Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Crueldade e infantilismo | Cruelty and infantility (Roberto Rossellini)



«A que chama posição moral? Os defensores do cinema-verdade também reivindicam esse termo.
É, antes de mais, uma posição feita de amor. Logo, de tolerância, de compreensão. Logo, também, de participação. Como vêem, as coisas misturam-se, complicam-se, e tornam-se cada vez mais estreitas, cada vez mais próximas do que vocês próprios são. A partir do momento em que afastam de vocês todo o juízo, toda a participação, toda a simpatia, toda a tolerância, e em que dizem: “Sejam como são, estou-me nas tintas”, já não é uma posição moral, é até uma atitude muito cínica.

Descobrimos, pelo nosso lado, uma posição moral em La Punition [Jean Rouch, 1962]. Isto é, poética, se prefere. Há uma maneira de filmar as pessoas que as ridiculariza, as entorpece, as reduz à animalidade. Há uma outra que as faz aparecer como seres livres. Em La Punition, não há dúvida que as personagens eram ridicularizadas, mas à primeira vista. A ideia de liberdade (primeiro título do filme) aparece através do seu comportamento.
Quanto a mim, não aparece. O que dizem está certo. Podemos mostrar uma pessoa como quisermos. É verdade. Mas não acredito que um facto artístico seja um facto artístico acabado, se não houver ternura. Podemos ridicularizar alguém e, ao mesmo tempo, ter ternura. Podemos até tratá-lo de uma maneira aparentemente muito cruel. A ternura é uma verdadeira posição moral. Não sei reconhecer como forma artística alguma coisa que não tenha ternura. Ora, nesse filme, não há ternura, visto que é o acaso que conduz tudo.
O que me enerva, o que me irrita no mundo actual? O mundo actual é um mundo demasiado cruel e é-o em vão. A crueldade é ir violar a personalidade de alguém, é pôr alguém em condição de fazer uma confissão total e gratuita. Se fosse uma confissão com vista a um fim determinado, aceitá-la-ia; mas é um exercício de um voyeur, de um vicioso. Isto é: é cruel.
Reagi violentamente a isso, visto que acredito firmemente que a crueldade é sempre uma manifestação de infantilismo, sempre. Toda a arte de hoje se torna de dia para dia mais infantil. Cada um tem o desejo louco de ser o mais infantil possível. Não digo ingénuo: infantil. Por causa do infantilismo, caímos no mais baixo da escala humana. Passámos ao macaco antropomórfico; em breve estaremos na rã e na enguia. É isso que me irrita. É essa falta total de pudor.
Vimos esse infantilismo no nouveau roman. Vemo-lo sob uma fórmula absolutamente inacreditável em pintura. Chegámos à vaidade total, ao doentio. E isso num mundo que se torna todos os dias mais sério, mais complexo. Ora, visto que este mundo é feito pelos homens, tenho de o aceitar sempre, apesar das queixas do género de: “Caminhamos para a destruição geral, para a bomba atómica, etc.” Hoje, a arte é a queixa ou a crueldade. Não há outra medida: ou se queixam, ou fazem um exercício absolutamente gratuito de pequena crueldade.

Mas, nesse caso, ataca toda a arte contemporânea, de há cem anos para cá. Não há ternura em, por exemplo, A Educação Sentimental de Flaubert, ou, se a há, também a há na arte de hoje.
Por exemplo, tomemos essa especulação – é preciso chamá-la pelo nome – que fazem sobre a incomunicabilidade, sobre a alienação, etc.. Não encontro nisso nenhuma ternura, mas uma enorme complacência. É possível que essa ternura exista e que eu a não saiba ver. Talvez me escape. A partir do momento em que não possa avistar cores para cá do vermelho e para lá do violeta, é como se não existissem. Tenho de ser físico para saber que para cá do vermelho, há o infravermelho, e, para lá do violeta, o ultra-violeta. Se não sou físico, se julgo através dos meus sentidos, não consigo avistar a ternura.
Hoje, sentimo-nos na vanguarda a partir do momento em que nos queixamos. Mas queixar-se, não é criticar, o que é já uma posição moral. A partir do momento em que descobrimos que nos podemos afogar se cairmos na água, e em que mergulhamos todos os dias pessoas na água para vermos essa coisa terrível e abominável que é aqueles que mergulhamos na água poderem afogar-se, acho que é absolutamente ignóbil. Mas se, quando me apercebi que as pessoas que caem à água se afogam, começar a aprender a nadar para poder arremessar-me à água e salvá-las, é então uma outra posição.
E isso, disse-lhes no ano passado, determinou-me a não fazer mais cinema.»


