Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Nem é preciso chorar



Um “documentário dramatizado” — como MARIA DO MAR (1930) de Leitão de Barros — é aquele filme em que todos os retratados parecem forçados a expor a sua condição preferencial — neste caso, a de pescadores da Nazaré — e isso torna-se notório em si mesmo — no uso compulsivo do barrete típico; também para que depois todos o possam retirar em sinal de respeito pelo luto, que era frequente.
Mas é também aquele filme que — perante um naufrágio e consequentes mortes — permite aos rostos dos retratados falarem por si, de todas as mortes ocorridas e das outras tantas mortes em vida, como que já evidenciando todas as agruras, mas sem a necessidade adicional de as dramatizar. Assim, ao rosto da “velha cega, essa Galiana”, não seria preciso acrescentar mais nada, nem é sequer preciso que chore.

Inner expansion (Birth of electronic space #9)

A recently published book solely devoted to Michael Snow‘s La Région centrale by Stéfani de Loppinot particularly underlines the context of spatial expansion — the concrete expansion to the Moon — as a very powerful motive of Snow’s work, which she also mentions was reacting, in that specific film, to the multiplication of screens. The lunar and spatial expansion of the 60’s, with its corresponding iconic image production constitutes then a backdrop to Snow’s exploration of that deserted — before and beyond human presence — region through the overreaching camera.
But one might take this historical and cultural contextualization further and state that indeed Snow’s film, while seismographically capturing the signs of those times, is — as the “birth of electronic space” it expresses — a “response” in advance to the failure that exterior expansion would amount to. What the then created electronic space represents is a so different inner expansion, one of technological features that incarnated in the so-called “virtual space” we all more or less live in. So, the profusion of movement in that no-man landscape was in fact the admittance of a failure, as Snow well stated in interviews, the failure of the human in grasping a space to its dimensions.

[to be continued]

Ao pé da letra #113 (António Guerreiro)

Sobre as nossas instituições de ensino e as normas de segurança que as tornam instituições carcerárias

«Essa instituição de que tanto se fala — a escola — é hoje determinada por um discurso piedoso, segundo o qual ela repete, como microcosmos, o macrocosmos social. Tal discurso tem o seu reverso na maneira como a sociedade é concebida enquanto máquina educativa que não dispensa a palavra que autoriza todos os pactos sociais: pedagogia. Como observou um filósofo francês (Jean-Claude Milner), o facto social total de Mauss renasceu no nosso tempo transformado em ato educativo global. A mensagem gravada que a ministra da Educação, no papel misto de mestre-escola e grande educadora, dirigiu esta semana às criancinhas (na verdade, alunos, pais e professores) mostra bem que para a máquina educativa quando se fala em alunos pensa-se em crianças. Por conseguinte, tudo o que diz respeito à escola diz respeito à infância. Uma ministra que se dirige a toda a comunidade educativa será então maternal e próxima do infantil.
De resto, esta ministra da Educação chegou ao lugar com uma vasta obra literária de sucesso que, do ponto de vista dos princípios pedagógicos fundamentais que lhe estão subjacentes, remete para o lugar feliz em que a infância romanesca se encontra com a educação romanceada, a lembrar-nos que sobre a escola não há apenas o discurso piedoso; há também o romance edificante. E há, no seu funcionamento e gestão, a obediência estrita, quase paranoica, aos princípios da segurança e vigilância. Assim, ao mesmo tempo que a escola e a educação no seu todo nos transportam para um jardim de infância, a primeira é depois sujeita a cautelas e vigilâncias a que estão sujeitos os locais que alojam criminosos. Em larga medida, as normas, os procedimentos e até algumas características arquitectónicas das instituições carcerárias tomaram conta das nossas instituições de ensino.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 18.9.2010.

