Ao pé da letra #74 (António Guerreiro) «Sobre o espaço público e os seus limites na era da Net | |
O provedor dos leitores do Público assinalava, na semana passada, a “situação insólita” do texto de um colaborador que foi publicado primeiro num blogue e depois no jornal impresso, como se fosse inédito. Em boa verdade, esta duplicação não tem nada de insólito. É, antes, a manifestação eloquente de uma regra de proliferação. Uma das grandes esperanças depositadas na Net foi uma maior abertura daquilo a que se chama o “espaço público”. São hoje evidentes as transformações na estrutura dessa entidade que tinha um lugar central no projecto das Luzes. | Mas também é evidente que, por agora, a Net, no que diz respeito a essa abertura, não só está muito aquém do que se esperava (nalguns sentidos, houve mesmo fechamento) como veio hipostasiar as características do actual espaço público mediático, elevando-o a níveis nauseabundos de obesidade, redundância e hipertelia. Muito pouco daquilo que desapareceu dos jornais voltou a reaparecer na Net, muito pouco do que foi condenado à exclusão encontrou aí alojamento, apesar da disponibilidade infinita de espaço; em contrapartida, cresceu a opinião ruidosa e tagarela, triunfou a conversa caseira e de café.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 12.12.2009. |
Ao pé da letra #73 (António Guerreiro) «Sobre o tom apocalíptico e modos de pensar | |
Adoptando o tom apocalíptico outrora usado na filosofia e na crítica da cultura, alguns comentadores políticos falam de um país – Portugal – à beira da catástrofe. Nesse discurso, nada que não esteja à altura do fim e da situação-limite lhes interessa. A isto chamou o filósofo alemão Karl Löwith um “modo de pensar por catástrofes”. Este discurso, de raiz profundamente conservadora, tem um carácter cíclico mas tende a esquecer-se de que a sua lei é a do eterno retorno. Por outro lado, ele está tão arreigado à convicção de que há épocas de decadência que nem por um momento lhe ocorre que a verdadeira catástrofe pode ser o facto de as coisas continuarem como sempre foram. | No fundo, esta previsão apocalíptica corresponde a um mal que Ulrich, a personagem criada por Musil em O Homem sem Qualidades compreendeu muito bem. Ulrich percebeu que a época em que vive, dotada de um saber imenso que nenhuma outra época tivera antes, parece ser incapaz de intervir no curso da história. Ulrich remete para um mundo em que já não há acontecimentos mas apenas notícias, o que significa que o homem deixou de ter o poder de nele intervir.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 5.12.2009. |
Ao pé da letra #72 (António Guerreiro) «Sobre a linguagem opaca do corpo judicial | |
Nas parábolas de Kafka, a máquina infernal que arrasta as personagens para situações sem saída tem a forma de uma linguagem indecifrável ou causadora de equívocos. Exemplo supremo é a personagem que fica até ao fim da vida à porta da lei, por ignorar que, afinal, ela está aberta. Agora que estamos submetidos diariamente ao discurso jurídico, podemos verificar que ele consiste em criar opacidade nas palavras, de tal modo que todos os problemas passam a ser de linguagem. Todos temos a sensação de que juízes, procuradores, delegados se obstinam a falar com as mesmas palavras, no interior das quais se encerraram para sempre. | Não se trata de uma linguagem, como a da ciência ou a da filosofia, codificada por necessidade de rigor conceptual. Na ciência, esse rigor serve para evitar os equívocos, para não dizer com as palavras uma coisa diferente daquilo que se pretende. Mas nesta linguagem jurídica que nos envolve acontece precisamente o contrário: as palavras cristalizam-se, tornam-se corpos sem vida, e o que passou a ter significado é o acto de as proferir. Assim, aquilo que se apresenta como a razão jurídica é afinal a performance de um corpo monstruoso: o corpo judicial.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 28.11.2009. |