Roberto Rossellini,
entrevistado por Fereydoun Hoveyda e Eric Rohmer, Cahiers du cinéma 145, Julho 1963 (in A política dos autores, trad. Isabel Maria Lucas Pascoal, Assírio & Alvim, Lisboa, 1976, pp. 110-112).
«What do you call a moral position? The advocates of cinéma vérité use the same term.
First of all it is a position of love, and therefore of tolerance and understanding. And of participation. You see how things mix, complicate each other and always become tighter, closer to who you are, what you want. But the moment you stand back from any judgment, any participation, any sympathy, any tolerance, and say: “Be as you are, I don’t give a damn,” then we are no longer speaking of a moral stance but rather of a very cynical attitude.

As far as we are concerned, we do see a moral stance in La Punition [Jean Rouch, 1962]. A poetic one, if you prefer. There is a way of filming people that makes them look ridiculous, stiff, that reduces them to a state of animality. And then there is another one that makes them look free. In La Punition the characters are ridiculed, no doubt about it, but only superficially. The idea of freedom (which was the first title of the film), shows through their behavior.
As far as I am concerned it doesn’t show at all. What you say is right. There are all sorts of ways to show a person, that’s true, but I do not believe that an artistic event is really such if it doesn’t involve any affection. You can ridicule someone and at the same time show him more affection. You can even treat him in a way that’s apparently quite cruel. But affection remains the only real moral stance. I cannot recognize anything lacking affection as artistic. In the case at hand there is no affection since everything depends on chance.
What irritates me, what infuriates me in today’s world? Today’s world is too gratuitously cruel. Cruelty means the violation of someone’s personality, the forceful extraction of a total and gratuitous confession. If it were a confession aimed at something specific, I would accept it: but it is the practice of a
voyeur, of a pervert. In other words: it’s cruel.
I react very strongly to all this because I firmly believe that cruelty is always an expression of infantility, always. Today’s art gets more and more childish every day. Everyone seems to have a mad yearning to be as childish as possible. I don’t mean naïve: childish. From infantility we have fallen to the bottom of the human scale. We have become anthropomorphic monkeys: we’ll soon move on to the stage of the frog or the eel. This is what angers me. This total lack of decency.
This infantility, we have seen it in the nouveau roman. We see it in an absolutely unbelievable form in painting. We have gone as far as total vanity, sickness. And all this in a world that’s daily becoming more serious, more complex. now, since this world has been made by people, I must always accept it, in spite of all the moaning and groaning that goes on, such as: “We are heading toward total destruction, the atomic bomb, etc.”
Today, art is either moaning and groaning or cruelty. There is no other measure: either you complain or you devote yourself to the gratuitous practice of petty cruelty.

It would seem you are attacking all the contemporary art of the last hundred years. There is no affection in Flaubert’s Éducation Sentimentale, or if there is, then you can find it also in contemporary art.
Take, for instance, the way in which everyone is speculating–it has to be called by its real name–on incommunicability and alienation. I find absolutely no affection in all that, only an enormous complacency. But maybe there is some affection there and I am the one who’s unable to see it. Maybe it eludes me. As I cannot perceive colors this side of the red or that side of violet, it is as if there where none. I must be a physicist to know that on this side of red there is infrared, and on that side of violet there is ultraviolet. If I am not a physicist, if I judge with my own senses, I am unable to perceive any affection.
Today it’s enough to complain to be part of the avant-garde. But to complain is not to criticize, which would already be a moral stance. When you find out that people may drown if they fall into the water, and keep on pushing them into the water every day to confirm the awful and abominable fact that indeed they may drown, I can only be disgusted. On the other hand if, the moment you discover that other people who fall into the water may drown, you start taking swimming lessons so that you can jump after them and save them, then it’s another story.
This is what, as I told you last year, has made me decide to stop making films.»


in My Method: Writings and Interviews,
 transl. Annapaola Cancogni, Marsilio Publishers, 1995, pp. 144-146 
[thanks to Andy Rector].