The Vasulkas (Birth of electronic space #8)




If we take a brief glimpse of what was happening around the same years, video technology was starting to fascinate artists by late 60’s, and Steina and Woody Vasulka, American video art pioneers from European origin, produced in 1970 a fascinating series, not unexpectedly called SKETCHES, in which they played loosely with the medium formal qualities. In these small sketches, such as the KISS, CHARLES STORY and ALFONS, there were still human figures represented, but the artists were already slowly starting to disfigure them. If these works still fascinate us today and maintain an impressive pedagogic potential, it’s perhaps because they express a precise moment, a kind of “freeze frame” on the emergence of the creative technology of video, and show us its raw unexplored formal capabilities, before they were domesticated by the artist’s will.
These first essays soon open into an electronic primitivism, the first and most revealing experiences of didactic composition and deciphering of the then emergent technology. More interested in video technology per se, they soon abandoned the destruction of the figurative to adopt an almost completely abstract approach that had lost any relation to human measure, and, in a quest for a language of the machine, privileged the expressive potentialities of the machine code itself, using video synthesizers.
In the following years, they’ve produced works that testify for a primitivism of the machine, like VOCABULARY (1973) and NOISE FIELDS (1974), attempts to work inside the machines that generate the image and the sound. The emergence of electronic space would soon turn out to be relatively unfruitful, since it is essentially dependent on violence to the perception in order to become expressive (as maybe experimental cinema itself), as if an art of the machine would only touch us through the violence of electronic noise, a kind of machine generated sublime.

[to be continued]

Ao pé da letra #112 (António Guerreiro)

Sobre o conceito ideológico de sobrepopulação e a necessidade que o sistema capitalista tem de população excedente

«A grande questão política do nosso tempo — como confirmam as controversas decisões do Governo francês e a polémica na Alemanha por causa das declarações de Sarrazin — é de natureza eminentemente biopolítica e diz respeito aos emigrantes e à demografia. Não há nada mais ideológico do que o modo como o declínio demográfico é entendido. Do ponto de vista ecológico, a diminuição da população devia ser vista como um dado positivo, sendo negativos apenas os desequilíbrios na sua distribuição. Mas um sistema baseado no crescimento imparável, como é o sistema capitalista, não é compatível com o emagrecimento demográfico. Se a vida de todos nós se alimenta de um endividamento que vai sendo transportado para o futuro (de modo que cada vez é maior a fatia de futuro hipotecado), se não houver no futuro mais gente para pagar a dívida, o sistema colapsa.
Marx, que desprezava abertamente Malthus, mostrou como a questão da sobrepopulação emergiu “de um modo que não encontramos em nenhum outro período anterior da humanidade”, isto é, de um modo coerente com “o grande papel histórico do capital”. A que papel histórico se refere Marx? Digamos, em síntese: o de criar trabalho excedente. Trabalho excedente e população excedente estão numa relação de dependência e ambos são um produto necessário da acumulação capitalista. Mais do que isso: são a sua própria condição de existência. Atualmente, esta condição entrou numa fase que engendrou o metatrabalho, bem conhecido de muitos “precários” (o precariado, esse novo sujeito da História...). Trata-se do trabalho não remunerado a que muitos se sujeitam, na esperança de arranjar trabalho, as formas de trabalho para arranjar trabalho. É, em suma, uma forma de contrair uma dívida cuja única garantia de pagamento é o próprio tempo de vida do indivíduo.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 11.9.2010.

Michael Snow (Birth of electronic space #7)




However, what this speculation on the “birth of electronic space” is trying to show is quite the opposite, or at least something that takes the opposite direction, a direction against what one might call “medium progress”. In Michael Snow’s two works I’m referring one can find an (aesthetical) anticipation, by the intrinsic means of cinema, of the kind of electronic space that only a new and different media would allow to exist in its normal and efficient form (video). Perhaps this genealogic hypothesis would allow speculating further on the dimensions of technological determinism and medium specificity related issues.
The historical coincidence of two of Michael Snow’s greatest films with the advent of video might be taken, precisely, as just a coincidence. But one discovers in BACK & FORTH and LA RÉGION CENTRALE, respectively from 1969 and 1971, strong characteristics that could be associated with other features from early artistic experiments with video technology. Both those Snow films produce, by means of accelerated camera movements (repetitions along an horizontal and vertical axis, in the first one; continuous flow with an attempt at no axis at all, in the second), powerful abstractions of space itself, clearly made dependent of increased velocity and iteration. These procedures will later become common use in the electronic arts, since sometimes in order to produce a distinguishable artistic sensation, it required the exercise of violence to our audiovisual perception.
Although BACK & FORTH already provided us with the feeling of this new abstract space, it’s the fastest of the camera movements in the longest of durations of LA RÉGION CENTRALE that, while scanning the naked landscape’s surface, elevated it to another level, somewhat analogous to the very different electronic space that was being anticipated elsewhere. So, one might say that the intuition, or even the construction sketch of the new electronic space was already present in these Snow’s works still made in film. Of course, the most important is not the specificity of the material format employed, but to focus on the sketch of a common formal composition. Nevertheless, it is imposing evidence of the amazing ability of cinema to welcome within itself elements from the outside world, be it technological, social or cultural.