Ao pé da letra #71 (António Guerreiro) «Sobre manobras editoriais e cauções impudentes | |
Quem quiser ler “A Consciência de Zeno” de Italo Svevo – um dos grandes romances do séc. XX –, tem à sua disposição uma edição portuguesa saída recentemente (Dom Quixote). O leitor que não gosta de ser tratado como um menor sob tutela não deixará de se irritar com o facto de o livro lhe chegar por via da “Biblioteca Lobo Antunes”, como se lê na capa, em letras pouco discretas. Pode parecer inócuo, ou apenas provinciano, mas editar Svevo com a ostensiva caução de um escritor contemporâneo é ridículo e faz com o que livro se apresente como uma traficância. | Mas, transposta esta porta onde não deveria figurar senão o nome do autor, coisas muito mais terríveis nos esperam: uma tradução infame que atraiçoa o texto original em cada página ou mesmo em cada frase, além de suprimir os títulos dos capítulos. Trata-se da reedição de uma tradução já antiga, apenas submetida “a uma mera actualização ortográfica” (adverte o editor como quem nos assegura que não nos está a privar de uma obra genial de tradução). Terá sido nesta tradução que Lobo Antunes leu o romance de Svevo? Ou leu-o no original e aconselha esta edição à ralé?» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 21.11.2009. |
Ao pé da letra #70 (António Guerreiro) «Sobre a vida dos livros que não precisam de ser lidos | |
Restabelecida a acalmia, depois da tempestade de comentários, opiniões e declarações provocados por um romance pícaro feito de matéria narrativa do Antigo Testamento (“Caim”, de seu título), podemos agora retirar algumas conclusões: 1) um livro pode tornar-se polémico mesmo antes de ser lido; 2) a condição para que um livro tenha uma existência alargada no espaço público é o facto de não precisar de ser lido para se falar nele, porque o importante é aquilo que o parasita: a pessoa do autor, as circunstâncias em que é escrito; a matéria temática que o envolve; | 3) os autores dos livros que não precisam de ser lidos concorrem zelosamente para que eles tenham uma vida precária que não implica a leitura, confirmando o que sabemos desde Flaubert mas é hoje de uma enorme evidência: é preciso salvar os livros de quem os escreve; 4) um livro torna-se publicamente ‘interessante’ e poderoso na medida em que consegue curto-circuitar a leitura e a crítica, sendo a sua vida gloriosa assegurada por rumor; 5) os autores dos livros que têm uma existência ostensiva mas não precisam de ser lidos têm cada vez menos autonomia relativamente aos mecanismos da indústria editorial.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 14.11.2009. |
Ao pé da letra #69 (António Guerreiro) «Sobre roubos da linguagem e os seus efeitos | |
Pensar é inventar conceitos; restituir o rigor das palavras; retirar-lhes as cristalizações ideológicas e do senso comum e obrigá-las a abrir horizontes. Consideremos este exemplo: numa entrevista recente, o filósofo Boris Groys fazia o louvor da ‘estagnação’ como factor que tornava possível arranjar espaço seguro para reflectir e sonhar. Deste ponto de vista, o que é negativo é a ideologia do desenvolvimento e a corrida imparável a que ela obriga; a carástrofe não é a estagnação, mas que o mundo siga o seu curso. Hoje, hoje já não é preciso uma filosofia da história, como a do positivismo do século XIX, para acreditar que a estagnação é um mal. Bastam as leis da economia que nos regem. | E, no entanto, esta lógica implacável afigura-se um desastre de que todos estamos conscienters mas ninguém sabe como suspender. A operação salvífica tem de ser semântica e consistir numa restituição da linguagem de que fomos espoliados: a ‘crise’ deve ser resgatada do território da economia, onde se alojou quase em exclusivo, e ‘estagnação’, como mostra Boris Groys, pode ser a condição a que aspiramos. Mas, para isso, precisamos de reconquistar a palavra a quem a roubou.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 7.11.2009. |