Ao pé da letra #81 (António Guerreiro) 
«Sobre a sensibilidade da época e o sentido do trágico 
Em 1910, há um século, a Europa preparou-se com temor supersticioso para a visita, a 17 de Maio, do cometa Halley. O acontecimento foi celebrado literariamente e festejado pelas multidões como se estivessem a assistir ao renascimento dos deuses pagãos. Mas esse foi também o ano de outros prodígios não escritos nas cartas astronómicas: surge a música atonal de Schoenberg, Alban Berg e Webern; sai o livro de Carlo Michelstaedter A Persuasão e a Retórica, a mais famosa tesi di laurea da universidade italiana e o documento extremo da consciência trágica da época (o autor suicidou-se no dia a seguir, com 23 anos); Rilke publicou os seus Cadernos de Malte Laurids Brigge; é construído o edifício Steiner, de Adolf Loos, em Viena, para grande escândalo do imperador, que se recusava a olhar para ele; o jovem Lukács publicou A Alma e as Formas.

A sensibilidade epocal encontrava em todas estas realizações artísticas uma configuração nítida e um destino. Era o tempo da tragédia da cultura. Nós, que vamos este ano comemorar o centenário da República, convinha percebermos o que, simultaneamente, e noutras latitudes, estava em jogo com um sentido do trágico para nós desconhecido.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 6.2.2010.

Raros filmes de Fevereiro


Détruire, dit-elle
Marguerite Duras

1969, 90’
Marguerite Duras - A cor da palavra
2ª, dia 1, 19h
5ª, dia 4, 22h
Cinemateca*, Lisboa


Saikaku ichidai onna /
A vida de O'Haru
Kenji Mizoguchi

1952, 140’
Inéditos: Louis Skorecki, os filmes e
uma carta branca
3ª, dia 2, 22h – Cinemateca


Once upon a time in America
Sergio Leone
1984, 220’
Grandes secundários
4ª, dia 10, 15h – Cinemateca


Baxter, Vera Baxter
Marguerite Duras
1976, 90’
Marguerite Duras - A cor da palavra
4ª, dia 10, 19h
6ª, dia 12, 19h30 – Cinemateca



Son nom de Venise dans
Calcutta déserte

Marguerite Duras
1977, 118’
Marguerite Duras - A cor da palavra
4ª, dia 17, 19h– Cinemateca
5ª, dia 18, 22h (com India Song)



Goodfellas
Martin Scorsese
1990, 146’
Grandes secundários
4ª, dia 24, 15h30 – Cinemateca

Sobibor, 14 octobre 1943,
16 heures
Claude Lanzmann
2001, 95’
Inéditos
4ª, dia 24, 22h – Cinemateca
cf. «Os gansos de Sobibor*»


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

Ao pé da letra #80 (António Guerreiro)
«Sobre um “povo” como espécie em vias de extinção
Comentando os últimos dados da taxa de fertilidade, João César da Neves proclamava, esta semana, no DN: “Somos um povo em vias de extinção.” A que entidade se refere o cronista? Que “povo” é este que falta às regras da procriação e se extingue sem glória? Não é o povo como sujeito político e soberano. Não sendo este corpo político unitário (que, de resto, não se reproduz nem se extingue, pode é ser aniquilado no seu direito), também não é um outra realidade que a palavra “povo” designa: a arraia-miúda, o menu peuple, a classe social (que é, dizem os sociólogos, cada vez mais numerosa).

E também não é a entidade com a qual identificamos uma forma de enraizamento cultural. O “povo” de J.C.N. é um tipo singular (“em vias de extinção”, como dizemos das espécies). E tal coisa existe? Se entendermos que sim, temos de considerar que alguém que se naturalize português continua a não fazer parte da espécie; daí a exortação de J.C.N. à procriação. A espécie só existe como construção, figuração mítica poderosa que, na melhor das hipóteses, é Kitsch e, na pior, serve fins sinistros. Quem não ouviu falar do Volk alemão?»
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 30.1.2010.

Contra a cinefilia cinéfila!

Ao pé da letra #79 (António Guerreiro) 
«Sobre a alta velocidade e a pequena burguesia 
Quando um ministro diz que, graças ao TGV, Lisboa pode tornar-se a praia de Madrid, as suas palavras têm o poder de nos fazer lembrar três figuras que um filósofo italiano, comentando a teoria do carisma de Max Weber, eleva a categorias: o demagogo, o imbecil instintivo e o palhaço carismático. Mas mais importante do que projectar tais palavras em quaisquer categorias é percebermos que a política pertence hoje inteiramente àqueles que se convencem daquilo que dizem. É aí que reside todo o segredo do discurso político. 