[to be continued]

Ao pé da letra #111 (António Guerreiro)

Sobre o Grande-Escritor, a categoria mais elevada do espírito, e a sua palavra verdadeira e inspirada

«O Grande-Escritor, que Musil dizia ser um descendente do príncipe do espírito, tal como os ricos sucederam aos príncipes no mundo da política, desdenha dos factos. “Os factos não me interessam”, diz ele, sem acrescentar, “só as interpretações”, para não parecer que está a citar um velho filósofo alemão de bigode a cair sobre os lábios, que não teve a prospetiva lucidez de o citar a ele. O Grande-Escritor é como o oráculo de Delfos que fala por enigmas e metáforas: “Falei de maneira completamente metafórica, como, aliás, falo de toda a minha vida.” A doutrina talmúdica dos 49 degraus de significação é o único instrumento que nos permite o acesso à verdade mais profunda onde se alojam as palavras, proferições e proposições do Grande-Escritor: “O que eu digo tem de ser tomado não na sua aceção mais superficial mas na verdade mais profunda.” A linguagem do Grande-Escritor não é, em boa verdade, a linguagem humana: é uma linguagem anterior à Queda, pré-babélica, um idioma feito de símbolos, como o livro da Natureza escrito por Deus.

Assim, cada palavra do livro do Grande-Escritor, ainda que se trate do seu livro mais profano (uma longa entrevista), “tem um carácter simbólico”. Daí que “qualquer leitura no sentido literal do que digo ou escrevo é portanto abusiva”. Do ponto de vista do Grande-Escritor, do privilégio que lhe foi concedido de participar da origem divina da palavra, a ficção é uma palavra vil e degradada: “Se me dissessem que escrevia ficção, sentia-me insultado: ficção, que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro.” O que, embora não pareça, é exatamente o contrário do que dizia um pequeno-escritor chamado Mallarmé: “O mundo é feito para resultar num livro.”
NOTA — Todas as citações não atribuídas são de António Lobo Antunes.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 4.9.2010.

The external hypothesis (Birth of electronic space #6)

Of course, in this context, where it is explicitly considered the experimentation of the internal spatial limits of film, one must be aware of the corresponding external hypothesis. In fact, these two dimensions or movements we just referred to happened to give way to a conception of the passages (the passing) of images that constituted the post-cinephile getaway that ended with late modern cinema, after so much exalted promises yet to keep. According to this conception – which had also Skorecki and Daney as sombre precursors – the horizon of cinema was now not a direct relation with the “real”, but a reflexive mediation on other images proliferation, mainly television, but also video and advertising (and, more recently, multimedia, installations, etc.).
Images, like incorporeal entities, would slide on top of each other without too many worries concerning medium specificity. And, in a way, aren’t we now allowed to say that installations of cinematic inspiration are indeed the materialization of that emancipated reflexive spirit? But it’s important to state that this belief in the passages of images was (and still is) based on the conviction that “modernity effects”, in fact, every effect, exists autonomously and is “exportable” to a new media.

[to be continued]

Filmes ‘menores’ em Setembro


Irène
Alain Cavalier

2009, 83
13h10, 14h55, 16h40, 20h30, 22h15
Medeia Saldanha Residence 5, Lisboa


Alle anderen / Todos os outros
Maren Ade

2008, 119
estreia prevista dia 16
Medeia King, Lisboa


Ghare-Baire / A casa e o mundo
Satyajit Ray

1983, 140
Eram os Anos 80: Velhos mestres
(prog. Antonio Rodrigues)
5ª, dia 9, 22h
Cinemateca*, Lisboa