Raros filmes de Novembro
![]() A comédia de Deus João César Monteiro 1995, 165’ Cinematografia – teatralidade (prog. Pierre-Marie Goulet, Teresa Garcia e Ricardo Matos Cabo) Festival Temps d'Images 4ª, dia 4, 22h Cinemateca*, Lisboa com a presença de Margarida Gil, Adolfo Arrieta e Pierre Léon | ![]() La chienne Jean Renoir 1931, 100’ Cinematografia – teatralidade 5ª, dia 5, 19h30 – Cinemateca com a presença de Cyril Neyrat | ![]() Day of the outlaw André de Toth 1959, 92’ Cinematografia – teatralidade 6ª, dia 6, 19h30 – Cinemateca com a presença de Pierre Léon | ![]() El ángel exterminador Luís Buñuel 1962, 95’ Cinematografia – teatralidade 6ª, dia 6, 22h – Cinemateca com a presença de Jean Breschand, Regina Guimarães e Saguenail |
![]() Videodrome David Cronenberg 1983, 87’ Homenagem David Cronenberg Estoril 2009* Sáb, dia 7 (8), 00h30 Casino Estoril Encontro com David Cronenberg 3ª, dia 10, 21h30 Centro de Congressos, Estoril | ![]() Lola Montès Max Ophüls 1955, 110’, cópia restaurada O cinema e a sua história Estoril 2009 2ª, dia 9, 12h30 Centro de Congressos, Estoril | ![]() The life of Juanita Castro Andy Warhol 1965, 65’ Cinematografia – teatralidade 2ª, dia 9, 22h – Cinemateca com a presença de Luís Miguel Oliveira | ![]() Rabid David Cronenberg 1976, 91’ Homenagem David Cronenberg 2ª, dia 9, 23h15 – Casino Estoril Marilyn Chambers e o porno dos anos 70 4ª, dia 25, 19h – Cinemateca |
![]() Le roi de l'évasion Alain Guiraudie 2009, 99’ Estoril 2009 4ª, dia 11, 17h30 5ª, dia 12, 21h45 Centro de Congressos, Estoril | ![]() Berlin Express Jacques Tourneur 1948, 86’ 4ª, dia 11, 19h – Cinemateca | ![]() Die linkshändige Frau / A mulher canhota Peter Handke 1978, 119’ Estoril 2009 4ª, dia 11, 19h30 Centro de Congressos, Estoril seguido de encontro com Peter Handke | ![]() To be or not to be Ernst Lubitsch 1942, 99’ Cinematografia – teatralidade 4ª, dia 11, 19h30 – Cinemateca |
![]() Opening night John Cassavetes 1977, 140’ Cinematografia – teatralidade 4ª, dia 11, 21h30 – Cinemateca | ![]() Shivers David Cronenberg 1975, 87’ Homenagem David Cronenberg 4ª, dia 11 (12), 00h15 Casino Estoril | ![]() El sol del membrillo Victor Erice 1992, 133’ Cineastas raros Estoril 2009 6ª, dia 13, 12h Centro de Congressos, Estoril | ![]() Louis Lumière Eric Rohmer 1966, 66’ 4ª, dia 18, 22h – Cinemateca |
![]() Ukigusa / Ervas flutuantes Yasujiro Ozu 1959, 110’ Sáb, dia 21, 21h30 – Cinemateca | ![]() Cría cuervos Carlos Saura 1975, 110’ História permanente do cinema Sáb, dia 28, 15h30 – Cinemateca |
«Se podemos pensar nisto como uma superação da teoria filosófica, gostaria de salientar que o modo de superar a teoria correctamente, filosoficamente, é deixar o objecto ou a obra que nos interessa ensinar-nos como a tomar em consideração. [...] Os filósofos assumem naturalmente que é uma coisa, bem clara agora, deixar uma obra filosófica ensinar-nos como a tomar em consideração, e outra coisa, e bem obscuro o como e o porquê, deixar um filme ensinar-nos isso. Acredito que não são coisas assim tão diferentes.» | «If one may think of this as an overcoming of philosophical theory, I should like to stress that the way to overcome theory correctly, philosophically, is to let the object or the work of your interest teach you how to consider it. [...] Philosophers will naturally assume that it is one thing, and quite clear now, to let a philosophical work teach you how to consider it, and another thing, and quite obscure how or why, to let a film teach you this. I believe these are not such different things.» Stanley Cavell, «Words for a conversation», Pursuits of Happiness. The Hollywood Comedy of Remarriage, Harvard UP, Cambridge MA, 1981, pp. 10-11. |