Mas as palavras deste ministro ilustram também outra coisa: que, no horizonte dos governantes, o único modelo de classe que existe (ou em que todos se devem transformar) é precisamente uma classe que não chega a sê-lo: a pequena burguesia universal, cujas bases materiais de existência assentam num modelo de vida que se manifesta em duas dimensões: o consumo e o tempo livre. Lisboa como praia de Madrid, Caparica como praia de Lisboa: trata-se sempre do mesmo tropismo – marítimo e litoral – que define o movimento de alta velocidade de uma massa que nunca gozará do luxo da lentidão.» 
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 23.1.2010.

Ao pé da letra #78 (António Guerreiro)
«Sobre as citações que têm destaque nos jornais
O Dictionnaire des idées reçues, de Flaubert, tem hoje um equivalente nas frases do dia e da semana que quase todos os jornais seleccionam. Tais secções são um verdadeiro arquivo da bêtise, da estupidez, que Flaubert definiu como algo sempre monumental. Logo, merecedor de ser citado. O que encontramos invariavelmente nessas secções são frases que têm o esplendor dos lugares-comuns e o brilho especial de tudo o que é ostensivamente banal. Não é que não possam ser oportunas (para já não falar do parentesco entre a estupidez e a inteligência, que Musil analisou), mas trazem sempre consigo a dureza assertiva e a convicção resistente a que Flaubert se referiu quando disse que a estupidez consiste no desejo de concluir.

Nada onde se vislumbre a complexidade de um pensamento ou o trabalho de um conceito cabe nessas rubricas de citações, isto é, de frases (do dia ou da semana). É que a unidade linguística própria da estupidez é a frase e a sua modalidade essencial é a da repetição vazia que se aloja na linguagem. Marx percebeu isso muito bem quando disse que a estupidez “é o direito consuetudinário de uma opinião. Na língua, a estupidez reside na frase”.»
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 16.1.2010.

O grande salto em frente? (Nuno Sena)

«Em qualquer balanço da primeira década do século XXI na área de cinema o primeiro elemento que importa destacar é a da sua profunda reconversão tecnológica, iniciada ainda durante os anos 90 mas que só agora começa a definir de forma mais clara novos modos de produzir, de distribuir e de ver cinema. Embora mais lenta do que inicialmente se previra, a passagem para um paradigma inteiramente digital está hoje praticamente consumada nos vários sectores geradores de imagens em movimento destinadas ao consumo público e/ou privado (ainda que no cinema ela enfrente ainda algumas bolsas de resistência).
Deixemos de lado por agora as consequências dessa passagem na própria produção e na natureza dos filmes para nos concentrarmos na maneira como esta enorme mudança tecnológica e industrial – que se encontra paralelo na passagem do cinema mudo ao sonoro no final dos anos 20 do século passado – está a transformar os nossos hábitos enquanto espectadores. Nas salas de cinema esta mudança é tão avassaladora quanto discreta, já que o seu impacto não é, literalmente, visível, ou seja, não é percebido pelo comum dos espectadores enquanto um dado importante para a fruição do espectáculo cinematográfico. A irreversibilidade do sucesso do digital mede-se pelo facto de em si próprio já não ser assunto. Se a projecção em película se manteve inalterada, naquilo que lhe é essencial, durante mais de cem anos de história do cinema foi porque definiu um elevado standard de qualidade técnica que só recentemente foi possível igualar através de outras tecnologia, o digital. Este trouxe como vantagens adicionais potenciar economias de escalas e ser inteiramente adaptável às várias plataformas em que se joga, cada vez mais, o consumo do cinema.
 
A multiplicação da presença do cinema entre nós através de mais ou menos novos ecrãs (televisor, computador, telemóvel) – se não em detrimento pelo menos em concorrência crescente com o cinema visto em sala – está a tornar o cinema cada vez mais numa questão privada, em contradição com a sua mais forte tradição. Retomando uma velha ideia de Godard, é como se o cinematógrafo dos Lumière, que ao ganhar a batalha contra o cinemascópio de Edison definiu o próprio sentido da evolução do cinema como arte e espectáculo popular assente na ideia de uma comunidade de espectadores, tivesse afinal acabado por perder a guerra. As implicações desta perda de importância da dimensão pública e colectiva do cinema enquanto ritual partilhado e partilhável face à sua versão doméstica e individualizada no imaginário de realizadores e espectadores não são ainda inteligíveis e inequívocas, mas é certo que não deixarão de prolongar algumas das linhas de força que marcaram a produção cinematográfica na entrada do presente século. [...]»

Nuno Sena, «E, contudo, ele move-se», Jornal de Letras, 30.12.2009, p. 16.

