Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Ao pé da letra #32 (António Guerreiro)

«O “paradoxo do ateísmo” é uma questão fascinante

“There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life.” Esta frase, exibida nos autocarros londrinos, mostra bem o “paradoxo do ateísmo”. Foi Alexandre Kojève, o último grande hegeliano e figura lendária da intelectualidade russa que veio para Paris nos anos 20 e 30, que definiu bem esse paradoxo e o colocou na base da sua antropologia filosófica: o homem está consciente de que depois da sua morte não existe mais nada e, por conseguinte, está livre de viver a sua vida.

Mas se para lá do mundo nada existe, então este “nada” existe, sob a forma de algo que se quer negar. Por outras palavras, é um facto – tal como na frase publicitária o que emerge é o facto negativo de que “provavelmente Deus não existe” e é a partir da experiência dessa “provável” não existência que o cidadão é convidado a gozar a vida. Mas o teísta, segundo Kojève, também não está livre do paradoxo simétrico, já que não consegue demonstrar o que é esse “Outro”, para além do homem no mundo, sem reportá-lo de alguma maneira ao que é dado do nosso mundo. Ernst Bloch não andava longe deste paradoxo quando escreveu: “Só um ateu pode ser um bom cristão, só um cristão pode ser um bom ateu”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 24.1.2009.


[A existência imanente daquele que crê que Deus existe 

«Até as ilusões de transcendência nos servem e nos fornecem anedotas vitais. Pois quando nos vangloriamos de encontrar o transcendente na imanência, mais não fazemos do que recarregar com a própria imanência o plano de imanência: Kierkegaard salta para fora do plano, mas o que lhe é “dado de novo” nessa suspensão, nessa paragem de movimento, são a noiva ou o filho perdidos, é a existência no plano de imanência. Kierkegaard não hesita em o dizer: no que se refere à transcendência, bastaria um pouco de “resignação”, mas é necessário além disso que a imanência seja dada de novo. Pascal aposta na existência transcendente de Deus, mas o que está em jogo nessa aposta, aquilo em que se aposta, é a existência imanente daquele que crê que Deus existe. Só essa existência é capaz de cobrir o plano de imanência, adquirir o movimento infinito, produzir e reproduzir intensidades, enquanto a existência daquele que crê que Deus não existe cai no negativo. Poder-se-ia dizer aqui o que François Jullien diz sobre o pensamento chinês, que nele a transcendência é relativa e não representa mais do que uma “absolutização da imanência”. Não temos a menor razão para pensar que os modos de existência tenham necessidade de valores transcendentes que os comparem, os seleccionem e decidam que um é “melhor” que outro. Pelo contrário, os únicos critérios são imanentes, e uma possibilidade de vida avalia-se por si mesma através dos movimentos que traça e das intensidades que cria um plano de imanência; será rejeitado tudo o que não traça nem cria. Um modo de existência é bom ou mau, nobre ou vulgar, pleno ou vazio, independentemente do Bem e do Mal e de qualquer valor transcendente: nunca há outro critério senão o teor de existência, a intensificação da vida.


É isso que Pascal e Kierkegaard sabem perfeitamente, eles que são entendidos em movimentos infinitos e tiram do Antigo Testamento novas personagens conceptuais capazes de fazer frente a Sócrates. O “cavaleiro da fé” de Kierkegaard, o que salta, ou o apostador de Pascal, o que lança os dados, são os homens de uma transcendência ou de uma fé. Mas não cessam de recarregar a imanência: são filósofos, ou melhor os intercessores, as personagens conceptuais que valem para estes dois filósofos, e que não se preocupam já com a existência de Deus, mas somente com as infinitas possibilidades imanentes que traz a existência daquele que crê que Deus existe.

O problema mudaria se se tratasse de um outro plano de imanência. Não que aquele que crê que Deus não existe pudesse aí levantar cabeça, pois pertence ainda ao antigo plano como movimento negativo. Mas, no novo plano, pode acontecer que o problema se refira então à existência daquele que crê no mundo, não propriamente na existência do mundo, mas nas suas possibilidades em movimentos e em intensidades para fazer nascer outros modos de existência mais próximos dos animais e dos rochedos. Pode ser que crer neste mundo se tenha tornado a nossa mais difícil tarefa, ou a tarefa de um modo de existência a descobrir no nosso plano de imanência hoje. É a conversão empirista (temos tantas razões para não crer no mundo dos homens, perdemos o mundo, é pior do que perder uma noiva, um filho ou um Deus...). Pois é, o problema mudou.»

Gilles Deleuze e Félix Guattari, O que é a filosofia?, trad. Margarida Barahona e António Guerreiro, Lisboa, Presença, 1992, pp. 67-68, sublinhado meu.]

Kino? “Never heard of”!

Para os dois vírgula sete leitores deste blogue que estão simultaneamente interessados e ainda se lembram que programei o ano passado um ciclo da Nova Escola de Berlim – Um cinema do mal-estar no festival KINO, que agora decorre de novo no São Jorge, queria aqui deixar as expressões bem humoradas com que um amigo cinéfilo alemão respondeu ao meu pedido de sugestões de filmes para ver no programa deste ano: “Never heard of” (várias vezes), “A pain in the ass”, “I don't like this”, “I don’t consider this to be interesting”, “A real pain in the ass! Avoid [this director] whenever you can!”, “Sounded terrible”... 
Salvaram-se poucochinhos, como vêem. Mesmo assim, eu próprio estou disposto a arriscar dois ou três. O meu amigo dizia de um apenas que “may be really interesting”. A vós deixo todo o prazer de tentar adivinhar qual é. Se virem todos de certeza que acertam.

Paradoxes of place in contemporary cinema
Open call submissions

“This is the place”, says Simon Srebnik, a returning survivor from Chelmno's extermination camp, in SHOAH. According to Didi-Huberman, this is an impossible place to reconstitute through cinema. Drawing upon cinematographic gestures in existing places – from Straub-Huillet's landscapes of buried history, to the past-present interferences in the clandestine and public housing of Pedro Costa, the torturers’ rememorative actions set in the empty cells of Rithy Panh’s S21, or the figuration of disappearance in Akerman’s Los Angeles freeways – one can find, opposed to a cinema of made-up possible spaces, a cinema of paradoxical places, where superimposed incongruous spaces and times, like in Foucault’s heterotopies, offer resistance to the space we live in. This panel welcomes further explorations on the paradoxes of place.



NECS conference: “Locating Media”
Lund, Sweden, June 25-28, 2009
Papers are invited to the following panel submitted for open call . Please contact the panel chairs(s) or organizers directly. Panel may consist of up to 5 speakers with a maximum of 20 minutes speaking time each. Conference-related questions should always be addressed to NECS
All presenters are asked to provide with a title, an abstract of max 150 words, 3-5 keywords, 3-5 key bibliographical references, technical requirements, name of the presenter and institutional affiliation to the panel organizers directly: André Dias and Susana Duarte. Submissions to this panel are due on January 29, 2009.