Ao pé da letra #68 (António Guerreiro) «Sobre as virtudes do analfabetismo primário | |
Num texto intitulado “A Morte da Literatura”, M. S. Lourenço refere-se a uma distinção entre analfabetismo primário e secundário, feita por Hans Magnus Enzensberger. Foi num texto de 1985 que o poeta e ensaísta alemão estabeleceu a distinção entre as duas categorias de analfabetos, definindo o analfabeto secundário como o produto de uma nova fase da industrialização. Este tipo de analfabeto sabe ler e escrever e, diz Enzensberger, é ele o alvo privilegiado dos “meios de produção de imbecilidade” (meios impressos e audiovisuais). | Verificando que se deu, no nosso tempo, o triunfo do analfabetismo secundário e que os meios de comunicação estão maioritariamente programados à sua medida, Enzensberger faz o elogio do analfabetismo primário e acaba o texto atribuindo-lhe um papel essencial na sobrevivência da literatura, já que esta exige obstinação e memória, isto é, “as qualidades do verdadeiro analfabeto: talvez seja ele a ter a última palavra, já que não tem necessidade de outros ‘media’ que não sejam a boca e o ouvido”.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 31.10.2009. |
Ditos de esquerda (Pedro Costa)
«Decorria também uma revolução política em Portugal na mesma altura, pela qual acabou a ditadura fascista, e as ruas estavam cheias de anarquistas, comunistas e socialistas, por isso dos treze aos vinte e dois anos eu tive tudo, a música, o cinema, a política, tudo ao mesmo tempo. O que isto me fez perceber foi que John Ford era cem vezes mais progressista e comunista do que os documentários ditos de esquerda, que diziam coisas como “o cinema é uma arma” e “mudar o mundo”. Eram Ozu, Mizoguchi e Ford que estavam na verdade a dizer isso, tínhamos era de ter a paciência para o ver.» | «There was also a political revolution in Portugal at the same time, where the fascist dictatorship ended and the streets were full of anarchists, communists, and socialists, so from the ages of 13 to 22 I had everything, the music, the cinema, the politics, all at the same time. What this made me see was that John Ford was a hundred thousand times more progressive and communist than so-called left wing documentaries saying things like “film is a gun”, and “change the world”. It was Ozu, Mizoguchi and Ford that were saying that really, you just had to be patient to see it.» Pedro Costa, citado por Bruno Andrade n'O signo do dragão, entrevistado por James Mansfield em Little White Lies. [Conferir «O 25 de Abril, segundo Pedro Costa», «Outro final para o 25 de Abril», e «Sobre o involutarismo de esquerda».] |
Ao pé da letra #67 (António Guerreiro) «Sobre uma nova categoria mediática: a dos politólogos | |
Quem lê os jornais e vê os debates políticos na televisão já deve ter dado pelo aparecimento de uma nova categoria que, até há pouco, estava confinada aos departamentos de ciências políticas e sociais: os politólogos. Um politólogo, quando passa para os media, tem de renunciar à sua ciência e funcionar como um simples comentador que vai dizer o que ‘acha’. Por exemplo: o que acha das relações entre o Presidente da República e o primeiro-ministro. E assim as televisões e os jornais desviaram uma ciência para uso interno e efeitos de autolegitimação, desfigurando-a completamente, fazendo-nos acreditar que a tarefa dos politólogos é emitirem oráculos ou produzirem um discurso sobre o lado mais contingente da vida política. | É certo que os próprios – quase todos com obra científica respeitável –, cedendo ao pragmatismo, se têm prestado ao jogo. Mas o efeito é perverso, por uma espécie de lei da reversibilidade: os politólogos ocupam o lugar dos comentadores e opinadores, mas estes, por sua vez, adquirem um estatuto de politólogos. Se a ciência é opinião, então a opinião também é ciência. Neste jogo, quem perde sempre é a ciência.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 24.10.2009. |