Ao pé da letra #77 (António Guerreiro)
«Sobre a ordem e o poder da palavra “casamento”
O que está em causa no debate em curso sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo não são os comportamentos nem os factos mas algo mais complexo: o poder das palavras e o edifício simbólico que elas constroem. E isso está bem patente no projecto de lei do PSD, que opta por chamar “união civil registada” e “parceiros” ao que outros chamam “casamento” e “cônjuges”. E isto porquê? Porque uma parte da população (sobretudo, a mais católica) se sente ferida com a linguagem. Se as regras da mobilização militar nos Estados Unidos proibiam, até há pouco tempo, a declaração reflexiva “Eu sou homossexual” era porque isso podia ser interpretado como uma tentativa de sedução ou como uma agressão.

Aceder assim a tão poderoso e antigo edifício simbólico (o casamento) pode parecer uma revolução, mas é uma revolução conservadora. Todos nos devemos regozijar com a resolução de problemas práticos e legais. Mas é preciso não esquecer que integrar a ordem do discurso a que pertencem as representações sociais do casamento significa uma submissão à linguagem que sempre procedeu pela violência e pelo poder discursivo de impor uma definição de homossexual.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 9.1.2010.

Raros filmes de Janeiro


The wrong man
Alfred Hitchcock

1957, 100’
5ª, dia 7, 19h30
Cinemateca*, Lisboa

Sullivan's travels
Preston Sturges

1941, 91’
6ª, dia 8, 19h30 – Cinemateca

The Wizard of Oz
Victor Fleming

1939, 95’
Sáb, dia 9, 15h – Cinemateca Júnior
Salão Foz, Lisboa


Solaris
Andrei Tarkovski
1972, 164’
História permanente do cinema
(prog. Antonio Rodrigues)

Sáb, dia 9, 21h30 – Cinemateca


The unknown
Tod Browning
1927, 110’
História permanente do cinema
Sáb, dia 16, 19h30 –
Cinemateca


Ma Femme chamada Bicho
José Álvaro Morais
1976, 79’
2ª, dia 18, 22h – Cinemateca

The getaway
Sam Peckinpah
1972, 122’
4ª, dia 20, 22h – Cinemateca

Cheyenne autumn
John Ford
1964, 140’
Grandes secundários
6ª, dia 22, 15h30 – Cinemateca

Chelovek s kino-apparatom /
O homem da câmara de filmar
Dziga Vertov
1929, 80’
História permanente do cinema
Sáb, dia 23, 19h30 –
Cinemateca


Rio Bravo
Howard Hawks
1959, 141’
Inéditos: Louis Skorecki, os filmes
e uma carta branca
(prog. Luís Miguel Oliveira)
4ª, dia 27, 19h – Cinemateca


The gold rush
Charles Chaplin
1925, 95’
Sáb, dia 30, 15h
Cinemateca Júnior


Falsche Bewegung /
Movimento em falso
Wim Wenders
1974, 103’
História permanente do cinema
Sáb, dia 30, 21h30 – Cinemateca


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

Ao pé da letra #76 (António Guerreiro)
«Sobre os editores como produtores literários
As saídas dos editores de uma empresa para outra são hoje acompanhadas com a mesma atenção que a transferência dos jogadores ou as deslocações das celebridades televisivas. A grande transferência da temporada foi a de Maria do Rosário Pedreira da Quidnovi para a Leya. Segundo disseram os jornais, esta editora detém um capital importante na bolsa de valores da edição: a capacidade de “descobrir”, “inventar”, “produzir” novos autores portugueses (e os nomes dados como exemplos eram estes: José Luís Peixoto, valter hugo mãe e João Tordo).

Ficámos assim a saber, se por acaso não tínhamos ainda percebido a evidência, que a literatura – sobretudo, a ficção – é hoje uma produção editorial que faz dos autores meras criaturas de desígnios e génios alheios. Em tempos, um grande editor, com uma intervenção autoral, era aquele capaz de fazer um catálogo que, em si mesmo, constituía um programa literário. Hoje, um grande editor é um produtor e alguém que arranja escritores e livros à la carte. O triunfo desta lógica implacável ditou o fim da autonomia do campo literário, tal como o conhecemos desde a segunda metade do século XIX.»
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 24.12.2009.

