Ao pé da letra #48 (António Guerreiro) «A estratégia do crítico literário em três pontos Walter Benjamin definiu o crítico literário nestes termos: “O crítico é um estratega no combate literário”. Esta definição não precisa de assentimento teórico, confirma-se empiricamente. Eis alguns princípios estratégicos: 1) nunca insistir na crítica desfavorável a um autor: tal, será entendido como uma perseguição. O risco é ainda maior quando se trata de um autor consagrado: a importância do alvo estimula as conjecturas que procuram razões pérfidas e ocultas (lado negativo da estratégia: ao fim de algum tempo, o crítico tem uma lista de nomes sobre os quais tem de guardar silêncio). | 2) Nunca perder a oportunidade, quando ela se oferece, de elogiar o novo livro de um autor que antes tinha merecido um juízo crítico negativo. Se se tinha criado uma inimizade com entre o autor e o crítico, tanto melhor: é improvável que se restabeleça a concórdia, mas esvazia-se o lado primário do conflito (perigo associado: retirar tanto prazer deste exercício que ele passa a ser uma secreta perversidade); 3) nunca fazer intervalos que convidem a mudar de escala: dois meses fora da actividade é suficiente para o crítico relativizar de tal modo o que fazia antes que já não consegue voltar a representar o seu papel com verosimilhança.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 23.5.2009. |
«Assim que alguém se apercebe que escrevi sobre cinema começo imediatamente a receber uma lição sobre o que é o cinema. Há algo no cinema que torna insuportável às pessoas não se considerarem elas próprias especialistas nele. Numa destas noites, numa recepção, disseram-me: “É importante definir o que o cinema pode fazer que mais nenhuma arte pode”. Eu disse que concordava. O meu informador continuou: “O cinema é visual”. Mas o ano passado assisti a uma concorrida conferência de um afamado académico de cinema cujo substrato era que o cinema é uma coisa do passado, e que o interessante agora é o visual em si mesmo. Tomo isto como indicação de que os especialistas de cinema acham insuportável não serem não-especialistas.» | «As soon as somebody learns that I’ve written about film I immediately start getting a lecture about what film is. There is something about film that makes it unberable for people not to consider themselves experts about it. At a reception the other evening I was told, “It is important to define what film can do that no other art can do” I said I agreed. My informant went on: “Film is visual.” But last year I attended a crowded lecture by a renowned scholar of film the burden of which was that film is a thing of the past, and that what is of interest now is the visual as such. I take this to indicate that experts about film find it unberable not to be inexpert.» Stanley Cavell in conversation with Andrew Klevan, «What Becomes of Thinking on Film?» in Film as Philosophy, Palgrave Macmillan, 2005, p. 197. |
Ao pé da letra #47 (António Guerreiro) «A “crise” vem da metafísica e a ela regressa O conceito de “crise”, que sofreu uma anexação semântica ao império da economia, pertenceu outrora a territórios metafísicos. Dois textos fundamentais da primeira metade do século XX atestam bem essa grandiosa proveniência: “A Crise do Espírito” (1929), de Paul Valéry, onde o escritor francês formulava uma célebre sentença: “Nous autres, civilisations, nous savons maintenant que nous sommes mortelles”; e “A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental”, uma conferência que Husserl pronunciou em 1935. | Devemos ao historiador alemão Reinhart Koselleck uma história desse conceito. No “modelo semântico” de Koselleck, a noção de crise passou, a partir da Revolução Francesa, a servir de interpretante da história política e social. E ele mostra também que a história pode ser interpretada como uma crise permanente. Mas essa memória metafísica que a palavra traz consigo não está completamente perdida: foi recuperada agora nos números astronómicos de dólares e euros que – dizem-nos – servem para debelar a crise e desafiam a nossa imaginação como um “deus absconditus”. Prova de que a economia é, cada vez mais, um ramo da teologia.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 16.5.2009. |