O destinatário que testemunha. Uma conversa com o crítico Adrian Martin



Primeiro verdadeiro post do ano, uma longa entrevista com o importante crítico de cinema Adrian Martin. Nascido em 1959 e sediado em Melbourne, Austrália, Adrian Martin exerceu, durante vários anos e até 2006, a função de crítico no jornal The Age. Autor de inúmeros livros sobre cinema, desde Phantasms (1994) a Raúl Ruiz: Sublimes obsesiones (2004), vem de publicar uma antologia no Chile, ¿Qué es el cine moderno? (2008), tendo sido igualmente co-editor, com Jonathan Rosenbaum, do marcante Movie Mutations: The Changing Face of World Cinephilia (2003). É também professor na Monash University, em Melbourne, e co-editor da melhor revista online de cinema, a Rouge
A sua produção crítica e teórica caracteriza-se antes de mais pela extrema profusão e pela abrangência não dogmática de autores e estilos bastante diferentes. Mas também, e sobretudo, por uma reflexão aturada sobre a própria natureza da função crítica e, em particular, sobre as suas dinâmicas e transformações face aos novos meios. Encontram-se facilmente online vários dos seus textos críticos, bem como outras entrevistas ou o discurso de apresentação da sua recente antologia.




Esta entrevista foi realizada em Setembro de 2008 em Reading, Inglaterra. Dado que partilhamos uma preocupação com a diversidade também linguística da cinefilia, foi acordado que seria publicada exclusivamente em português, para especial proveito dos cinéfilos brasileiros, portugueses e demais. Mais recentemente, Adrian Martin premiou, enquanto membro do júri internacional do Festival de Valdivia, no Chile, o filme AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO de Miguel Gomes, escolhendo-o também como absolutamente o melhor filme de 2008: “a revelação do ano – uma divertida, comovente e idiossincrática mistura de documentário, ficção e música popular.” 

Um agradecimento a Flavia de la Fuente pela fotografia principal e a Andy Rector, der Amerikanische Freund, pela sua inestimável ajuda na transcrição.
  
Heranças do cinema contemporâneo
André Dias – O que lhe parece verdadeiramente interessante no cinema de hoje?




  

Adrian Martin – A escola abrangente do minimalismo é ainda muito boa. Filmes como NIGHT AND DAY de Hong Sang-soo... Ou aquele incrível filme japonês de quase três horas: THE REBIRTH de Masahiro Kobayashi. O realizador já não é novo, mas faz longas metragens de ficção bastante experimentais. Esta restringe-se à situação quotidiana de um homem, representado pelo próprio realizador, e de uma mulher que estão ligados por um acidente sofrido pelo filho de um deles. Circulam em redor um do outro, conscientes de como a sua relação se estabeleceu, mas não se falam nem se encontram directamente. Todos os dias têm que trabalhar perto um do outro, comer na mesma sala... O filme desenvolve-se através das repetições metódicas de todos estes gestos da sua vida quotidiana e do modo como as personagens se evitam. Às vezes quase que se falam, mas acabam por não o fazer. Mesmo no fim, na rua perto de onde tudo decorre, encontram-se para conversar. Nos dois últimos planos, ele e ela olham directamente para a câmara à vez. É um final muito forte para o filme, que está um pouco na vizinhança do estilo de Chantal Akerman, construindo a intensidade através da repetição e introduzindo depois pequenas e poderosas variações. Vemos o que o homem põe a cada dia no prato, a maneira como parte o ovo sobre a massa, etc. Quando faz algo de diferente torna-se altamente dramático, produzindo uma torção no padrão do filme. Portanto, sinto que se está a dar um retorno ao minimalismo, que é um estilo em que se pode ainda fazer coisas.

Reage muito fortemente contra as tendências que vêem no cinema moderno a transgressão das regras clássicas...

A impressão que tenho é que as regras foram frequentemente, embora nem sempre, bastante flexíveis. Daí o meu interesse em tentar estabelecer uma ligação entre formas extremas do cinema popular, ou sub-popular, e obras mais experimentais. É nesses géneros populares, como o terror, o gore, etc. que as regras se revelam extremamente flexíveis. Por vezes, parece que nem sequer existem regras. É um espaço muito interessante de invenção livre sobre as convenções. Assim, o quebrar das regras não parece um modo adequado de explicar o que se passa nestes filmes e torna-se cansativo. Na verdade, é uma espécie de postura dizer que a importância do “modernismo” cinematográfico está no quebrar e transgressão das regras clássicas. Porque, no fim, podemos perguntar-nos: quebraram a regra, e depois? o que vão fazer agora com isso? Transgrediram a regra, mas... A questão difícil acerca da liberdade é sempre a de saber o que se vai fazer com ela. O mesmo acontece nos filmes.
 

Pensa que existe uma descontinuidade entre cinema moderno e contemporâneo? Ou que realizadores como Abbas Kiarostami, Pedro Costa e outros relacionam-se de alguma forma com o cinema moderno?



 
Os editores chilenos do livro novo que acabo de publicar quiseram chamar-lhe O que é o cinema moderno?, como se numa continuação de Bazin. O que é um pouco assustador. Depois, claro, tive que escrever uma introdução tentando definir o que é o cinema moderno. Foi um exercício muito desafiante. Advogo a visão comummente aceite que o cinema moderno, o modernismo ou a modernidade em termos cinematográficos, acontece no final da Segunda Guerra Mundial. Muitos, quase todos, dizem o mesmo: Rancière, Godard, Deleuze, etc. Tudo começa com Rossellini e outras figuras desse tempo, também na América e noutros sítios. E ao longo dos anos 60 houve também um grande período de modernismo.
O passo que já não dou é o do pós-modernismo, porque é um termo vazio, que não assinala nada de significativo. Compreender ou explicar Costa, Zhang Ke ou Kiarostami através do pós-modernismo não quer dizer rigorosamente nada. Porque trata-se sobretudo da questão de um cinema ético, de um cinema do gesto. De gestos extremos de pobreza, de pobreza de meios no cinema ou de um minimalismo extremo, embora nem sempre seja baseado nessa escassez. É, na verdade, uma espécie de essência purificada do modernismo. Que estabelece uma relação cada vez maior com o documentário. As coisas mais novas no cinema são estas em torno do desvanecimento da linha de separação entre documentário e ficção. Mesmo se já se fala nisso há vinte anos. Mas agora, em particular com o importante papel da tecnologia digital, o deslizar para fora e para dentro do documentário e da ficção, e a confusão devida a por vezes não se saber o que se está a ver, constitui, na minha opinião, um modo verdadeiramente novo.
 
Uma zona de fronteira entre ficção e documentário que está a ficar cada vez larga...


 
 
Lembro-me de um interessante filme argentino – THE FAITH OF THE VOLCANO, em que se colocava claramente esta questão. Era filmado em digital, com jovens personagens a vaguear, como se num filme de Zhang Ke, pegando nas suas bicicletas e passeando ao longo da praia. E comporta estes momentos em que a ficção desliza quase completamente para fora e o documentário se impõe. Depois, muito subtilmente, a ficção começa a voltar, apenas por alguém entrar no quadro e perguntar se querem comprar droga, por exemplo. De repente, eis a ficção ali de novo. Esta fluidez absoluta é uma área muito interessante. Sobretudo o modo como se lida com ela, em vez do seu uso simples, recoloca a questão dos gestos éticos no cinema. No centro do cinema contemporâneo que admiramos está o gesto ético.