Moi, un noir
Jean Rouch

1959, 80’
O povo
6ª, dia 10, 19h30
Cinemateca


Ariel
Aki Kaurismäki
1988, 72’
Eram os Anos 80: Novos europeus
5ª, dia 23, 19h
6ª, dia 24, 19h30 – Cinemateca


Il posto
Ermanno Olmi
1961, 90’
O povo
5ª, dia 23, 19h30
2ª, dia 27, 22h – Cinemateca


Tobacco Road
John Ford
1941, 81’
História permanente do cinema
(prog. Antonio Rodrigues)
Sáb, dia 25, 22h – Cinemateca


Tea and sympathy
Vincent Minnelli
1956, 122’
3ª, dia 28, 15h30 – Cinemateca


Operai, contadini
Jean-Marie Straub e Danièle Huillet
2000, 123’
O povo
4ª, dia 29, 19h
5ª, dia 30, 19h30 – Cinemateca


La pivellina
Tizza Covi, Rainer Frimmel

2009, 100
estreia prevista dia 30
City Alvalade, Lisboa


[apenas filmes vistos, sem repetições, em suportes originais]

[Justificação e apelo]

[Desde que me comecei a embrenhar na investigação de doutoramento, reparei que a disponibilidade para escrever neste blogue — ainda que diminutas reflexões sobre filmes vistos em festivais, por exemplo — praticamente desapareceu. Isto decorreu, no entanto, não tanto de uma inegável ocupação incompetente do tempo, mas mais de um verdadeiro terror em abrir novos estaleiros para ideias que certamente nunca terei oportunidade de concretizar devidamente.

Hesitei demasiado tempo sobre o que fazer, mas a situação foi-se extremando ao ponto de o blogue sobreviver praticamente das reflexões de António Guerreiro, que pela sua relevância e difícil acesso, sempre vou importando. Nunca consegui muito bem perceber como podiam as coisas que vou escrevendo — noutro contexto e sob outra forma — fazer sentido aqui. Faço então uma primeira tentativa com a série que começou a ser publicada (em inglês).
Mas, e como forma de tentar prolongar uma sobrevivência que talvez já não se justifique, o que eu verdadeiramente gostaria era de abrir este espaço — que tem alguma história e perfil — a quem queira escrever ou publicar as suas reflexões sobre — em sentido muito lato — as relações entre cinema e pensamento.
Na verdade, quando este blogue surgiu era essa precisamente a ideia, a de ser um blogue colectivo, com múltiplas vozes; e surgiram efectivamente, aqui e ali, alguns textos de outros autores, e sobretudo traduções e citações várias. Mas, seria agora uma alegria, neste espaço constituído, poder acolher outras contribuições. Faço, portanto, um apelo a que surjam.]

Ao pé da letra #110 (António Guerreiro)

Sobre a “rentrée” e o admirável mundo das novidades que nela fica prometido, até que venham os balanços

«A palavra francesa rentrée não só entrou nos hábitos lexicais dos média portugueses como tem vindo a aperfeiçoar-se no plano pragmático. Dantes, a nossa rentrée chegava visivelmente atrasada, seguia com lentidão a chegada tardia do outono e, mal dávamos por isso, já estava encavalitada nos preparativos do Natal. Mas, agora, para cumprir de maneira eficaz a sua função, a rentrée entra em cena mal declina a primeira quinzena de agosto: são os calendários do consumo a interromper a letargia solar. Das editoras, começam a chegar as listas das ‘novidades’ a sair, como se o culto sem tréguas da novidade tivesse alguma vez isso interrompido. A estratégia da rentrée consiste precisamente em escandir o tempo de modo a criar o efeito de recomeço num tempo circular e homogéneo. À semelhança das revoluções que impõem uma nova contagem do tempo, a rentrée também pretende criar a ideia de que se interrompeu o curso da História e que o que se anuncia é um nouveau régime.

A tarefa não é fácil: trata-se de convencer-nos que é possível enxertar um período de festa no seio de um tempo em que não há um único dia que não seja de festa. A ilusão dura pouco, mas, mal se começa a extinguir, já a exceção festiva do Natal está em marcha. A consagração deste calendário cada vez mais apertado, onde o que aí vem se transforma imediatamente em destroços do passado, conta com a fé dos progressistas que se deixam embalar por um ritmo onde há cada vez menos tempo para mais História e que entram com entusiasmo no contra-relógio das listas. Essa História é depois escrita, consentaneamente, sob a forma de balanços no final do ano. Para esta historiografia instantânea, onde é remoto tudo o que não é o que aí vem, penetrar no que se passou antes da última rentrée é quase um trabalho de arquivo antiquíssimo.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 28.8.2010.