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Ao pé da letra #47 (António Guerreiro) «A nova “literatura universal” produz equívocos Um longo artigo na revista New Yorker sobre António Lobo Antunes teve por cá algum eco, pelo facto de não ser propriamente muito elogioso, ao contrário do que tem sido habitual na recepção deste escritor no estrangeiro. Lendo o artigo, podemos verificar que ele é bastante inócuo: muita circunstância histórica e biográfica, quase nada de leitura da obra. Temos aqui um exemplo do que são as regras da difusão e consagração de uma nova ‘literatura universal’ que, ao contrário do que parece, nada deve ao conceito goethiano de weltliteratur. | A questão da globalização da literatura coloca enormes problemas, na medida em que a relação com a tradição literária nacional é bastante importante na leitura e na apreciação de um escritor. Por isso, a recepção no estrangeiro de um autor pertencente a uma literatura pouco conhecida pode ser completamente diferente da que lhe está reservada no seu próprio país. No cânone desta literatura universal entra mais facilmente um escritor de todo o lado, porque não é de sítio nenhum, do que entraria um Joyce, apesar de tudo demasiado radicado na sua cultura irlandesa e na sua Dublin natal.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 9.5.2009. |
Raros filmes de Maio
![]() Banditi a Orgosolo Vittorio De Seta 1960, 91’ 3ª, dia 5, 19h Cinemateca*, Lisboa | ![]() Run of the arrow Samuel Fuller 1956, 85’ História permanente do cinema Sáb, dia 9, 19h – Cinemateca [o filme na origem da expressão “o travelling é uma questão de moral”] | ![]() L’ordre Jean-Daniel Pollet 1973, 44’ História permanente do cinema Sáb, dia 9, 22h – Cinemateca | ![]() Los olvidados Luis Buñuel 1951, 80’ 3ª, dia 12, 21h30 – Cinemateca |
![]() Several friends 1969, 21’ The horse 1973, 14’ Charles Burnett Charles Burnett 5ª, dia 14, 22h – Cinemateca | ![]() Greed Erich Stroheim 1924, 130’ História permanente do cinema Sáb, dia 16, 19h30 – Cinemateca | ![]() Koshikei / O enforcamento Nagisa Oshima 1968, 117’, 35mm Eros + Revolta. O novo cinema japonês dos anos 60* (prog. Augusto M. Seabra) Dom, dia 17, 18h30 – Culturgest | ![]() Tabi yakusha / Actores ambulantes Mikio Naruse 1940, 70’ Finalmente Naruse! 4ª, dia 27, 22h – Cinemateca |
![]() Das Testament des Dr. Mabuse Fritz Lang 1933, 120’ História permanente do cinema Sáb, dia 30, 19h30 – Cinemateca | ![]() Faces John Cassavetes 1968, 130’ História permanente do cinema Sáb, dia 30, 21h30 – Cinemateca |
[apenas filmes vistos, sem repetições, em formatos originais]
Ao pé da letra #46 (António Guerreiro) «Há um marxismo vulgar que mudou hoje de campo Uma das formas mais reconhecíveis de um marxismo vulgar consistiu na caricatura dos capitalistas – reproduzida também na iconografia – como indivíduos ávidos de dinheiro e moralmente execráveis. É um marxismo vulgar, porque simplifica uma análise que nunca decorreu à psicologia e evitou qualquer moralismo. A caricatura do capitalista arrogante e diabólico não pede inspiração a Marx. | Não deixa por isso de ser curioso que uma nova vulgata, difundida por quem até há bem pouco tempo ria dessa caricatura e deduzia dela a própria vulgaridade do marxismo, se tenha apropriado dos seus traços negros e tenha começado a reproduzi-la num desenho ainda mais reprovador, sob a forma do capitalista sem escrúpulos, de uma avidez desmedida, que não respeita a “ética do capitalismo” (a alusão a Max Weber fica bem, mas é enganadora). Porque é que a caricatura dá agora tanto jeito? Porque, à semelhança do marximo vulgar, há um empirismo vulgar que vê a irracionalidade e a ganância no comportamento de certos indivíduos, salvando assim o processo louco e autodestrutivo que é o próprio sistema da mercadoria, no seu funcionamento tautológico.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 2.5.2009. |