Contra Bordwell
A partir do seu importante ensaio «Mise-en-scène is dead, or the expressive, the excessive, the technical and the stylish», a introdução à sua tese Towards a synthetic analysis of film style faz a explanação teórica da sua perspectiva como crítico de cinema. Pode tentar resumir a sua ideia de uma “análise sintética”?


Trata-se sobretudo de um problema de economia, de tentar aferir a economia de um filme em particular, ou de um tipo de filmes. O que está intimamente ligado à questão da relação entre forma e conteúdo... ou entre estilo e tema, ou entre forma e matéria, como diria Straub. Parecem-me existir diferentes economias dessa relação, dependendo de onde nos situamos na história do cinema, ou que realizador ou género se considera. A economia do estilo por relação ao tema é diferente num musical e num filme de Rossellini, por exemplo. Este é o problema que me ponho.
Mas porquê “sintética”? Escrevi uma vez um texto sobre isto, sobre os dois primeiros livros que me influenciaram. O primeiro foi Theory of film practice (1969) de Noël Burch, um livro impressionante de formalismo, de um olhar concentrado somente nos parâmetros formais. David Bordwell, que reconhecidamente deve imenso a Burch, dele retirou o conceito de “narração paramétrica”, mas empobrecendo-o. Porque Burch utilizava-o de uma forma muito mais livre, interessante e dinâmica. Por exemplo, escreveu um ensaio sobre NANA (1926) de Jean Renoir incitando-nos a olhar somente para o que se passa nos quatro lados do ecrã. Tomando em considerando todo o tipo de espaço fora de campo, todas as direcções, à frente da câmara, atrás dela, etc., ele faz esta estonteante enumeração das dinâmicas de todos os espaços nesse filme. Claro que, no fim, a Burch não interessa nada o que o filme trata, quem são as personagens, o que história conta, qual é a sua moral, etc.. Trata-se de uma fase extrema do seu trabalho, mas muito importante. Burch incitava-nos a atender à construção serial. Um filme permitir esse jogo de variações dos seis espaços era suficiente para que ele o considerasse um grande filme.


E Bordwell terá sistematizado isso numa grelha...




Bordwell sistematizou-o de uma maneira vazia. Chegamos ao ponto, e estou a caricaturar, em que se Steven Soderbergh decide colocar vermelho em cada cena de um filme só porque gosta de vermelho, para Borwell isso já é narração paramétrica. Dado que, mesmo não tendo nada a ver com as personagens ou a história, pode sempre dizer-se que há vinte tons de vermelho no filme e que vão do mais intenso ao mais fraco, etc. Isto não é tão interessante, dinâmico ou inventivo como o que Burch fazia. Se virmos com atenção, é uma forma banal de análise.
Mas estava a falar de quando tinha 16 anos e li Burch. Foi um grande choque. É um livro incrível para um jovem interessado em cinema ler. Depois li Film as film (1972) de Victor Perkins, que agora considero como o grande manifesto do classicismo expressivo no cinema. Mais uma vez, é aqui que Bordwell falha. Porque pensa que o classicismo é fazer um filme bem construído, ordenado e linear, claro e informativo. Mas se virmos VERTIGO ou LETTER FROM AN UNKNOWN WOMAN não saímos da sessão a dizer: “Olha que filme tão ordenado, claro e equilibrado!” Isto não é nada! É só um pretexto, a base, o nível mais raso do classicismo. O que interessava a Victor Perkins eram os aspectos expressivos do tema, da metáfora dramática, dos padrões, dos “motivos”, da duplicação das personagens, da ocultação do princípio e do fim, etc. Tudo isto vem de Perkins, de Robin Wood e outros críticos. E fui também profundamente influenciado por isto, enquanto jovem crítico.
Esta estranha coisa de ter lido estes dois livros definiu o meu destino enquanto crítico, que é o de encontrar uma maneira de ligar estes dois livros. O problema é que, para Perkins, um tal grau de formalismo não é significativo, porque não atinge o expressivo. Mas, para mim, tomar apenas em consideração o expressivo ou a metáfora dramática, muito à romance do século XIX, no melhor sentido de Henry James ou Flaubert, não atinge o cinema moderno do século XX, quanto mais o cinema do século XXI. Victor Perkins foi muito explícito sobre isso. Quando tratava de Godard e outros que tais, bloqueava. Tentou dar coerência a VIVRE SA VIE, através das suas técnicas interpretativas, mas não conseguiu. Para Perkins, serão fragmentos, uma colagem, um diário ou o que for, tudo aquilo que os adeptos de Godard afirmam, mas não chega a ser um filme rico e de várias camadas. É aqui que Perkins, e muitos dos que trabalharam na sua tradição, pararam. Não puderam estender o seu movimento para um outro tipo de cinema.



O destinatário que testemunha
Fico com a impressão que não quer deixar nada de lado, que deseja abranger todos os filmes e perspectivas críticas, ainda que tenha preferências. Como se possuído por uma generosidade, política ou religiosa, para com todas as formas de expressão cinematográficas...




 

É estranho, sim. Não sei de onde vem. Há em mim um investimento intenso, e reparo mais nisto à medida que envelheço, na noção de testemunho. Trata-se até de uma aflição para mim. Sinto que todas as pessoas, filmes e textos críticos, têm que encontrar o seu destinatário. O destinatário é a pessoa que se levanta e afirma que um determinado filme é bom, que foi feito para si. Que ela é, de alguma forma, a pessoa que dá valor àquele filme. Existe, portanto, um destinatário que prestará testemunho por essa coisa.
É também uma ideia expressa por Giorgio Agamben, no seu livro Profanações, quando se refere à figura do historiador como aquele que lembra. E por historiador Agamben entende o crítico, o analista, o teórico. Ou seja, as pessoas que escrevem sondando, de forma não ficcionada, as coisas. Enquanto os artistas, as pessoas que escrevem a poesia ficcionada, criam coisas. O artista é a pessoa que canta, o historiador a que lembra. A tragédia da vida é o historiador querer ser capaz de cantar, e o artista ser capaz de lembrar. Lembrar significa prestar testemunho. Ter um momento no mundo, na esfera pública, gravado algures, num artigo na internet, num livro, numa revista, num arquivo ou num registo qualquer que possa ser um dia encontrado, se tivermos sorte, onde estará aquilo que diz: “Eu prestei testemunho de... de algo... daquele filme por que mais ninguém prestou”.
Por isso fiz esta conferência – «Entities and Energies» – sobre THE ENTITY (1981) de Sidney J. Furie. Dei-me conta que ninguém no mundo ia prestar testemunho deste filme. Que o filme estava à espera que chegasse, e que é meu destino ter que dizer isto sobre THE ENTITY. Penso que toda a crítica está relacionada com isto, a um nível ou outro. Está relacionada com a lembrança activa, com o prestar testemunho de algo. Deste modo tão fugidio, no fim, cada um de nós terá apenas o mais pequeno dos fragmentos do testemunho. Haverá apenas um fragmento que restou, mas temos que escrever sobre ele.

