere em modo...”. Leibniz e Bergson são as mónadas – ou seja, os pontos de vista – através das quais Deleuze expressa este mesmo universo e este princípios imutáveis. Poderíamos expressar facilmente esta concepção englobante do universo dos livros Cinema em termos leibnizianos: cada uma das imagens, que percepciona todas as outras imagens no universo bergsoniano, é uma mónada leibniziana que expressa o universo todo a partir do seu ponto de vista. E, consequentemente, cada filme que Deleuze analisa no seu estudo é uma mónada que expressa um aspecto do universo mais claramente que outras. E é neste sentido leibniziano que os livros Cinema constituem uma história natural das imagens: cada imagem já incluí de forma confusa todas as possibilidades que outras imagens expressam de maneira clara.




O que é então o caso e como difere de uma instância e de um exemplo? Como um caso, um filme já inclui todos os conceitos do mundo; cada filme expressa alguns conceitos de forma clara enquanto expressa outros apenas de forma confusa e obscura. O caso, então, reverte a relação entre classe e instância; enquanto que uma classe contém uma instância, um caso inclui o conceito. Deleuze usa a figura de um cone para visualizar a relação entre caso e conceito. A base do cone não se relaciona com um centro, mas tende para um vértice ou cume. O caso é precisamente o vértice do cone, expressando claramente os conceitos dentro da sua zona privilegiada e expressando, mesmo que confusamente, a sua pertença à base imensurável.
É possível tratar os filmes como casos? De um certo ponto de vista, o próprio Deleuze não consegue inteiramente fazê-lo. Alain Badiou criticou com razão Deleuze por aquilo a que chama a produção monótona de Deleuze, isto é, a variação dos mesmos conceitos através dos casos que estuda. Traduzindo esta crítica em termos leibnizianos, poderíamos dizer que a mónada-Deleuze tende a dominar a mónada-filmes que analisa. E porque a mónada-Deleuze privilegia a sua própria expressão acima da expressão dos próprios filmes, os filmes tendem a parecer menos como casos que expressam o seu ponto de vista do que instâncias que incorporam conceitos deleuzianos e exemplos que provam a possibilidade da crítica deleuziana. Como mónadas dominadas, instâncias e exemplos expressam claramente a zona de influência da mónada-Deleuze. Por outras palavras, os livros Cinema de Deleuze não tentam expressar a zona de influência própria dos filmes, mas antes a metafísica de Deleuze do ponto de vista do cinema.




O que acontece, no entanto, quando o foco muda da metafísica para a crítica de cinema? É possível para a crítica de cinema deleuziana adoptar o método de Deleuze? Na medida em que a crítica de cinema deleuziana está preocupada com a determinação do cinema através dos conceitos deleuzianos e com provar a possibilidade de aplicar conceitos deleuzianos para compreender filmes, ela opera dentro das lógicas combinadas da instância e do exemplo. Considere-se, por exemplo, The Matrix of Visual Culture de Patricia Pisters, um exercício de extensão dos conceitos deleuzianos ao “cinema popular”. Quando Pisters escreve na introdução que ambiciona provar a aplicabilidade dos conceitos deleuzianos ao cinema popular, ela está a operar expressamente dentro da lógica do exemplo. Não estou a sugerir que a aplicação dos conceitos deleuzianos por Pister é desadequada ou mal orientada. Estou, ao contrário, a sugerir que, assim que mudamos o foco da metafísica para a crítica de cinema, o método de Deleuze torna-se possível somente aceitando a possibilidade de os conceitos deleuzianos poderem não residir perto da zona de influência de um determinado filme, e ao invés aprendendo a expressar os conceitos que permaneçam nessa zona. Para situar os filmes dentro da metafísica de Deleuze, temos que resistir à tentação de aplicar indiscriminadamente os conceitos que esta metafísica produziu. Para evitar tratar os filmes como instâncias e exemplos, devíamos considerar os conceitos deleuzianos não como uma oportunidade para estender o nosso conhecimento do cinema ou como uma oportunidade de provar a possibilidade de os aplicar, mas antes como o ponto de vista da mónada-Deleuze, um ponto de vista que já foi claramente expresso.