Raros filmes (especial IndieLisboa 2009)
![]() Süt / Leite Semih Kaplanoglu 2008, 102’, 35mm IndieLisboa 2009 4ª, dia 29 Abril, 15h30 Sáb, dia 2 Maio, 15h30 City Classic Alvalade 3, Lisboa | ![]() Tôkiô sonata Kiyoshi Kurosawa 2008, 119’, IndieLisboa 2009 5ª, dia 30 Abril, 19h Museu do Oriente, Lisboa [atenção: projecção vídeo!] | ![]() Ruínas Manuel Mozos 2009, 60’ IndieLisboa 2009 6ª, dia 1 Maio, 17h45 Londres 2, Lisboa | ![]() Ballast Lance Hammer 2008, 92’, 35mm IndieLisboa 2009 6ª, dia 1 Maio, 18h15 City Classic Alvalade 3 |
![]() Die Große Ekstase des Bildschnitzers Steiner / The Great Ecstasy of the Woodcarver Steiner Werner Herzog 1974, 47’ Werner Herzog IndieLisboa 2009 6ª, dia 1 Maio, 19h – Fórum Lisboa |
Ao pé da letra #45 (António Guerreiro) «Da simbólica do livro à realidade do livro Prolongando o Dia Mundial do Livro, decidiu a APEL promover a Semana dos Livreiros. A astuciosa iniciativa decorre assim à boleia de uma evocação ecuménica do livro, da sua história gloriosa e dos seus mitos, o maior dos quais é o do Livro-Mundo (na versão de Leibniz, esse livro que é o Mundo teria sido escrito por Deus numa linguagem que é a das matemáticas). Se esta comemoração só tem algum sentido considerando a “simbólica do livro” (uma noção do grande romanista alemão Curtius), abstraindo-a da realidade da indústria livreira, quando os livreiros entram em cena nesta festa dificilmente sobrevive a dimensão simbólica. | Porque a verdade conspícua da maior parte das livrarias em Portugal é pouco compatível com tal glorificação simbólica. Pelo contrário, elas tornaram-se entrepostos da indústria do entretenimento, onde observamos o funcionamento eficaz desta lei: a difusão homogeneizada determina a uniformização da produção e, portanto, uma redução da oferta. Talvez não seja fácil saber onde se iniciou este círculo vicioso, mas as livrarias são, justa ou injustamente, a montra onde se exibe este espectáculo pouco edificante.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 25.4.2009. |
Ao pé da letra #44 (António Guerreiro) «E, de repente, Nietzsche é um convidado clandestino O slogan de Vital Moreira – “Nós, europeus” – tem um autor intempestivo, secretamente convocado e retocado para uma festa que não é a sua: Friedrich Nietzsche. Foi ele quem escreveu, em Para Além do Bem e do Mal: “Nós, bons europeus, temos as nossas horas de nacionalismo, momentos em que nos deixamos mergulhar em velhos amores e seus estreitos horizontes”. Quem são os “bons europeus”? São os que recusam a “pequena Europa” burguesa e reaccionária, os que combatem a “infecção nacionalista”, os “herdeiros encarregados de obrigações milenares do espírito europeu”. | Para o discurso político, é difícil integrar os “bons europeus”, tanto mais que, em Nietzsche, tal adjectivo não é conforme à moral cristã e platónica. Evocar o “Nós, europeus” é muito mais fácil; mas é preciso que não se descubra que quem assim falou teve também estas palavras para designar quase a mesma coisa: “Nós, os sábios” e “Nós, os imoralistas”. Nietzsche, como teórico da ideia europeia, só clandestinamente pode entrar na festa eleitoral que aí vem. Gente respeitável e pouco dada à loucura não convive facilmente com quem abraça cavalos numa praça de Turim.» António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 18.4.2009. |