Mas talvez essa ideia de prestar testemunho de tudo seja um pouco opressiva...

Claro que não podemos prestar testemunho de tudo. Espera-se que a coisa nos encontre. Espera-se algo que nos irá compelir, um encontro. É o filme que nos procura. Não é estar em casa e dizer: “Ah, que filme tão interessante! Aposto que consigo escrever um ensaio sobre ele”. Algo nos força a dizer. Viemos doutro lugar, chegamos como cidadãos do cinema para falar sobre um filme, porque ele nos compeliu quando a nós se mostrou. É isto que nos dá o direito de nos levantarmos e falarmos sobre um filme.


A sua actividade comporta essa dimensão do testemunho, mas também uma grande preocupação pedagógica com o sentido da crítica, numa espécie de metacrítica...




 
Pela mesma razão: prestar testemunho. Lecciono um curso sobre história da crítica e teoria cinematográfica com o qual tenho uma relação obsessiva. Basicamente, trato sobretudo de pessoas mortas, os grandes críticos de cinema já falecidos. Dou por mim a ter sonhos febris em que, como nos filmes de terror, tudo passa pela relação com o espírito dos mortos. Está-se a ressuscitá-los quando deles se presta testemunho. Dizemos o que dizemos para incitar a lembrar André Bazin, incitar a lembrar Guillermo Cabrera Infante...
Um belo livro poético de Abdelwahab Meddeb – The malady of Islam, que nem é sobre cinema, trata desta relação com o passado, no sentido da relação com os mortos. Cada um de nós tem que procurar um modo para apresar o espírito dos mortos, que nos podem ajudar naquilo a que nos propomos fazer no mundo presente em que vivemos. Para fazer aquilo que queremos temos de nos apropriar do seu espírito. Neste meu trabalho sobre a história da crítica, sinto por vezes que estou a erguer os críticos do reino dos mortos. Alguns deles foram tão rapidamente esquecidos que se trata de um esforço constante de rememoração. Mas não nos podemos deixar obcecar pelos mortos ou pelo passado, senão acontece mesmo como num filme de terror. Em A NIGHTMARE ON ELM STREET (1984) de Wes Craven, tem que se agarrar o espírito e trazê-lo para o nosso mundo. Mas não se quer que o espírito nos leve para a cripta, não se quer descer ao túmulo. Por isso tenho que ultrapassar esta espécie de obsessão mórbida ou funerária com o passado da crítica. Porque, no fim de contas, sabemos que tudo o que importa é o presente da crítica e o seu futuro, que tem de ser criado. Tem que se trazer o passado para o presente para criar a possibilidade de um futuro. É disto que a crítica trata.

A crítica e os seus celibatários
O ênfase que põe na crítica, apesar de apreciar Deleuze e outros filósofos recentemente chegados ao cinema, destoa de um contexto teórico que tende a privilegiar abordagens mais abstractas. Pode explicar porque é a crítica aquilo que “agarra” o cinema?


Tenho um grande empenho pela teoria e pela filosofia, que considero interessantes em si mesmas. Mas é da crítica que eu venho, apesar de ter começado a ler teoria do cinema muito cedo. Porque a crítica diz sobretudo respeito a uma preocupação material com os detalhes, com os momentos particulares dos filmes, entre outras coisas. Portanto, com o próprio objecto concreto e material que é um filme. Há também outra dimensão fulcral, a de poder mostrar uma cena, vê-la com alguém, desmontar e voltar a colá-la. Sempre me entusiasmou essa possibilidade do trabalho analítico. Enriquece o objecto analisá-lo dessa maneira, entrando numa relação crítica com ele. E existem muitos objectos cinematográficos no mundo, muitos mais do que algum de nós poderá ver. Para mim, sendo a crítica prestar testemunho, é também prestar testemunho da sua recriação. Recria-se o filme com palavras, através de descrições, de evocações, nas estruturas da escrita, do comentar, do ensinar. Trata-se de uma constante recriação do cinema, que o mantém vivo e ajuda a criar o seu futuro.


Por entre teorias demasiado abstractas e más recensões de jornal, por vezes emergem críticos que conseguem construir a complexidade e acabam por equilibrar o cinema com essa outra coisa, como se lhe queira chamar, do pensamento ou da escrita. Hoje, com o acentuar do interesse numa “filosofia do cinema”, deparamos com a terrível ingenuidade de saltar directamente do tema do filme para os conceitos filosóficos. E esse a meio caminho onde jaz a crítica, não só não é trabalhado, como negligenciado.

Existe, ou pode existir, uma má relação entre a teoria, o cinema e a crítica, como a que indica. Por vezes, não se trata sequer de uma abordagem ao tema, mas somente à mera intriga. Numa conferência recente, alguém falava sobre um dos filmes recentes de Álmodovar, citando Derrida. Essa pessoa afirmava que Derrida tem uma teoria sobre a dádiva, a dávida da morte, a dávida da vida, etc. E que, nesse filme de Álmodovar, a mulher oferece algo ao homem e que isso constitui a dádiva da vida de Derrida. Mas dizer isto é banal! Não é filosofia do cinema! Nem sequer é uma ideia, mas apenas a etiqueta de uma ideia. Colamos essa etiqueta à situação da intriga que a ilustra ou alegoriza e já está. Mas isto não é trabalhar sobre um filme.
Por isso são tão importantes as pessoas que estão verdadeiramente interessadas na questão de como um filme desenvolve algo para o espectador. De como o filme atinge esse ponto em que nos revela algo. Gilberto Perez, quando descreve de forma tão bela aquela cena em torno ao altar em NOSTALGIA de Tarkovski, faz sentir que algo está a nascer na cena, no filme e no espectador. Através do jogo paralelo entre as imagens e os sons, pelo estado indeterminado do espaço e do tempo, na mudança de cada plano para outro, algo está a nascer. Nunca se chega a conhecer este tipo de coisa se se disser apenas que Tarkovski é o tempo e que, logo, deve haver uma imagem-tempo porque tem passado e presente, etc. Isso é simplesmente ridículo!


Parece também entusiasmado com algumas novas tendências, como a personificada por Nicole Brenez em torno do figural. Ensaia uma aproximação a essa abertura que permite uma produção mais fácil de sentidos.

 


É efectivamente uma questão de gerar ou produzir ideias. E não apenas de ter uma ideia pré-concebida e ir amassando o filme com ela, sufocando-o. Um dos princípios mais brilhantes de Nicole Brenez é o de tomar o cinema como estando sempre à nossa frente. O cinema é mais rápido que nós. É mais teórico do que as nossas teorias, é mais intelectual do que os nossos conceitos. Estamos a tentar alcançar aquilo que o cinema já descobriu. A nossa luta é procurar e colocar isso em palavras, criando novos conceitos, escrevendo novos ensaios, etc. Esta é uma boa maneira de pensar. Porque, se repararmos, a maior parte das teorias estão, de certa maneira, a assumir que os filmes estão atrás de nós. Que estamos à sua frente e sabemos mais do que eles. Por isso é que podem dizer simplesmente: “Estão a ver? Eis o filme que ilustra a minha teoria”. Mas, se dissermos que os filmes estão à nossa frente, que nos estão a ensinar lições do que ainda não descobrimos, isso dá-nos um ímpeto, uma urgência em continuar a trabalhar, em continuar a ser críticos e a descobrir.