The exhaustion of space (Birth of electronic space #5)

With the formula — the exhaustion of space in late modern cinema — we intend to describe the thorough and transversal experimentation of internal spatial limits of film that followed the “unblocking” of classical rules by the first modern cinema, after or around WW II, which gave way principally to different pathways for now even more troublesome characters and the creation of disconnected and emptied spaces. Directly related, maybe even a consequence, and no doubt the threshold of this thorough and transversal experimentation of internal spatial limits is the hypothesis we’re suggesting of a “birth of electronic space” within the space of cinema. The repetition and velocity procedures of Michael Snow’s Back and forth (1969) and La région centrale (1971), much more than exposing ad nauseum and ad infinitum the cinematic dispositive itself, develop such an potent abstraction that it can be associated, less by formal affinity than by grounding on the same violence to the perception, to the electronic space being created around the same years by the historical advent of video and its basic grammatical exploration, namely in Sketches (1970) by the Vasulkas, pioneers of american video art.
On the other side of the mirror, after the corresponding emancipation of time (as described by Deleuze), we will find the advent of a rhythmic “machination”, in which the rhythmic parameter is privileged in film and are explored the affinities of cinema with that other art of time, whose ontological generosity is a great aspiration for all arts — music.

[to be continued]

Ao pé da letra #109 (António Guerreiro)

Sobre a suspeita que a arte contemporânea continua a despertar e o falso consenso que lhe serve de resposta

«A resposta de António Pinto Ribeiro (no “Público” de sábado passado) a Pacheco Pereira, tendo como motivo as considerações que este fez sobre a arte contemporânea, as suas instituições e os subsídios, merecia ser prolongada com um debate muito mais alargado. É que a ‘denúncia’ de Pacheco Pereira não um grito isolado, mas a voz que ressalta de um coro. E de nada serve — pode ser mesmo de uma arrogância contraprodutiva — reduzir essas vozes ao ressentimento moral, estético e ideológico. Pacheco Pereira não faz mais do que reproduzir os argumentos que se tornaram lugares-comuns, de tantas vezes repetidos (em França, este debate já tem quase duas décadas): a arte contemporânea é nula, incompreensível, fraudulenta, indevidamente subvencionada pelo Estado, sustentada pelas instituições, produto de um mundo completamente separado do público. Em França, esta frente antiarte contemporânea não integra apenas os Pachecos de lá.

Uma das peças fundamentais desse debate é, aliás, um célebre artigo de Baudrillard no “Libération”, em 1996, intitulado ‘Le Complot de l'Art’. Tese fundamental de Baudrillard: “Não há juízo crítico possível, mas só uma partilha amigável, forçosamente convivial, da nulidade. É esse o complot da arte e a sua cena primitiva.” Olhar a arte contemporânea com um misto de suspeita e ironia não é meramente um desporto de ressentidos, e talvez a melhor resposta não seja ver essa atitude como a do velho senhor escandalizado diante de um urinol transformado em obra de arte. Tão ingénua é a posição de Pacheco Pereira como a daqueles (artistas, comissários, críticos) para quem a noção de arte contemporânea passou a ser uma espécie de categoria metafísica em que o contemporâneo é uma evidência, uma espécie de nome próprio que nem precisa de ser interrogado.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 21.8.2010.

Inadequacy of the concept of form (Birth of electronic space #4)

A first important theoretical moment concerns the heritage of formalist and neo-formalist critical traditions and its theoretical developments. The grounding fact for the need of this research is the suspicion of inadequacy of the concept of “form” to describe the major exploits of this cinema and, specially, to account for the immanence of cinema to itself, to the world and to thought. Perhaps it is time to try to surmount this aristotelic hylomorphic scheme – the one that postulates the binary opposition between matter and form — that we take for granted as pure common sense. What I’m concerned with is the possibility of a certain “formalism”, one that privileges cinema’s materials of expression — a formalism without form, nevertheless — and that acknowledges the potentiality of cinema also as thought, namely of very concrete things of our worldly experience, like politics.
To work without the middle instance of ideology and its prodigal sons is then the objective. And one can find, beyond the ideological radicalization and the Brechtian distantiation dominant in late modern cinema, two major “formalist” dimensions which regard the expressiveness of materials themselves, i.e., in which films seem to interrogate their own material condition, and that are somehow connected. These two dimensions can be recognized through the extraction of quite different events in several films, and we can call them: the exhaustion of space, and the emancipation of time.