A SISMOGRAFIA DA CULTURA17 Abr - 03 Jul 2009 - das 19:00 às 21:00 - Sextas - BIBLIOTECA, Museu de Serralves, Porto 21 ABR - 23 JUN 2009 - DAS 19:00 ÀS 21:00 - TERÇAS - Auditório, Rua Castilho, 165, LISBOA Nas duas primeiras décadas do século passado, os “diagnósticos da cultura”, motivados quase sempre por um profundo pessimismo cultural, tornaram-se quase um género autónomo. A metáfora do sismógrafo (ou outra metáfora da mesma família) é então usada por uma constelação de autores. Por exemplo: Aby Warburg, Hugo von Hofmannsthal, Karl Kraus e Walter Benjamin. Fazendo, muito embora, um breve percurso por este universo, deter-nos-emos em Aby Warburg (1866-1929) e Walter Benjamim (1892-1940), duas figuras maiores do século XX que contribuíram decisivamente para as configurações conceptuais do tempo em que vivemos (e, se Benjamin é um dos autores mais lidos e influentes nas áreas da teoria da cultura, da arte e da história, já Warburg permaneceu até há pouco tempo num certo desconhecimento, do qual emergiu em grande força na última década). A aproximar estes dois autores está uma concepção da história e da cultura que encontra na questão da imagem um dispositivo fundamental. A ideia de «imagem dialéctica» em Walter Benjamin pode ser posta a par da visão warburguiana da imagem como «fórmula de pathos», como energia onde se polariza a memória cultural e as leis da sua transmissão trans-histórica. Tentando construir um “Atlas das imagens», Warburg chega à ideia de uma esquizofrenia da cultura ocidental, sempre dividida entre o pólo racional e o pólo mágico-demoníaco; e é na «imagem dialéctica» que Benjamin concentra a sua ideia de que os fenómenos históricos só chegam ao «momento da sua cognoscibilidade» quando são postos em sincronia (ou em constelação) com momentos anteriores e posteriores da história. (Passagens por Walter Benjamin e Aby Warburg) Concepção e orientação: António Guerreiro |
Ao pé da letra #43 (António Guerreiro) «Os prémios literários tornaram-se uma caricatura A cerimónia de entrega do Prémio Leya teve o alto patrocínio do Presidente da República. Tal caução está no lugar de uma falta: a da instituição literária que legitime, consagre e assegure a existência pública do prémio. Projectados para um exterior que nada tem a ver com a literatura ou sujeitos às composições dos grupos e às afinidades tácticas e estratégicas que se criam no interior da “vida literária”, os prémios tornaram-se o episódio mais degradante do território sem autonomia a que outrora se chamava República das Letras. | A questão, hoje, já não é a de os prémios serem justos ou injustos (foi ainda nesses termos que Musil se referiu a eles e fez a caricatura do Grande Escritor), mas a de já nem se saber quem os outorga, o que eles visam e a que público (dos leitores?, dos consumidores?) é dirigida a publicidade a que os prémios aspiram. Há um longo capítulo da sociologia da literatura contemporânea que deve ser dedicado à progressiva deslegitimação dos prémios, o que levou, aliás, a uma situação frequente: o júri de hoje será o premiado de amanhã e vice-versa. Não se trata de ‘corrupção’: é a lei do estreitamento do Universo.» António Guerreiro, «Ao pé da letra»,Expresso-Actual, 10.4.2009. |
A imagem intolerável (Jacques Rancière)
«A questão do intolerável deve então ser deslocada. O problema não é o de saber se se deve ou não mostrar os horrores sofridos pelas vítimas desta ou daquela violência. Ele concerne a construção da vítima como elemento de uma certa distribuição do visível. Uma imagem nunca aparece sozinha. Pertence a um dispositivo de visibilidade que regula o estatuto dos corpos representados e o tipo de atenção que eles merecem. A questão é a de saber o tipo de atenção que provoca este ou aquele dispositivo. [...] [O] problema não é o de saber se se deve ou não fazer e olhar tais imagens, mas antes no seio de que dispositivo sensível o fazemos. [...] O tratamento do intolerável é então uma questão de dispositivo de visibilidade. Aquilo a que chamamos imagem é um elemento num dispositivo que cria um certo sentido de realidade, um certo sentido comum. Um “sentido comum” é antes de mais uma comunidade de dados sensíveis: coisas cuja visibilidade é suposta ser partilhável por todos, modos de percepção dessas coisas e significações igualmente partilháveis que lhes são conferidas. É em seguida a forma de estar em comum que religa indivíduos ou grupos na base dessa comunidade primeira entre as