Este ponto traz-me de volta à minha questão original acerca da relação entre filmes e conceitos. Esta relação é determinada por um modo de expressão, mais especificamente, pela dominância de uma mónada sobre outra. Instâncias e exemplos não são funções completamente diferentes dos casos; são mónadas fracas que não conseguem expressar a sua zona de influência com clareza. Como mónadas dominadas, ajudam ao expressarem a zona de influência de mónadas mais poderosas: as instâncias ajudam ao expressarem a capacidade do conceito conter; os exemplos ajudam ao expressarem a capacidade do conceito compreender. Para um filme expressar a sua zona de influência claramente, deve dominar não apenas os conceitos que o rodeiam, mas também a mónada-crítico ansiosa por consagrar estes conceitos.


Agustin Zarzosa, «Instance, Example and Case»
[versão alargada deste texto, o ensaio «The Case of the Illustrious Example» será publicado em breve numa revista da especialidade]

Agustin Zarzosa is Assistant Professor of Cinema Studies at Purchase College. He received his PhD in Film and Television at UCLA. He is preparing a manuscript on dramatic modes and melodrama.

Ao pé da letra #90 (António Guerreiro)

Sobre o ‘psi’ de emergência e seus derivados  

«O “acompanhamento psicológico” é uma das grandes figuras terapêuticas do nosso tempo. Consiste na assistência a pessoas que sofreram um choque profundo e que, por isso, têm dificuldade em lidar com o real e iniciar o trabalho de luto. Freud chamou aos psicanalistas “curadores de almas”, mas nunca os imaginou em missões de emergência. Mais eficazes a curar almas do que os ‘psi’ de todas as espécies e credos foram sempre os funcionários habilitados da máquina religiosa. É difícil perceber como é que as terapêuticas psicológicas, no seu tempo lento de análise e de actuação, podem dar respostas imediatas, a não ser aproximando-se de outra coisa que nada tem a ver com a ciência e a racionalidade.

Este tipo de desvios são hoje comuns, como se pode ver pela difusão, em muitos países, do chamado aconselhamento filosófico. Trata-se de fazer da filosofia um instrumento cultural para enfrentar o sofrimento (livro de divulgação desta técnica de cura: Platão É Melhor do que Prozac). O filósofo ainda não assiste a situações de emergência, mas lá chegará, sem o empecilho de Nietzsche: “Se a felicidade fosse verdadeiramente desejável, o idiota seria o exemplar mais belo da humanidade”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 10.4.2010.

How to theoretically justify/hide your ‘bad taste’ and obedience to the ‘cultural objects’ of power:

