Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Meros filmes em Dezembro


Viagem ao princípio do mundo
Manoel de Oliveira
1997, 95’
3ª, dia 2, 19h30 Cinemateca*, Lisboa


Gentlemen prefer blondes
Howard Hawks
1953, 90’
5ª, dia 11, 15h30 Cinemateca


Il gattopardo
Luchino Visconti

1963, 185’
Sáb, dia 13, 21h30 – Cinemateca

Rear window
Alfred Hitchcock
1954, 102’
6ª, dia 19, 15h30 – Cinemateca

[apenas filmes vistos, sem repetições]

Ao pé da letra #26 (António Guerreiro)

«A “novilíngua” de Orwell é um idioma não extinto

Quem leu a notícia de que “o trânsito nas estradas sofreu uma degradação” terá ficado a saber não que aumentaram os engarrafamentos, mas que diminuiu o volume de tráfego; e, no mesmo dia, quem leu num jornal francês que “o comércio natalício está menos agressivo do que no ano passado” percebeu que a notícia se destinava a deplorar a insuportável doçura dos Campos Elíseos em tempo de crise. A degradação do trânsito é o circular melhor; a agressividade é uma benevolência.

O que isto faz lembrar? A “novilíngua” (o “newspeak”), a língua da Oceania no livro de Orwell 1984. Com o objectivo de tornar impossível qualquer outro modo de pensamento, o Partido tinha chegado a três “slogans” perfeitos, formulados na sua língua oficial: “A guerra é a paz”, “A liberdade é a escravatura”, “A ignorância é a força”. Tendo em conta a grande lição de Orwell, pior do que não termos dinheiro para circular é sermos submetidos a uma inversão do sentido das palavras. Aí começa a mais infame e mais perigosa das espoliações. E se quisermos falar de “alienação”, uma palavra caída em desuso, temos de nos referir à operação política de expropriação da linguagem.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 29.11.2008.


«Nunca se deve vestir as melhores calças para sair a combater pela liberdade e pela verdade», diz uma personagem de uma peça de Ibsen. Logo, as pessoas que se vestem bem demais...


«One should never put the best trousers if one goes out to fight for liberty and truth», says a character of a play by Ibsen. So, people who dress too well...


What is the word
Samuel Beckett

folly –
folly for to –
for to –
what is the word –
folly from this –
all this –
folly from all this –
given –
folly given all this –
seeing –
folly seeing all this –
this –
what is the word –
this this –
this this here –
all this this here –
folly given all this –
seeing –
folly seeing all this this here –
for to –
what is the word –
see –
glimpse –
seem to glimpse –
need to seem to glimpse –
folly for to need to seem to glimpse -
what –
what is the word –





and where –
folly for to need to seem to glimpse what where –
where –
what is the word –
there –
over there –
away over there –
afar –
afar away over there –
afaint –
afaint afar away over there what –
what –
what is the word –
seeing all this –
all this this –
all this this here –
folly for to see what –
glimpse –
seem to glimpse –
need to seem to glimpse –
afaint afar away over there what –
folly for to need to seem to glimpse afaint afar away over there what –
what –
what is the word –

what is the word

[«My work is a matter of fundamental sounds (no joke intended) made as fully as possible, and I accept responsibility for nothing else. If people want to have headaches among the overtones, let them. And provide their own aspirin.»]

Ao pé da letra #25 (António Guerreiro)

«A avaliação tornou-se uma sofisticada ideologia

Os professores contestam o modelo de avaliação; o ministro português das Finanças foi avaliado pelo “Financial Times” como o pior ministro europeu das Finanças; a universidade espanhola ficou em último lugar numa avaliação das universidades de 17 países desenvolvidos. Eis, num só dia desta semana, três notícias sobre avaliação. Escolas, ministros, funcionários públicos ou privados: todos estamos sujeitos a este regime generalizado de avaliação, compreensível à luz do que Deleuze designou como “sociedade de controle”.