palavras e as coisas. O sistema de Informação é um “sentido comum” deste género: um dispositivo espacio-temporal no seio do qual palavras e formas visíveis são agregadas em dados comuns, em maneiras comuns de percepção, de ser afectado e de dar sentido. O problema não está em opor a realidade às suas aparências. Está em construir outras realidades, outras formas de sentido comum, quer dizer, outros dispositivos espacio-temporais, outras comunidades de palavras e coisas, formas e significações. Essa criação é o trabalho da ficção, que não consiste em contar histórias mas em estabelecer relações novas entre as palavras e as formas visíveis, a palavra e a escrita, um aqui e um além, um antes e um agora. [...] O problema não é o de saber se o real destes genocídios pode ser posto em imagens ou em ficção. É o de saber como é que o é, e que tipo de sentido comum é tecido por esta ou aquela ficção, pela construção desta ou daquela imagem. É o de saber que tipo de humanos a imagem nos mostra e a que tipo de humanos ela é destinada, que tipo de olhar e de consideração é criada por essa ficção. | Este deslocamento na abordagem da imagem é também um deslocamento na ideia de uma política das imagens. O uso clássico da imagem intolerável traçava uma linha a direito do espectáculo insuportável à consciência da realidade que ele exprimia e desta ao desejo de agir para a modificar. Mas essa ligação entre representação, saber e acção era uma pura pressuposição. A imagem intolerável, com efeito, retirava o seu poder de evidência dos cenários teóricos que permitiam identificar o seu conteúdo e da força dos movimentos políticos que os traduziam em práticas. O enfraquecimento desses cenários e desses movimentos produziu um divórcio, opondo o poder anestesiante da imagem à capacidade de compreender e à decisão de agir. A crítica do espectáculo e o discurso do irrepresentável ocuparam então a cena, alimentando uma suspeita global sobre a capacidade política de toda a imagem. O cepticismo presente é o resultado de um excesso de fé. Nasceu da desilusão da crença numa linha a direito entre percepção, afecção, compreensão e acção. Uma confiança nova na capacidade política das imagens supõe a crítica deste esquema estratégico. As imagens da arte não fornecem armas para os combates. Elas contribuem para o desenho das configurações novas do visível, do dizível e do pensável, e, por aí mesmo, de uma paisagem nova do possível. Mas elas fazem-no na condição de não antecipar o seu sentido nem o seu efeito. Jacques Rancière, «L'image intolérable», Le spectateur émancipé, Le Fabrique, 2008, Paris, pp. 108-113. |
Ao pé da letra #42 (António Guerreiro) «Será possível salvar quem corre para o suicídio? Na semana em que decorre na cidade de Perugia um encontro com o nome de operação de emergência, Cinco dias para salvar o jornalismo, apetece recordar Hegel: “A leitura do jornal é a oração matinal do homem moderno”. Já não é possível atribuir aos jornais a função de socialização da cultura e emancipação intelectual. Mas talvez estes tenham ido longe demais, alienando-se do público culto, da “esfera literária”, no sentido que tal expressão ganhou na época do Iluminismo. | Exemplifico com o jornal que me proporciona a oração matinal, o Público. Na secção “Escrito na pedra”, citava-se na semana passada uma frase de Paul Celan: “A poesia é uma espécie de boas-vindas”. Quem conhece os textos em prosa de Celan sabe que ele não escreveu tal coisa, mas sim: “O poema é uma espécie de regresso a casa” (“Eine Art Heimkehr”). Alguns dias depois, na mesma secção, surge outra citação deturpada de W. Benjamin. Por trás destes descuidos está o pressuposto funesto de que o leitor é ignorante e nem ousa querer sair desse estado de menoridade. Daí a regra paradoxal em que vivemos: os livros e os jornais, na sua maioria, são editados para quem não gosta de ler e não aspira ao saber.» António Guerreiro, «Ao pé da letra»,Expresso-Actual, 4.4.2009. |