Energia, boa vontade e traço
E quanto à escolha de excertos dos filmes, sente alguma responsabilidade pelo bastante que deixa de fora? Trata-se quase de uma escolha de montagem...







Exactamente. É um acto criativo. Durante muito tempo era uma agonia para mim. Eu tinha vontade de ser um artista, essa figura da outra margem que eu não posso ser. Mas, através das conferências, com os excertos vídeo, etc., essa parte criativa acaba por ter lugar. Trata-se de uma performance ou mesmo de teatro, uma arte em que acabo por estar de alguma forma envolvido, para além da escrita, obviamente. Mas faço-o através das minhas palavras e das imagens e sons dos excertos. E esse é o meu pequeno passo para dentro do mundo do artista. Na verdade, adoro esse papel e sinto que é também muito bom para o público.
Há muitos modos diferentes de fazer uma apresentação sobre cinema. Mesmo completamente opostos, com evocações somente através das palavras. Vemos os filmes através do que se diz, através da descrição literária. É um método que também já utilizei. Mas prefiro mostrar, porque, para mim, a questão da energia é muito importante. Como uma força viva que quero retirar do ecrã. Quero ter o excerto vídeo, e escolher muito bem ele onde começa e onde acaba. E depois espero que a corrente eléctrica passe do excerto do filme e chegue até ao espectador e a mim. É assim algo de xamânico, em que digo: “Excerto, como vais tu intervir? Traz-me a energia! Passa-me a tua energia!” Alimento-me disso e continuo a falar.
Aparentemente, era assim que Manny Farber ensinava. Ele nunca mostrava o filme completo aos alunos. Apenas uma cena, uma bobine ou outra, de trás para a frente, com paralíticos em que o filme ficava a queimar no projector, dois ecrãs em simultâneo, etc. E continuava a falar ao improviso, dizendo que tinham que olhar para aquele cantinho do quadro, ou com os alunos na cabine de projecção e outras coisas assim. Trata-se de algo muito inspirador. Raymond Durgnat fazia a mesma coisa. Punha duas bobines do mesmo filme a passar ao mesmo tempo; por exemplo, a primeira e a última. Para que os estudantes pudessem constatar que havia uma relação, um padrão entre as duas partes do filme, mesmo à sua frente. Podiam ouvi-lo e vê-lo. Isto são como gestos artísticos, elementos com os quais podíamos fazer uma instalação numa galeria de arte. Ou numa aula ou sala de conferências, que é onde os pratico, a estes gestos ligeiramente artísticos dentro da crítica.

Pode descrever o projecto da Rouge, a sua revista de cinema online?



A Rouge, que dura já há cinco anos, foi, mais uma vez, algo de muito aparentado à questão do gesto artístico. Queríamos fazer uma revista em que pudéssemos escolher absolutamente tudo, como curadores. Mais do que em qualquer outro meio de publicação, com a internet surgem por vezes momentos em que abrimos a porta a outra pessoa. Vamos ao encontro de pessoas cujo trabalho admiramos, perguntamos-lhes se não desejam escrever algo que nunca tenham escrito antes, que nunca ninguém lhes tenha sugerido, mas que tenha sido sempre um anseio seu, pois nós aceitaremos. Não pagamos nada por isso, pois é uma produção precária, mas abrimos a porta. Essa pessoa, se quiser, pode atravessá-la e dar-nos alguma coisa para a revista, que a tornará disponível para o mundo.
Uma das coisas que desejávamos era uma escrita mais criativa. Um estilo mais poético, inventivo e literário, por assim dizer. Queríamos testar também algumas das novas relações entre texto e imagem, como no famoso número da imagem. Mas, para nós, a revista tem sobretudo a ver com as pessoas que lá estão. Para termos este tipo de espaço, na verdade, um espaço de amizade, a revista funciona através da boa vontade. E é sobre boa vontade, sobre a crítica como um espaço de boa vontade.
Por outro lado, queríamos que fosse não apenas jornalística ou teórica. Que incidisse sobre a crítica, mas não necessariamente sobre os filmes acabados de sair, seja o último Costa ou o último Spielberg. Queríamos incluir o passado, porque é dele que todos se esquecem nas publicações de cinema. Acaba tudo por se limitar ao último Haneke, ao último Eastwood, etc., pois ficámos de tal forma obcecados com os filmes acabados de sair. Nós, pelo contrário, interessamo-nos pelo passado vivo, pelo cinema que está vivo no presente.
Outro elemento muito importante são as vozes dos realizadores. É extremamente valioso termos a conferência de Victor Erice, o ensaio de Hou Hsiao-Hsien, o workshop de Costa, as reflexões de José Luis Guerín, por exemplo. Estas contribuições são também as mais difíceis de conseguir. Há várias resistências a estas iniciativas. Os realizadores ou estão atarefados, ou não têm vontade de colocar as suas ideias em papel, ou nem sempre estão naturalmente à vontade a fazê-lo... Mas é fundamental incluir as suas vozes, as suas reflexões, porque elas são frequentemente muito mais poéticas do que aquilo que cada um de nós pode conseguir. São perspectivas incríveis sobre todo o processo de criação do cinema, a que doutra maneira não teríamos acesso. Também gostamos de convidar outro tipo de praticantes, como artistas de outras áreas, seja um arquitecto, um romancista ou um poeta, para escreverem sobre cinema. E estamos sempre à procura deste tipo de objectos, tanto no presente como no passado, percorrendo constantemente os arquivos para encontrar coisas relevantes que nos tenham escapado anteriormente.


Preocupa-se com o outro lado, com o modo como os filmes chegam às pessoas? Tem alguma perspectiva sobre a actividade de programação? Sinto que existem pessoas que precisam de certos filmes, mas estes não lhes chegam...
Tive apenas uma pequena ligação à programação de cinema, através de alguns ciclos que organizei. Mas, em geral, fiquei bastante desencorajado com a experiência. Estava num contexto muito institucional, onde existe um programa oficial e só se consegue uma pequena oportunidade de uma semana, um evento especial ou parte de um festival. Para mim é duro assim. Com a Rouge criamos toda a revista do princípio ao fim. É desse modo que queremos trabalhar. Se quisermos acabar com a revista amanhã, acabamos. Não se consegue tomar conta de uma instituição e radicalizá-la no dia seguinte. Gostaríamos de o fazer, mas não conseguimos. O trabalho com as instituições é frequentemente muito desanimador. A Rouge é completamente alheia a todas as instituições. Não há dinheiro na revista, pois não recebemos nem pedimos dinheiro ao governo, nem à universidade, nem a ninguém. 
Trabalhar com certos festivais, cinematecas e institutos por esse mundo fora pode resultar numa coisa boa. Consegue-se um bom programa. Mas depois tudo desaparece. Fizemo-lo, tivemos as nossas duas semanas, se calhar até saiu um artigo no jornal, ou nem sequer saiu nada no jornal sobre isso, algumas pessoas vieram, outras falaram e disseram que tinha sido bom, e depois... parece que tudo se evapora. Como se não deixasse traço. Quando não deixa traço é duro. Ao menos com a Rouge temos o traço. A Rouge é o traço. O traço na internet. Está lá! Orgulhamo-nos disso.
Enquanto que programar, mesmo que deixe traços... Sabemos que um filme ou outro visto há dez anos na cinemateca nos afectou e levou a outras coisas no nosso percurso pessoal. Mas gostaríamos de conseguir um maior efeito colectivo quando programamos. Por exemplo, que duzentas pessoas começassem a dizer que não conseguem viver sem Pedro Costa! Isso é muito complicado de conseguir. Tal como é difícil conseguir a tracção que dê continuidade a uma iniciativa. Queres dar o próximo passo, construir em cima disso, fazer em maior, tomar conta dos festivais, das instituições ou da cinemateca, mas isso quase nunca acontece. E, se chegas ao ponto em que consegues tomar conta da cinemateca porque tens um exército atrás de ti, então tornaste-te no inimigo. És tu o próximo tirano! És tu o próximo terrível director e patrão daquela instituição. Recriaste a instituição. Portanto, é um problema complicado. Ter que ficar de fora das instituições, sabendo que por vezes precisamos de trabalhar com elas para que certos projectos possam acontecer, dado que tu próprio não queres ficar institucionalizado, não te queres tornar na imagem espelhada da instituição. Porque o que acontece sempre é que a instituição permanece, e tu não.