A avaliação usa um aparelho sofisticado de medições, regras e tabelas para se munir de caução científica e denegar a sua dimensão ideológica. E, ao ser denegada, a ideologia emerge como sintoma violento. O linguista, filósofo e psicanalista francês Jean-Claude Milner escreveu sobre esta questão um livro interessante: “Voulez-vous Être Évalué?”. Que diz ele? Que os avaliadores são os sofistas do nosso tempo; que a sofística da avaliação resolve sumariamente as questões dos critérios e da legitimidade dos avaliadores; e que o regime evita acima de tudo que se coloque a pergunta: quem avalia os avaliadores?»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 22.11.2008.

Ao pé da letra #24 (António Guerreiro)

«Para a Fnac, literatura é sinónimo de sector livreiro

Quem, como eu, acha que a crítica literária é uma coisa do passado, não pode deixar de ver uma confirmação das suas convicções num convite da Fnac Vasco da Gama, dirigido a “António Guerreiro – Literatura/sector livreiro – Expresso”. Esta maneira de formular o endereço vale por um ensaio. Pode ser que os sábios da Fnac, altamente especializados, não conheçam outra linguagem; também pode ser que, na tribo de que fazem partem, “sector livreiro” seja a “palavra maná”, o “significante-mestre” estudado pelos antropólogos;

mas um céptico como eu vê aqui a prova de uma justiça imanente: o “sector livreiro” é o nosso destino, e ele cumpre-se hoje quase da mesma maneira quando escrevemos sobre livros nos jornais ou quando os doutos da Fnac os seleccionam e os arrumam nos escaparates segundo os princípios da sua ciência. Não tenhamos dúvidas: na evolução do “sector livreiro” da Fnac, nas rearrumações sucessivas, podemos ver um trabalho crítico impiedoso, quase de extermínio. Não é que, enquanto empresa, não tenha o direito de o fazer; mas por uma questão de “bienséance” convinha que não visse em todos os que se dedicam aos livros trabalhadores do mesmo ramo.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 15.11.2008.

Sobre o involuntarismo de esquerda (André Dias)

Com a 11ª das suas Teses sobre Feuerbach – «Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo» –, Marx produziu a fórmula infinitamente glosada do voluntarismo de esquerda, que sobrevive ainda nas mais heterodoxas reformulações do marxismo. O lugar comum “transformar a realidade é possível” é o enunciado elucidativo deste programa voluntarista, na medida em que nele se denuncia a predeterminação da acção como plano ou em função de uma meta. Foi o malogrado François Zourabichvili, naquele que é porventura o mais brilhante ensaio sobre a filosofia de Gilles Deleuze, que entreviu a força inaudita do involuntarismo político de esquerda. Este assenta numa profunda e persistente divergência sobre o esquema de actualização, em que o possível, cuja realização se toma como esgotada, tem de ser concebido diferentemente como algo a criar.
É nalgumas das melhores expressões cinematográficas do pensamento que encontramos esta impossibilidade de antecipação. Desde a matricial obra de Samuel Fuller, no cruzamento histórico do seu aparente reaccionarismo político com a apreensão formal pela cinefilia, passando pelo revolucionário traidor em fuga de TERRA EM TRANSE de Glauber Rocha, à cegueira ideológica sobre a expressão inédita da pobreza na TRILOGY de Bill Douglas ou ao “Homem da enxada” não integrável politicamente em TORRE BELA, e culminando nas novas figuras políticas criadas por Pedro Costa, o cinema, para quem quis ver, esteve sempre perto das limitações do voluntarismo de esquerda.

Conferência Internacional Karl Marx

Sáb, dia 15, 16h30
Painel 21: Representando a Emancipação: o Comunismo nas Artes
com Luís Trindade Representar o comunismo e José Filipe Costa O cinema do fazer acontecer

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Auditório 2, 3º andar, Torre nova
Avenida de Berna 26 C, Lisboa

Aforismo demasiado longo derivado da tentativa infrutífera de ficar até ao fim num filme insuportável

Para fazer cinema, aprender-se-á certamente mais a analisar em detalhe um filme mal feito do que um bom filme. A mediocridade é neutra e serve a todos. Já os gestos cinematográficos conseguidos, que são heterogéneos uns aos outros, servem integralmente a apenas um, ao seu autor.
Os jovens que pretendam fervorosamente ser realizadores, depois de esclarecida a sua vocação e antes de ganho o estilo próprio, portanto, durante esse longo intervalo de tempo que para muitos nunca termina, devem abster-se e manter uma dieta estrita de filmes mal feitos vistos atentamente.