«Why ‘post-cinematic’? Film gave way to television as a ‘cultural dominant’ a long time ago, in the mid-twentieth century; and television in turn has given way in recent years to computer- and network-based, and digitally generated, ‘new media.’ Film itself has not disappeared, of course; but filmmaking has been transformed, over the past two decades, from an analogue process to a heavily digitised one. It is not my aim here to offer any sort of precise periodisation, nor to rehash the arguments about postmodernity and new media forms that have been going on for more than a quarter-century. Regardless of the details, I think it is safe to say that these changes have been massive enough, and have gone on for long enough, that we are now witnessing the emergence of a different media regime, and indeed of a different mode of production, than those which dominated the twentieth century. Digital technologies, together with neoliberal economic relations, have given birth to radically new ways of manufacturing and articulating lived experience. I would like to use the three works I have mentioned in order to get a better sense of these changes: to look at developments that are so new and unfamiliar that we scarcely have the vocabulary to describe them, and yet that have become so common, and so ubiquitous, that we tend not even to notice them any longer. My larger aim is to develop an account of what it feels like to live in the early twenty-first century.
I am therefore concerned, in what follows, with effects more than causes, and with evocations rather than explanations. That is to say, I am not looking at Foucauldian genealogies so much as at something like what Raymond Williams called ‘structures of feeling’ (though I am not using this term quite in the manner that Williams intended). I am interested in the ways that recent film and video works are expressive: that is to say, in the ways that they give voice (or better, give sounds and images) to a kind of ambient, free-floating sensibility that permeates our society today, although it cannot be attributed to any subject in particular.
By the term expressive, I mean both symptomatic and productive. These works are symptomatic, in that they provide indices of complex social processes, which they transduce, condense and rearticulate in the form of what can be called, after Deleuze and Guattari, ‘blocs of affect.’ But they are also productive, in the sense that they do not represent social processes, so much as they participate actively in these processes, and help to constitute them. Films and music videos, like other media works, are machines for generating affect, and for capitalising upon, or extracting value from, this affect. As such, they are not ideological superstructures, as an older sort of Marxist criticism would have it. Rather, they lie at the very heart of social production, circulation and distribution. They generate subjectivity and they play a crucial role in the valorisation of capital. Just as the old Hollywood continuity editing system was an integral part of the Fordist mode of production, so the editing methods and formal devices of digital video and film belong directly to the computing-and-information-technology infrastructure of contemporary neoliberal finance. There’s a kind of fractal patterning in the way that social technologies, or processes of production and accumulation, repeat or ‘iterate’ themselves on different scales and at different levels of abstraction.»

Steven Shaviro, «Post-Cinematic Affect: On Grace Jones, Boarding Gate and Southland Tales», Film-Philosophy 14.1 2010, pp. 2-3.

Ao pé da letra #89 (António Guerreiro)

Sobre a opinião pública e as suas perversões

«Fazendo uma arqueologia do espaço público, Habermas mostra que o princípio em que se baseia a verdade do Estado moderno é a ideia do povo soberano, que deve, por sua vez, exprimir-se sob a forma da opinião pública. Se a lógica de um estado de coisas se torna facilmente apreensível nos seus fenómenos extremos, então devemos pensar que nada ilustra melhor a perversão dessa ideia moderna de opinião pública do que o lixo opinativo dos blogues e das caixas de comentários dos leitores nos jornais online — caricaturas grotescas da hipertrofia da opinião mediática.

Este fluxo imparável da opinião é o oposto da liberdade real de pensamento e de comunicação. É uma conversa que se molda inteiramente pela vontade do reconhecimento e segundo critérios que são os de uma ortodoxia partilhada pelo grupo a que se pertence, simetricamente recusada por outros grupos cuja aspiração é a mesma: triunfar nas guerras da opinião e ocupar um lugar nesta dialéctica sem síntese. Faz lembrar a história contada por Hegel: uma vendedora de ovos a quem um cliente diz “Os seus ovos estão podres” responde, por seu turno, Podre está o senhor, e a sua mãe, e a sua avó.”»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 2.4.2010.

Filmes ‘menores’ em Abril


Kohayagawa-ke no aki /
O Outono da família Hayagawa
Yasujiro Ozu

1961, 98’
História permanente do cinema

(prog. Antonio Rodrigues)
Sáb, dia 10, 19h
Cinemateca*, Lisboa


We can’t go home again
Nicholas Ray

1971, 93’
História permanente do cinema
Sáb, dia 10, 22h – Cinemateca


Zabriskie Point
Michelangelo Antonioni
1970, 110’
5ª, dia 15, 21h30 – Cinemateca


Gerry
Gus Van Sant
2003, 103’
6ª, dia 16, 21h30 – Cinemateca


The misfits
John Huston
1961, 124’
2ª, dia 19, 21h30 – Cinemateca


Eika Katappa
Werner Schroeter

1969, 130’
2ª, dia 19, 22h – Cinemateca


Magnificent obsession
Douglas Sirk

1954, 108’
6ª, dia 23, 15h30 – Cinemateca


My way home
Bill Douglas
1978, 71’
“Fórum” de Berlim 40 anos
IndieLisboa 2010
6ª, dia 23, 21h45 e
2ª, dia 26, 15h – Culturgest
última parte da Trilogia a projectar