Ao pé da letra #31 (António Guerreiro)

«Os balanços produzem passado sem tempo

Agora, que já passou a semana do ritual dos balanços anuais, devemos olhar com alguma distância as ilusões que se exibem nesse exercício que transforma em fantasmagoria o que se passou ao longo de um ano. Tal exercício é uma caricatura daquela “doença histórica” diagnosticada por Nietzsche, e à qual ele atribuía o efeito devastador de esterilizar e aniquilar as forças criativas. Estes balanços anuais servem para produzir aquilo que a nossa época produz com mais abundância e euforia: passado, história.

Consciente disso, o artista americano Robert Rauschenberg reivindicou uma vez “mais tempo, menos história”. Mas a ilusão dos balanços, baseada na ideia de uma perpétua actualização da história, para a qual há cada vez menos tempo, só pode ser compreendida tendo em conta uma outra fantasmagoria: a do “novo”, do inédito, do que nunca aconteceu antes, em todos os domínios. Os balanços produzem a ilusão de que tudo está sempre a recomeçar, de que assim estamos a chegar a horas à nova época, de que não perdemos nada. Mas aquilo que se apresenta como uma ocasião, irá novamente ser transformado em passado antes de fazer efeito.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 10.1.2009.

Factos e fraudes

– Lucrecia Martel é uma realizadora contemporânea interessante [certo, isto não é um facto, apenas uma opinião pessoal];
– O Festival "Fervor de Buenos Aires" do CCB inclui um “Ciclo de cinema Lucrecia Martel”, sublinhado Buenos Aires e cinema;
– Segundo o programa do CCB, Lucrecia Martel fará a apresentação de LA MUJER SIN CABEZA, sua última longa-metragem, a 12 de Março, sem sublinhados;
– O Ípsilon, suplemento cultural do jornal Público, pela pena do seu editor Vasco Câmara, deu destaque à vinda da realizadora no principal artigo da página de entrada com o título «Lucrecia Martel, mulher de grande cabeça, vem a Lisboa», sublinhado editor Vasco Câmara;
– Segundo o mesmo suplemento, “logo a seguir ao ciclo, LA MUJER SIN CABEZA estreia em sala”, sublinhado estreia em sala e não se indica a distribuidora;
– O ciclo Lucrecia Martel compõe-se de três sessões, com uma curta e três longas-metragens, sem sublinhado;
– O Ciclo tem como “comissário” João Lopes, sublinhado João Lopes e comissário;
– Segundo o programa do CCB, a projecção do ciclo de cinema é feita em ecrã 4x3 metros”, sublinhado é a primeira vez que vejo indicado o tamanho do ecrã num programa de cinema deste género;
– Idem, “a projecção do ciclo de cinema é feita em [...] formato DVD”, sublinhado compreendo agora e ainda bem que avisam;
– Ibidem, o preço para cada uma destas sessões de projecção de DVD é 2 euros, sublinhado preço e DVD;
– E, last but not least, nenhuma longa-metragem de Lucrecia Martel se passa em Buenos Aires *:
Pergunta: Podem confirmar-me se algum dos filmes de Lucrecia Martel tem a cidade de Buenos Aires como cenário? [...] Aqui em lisboa vai haver um festival dedicado à cidade de Buenos Aires que inclui uma retrospectiva de Lucrecia Martel. Achei bizarro.
Resposta: «No, los tres largometrajes de Martel transcurren enteramente en la ciudad de Salta, a 1500 km de Buenos Aires. Saludos, assinado Quintín», [sublinhado cidade de Salta e a 1500 km de Buenos Aires]; 
– Lucrecia Martel nasceu no dia 14 de dezembro de 1966, na província de Salta, Argentina [fonte: Wikipedia];
– O Ípsilon deu este destaque todo** a um ciclo de projecção de DVDs, integrado num festival sobre Buenos Aires cujas reproduções de filmes não têm nada a ver com Buenos Aires. Porquê? Porque Lucrecia Martel vem a Lisboa arrebentar as vossas cabeças. Bem-vinda! 

* Quando se diz [digo eu, provavelmente imitando alguém] que programar é antes de mais inventar desculpas para passar bons filmes, convém que as desculpas sejam também elas boas.
** O que isto me lembra, passe as diferenças, é aquele plano de MANUFACTURING CONSENT em que Noam Chomsky compara o comprimento desmesurado dos artigos do New York Times dedicados ao problema do Cambodja por relação aos dedicados a Timor Leste.

Adenda: Para que este tipo de fraude institucional, comissarial e editorial comece a acabar, ou continue vitoriosamente mas com algumas dificuldades, este blogue estará em breve em condições de oferecer, em mão, DVDs piratas de LA MUJER SIN CABEZA de Lucrecia Martel a todos os leitores lisboetas que o pedirem através de mensagem de email; ensinará também os menos informados, a pedido, a procurarem os filmes que desejam na internet; ponto final.

Termo de responsabilidade: O autor é parte interessada nestas questões porque, para além de espectador atento e exigente, exerce actividade muito irregular de programador de cinema; o ciclo de cinema A crueldade depois do teatro – Os filmes de Angela Schanelec, sublinhado película e com a presença da realizadora, começa precisamente na noite da apresentação do DVD de Lucrecia Martel; os mais cínicos encontrarão aqui a resposta rápida que precisam para as suas aflições maniqueístas. 