Ao pé da letra #75 (António Guerreiro)
«Sobre os balanços como sintoma de doença histórica
Chegou o fim do ano e, com ele, os balanços, as listas do que, nas diversas áreas, se entende que precisa de ser salvo. O essencial é dar a impressão de que o balanço é feito num observatório de onde se tem uma visão soberana e sem falhas sobre tudo o que se passou. Estas recensões dos ‘acontecimentos’ anuais correspondem a um modo de escandir o tempo que só produz passado. A medida começou por ser o século, foi depois a época, fixou-se a seguir na década e tornou-se há pouco tempo anual. Para esta nova forma de “doença histórica” (se não é exagerada a convocação nietzschiana), a novidade já foi depositada nos arquivos e jaz inerte em listas de glórias com as quais no preparamos para entrar num novo ano que, tal como o anterior, não podemos falhar.

E assim nos entregamos a uma forma perfeita de niilismo, para a qual já não existe tempo de experiência mas apenas o tempo imediatamente revogável das novidades. O artista americano Robert Rauschenbeng reivindicou “mais tempo e menos história”. Ele tinha percebido que, nesta sucessão cada vez mais veloz de fins e recomeços, o que resta são cronologias.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 19.12.2009; cf. «Ao pé da letra», #31.

Raros filmes de Dezembro (actualização)


Two lane blacktop
Monte Hellman

1971, 102’
4ª, dia 2, 19h30
Cinemateca*, Lisboa



O movimento das coisas
Manuela Serra

1985, 90’, 16mm, cor
Filmes esquecidos
6ª, dia 4, 18h30 – Sociedade
Portuguesa de Autores, Lisboa


The birds
Alfred Hitchcock
1963, 120’
Sáb, dia 5, 15h30 – Cinemateca


O cinema falado
Caetano Veloso
1986, 110’
Sáb, dia 5, 19h – Cinemateca
com a presença de Caetano Veloso
e Antonio Cicero


An affair to remember
Leo McCarey
1957, 119’
5ª, dia 10, 15h30 – Cinemateca


Parsifal
Hans-Jurgen Syberberg
1982, 255’
Filmes de João Bénard da Costa
5ª, dia 17, 21h30 – Cinemateca
cf. «A confissão»* (Michel Chion)


No skin of my ass
Bruce LaBruce
1991, 73’
20 Anos Medeia Filmes:
Noites brancas
6ª, dia 18(19), 1h30
King 3, Lisboa


Les nuits de la pleine lune
Eric Rohmer
1984, 102’
20 Anos Medeia Filmes
Sáb, dia 19, 12h15 – King 3



The territory
Raúl Ruiz
1981, 100’
20 Anos Medeia Filmes:
Homenagem Joaquim Pinto
Sáb, dia 19, 23h30 – King 1


Le rayon vert
Eric Rohmer
1986, 98’
20 Anos Medeia Filmes
Dom, dia 20, 12h – King 3
cf. «A doce Delphine. Fragilidade e
obstinação»* (Susana Duarte)


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

Clássico ≠ moderno











[caixa de comentários: 
Anónimo disse...

¿?
Miguel Marías

André Dias disse...

A resposta mais sucinta, dada por um amigo meu, seria: "bande à part" :)
Seria fastidioso, embora enobrecedor, elaborar teoricamente como esta intuição simples (que se formou na minha cabeça ao rever recentemente AN AFFAIR TO REMEMBER, imediatamente comparada a estes planos de DALLA NUBE... que há muito me obcecam), poderia ser justificada. Podia dizer que, se não se vê nas imagens, de nada serve explicar. Creio, no entanto, que posso adiantar, sem me comprometer demasiado, que tem que ver com a ideia de um espaço "inclusivo", que acaba por devolver todo o "exterior", por oposição a um que exclui, que deixa de fora ou que "mostra" a exclusão em si, que engole, portanto, deixando buracos à mostra. Neste sentido, o primeiro plano de AN AFFAIR... seria o contraponto clássico dos de DALLA NUBE... 
Que seja abusiva a extensão disto a todo o cinema "clássico" e "moderno", concedo bem. Que não seja novidade, também. Mas que prazer nestas intuições ao ver um filme! :)

Anónimo disse...

Mis interrogantes siguen en pie, dirigidos a mí mismo. Me pregunto, por ejemplo:¿Tienen algo que ver estos dos films, separados en el espacio y en el tiempo, en los respectivos carácteres de sus autores, y esas escenas en concreto? Creo que hay alguna escena de Straub (por ejemplo, en "Nicht versöhnt") que tiene más que ver con esa de "An Affair to Remember". ¿Es (o sería) más interesante (o revelador) lo que los distingue o lo que pueda hacer que haya también entre ellos un cierto parecido, de haberlo?
¿Es tan seguro que el más reciente es moderno y que es "clásico" el más viejo? Yo cada vez lo veo menos claro, ya que las películas que encuentro más "actuales" entre las que veo son más a menudo antiguas (muy antiguas, mudas, incluso de 1912) que recién hechas. Y, al ser a la vez muy antiguas y ser todavía actuales, serían "clásicas" sin proponérselo, o incluso aspirando a lo contrario ("À bout de souffle" o "Pierrot le fou" son hoy tan clásicas como "Le Mépris"). 
Miguel Marías

André Dias disse...