Lian lian feng chen /
Poeira no vento

Hou Hsiao-Hsien

1987, 109’
“Fórum” de Berlim 40 anos
IndieLisboa 2010
Sáb, dia 24, 18h30 – Culturgest


Sauve qui peut (la vie)
Jean-Luc Godard

1980, 97’
“Fórum” de Berlim 40 anos
(escolha de Angela Schanelec)
IndieLisboa 2010
Sáb, dia 24, 21h30
2ª, dia 26, 15h15
City Classic Alvalade 1, Lisboa


D’Est
Chantal Akerman
1993, 110’
“Fórum” de Berlim 40 anos
IndieLisboa 2010
3ª, dia 27, 15h
Culturgest, Lisboa


L'hypothèse du tableau volé
Raúl Ruiz
1979, 66’
3ª, dia 27, 19h
Cinemateca, Lisboa


Orly
Angela Schanelec
2010, 84’
IndieLisboa 2010
3ª, dia 27, 21h45
City Classic Alvalade 3


The exorcist
William Friedkin
1973, 120’
4ª, dia 28, 15h30
Cinemateca


Ruhr
James Benning

2009, 120’
IndieLisboa 2010
Sáb, dia 1 de Maio, 21h15
Londres 2, Lisboa
cf. «The act of seeing,
synthetically»* (Matthew Flanagan)

Tulitikkutehtaan tyttö /
A rapariga da fábrica
de fósforos

Aki Kaurismäki

1990, 68’
“Fórum” de Berlim 40 anos
IndieLisboa 2010
Dom, dia 2 de Maio, 18h30
Londres 1


Kasaba
Nuri Bilge Ceylan

1997, 85’
“Fórum” de Berlim 40 anos
IndieLisboa 2010
Dom, dia 2 de Maio, 21h45
City Classic Alvalade 3


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

Ao pé da letra #88 (António Guerreiro)

Sobre a relação da classe e da multidão com os líderes

«Há uma dramaturgia passional na eleição e na destituição dos líderes do PSD que não se verifica em nenhum outro partido. Podemos ver aí uma prova de que se trata de um partido formado por uma multidão informe, sem o princípio unificador da ideologia e da classe. Aquilo que une a classe é a solidariedade (no sentido que a palavra tem no discurso político de esquerda e não no sentido humanista ou cristão): e o que a define é a ‘consciência de classe’, o que significa a consciência da sua situação histórica e não da sua psicologia. Já relativamente às massas, podemos fazer apelo à psicologia, contando, aliás, com a caução de um clássico da psicologia social: Gustave Le Bon.

As massas que alimentaram os fascismos, e que estes manipularam, têm necessidade de um chefe, de um líder, que, na sua expressão última e extrema, é um Führer. O líder de que a multidão partidária do PSD anda sempre à procura não se confunde com o líder grotesco dos fascismos. Não só porque o ‘povo’ do PSD não é o ‘povo’ dos fascismos mas também porque a influência, a relação entre a massa e o seu líder é agora recíproca. E este líder deve submeter-se à máquina partidária como uma presa.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 27.3.2010.

Ao pé da letra #87 (António Guerreiro)

Sobre uma figura nova, sexo-criminal: o pedófilo  
«Numa recente crónica no Público, a propósito dos casos de pedofilia que estão a pôr a Igreja Católica em causa, Paulo Varela Gomes sublinhava esta verdade elementar: é uma constante a utilização sexual das crianças em seminários, internatos, orfanatos, etc. Novo é só o facto de se ter começado a falar nisso. Como é que se iniciou recentemente esta “vontade de saber”? Os factos começaram a vir à luz do dia, porque se construiu uma figura nova, sexo-penal, que não existia: o pedófilo. Dito de outra maneira, assistimos nestes últimos anos à criminalização e à absoluta rejeição moral de uma prática sexual que antes não era objecto de nomeação e criámos a partir dela uma tipologia de indivíduos que não existia. 