Ao pé da letra #66 (António Guerreiro) «Sobre a condição de não-ganhador do Nobel | |
Todos os anos, algumas semanas antes da decisão da Academia Sueca, surgem listas de potenciais vencedores do Prémio Nobel da Literatura e fazem-se vaticínios e apostas. Surgiu assim uma nova categoria de escritores, que são os que não-ganharam o Nobel. Quem consegue manter-se durante alguns anos nessa condição de não-ganhador acumula um capital simbólico superior aos que ganham. Não-ganhar o Nobel torna-se uma distinção, um silêncio carregado de sinais canonizadores ou até uma prova de superioridade. Os não-ganhadores do Prémio Nobel servem de arma de arremesso contra os que ganham, reserva de grandiosidade que não cabe num prémio. | No fundo, a figura do Grande Escritor, tal como Musil a concebeu, é a do que não-ganhou e ficou a pairar nese limbo glorioso, mais alto do que todas as honrarias formais. Os que ganham têm um ano de vigência, findo o qual são subtituídos e remetidos novamente para o mundo profano; os que não-ganham governam durante anos e anos e adquirem uma soberania quase imperial. No reino das letras, são vistos como a verdadeira aristocracia, neste admirável sistema de classes que introduz um suplemento de glamour na sóbria república das letras.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 17.10.2009. |
Ao pé da letra #65 (António Guerreiro) «Acerca das profecias que se auto-realizam | |
Agastado pelas abundantes citações que os jornais fizeram de uma nota no seu blogue sobre o silêncio do Presidente, Pacheco Pereira escreveu a seguir sobre a “operação Diário de Notícias”, terminado com uma predição: “Sempre quero ver se esta nota é citada.”. Cumpriu-se a profecia formulada de modo dubitativo, e a nota nunca foi citada. Pacheco Pereira tinha razão? Sim, na medida em que a sua profecia trazia, em si mesma, a razão que a confirma. Ela é necessariamente verdadeira porque tem o efeito de realizar o que enuncia. E alguém que viesse a citar a nota cairia fatalmente na armadilha que ela constrói: a sua citação teria sempre o sentido de um acto cometido para falsear o que é verdade desde o início, como aquelas cartas dos leitores que começam por dizer: “Estou seguro de que o jornal não terá a coragem de publicar esta minha carta.” | Trata-se, no enunciado profético de Pacheco Pereira, daquilo a que um sociólogo americano chamou “self-fulfilling prophecy”, da profecia que se auto-realiza. A estrutura deste tipo de profecia é comum a dois tipos de discurso: o discurso do paranóico e o discurso dos totalitarismos políticos.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 9.10.2009. |
Ao pé da letra #64 (António Guerreiro) «Os livros portugueses são feitos para a guerra | |
Uma fisiognomonia materialista dos livros produzidos actualmente em Portugal teria de proceder como quem faz a análise das manifestações superficiais de uma época para a tornar inteligível e verificar este detalhe: os livros portugueses são maiores – bem maiores – do que os livros ingleses, franceses, italianos, alemães... Têm menos espessura, mas ocupam uma maior superfície. O segredo desta particularidade (que abdicou das preocupações com a elegância) reside precisamente aí: na faculdade de conquistar espaço, de ter, por meio da pura e simples presença, uma estratégia de ocupação das livrarias e de expulsão dos seus rivais (porque a luta pelo espaço é desesperada e ganhou a feição de uma guerra civil). | O facto económico do fetichismo da mercadoria, que Lukács retraduziu em linguagem filosófica aplicando a categoria da reificação, encontra aqui matéria para uma revisão: Marx, na secção sobre o fetichismo, estava tão fascinado com a alma da mercadoria, com as suas “argúcias teológicas” e “subtilezas metafísicas”, que se esqueceu do que os nossos editores descobriram com júbilo guerreiro: o corpo da mercadoria.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 2.10.2009. |