Meros filmes em Janeiro


North by northwest
Alfred Hitchcock
1959, 136’
6ª, dia 9, 15h30 Cinemateca, Lisboa

The naked spur
Anthony Mann
1952, 90’
6ª, dia 9, 21h30 Cinemateca


Dong / O buraco
Tsai Ming-liang

1998, 95’
6ª, dia 16, 19h30 – Cinemateca

Peau d'âne
Jacques Demy
1970, 90’
Sáb, dia 17, 15h – Cinemateca Júnior


Ma nuit chez Maud
Eric Rohmer
1969, 110’
4ª, dia 21, 21h30 – Cinemateca


Nuit de chien
Werner Schroeter
2008, 110’
estreia a 22
Medeia Fonte Nova 3, Lisboa
14h15, 16h45, 19h15, 21h45
Medeia King 1, Lisboa
14h30, 17h, 19h30, 22h


A woman under the influence
John Cassavetes
1974, 155’
6ª, dia 23, 21h30 – Cinemateca

[apenas filmes vistos, sem repetições]

Ao pé da letra #30 (António Guerreiro)

«Até agora, crise e crítica andaram sempre juntos

A grandiosa encenação que pôs a “crise” no centro do palco internacional parece um “dramma giocoso”. Crise é o estado permanente em que sempre vivemos, desde a modernidade. Nas primeiras décadas do século XX, não houve palavra tão declinada, e o tom foi de pessimismo cultural. Nada que estivesse abaixo da tragédia satisfazia os diagnósticos. Crise é o que a cultura ocidental arrasta consigo, a partir do momento em que se deu conta de que “a nossa hora é a época do declínio”.


A crise é consubstancial a uma cultura crítica (veja-se a etimologia comum das duas palavras), como mostrou um famoso historiador alemão – Koselleck – ao estudar a “patogénese do mundo burguês”. Crise, à altura do seu nome, é o facto do seu horizonte se ter tornado meramente económico. Enquanto que a crise da cultura, da religião, etc. significou sempre uma desconfiança no curso das coisas, a crise económica, tal como ela é proclamada, serve para nos dizer que tudo tem de ser restaurado, que nada pode ser começado de novo, que a uma total falta de ilusões devemos responder com as ilusões de uma temporalização da história cuja medida já é o trimestre. É sobre esta crise do tempo que importa reflectir.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 3.1.2009.

Filmes-doença de 2008

Ainda profundamente eivado do contagiante espírito natalício, presto-me também eu ao exercício, convenhamos, um pouco ridículo, de apresentar uma lista de filmes do ano. Compreendam que não se trata de um menor apreço meu por listas. Pelo contrário, todo o tipo de listas me encanta. Como as listas de animais que se dividem entre os “que acabam de quebrar a bilha” e os que “de longe parecem moscas”, etc. Ou de doenças. Enfim, tanta coisa linda. Mas as listas cinéfilas têm algo de abominável. Como se se tratasse de uma urgência doentia num cânone instantâneo para uma arte em constante crise de afirmação. Desagrada-me esta curiosidade insistente por uma contabilização falsamente significativa. Tanto mais que parece ter como função, precisamente, proceder ao esquecimento periódico. No entanto, também eu caio constantemente nesta ordem, que é apenas um traço da má emancipação do cinema, da sua insuficiente impregnação na vida. Cânones, contra-cânones e anti-cânones. Quantos filmes destes vi ou não vi?, etc. Mas não é, pelo menos, verdade que todos os cinéfilos gostem de listas...

A primeira palette da cinefilia cosmopolita corrente é o crème de la crème do que foi mais promovido nos festivais ou saiu das nobres mãos de um mestre recente ou antigo. Neste sentido, as listas são as mais das vezes muito pouco heterogéneas. Faltam lá os objectos cinematográficos não identificados, as anomalias. Parece que são supostas limitarem-se ao que terá sido exibido nas salas comerciais num determinado período, o ano mediático. Os críticos comerciais têm uma boa desculpa para se cingirem aos filmes mais populares. No entanto, as pessoas que escrevem online, para que se prestam a isso? >




Por isso, muitos cinéfilos apresentam habitualmente duas listas diferentes: a da matéria corrente e a da matéria desenterrada. Quer dizer, a dos filmes estreados em sala na sua terra e a dos mais antigos que tiveram finalmente oportunidade de ver. Comparar os desenterrados com os correntes é muito elucidativo e deprimente. Esses desenterrados são, quase sempre, muito melhores do que os correntes. No entanto, e aqui é que a burra torce o rabo, essas preciosidades desenterradas não foram elas próprias, as mais das vezes, as melhores do seu ano de origem. Logicamente, cabe aqui a suspeita de que anda para aí muita especulação quanto à “melhoria” contemporânea. Trata-se de uma bolha especulativa como outra qualquer. Esperemos pacientemente pelos seus efeitos recessivos. Um século não é nada para uma expressão artística. Precisamos passar a mão no dorso da história do cinema ao contrário, de forma a que, ao levantar os pêlos, se deixe descobrir a bicharada cinematográfica que por lá vive, em vez do lustro morredouro que por aqui mora.

Explicação do método. Pelo menos desde Março passado que mantenho um registo passivo dos filmes que vi, e apenas devido ao Google Calendar. Anteriormente, a minha cinefilia era extremamente negligente com os registos. Nem as folhas da Cinemateca levo para casa, que papelada pelo chão é o que não falta por cá. Excepção feita aos filmes de que saí a meio ou que odiei profundamente, e cuja referência procuro apagar para nunca mais deles me lembrar, está lá registado o que vi numa sala de cinema. Não me dou ao trabalho de assinalar as (raras) coisas vistas na televisão ou as (menos raras) em dvd, ou ainda as cada vez mais vistas em ficheiros descarregados...




Em vez de uma lista de melhores, com a justa contraposição de outra lista de piores, que são as quase insondáveis pontas do espectro, proponho uma lista dos piores “melhores” filmes do ano. Aqueles que aparecem, normalmente, nas listas de melhores do ano, mas que, na verdade, são apenas os que oscilam no limiar ambíguo entre os menos bons dos bons e os menos maus dos maus. Filmes “com pretensões” e de que se muito alimenta a crítica cinéfila. A ordem era suposta ser a da visão, mas é antes (mais ou menos) a do enfado, do maior para o menor. Alguns filmes são ainda do ano passado, mas a doença ficou a incubar e só a apanhei em todo o seu esplendor este ano. Porque é de doenças que se trata. Das doenças cinematográficas que me fizeram sofrer. Para separação das águas e manifesto de suposta ortodoxia não encontro melhor. Claro que há para aí doenças que não apanhei. Tentamos sempre evitá-las, não é? Dessas outras devem dar testemunho os respectivos pacientes. Obviamente, as opiniões expressas (são só isso, o que é bem pouco) nesta lista não reflectem qualquer juízo negativo sobre pessoas que possam ter gostado, adorado, estrelado ou mesmo chorado com estes filmes. Afinal, cada um de nós tem um sistema imunitário-cinematográfico diferente. E, como diz o povo, na sua sabedoria milenar, gostos não se discutem...