Algo que se tornou entretanto repugnante podia, até há pouco tempo, ser descrito como belo e virtuoso. Leia-se um livro editado em França, em 1980, de um escritor já morto, chamado Tony Duvert (L'enfant au masculin, na mais que respeitável editora Minuit), para perceber que aquilo que hoje sabemos de maneira tão evidente era desconhecido, porque não era objecto de um discurso, não tinha nome, não suscitava perguntas. Nem aos sexólogos nem aos criminólogos.» 

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 20.3.2010.

Ao pé da letra #86 (António Guerreiro)

Sobre as regras da incompatibilidade 
«Há uma antiga lei não escrita das incompatibilidades que estás a deixar de vigorar. Por exemplo, um escritor não fazia publicidade aos seus próprios livros, deixava que outros a fizessem por si. O recato e a sobriedade podiam dar lugar à exuberância transgressiva, mas mantinham-se como referência. Aquilo que nos pode parecer um puritanismo tinha uma razão funda: era necessário defender a autonomia da obra, mesmo que fosse contra o próprio autor. E defender a sua autonomia era impedir que circunstâncias exteriores biográficas e extraliterárias a desviassem.

Mas hoje até já podemos ver a fotografia de um escritor (José Eduardo Agualusa) com um bebé ao colo a promover um livro de crónicas sobre a experiência de ser pai. É certo que o género da crónica admite, por definição, outras contaminações. Mas a utilização, para efeitos publicitários, da imagem de um bebé e da intimidade paterna faz apelo a algo demasiado primário que devia ser incompatível com as representações de um escritor. E há também razões estéticas, pois aquela foto não diz outra coisa senão isto: “Como é belo e comovente um pai-escritor com o seu bebé ao colo.”»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 13.3.2010.

Última aula do Professor José Gil



A formação da linguagem artística e a filosofia
José Gil

Conferência, dia 10 de Março de 2010, 16-20h
Auditório I, Torre B, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Avenida de Berna, 26 C, Lisboa

«José Gil é um dos autores mais lidos e comentados dos últimos anos. Professor do Departamento de Filosofia da FCSH durante as últimas décadas, influenciou sucessivas gerações de estudantes.
Dará a sua última lição, certamente um momento marcante do nosso ano académico, sobre a formação da linguagem artística e a filosofia. Convidamos todos a estar presentes.»

Ao pé da letra #85 (António Guerreiro)

Sobre o mito do escritor e o seu direito ao prosaísmo 
«Todos os anos, em Fevereiro, por via das Correntes D'Escritas, a Póvoa do Varzim torna-se uma reserva exótica de ‘vida literária’. Das reportagens do acontecimento, podemos deduzir que a cidade se transforma, durante quatro dias, num parque temático. O tema é nobre: a literatura; nobres são também, da categoria outrora designada como ‘homens de espírito’, os que povoam o parque: os escritores. Mas, nas descrições do acontecimento, o que aparece sublinhado são as actividades prosaicas desta corporação de espíritos, o modo como se entregam, com excepcional talento e sentido do espectáculo, a habilidades mundanas.

Dir-se-ia que as questões diletantes que lhes são propostas para discutir (do tipo “O poeta é um predador”, ou “Escrevo para desiludir com mérito”) são prolongamentos da arte do lazer, exibida publicamente não como quem desce do pedestal mas como quem nele se ergue ainda mais alto. Em tempos, Barthes explicou tudo isto numa das suas mitologias, “O Escritor em Férias”, onde mostrava que o estatuto de prestígio que a sociedade concede ao escritor — o mito do escritor — se reforça nesta “aliança espectacular de tanta nobreza e tanta futilidade”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 6.3.2010.


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