Não sei dizer se os filmes têm algo que ver. Nem estou certo que seja algo que nos deva preocupar. Sei que estas cenas têm algo que as liga, algo que se aproxima mas não se limita ao "formal". Disso estou seguro, embora possa não conseguir exprimi-lo adequadamente. Tratam porventura da própria natureza do diálogo, e fazem-no de formas diferentes, quase opostas. Na primeira cena de AN AFFAIR TO REMEMBER encontramos um diálogo que se procura ocultar em público; correspondentemente, o quadro aparece cortado ao meio, por um elemento do cenário, com as personagem de costas uma para a outra, cada uma do seu lado dessa divisão; o falhanço dessa ocultação é posto em evidência pela inclusão do contra-campo. No fundo, o diálogo que não se pode ter é mostrado duas vezes. A segunda cena é igualmente um diálogo a disfarçar, e novamente a inclusão em plano aberto do espaço que mediava os planos fechados vem exibir esse falhanço circunstancial. Ora, pelo contrário, parece-me que nos planos de DALLA NUBE... as personagens de um diálogo possível são atiradas excentricamente para a margem do quadro que, no entanto, é a que as aproxima; mostra-se assim, talvez, tudo o que fica de fora em cada diálogo. A impossibilidade aqui é intrínseca ao diálogo, e não uma condição externa que urge incluir como conciliação (cómica). Parecem-me, por assim dizer, "visões" diferentes do que é um diálogo. São estas ligações suficientes para satisfazer um "ter que ver"? Não sei :)

Quanto à pantanosa dicotomia - a meu ver útil - entre cinema clássico e moderno, concordo em absoluto que ela não pode corresponder à atribuição de 
actualidade a um ou outro lado da barricada. Simplesmente, serão modos diversos de ser actual, ou melhor, de ser inactual, intempestivo, contra o seu (mais ainda, o nosso) tempo. Aliás, o cinema dito contemporâneo terá certamente a sua própria actualidade, que não corresponderá em modo à do clássico nem à do moderno (que sobrevivem), e cuja singularidade está por encontrar. Não será essa hoje uma das tarefas do crítico?

]

Ao pé da letra #74 (António Guerreiro)
«Sobre o espaço público e os seus limites na era da Net
O provedor dos leitores do Público assinalava, na semana passada, a “situação insólita” do texto de um colaborador que foi publicado primeiro num blogue e depois no jornal impresso, como se fosse inédito. Em boa verdade, esta duplicação não tem nada de insólito. É, antes, a manifestação eloquente de uma regra de proliferação. Uma das grandes esperanças depositadas na Net foi uma maior abertura daquilo a que se chama o “espaço público”. São hoje evidentes as transformações na estrutura dessa entidade que tinha um lugar central no projecto das Luzes.

Mas também é evidente que, por agora, a Net, no que diz respeito a essa abertura, não só está muito aquém do que se esperava (nalguns sentidos, houve mesmo fechamento) como veio hipostasiar as características do actual espaço público mediático, elevando-o a níveis nauseabundos de obesidade, redundância e hipertelia. Muito pouco daquilo que desapareceu dos jornais voltou a reaparecer na Net, muito pouco do que foi condenado à exclusão encontrou aí alojamento, apesar da disponibilidade infinita de espaço; em contrapartida, cresceu a opinião ruidosa e tagarela, triunfou a conversa caseira e de café.»
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 12.12.2009.

Ao pé da letra #73 (António Guerreiro)
«Sobre o tom apocalíptico e modos de pensar
Adoptando o tom apocalíptico outrora usado na filosofia e na crítica da cultura, alguns comentadores políticos falam de um país – Portugal – à beira da catástrofe. Nesse discurso, nada que não esteja à altura do fim e da situação-limite lhes interessa. A isto chamou o filósofo alemão Karl Löwith um “modo de pensar por catástrofes”. Este discurso, de raiz profundamente conservadora, tem um carácter cíclico mas tende a esquecer-se de que a sua lei é a do eterno retorno. Por outro lado, ele está tão arreigado à convicção de que há épocas de decadência que nem por um momento lhe ocorre que a verdadeira catástrofe pode ser o facto de as coisas continuarem como sempre foram.