[to be continued]

Ao pé da letra #108 (António Guerreiro)

Sobre um crime irreparável, que os homens cometeram sobre as mulheres, à beira de ser vingado pacificamente

«Quando Freud afirmou que a civilização repousava sobre um crime, estava a pensar na cena edipiana primordial e não no crime histórico, efetivo e universal que os homens cometeram e continuam a cometer sobre as mulheres. Freud, aliás, com a sua ideia do feminino como “continente negro”, só ajudou a prolongar o crime. Já o “eterno feminino” de Goethe, muito embora se tenha revelado muitas vezes um presente envenenado, foi também uma ficção com algumas potencialidades emancipatórias, baseadas na reivindicação da diferença sexual. O crime — irreparável — já começou a ser vingado por meios pacíficos: em todos os países ocidentais, as mulheres ocuparam a cena dantes reservada aos homens, e ainda esta semana nos chegou a notícia das universidades americanas que fazem uma discriminação positiva dos homens para restabelecerem o equilíbrio. Nas escolas e nas universidades, as mulheres são hoje largamente maioritárias, e isso já é motivo de preocupação do poder político (ainda há pouco tempo, na Alemanha, se discutia também a hipótese das quotas favoráveis aos homens em certos cursos).

Em contrapartida, as cadeias continuam cheias de homens, como sempre estiveram. À luz do que hoje nos é dado ver, dir-se-ia que os homens andaram durante milénios a fazer batota para poderem ganhar o jogo que não conseguiriam ganhar por meios legítimos. Inventaram uma ordem simbólica e remeteram as mulheres para a esfera do “imaginário”, autoproclamaram-se soberanos, quiseram tantas vezes (e, não raro, continuam a querer) ter o poder de decidir sobre a vida e a morte delas. Agora, à medida que vão sendo destituídos, verifica-se que nem o simbólico lhes pertence. O simbólico, o nome-do-pai, como dizia Lacan, foi um modo de dizer que o pai não existe, que é uma figura decorativa nos condomínios de luxo.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 14.8.2010.

After modern cinema (Birth of electronic space #3)

The enlarged context of research the “birth of electronic space” is included concerns the nature and projective shadow of modern cinema and the particular role of ambiguity in it; ambiguity taken here as the operative dimension of thought within cinema. Serge Daney once described “modern” cinema as a “provocation without object and endless mourning”*. This mourning paradoxically became a condition to me, since I took it critically as a tradition that had pratically no followers. That why I do concentrate on the later moment of this cinema — a late modernity, contrary to what is usually done, with the obsession of origins, always imposing historical origins as fountains of adequate understanding, in the passage from classical forms which after all never ceased to happen. I’m more interested in the traces of disintegration of modern cinema itself, the paradoxes it has left behind, and its extreme and now abandoned forms. And of course, I take the “birth of electronic space” to be one.
* Serge Daney, «Post-scriptum», La rampe. Cahier critique 1970-1982, Cahiers du cinéma/Gallimard, 1983 (1996), p. 214.

[to be continued]

Ao pé da letra #107 (António Guerreiro)

Sobre uma conceção da cultura que não é bem uma conceção: é um estado de mutilação cultural

«É uma das frases mais fascinantes sobre cultura que alguma vez foram proferidas por um dirigente partidário. É da autoria de Nilza Mouzinho de Sena, vice-presidente do PSD, e encontra-se num artigo saído recentemente no “Público”: “A cultura não pode ser uma entidade abstracta de elites, pensada por um nicho populacional e desagregada do interesse transversal de toda a população”. A frase é fascinante, porque realiza em si mesma a conceção de cultura que defende. E, em vez de uma ideia sobre cultura, o que ela exibe é o estado de mutilação mental a que foi sujeita a autora, pelo facto de se submeter à sua própria prescrição ideológico-cultural. Se a cultura fosse o que Nilza Mouzinho de Sena pensa que é, nem haveria uma Nilza Mouzinho de Sena para dizer o que pensa da cultura. Quanto mais um Goethe, um Kafka, um Pessoa, um Rothko, um Schönberg. A sua modesta proposição não pode ser confundida com a de um filisteu (há no filisteu uma atitude cínica, um afastamento voluntário e estratégico).