Advertência (Giorgio Agamben)

«Quem tenha familiaridade com a prática da investigação em ciências humanas sabe que, contrariamente à opinião comum, a reflexão sobre o método muitas vezes não precede, antes sucede a tal prática. Trata-se assim de pensamentos de algum modo últimos ou penúltimos, para discutir entre amigos e especialistas, e que só um longo hábito de investigação pode legitimar.
Os três estudos aqui reunidos contém as reflexões do autor sobre três problemas específicos de método: o conceito de paradigma, a teoria das assinaturas [segnature] e a relação entre história e arqueologia. Se estas reflexões se apresentam a cada vez como uma indagação sobre o método de um estudioso, Michel Foucault, sobre o qual o autor teve ocasião
nos últimos anos de muito aprender, isto é porque um dos princípios metodológicos não discutidos no livro que o autor deve a Walter Benjamin – é que a doutrina pode ser exposta legitimamente apenas sob a forma da interpretação. O leitor atento saberá fazer a destrinça entre o que, nos três estudos, deve ser remetido a Foucault, o que deve ser tomado em conta do autor e aquilo que vale para ambos. Contrariamente à opinião comum, de facto o método partilha com a lógica a impossibilidade de ser completamente separado do contexto no qual opera. Não existe um método válido para todos os âmbitos, tal como não existe uma lógica que possa prescindir dos seus objectos.
Segundo um outro princípio metodológico também este não discutido no livro de que o autor faz uso frequente, o elemento genuinamente filosófico em cada obra, seja uma obra de arte, de ciência ou de pensamento, é a sua capacidade de ser desenvolvida, que Feuerbach definia como Entwicklungsfähigkeit. Precisamente quando se segue um tal princípio, a diferença entre o que é devido ao autor da obra e o que é atribuído àquele que a interpreta e desenvolve torna-se tão essencial quanto difícil de aferir. O autor preferiu por isso arriscar atribuir a textos doutros o que vinha elaborando a partir deles, em vez de correr o risco inverso e apropriar-se de pensamentos ou percursos de investigação que não lhe pertenciam.
De resto, toda a investigação em ciências humanas
e portanto também a presente reflexão sobre o método deveria implicar uma cautela arqueológica, ou seja, regredir no próprio percurso até ao ponto em que algo permaneceu obscuro e não tematizado. Só um pensamento que não esconde o próprio não-dito, mas incessantemente o retoma e o desdobra pode, eventualmente, ter pretensão à originalidade.»

Giorgio Agamben, «Avvertenza», Signatura rerum. Sul metodo,
Bollati Boringhieri, Torino
, 2008, pp. 7-8.

Ao pé da letra #23 (António Guerreiro)

«Proteger os livros dos seus autores é, às vezes, urgente

Há um “book trailer” do último romance de António Lobo Antunes que é doloroso de se ver. O escritor, carregando todo o peso do mundo e torcendo-se sobre si, fala com voz lutuosa e diz: “Ninguém escreve como eu.” E daí passa a uma arte poética: “encher os livros de silêncio”; “os livros tratam todos de uma paisagem interior”; “a angústia do homem no tempo”; “a procura da natureza do homem”. Estes derrames de uma banalidade tão excessiva e tão enfática não podem, seguramente, ser interpretados em primeiro grau.