Raros filmes de Outubro
![]() La région centrale Michael Snow 1971, 180’ Contar o tempo* (prog. Ricardo Matos Cabo) 4ª, dia 7, 22h Cinemateca*, Lisboa cf. Shooting down pictures* | ![]() Fat city John Huston 1972, 100’ 3ª, dia 13, 19h, 5ª, dia 15, 22h – Cinemateca | ![]() Tutuguri – Tarahumaras 79 Raymonde Carasco e Régis Hébraud 1980, 25’, cor Contar o tempo 3ª, dia 13, 19h30 – Cinemateca | ![]() Mon oncle d'Amérique Alain Resnais 1980, 125’ 6ª, dia 16, 15h30 – Cinemateca |
![]() Lost, lost, lost Jonas Mekas 1976, 178’ Retrospectiva Jonas Mekas DocLisboa 2009* Sáb, dia 17, 11h Culturgest, Lisboa | ![]() Programa Lumière 1895-1900, 85’ História permanente do cinema (prog. Antonio Rodrigues) Sáb, dia 17, 19h – Cinemateca | ![]() Trouble in Paradise Ernst Lubitsch 1931, 80’ História permanente do cinema Sáb, dia 17, 22h – Cinemateca | ![]() California Company Town Lee Anne Schmitt 2008, 76’ Riscos (prog. Augusto M. Seabra) DocLisboa 2009 Sáb, dia 17, 22h30 – Culturgest |
![]() Cocorico! Monsieur Poulet Jean Rouch 1974, 90’ Eram os anos 70 (prog. Antonio Rodrigues) 2ª, dia 19, 19h30 – Cinemateca | ![]() Poussières d'amour Werner Schroeter 1996, 130’ DocLisboa 2009 3ª, dia 20, 19h Sáb, dia 24, 21h São Jorge 3, Lisboa | ![]() Die Nordkalotte / A calota polar Peter Nestler 1991, 90’ Contar o tempo 3ª, dia 20, 19h30 – Cinemateca | ![]() Shirin Abbas Kiarostami 2008, 92’ Riscos DocLisboa 2009 3ª, dia 20, 20h30 – Londres 1, Lisboa |
![]() Sem nen kizami no hidokei: Naginomura monogatari / A aldeia de Magino: um conto Shinsuke Ogawa 1986, 222’ Contar o tempo 4ª, dia 21, 22h – Cinemateca | ![]() Material Thomas Heise 1988-2009, 164’ DocLisboa 2009 6ª, dia 23, 16h15 – Culturgest | ![]() Les voitures d'eau Pierre Perrault 1969, 110’ Contar o tempo 6ª, dia 23, 19h30 – Cinemateca | ![]() Les glaneurs et la glaneuse Agnès Varda 2002, 62’ 5ª, dia 29, 19h – Cinemateca |
![]() Les antiquités de Rome Jean-Claude Rousseau 1989, 105’ Contar o tempo 6ª, dia 30, 22h – Cinemateca | ![]() Husbands John Cassavetes 1970, 154’ (versão longa) História permanente do cinema Sáb, dia 31, 21h30 – Cinemateca |
Ao pé da letra #63 (António Guerreiro) «Não só a crítica faz a consagração de um escritor | |
“Os críticos literários portugueses não me aceitam na confraria dos escritores”, disse Miguel Sousa Tavares no lançamento do seu último livro, no Brasil (segundo o Público). Esta suposição da crítica literária como guarda territorial não é válida, nem sequer para o tempo em que a instituição crítica tinha a força que não tem hoje. A consagração de um escritor depende mais da aceitação pelos seus pares do que do juízo dos críticos. Na verdade, são os outros escritores que em última instância outorgam as cartas de nobreza. Não é necessário (nem conveniente) a unanimidade dos pares, mas é indispensável a sanção de um sector importante da “confraria”. Faz parte da lógica do campo literário. | Tal como faz parte das suas regras, como mostrou o sociólogo francês Pierre Bourdieu, o facto de o sucesso do escritor quanto ao número de vendas corresponder geralmente a uma perda no terreno simbólico. É certo que esta regra, a que Flaubert deu um valor absoluto quando afirmou que “les honneurs déshonorent”, não tem hoje a mesma validade. Mas por mais voltas que o mundo da literatura e da arte tenha dado, ela não foi completamente revogada.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 26.9.2009. |
Ao pé da letra #62 (António Guerreiro) «O que é o ideal goethiano de uma literatura mundial? | |