Trata-se de outra coisa, desprovida de estratégia, que o poeta e ensaísta Hans Magnus Enzensberger classificou como “analfabetismo secundário”, ao pé do qual o verdadeiro analfabeto lhe parece “uma pessoa venerável”. Segunda Enzensberger, o analfabeto secundário é o produto de uma nova fase da industrialização, quando os meios de produção da imbecilidade proliferam de modo a criar os seus qualificados consumidores. O analfabeto secundário tem uma fé realista radical, o que o leva a considerar abstracto tudo o que não pode ser objecto da sua fé. Por isso, a sua preocupação e o seu zelo dirigem-se à população, à realidade demográfica. Menos do que isso, seria ceder a divisões, a cesuras, a tropismos minoritários. A população, ao menos, é um conceito que escapa a determinações culturais. É pura biologia.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 7.8.2010.

An exercise in genealogy (Birth of electronic space #2)

If paying particular attention to the singular expressive power of some cinematic works’, one might encounter unusual approaches, for instance, to the emergence of new technologies, and be tempted to establish the strangest of genealogies. The exercise in genealogy this paper amounts to — to discover the “birth of electronic space” inside the technology of film — must, nonetheless, first be comprehended within the larger context of the overwhelming emergence of the audiovisual archive. The relevance cinema might attain to our contemporary experience of the world is indeed directly connected with the struggle against the general archival of all experience. The belief in some level of irreducibility of ‘visibilities’ to discourse is perhaps the major theoretical hint we have for an understanding of cinema’s “relevance” that would be consentaneous with its most accomplished artistic exploits, exactly what one can never neglect while trying to grasp another level of intelligibility.
Film constitutes a privileged archaeological practice for understanding the orders of experience in a given historical moment, but we are nevertheless still lacking a philosophical ‘foundation’ of the audiovisual archive’s emergence that would bring film into this different level of intelligibility. In the end, we’re facing a function of film that cannot be neglected: the presentation of visibilities lacking so many technological, juridical and political statements that rule us, i.e., an intrinsic reach immanent to its material expression. But within the instance of discourse are indeed included film and art theories, with their corresponding “distributions of the sensible”, so amounting themselves to discourses that can block the ‘visibilities’ of film. That’s why a privilege of the object is always needed.

[to be continued]

Ao pé da letra #106 (António Guerreiro)

Sobre uma invenção que nunca se afigurou convincente mas que promete salvar a indústria do livro

«Depois de uma primeira tentativa falhada, há cerca de uma década, o e-book regressou como um novo fenómeno plausível da indústria do livro, capaz até de intervir na sociologia da leitura. Ao contrário de muitos outros dispositivos e instrumentos técnicos, o livro parece insuperável e ninguém sente a necessidade de o aperfeiçoar; já o sucesso do e-book depende da sua eficácia em imitar a forma livro, e não resultou da primeira vez exactamente porque a imitação era muito deficiente. Estranha invenção esta que entra no futuro às arrecuas. A exigência a que o e-book responde parece vir integralmente da indústria do livro.

Trata-se de ganhar mais camadas de leitores, segundo aquele princípio — agora potenciado pelas regras exacerbadas do consumo — que já tinha determinado a entrada em cena do livro de bolso, em 1935: há um mercado potencial enorme a explorar, não do lado dos leitores que procuram o que querem ler, mas do lado dos que comprarão qualquer livro desde que a sua tiragem seja bastante elevada e ele tenha sido comprado por uma multidão. A indústria do livro só cumpre a sua missão de maneira completamente racional, nesta condição: dirigindo-se a um leitor que não procura mas acabará, ainda assim, por encontrar; que não sabe o que quer, mas gostaria, no entanto, de escolher.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 31.7.2010.


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