HUNGER Steve McQueen
Esta calamidade não é apenas uma doença! Trata-se de um síndroma, doravante dito Síndroma de McQueen, que associa malvadamente um grupo de doenças mais ou menos identificáveis. Da taquicardia artística ao escorbuto fetichista, passando pelo apodrecimento da glande abjeccionista, é quase uma epidemia, pelo seu potencial avassalador. São, no fundo, estes sofrimentos terríveis que nos inspiram à delação. O corpo do espectador, para além do colapso nervoso por altura do contacto patológico, comporta-se em seguida como acabado de ser submetido a uma tareia. No entanto, conhecem-se casos, ditos extremos, de auto-inoculação com o síndroma em pacientes com fixação em figuras crísticas em decomposição, vórtices de merda e esteticização geral das pústulas... Ao pé deste síndroma, a doença de THE PASSION OF CHRIST de Mel Gibson só pode ser inofensiva (como disse, não me presto a contaminações inúteis) e, sobretudo, mais facilmente combatida, pois pelo menos essa não vem disfarçada de arte.
[Ok, o meu orçamento de sarcasmo esgotou-se aqui, e não vou começar a gastar o que entra já nas contas do novo ano... Deixo apenas os filmes-doenças restantes:]


CZTERY NOCE Z ANNA / QUATRO NOITES COM ANNA Jerzy Skolimowski

AFTERSCHOOL Antonio Campos

REDACTED Brian de Palma

PARANOID PARK
Gus Van Sant

NE TOUCHEZ PAS LA HACHE Jacques Rivette

LES AMOURS D'ASTRÉE ET DE CÉLADON Eric Rohmer 

LA FRONTIÉRE DE L'AUBE Phillipe Garrel 

WONDERFUL TOWN Aditya Assarat

LE SILENCE DE LORNA Jean-Pierre e Luc Dardenne

Z32 Avi Mograbi 

VALS IM BASHIR/ A VALSA COM BASHIR Ari Folman 





Ut pictura poesis

I. «E se é inegável que, seja qual for a nossa opção, o filme resiste como documento (a vida nas Fontaínhas, em finais do século XX) aberto a leituras sociológicas e políticas, aquilo que transforma “No Quarto da Vanda” num objecto único e incomparável é estar sustentado numa narrativa trágica, assente em processos expressivos (a componente pictórica de alguns planos, num cruzamento entre a pintura italiana renascentista, a pintura flamenga e o hiper-realismo) que “roubam” ao real tanto quanto lhe oferecem – a relação de “No Quarto da Vanda” com o real é biunívoca, o filme está tão disponível para ele como ele para o filme.» Luís Miguel Oliveira

«Isto nunca mais me esqueço, [em] “No Quarto da Vanda” há um plano banal de uma rapariga a fazer trabalhos de casa, repetindo as vogais, no meio de um barulho monstruoso. E ela lá estava, tentando concentrar-se. Eu passei uma tarde inteira com ela, repetindo, e quando eles viram o filme, disseram que aquilo era muito bonito pois mostrava as dificuldades que eles tinham com as crianças que tentavam estudar ou aprender, como uma criança aqui no bairro leva sete vezes mais a aprender uma palavra do que em casa dos ricos. Este tipo de coisa não tem preço. Não há nenhum crítico de cinema que vá dizer isto. Esse mesmo plano, numa revista de cinema francesa, foi descrita como um “velho retábulo crístico à maneira dos pintores da Renascença”.»
Pedro Costa

«[... C]ontrariamente à moral aceite que nos interdita de “esteticizar” a miséria, Pedro Costa parece aproveitar cada ocasião para valorizar os recursos de arte apresentados por esse cenário de vida mínima. Uma garrafa de água de plástico, uma faca, um copo, alguns objectos pousados numa mesa de madeira branca de um apartamento invadido, e ei-la, com a luz que vem rasar o seu palco, a ocasião para uma bela natureza morta. Que a noite chegue nessa habitação sem electricidade, e duas pequenas velas sobre a mesma mesa darão a uma conversa miserável ou a uma sessão de chuto um ar de chiaroscuro holandês do Século de Ouro. [...] Mas esta “esteticização” significa precisamente que o território, intelectual e visivelmente banalizado, da miséria e da margem é levado à sua potencialidade de riqueza sensível partilhável.»

Jacques Rancière, «Les paradoxes de l’art politique»,

Le spectateur émancipé
, La Fabrique, Paris, 2008, pp. 87-88

Para quem não conhece, o fantástico programa de rádio Dois ao quadrado de Pedro Coelho e companhia, de certas madrugadas quinzenais da Antena 2 e que tem uma duração de seis horas!, atingiu na sua última edição um ponto particularmente alto: uma divertidíssima (e assustadora) montagem entre os poemas de Ruy Belo lidos por Luís Miguel Cintra e um audiolivro de auto-ajuda de Gestão!
Existe também o podcast Somdescape do mesmo Pedro Coelho... e um blogue paralelo, Sevragem, infelizmente agora “aberto apenas a leitores convidados” (nos quais não me incluo).

Política e polícia (Jacques Rancière)

«A política, com efeito, não é à partida o exercício do poder ou a luta pelo poder. O seu quadro não está desde logo definido pelas leis e instituições. A primeira questão política é saber que objectos e que sujeitos concernem a essas instituições e a essas leis, que forma de relações definem apropriadamente uma comunidade política, que objectos concernem essas relações, que sujeitos estão aptos a designar esses objectos e a discuti-los. A política é a actividade que reconfigura os quadros sensíveis no seio dos quais se definem os objectos comuns. Ela rompe com a evidência sensível da ordem “natural” que destina os indivíduos e os grupos ao comando e à obediência, à vida pública ou à vida privada, ao assigná-los desde logo a um certo tipo de espaço ou de tempo, a certa maneira de ser, de ver, e de dizer.
Esta lógica dos corpos no seu lugar dentro da distribuição do comum e do privado, que é também uma distribuição do visível e do invisível, da palavra e do ruído, é aquilo a que propus nomear com o termo de polícia. A política é a prática que rompe com essa ordem da polícia que antecipa as relações de poder na própria evidência dos dados sensíveis. Ela fá-lo através da invenção de uma instância de enunciação colectiva que redesenha o espaço das coisas comuns.»

Jacques Rancière, «Les paradoxes de l’art politique»,
Le spectateur émancipé, La Fabrique, Paris, 2008, p. 66

Ao pé da letra #29 (António Guerreiro)

«Renovar a esquerda é a linguagem de uma mitologia

Roland Barthes, que tem andado por estes anos injustamente esquecido, era um homem de esquerda. E, nessa condição, a sua preocupação maior foi sempre a de desmontar as “mitologias” (fossem elas de esquerda ou de direita), isto é, a cultura de massas, as construções ideológicas, os discursos que se apresentam como evidências e devem o seu poder de circulação ao estatuto “natural” que adquirem e os subtrai à crítica. Os mitos da direita procuram a sua raiz no espaço originário e a-histórico das ideias sem palavras; os mitos da esquerda são antes a manifestação tagarela das palavras sem ideias.



Roland Barthes não formulou a questão desta maneira, mas no seu horror fóbico pelo estereótipo sentiu sempre a necessidade de se desviar criticamente de todas as linguagens, sempre que começavam a “pegar”. Quando hoje ouvimos falar em “renovar a esquerda” e vemos alguma gente mobilizada em torno dessa tarefa, é preciso analisar essa expressão como uma linguagem parasitária, uma enorme e velha mitologia que impede precisamente que se pense algo de novo. Nada pode ser renovado com esta linguagem porque ela não é senão a perpetuação de ritos e mitos mecanizados.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 19.12.2008.


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