Quem consultar as páginas literárias dos mais importantes jornais europeus, será levado a pensar que elas foram atravessadas, nas últimas semanas, por um cometa que traçou com a sua trajectória um espaço literário internacional. Esse cometa chama-se “2666” e é o romace póstumo do escritor chileno Roberto Bolaño. Conhecemos o fenómeno com os Harry Potter e os Dan Brown. Mas aí podemos dizer que se trata de mundialização comercial, não de internacionalismo literário. Ora, neste caso, todos proclamam que se trata de uma obra-prima, algo que não estamos habituados a que circule facilmente no mundo inteiro, em traduções quase simultâneas. | Podemos encontrar aqui a prova de que a literatura nacional não significa grande coisa. Mas a literatura mundial, no sentido de Goethe, é a coexistência activa das literaturas contemporâneas, não é a criação de um espaço literário homogéneo atravessado por cometas e iluminado por umas poucas estrelas da universal e vazia constelação literária. “2666” pode ser um romance genial, mas seria ingénuo pensar que a sua difusão configura uma planetária república das letras governada pelo ideal goethiano de uma literatura mundial.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 20.9.2009. |
![]() Lançamento da monografia cem mil cigarros – OS FILMES DE PEDRO COSTA, edição de O SANGUE em DVD reposição de O SANGUE em sala e reedição em DVD de ONDE JAZ O TEU SORRISO?
Dia 22 de Setembro, terça-feira, na Cinemateca Portuguesa, às 19h30, será apresentada a monografia cem mil cigarros – OS FILMES DE PEDRO COSTA, uma edição de mais de 300 páginas com textos de 28 críticos, ensaístas, realizadores e artistas de todo o mundo, coordenada por Ricardo Matos Cabo e publicada pelas edições Orfeu Negro. Serão também apresentados os lançamentos da Midas Filmes da edição em DVD do primeiro filme de Pedro Costa, O SANGUE, a partir de um novo master digital de alta definição 2K, com restauro digital de imagem e som, e da reedição em DVD de ONDE JAZ O TEU SORRISO? Às 21h30, segue-se uma sessão de O SANGUE na sala Dr. Félix Ribeiro.
O filme será objecto de uma reposição em cópia nova, no dia 24 de Setembro, em exclusivo no cinema UCI El Corte Inglés, em Lisboa, vinte anos depois da sua estreia mundial em Veneza.
As edições em DVD dos dois filmes são edições de coleccionador com várias horas de complementos e estarão à venda a partir do dia 1 de Outubro. O DVD de O SANGUE tem como extras: “Sangue antigo e sangue novo por João Bénard da Costa”, “Órfãos um comentário de Phillipe Azoury”, “Jeanne Balibar canta duas canções um filme de Pedro Costa”, “13 Fotografias de Paulo Nozolino”, “Fotografias de rodagem”, “Filmografia de Pedro Costa”, “Trailers” e “Capítulos”. ONDE JAZ O TEU SORRISO? tem como extras “Danièle Huillet, Jean Marie Straub, Cineastas – filme da colecção cinema de notre temps”, “6 Bagatelas – seis cenas inéditas montadas especialmente para esta edição”, “O Viandante e O Amolador – duas curtas-metragens inéditas de Danièle Huillet e Jean Marie Straub”, “Filmografias Pedro Costa, Danièle Huillet e Jean Marie Straub”. Em Novembro, a Midas Filmes estreará ainda NE CHANGE RIEN, o último filme do realizador, antestreado na Quinzena dos Realizadores em Cannes. A estreia do filme contará com a presença da actriz Jeanne Balibar. NE CHANGE RIEN foi também já apresentado na Filmoteca de Madrid, onde foi exibida uma retrospectiva completa do realizador, no Festival de Marselha, na Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, e seguem-se apresentações em mais de vinte festivais em todo o mundo, entre os quais o Festival de Nova Iorque e a Tate Modern em Londres, onde em Setembro e Outubro será apresentada uma retrospectiva completa da obra de Costa e uma selecção de filmes que o inspiraram enquanto realizador.