No fundo, esta previsão apocalíptica corresponde a um mal que Ulrich, a personagem criada por Musil em O Homem sem Qualidades compreendeu muito bem. Ulrich percebeu que a época em que vive, dotada de um saber imenso que nenhuma outra época tivera antes, parece ser incapaz de intervir no curso da história. Ulrich remete para um mundo em que já não há acontecimentos mas apenas notícias, o que significa que o homem deixou de ter o poder de nele intervir.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual5.12.2009.

Ao pé da letra #72 (António Guerreiro)
«Sobre a linguagem opaca do corpo judicial
Nas parábolas de Kafka, a máquina infernal que arrasta as personagens para situações sem saída tem a forma de uma linguagem indecifrável ou causadora de equívocos. Exemplo supremo é a personagem que fica até ao fim da vida à porta da lei, por ignorar que, afinal, ela está aberta. Agora que estamos submetidos diariamente ao discurso jurídico, podemos verificar que ele consiste em criar opacidade nas palavras, de tal modo que todos os problemas passam a ser de linguagem. Todos temos a sensação de que juízes, procuradores, delegados se obstinam a falar com as mesmas palavras, no interior das quais se encerraram para sempre. 

Não se trata de uma linguagem, como a da ciência ou a da filosofia, codificada por necessidade de rigor conceptual. Na ciência, esse rigor serve para evitar os equívocos, para não dizer com as palavras uma coisa diferente daquilo que se pretende. Mas nesta linguagem jurídica que nos envolve acontece precisamente o contrário: as palavras cristalizam-se, tornam-se corpos sem vida, e o que passou a ter significado é o acto de as proferir. Assim, aquilo que se apresenta como a razão jurídica é afinal a performance de um corpo monstruoso: o corpo judicial.»
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 28.11.2009.

Ao pé da letra #71 (António Guerreiro)
«Sobre manobras editoriais e cauções impudentes
Quem quiser ler “A Consciência de Zeno” de Italo Svevo – um dos grandes romances do séc. XX –, tem à sua disposição uma edição portuguesa saída recentemente (Dom Quixote). O leitor que não gosta de ser tratado como um menor sob tutela não deixará de se irritar com o facto de o livro lhe chegar por via da “Biblioteca Lobo Antunes”, como se lê na capa, em letras pouco discretas. Pode parecer inócuo, ou apenas provinciano, mas editar Svevo com a ostensiva caução de um escritor contemporâneo é ridículo e faz com o que livro se apresente como uma traficância.

Mas, transposta esta porta onde não deveria figurar  senão o nome do autor, coisas muito mais terríveis nos esperam: uma tradução infame que atraiçoa o texto original em cada página ou mesmo em cada frase, além de suprimir os títulos dos capítulos. Trata-se da reedição de uma tradução já antiga, apenas submetida “a uma mera actualização ortográfica” (adverte o editor como quem nos assegura que não nos está a privar de uma obra genial de tradução). Terá sido nesta tradução que Lobo Antunes leu o romance de Svevo? Ou leu-o no original e aconselha esta edição à ralé?»
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 21.11.2009.

Ao pé da letra #70 (António Guerreiro)
«Sobre a vida dos livros que não precisam de ser lidos
Restabelecida a acalmia, depois da tempestade de comentários, opiniões e declarações provocados por um romance pícaro feito de matéria narrativa do Antigo Testamento (“Caim”, de seu título), podemos agora retirar algumas conclusões: 1) um livro pode tornar-se polémico mesmo antes de ser lido; 2) a condição para que um livro tenha uma existência alargada no espaço público é o facto de não precisar de ser lido para se falar nele, porque o importante é aquilo que o parasita: a pessoa do autor, as circunstâncias em que é escrito; a matéria temática que o envolve;

3) os autores dos livros que não precisam de ser lidos concorrem zelosamente para que eles tenham uma vida precária que não implica a leitura, confirmando o que sabemos desde Flaubert mas é hoje de uma enorme evidência: é preciso salvar os livros de quem os escreve; 4) um livro torna-se publicamente ‘interessante’ e poderoso na medida em que consegue curto-circuitar a leitura e a crítica, sendo a sua vida gloriosa assegurada por rumor; 5) os autores dos livros que têm uma existência ostensiva mas não precisam de ser lidos têm cada vez menos autonomia relativamente aos mecanismos da indústria editorial.»
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 14.11.2009.


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