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Raros filmes... (uma excepção)
![]() My childhood 1972, 45’ My ain folk 1973, 55’ Bill Douglas História permanente do cinema (prog. Antonio Rodrigues) Sáb, dia 26 de Setembro, 22h Cinemateca, Lisboa cf. «As flores e a caneca» e «A fixação autobiográfica» |
A blank screen, the images I might yet display | |
The reason for this lingering interest in me may have been nothing more than the common preference of plainsfolk for the concealed rather than the obvious—their weakness for expecting much from the unfavoured or the little-known. Although I asked no questions on my own behalf, I learned in time that I was considered by a small group to be a film-maker of exceptional promise. When I first heard this, I had been about to reply that my cabinets full of notes and preliminary drafts would probably never give rise to any image of any sort of plain. I had almost decided to call myself poet or novelist or landscaper or memorialist or scene-setter or some other of the many sorts of literary practitioner flourishing on the plains. Yet if I had announced such a change in my profession I might have lost the support of those few people who persisted in esteeming me. For although writing was generally considered by plainsmen the worthiest of all crafts and the most nearly able to resolve the thousand uncertainties that hung about almost every mile of the plains, still, if I had claimed even a small part of the tribute paid to writers I would probably have fallen out of favour with even those who shared this view of prose and verse. For my most sincere admirers were aware also of the plainsman's scant interest in films and of the often-heard claim that a camera merely multiplied the least significant qualities of the plains—their colour and shape as they appeared to the eye. These followers of mine almost certainly shared in this mistrust of the uses of film, for they never suggested to me that I might one day devise scenes that no one could have predicted. | What they praised was my apparent reluctance to work with camera or projector and my years spent in writing and rewriting notes for introducing to a conjectured audience images still unseen. A few of these men argued even that the further my researches took me away from my announced aim and the less my notes seemed likely to result in any visible film, the more credit I deserved as the explorer of a distinctive landscape. And if this argument seemed to classify me as a writer rather than a film-maker, then my loyal followers were not perturbed. For their very denials justified their belief that I was practising the most demanding and praiseworthy of all the specialized forms of writing—that which came near to defining what was indefinable about the plains by attempting an altogether different task. It suited the purposes of these men that I should continue to call myself a film-maker; that I should sometimes appear at my annual revelation with a blank screen behind me and should talk of the images I might yet display. For these men were confident that the more I strove to depict even one distinctive landscape—one arrangement of light and surfaces to suggest a moment on some plain I was sure of—the more I would lose myself in the manifold ways of words with no known plains behind them. Gerald Murnane, The plains, Text Publishing, Melbourne, 1982, pp. 169-172. |
Ao pé da letra #61 (António Guerreiro) «A bouffonnerie política e mediática é o nosso destino | |
Aqui, como em boa parte da Europa, a vida política italiana tem suscitado a pergunta: como é que um país com uma cultura tão requintada tem Berlusconi como Presidente? A Itália, nos aspectos político e social, foi quase sempre um laboratório. Podemos então prever que a pergunta antecipa a difusão geral da bouffonnerie de Berlusconi. Mesmo a França, tão zelosa da bienséance dos políticos e dos media, sucumbiu, com este novo Presidente, a tentações que mimetizam o modelo transalpino. Por cá, a bouffonnerie italo-berlusconiana vai fazendo a sua caminhada, sem espírito nem graça. | Quando na Itália de Berlusconi se discute a liberdade de imprensa que manifestamente por lá já não existe, aqui a discussão é quase idêntica e tem como pretexto um jornal televisivo que tinha muito de buffon, excepto a magia sarcástica. Pode ser que o seu fim signifique de facto um atentado à liuberdade de imprensa. Mas se apenas ele (e não aquilo sobre o qual ele se edificou: a devastação operada pela televisão e por alguns media) é capaz de causar um tal sobressalto, então podemos estar seguros de que a bouffonnerie já cá chegou.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 12.9.2009. |













