Ou o escritor representa diante de nós uma comédia ou há algo de indecifrável. Mas em nenhum caso aquele que fala assim sobre os seus livros pode ser o mesmo que os escreveu. Mas como esta dissociação é difícil de fazer, como é difícil evitar a contaminação recíproca dos dois planos, A. Lobo Antunes devia ser protegido de si mesmo, devia-se erguer um cordão sanitário entre o seu discurso público e a sua obra, entre os seus livros e o que diz sobre eles. Eu, que tenho sempre grandes hesitações quando leio os seus romances, e quando os acho maus não consigo deixar de pensar que talvez não os tenha sabido ler, gostaria de remover o obstáculo do “book trailer”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 8.11.2008.

Honras

Um cineasta ser convidado para uma bienal de arte contemporânea é mais ou menos o mesmo que ser homenageado na presença de ministros. O que parece uma honra, na verdade não é.

Meros filmes em Novembro


Masterclass
Harun Farocki
com projecção de Respite
Curso de Videoarte
3ª, dia 4, 18h30 Aud. 3, Fundação
Calouste Gulbenkian, Lisboa
[cf. «Aos leitores de Etty Hellisum*»
e
a pequena entrevista
«A interferência de Petzold-Farocki
*»]


Os canibais
Manoel de Oliveira
1988, 84’
4ª, dia 5, 19h
Cinemateca*, Lisboa

Necrology
Standish Lawder

1971, 11’
Cinematografia-coreografia
(prog. Pierre-Marie Goulet e
Teresa Garcia
com Ricardo Matos Cabo, Stéfani de
Loppinot e Cyril Neyrat)
Festival Temps d'images

5ª, dia 6, 19h30 – Cinemateca
com a presença de Cyril Béghin e Cyril Neyrat
[cf. «Necrologia*»]


Jean-Daniel Pollet
Le Horla
1966, 38’
Cinematografia-coreografia
5ª, dia 6, 22h – Cinemateca
com a presença de Alberto Seixas Santos,
Cyril Neyrat e Cyril Béghin


Iko shashvi mgalobeli / Era
uma vez um melro cantor
Ottar Iosseliani
1971, 93’
Cinematografia-coreografia
6ª, dia 7, 22h – Cinemateca
com a presença de Margarida Gil
[a obra-prima de Iosseliani,
um filme belíssimo a não perder]


Verj / Fim
1993, 10’
Kyanq / Vida
1994, 7’
Artavazd Pelechian
Cinematografia-coreografia
Sáb, dia 8, 15h30
Cinemateca
com a presença de Cyril Neyrat
e Maria Andresen


Mediterranée
Jean-Daniel Pollet
1963, 45’
Cinematografia-coreografia
Sáb, dia 8, 15h30 Cinemateca

Strategia del ragno
Bernardo Bertolucci
1970, 100’
Festival de Cinema do Estoril*
6ª, dia 14, 21h45 – Casino do Estoril

Le Stade de Wimbledon
Mathieu Amalric
2001, 80’
Festival de Cinema do Estoril
Dom, dia 16, 12h
Centro de Congressos, Estoril
com a presença de Mathieu Amalric


They live
John Carpenter
1988, 93’
2ª, dia 17, 19h Cinemateca
[cf. «Ironia ou ambiguidade*»]

Le papier ne peut pas
envelopper la braise

Rithy Panh

2006, 90’
3ª, dia 18, 21h30 Cinemateca
[cf. «Se o papel não pode...*»]

The desert people
David Lamelas

1974, 50’
David Lamelas* (prog. Jacqueline Holt,
sugerido por Ricardo Matos Cabo)
4ª, dia 19, 21h30
Culturgest, Peq. Aud., Lisboa

Tulpan
Sergei Dvortsevoy
2008, 100’
Festival de Cinema do Estoril*
5ª, dia 20, 17h – Casino do Estoril

The river
Jean Renoir

1951, 99’
Sáb, dia 22, 21h30 Cinemateca
[cf. «(o encantamento começa
e acaba no bosque)
*»]

[apenas filmes vistos, sem repetições]


Un día podía venir un día de viento, los membrillos se caen y se acabó... Antonio López, o pintor (e co-produtor) do filme EL SOL DEL MEMBRILLO de Victor Erice, numa fabulosa entrevista publicada nas Letras de cine.

Se habla de cine desde una perspectiva que nunca excluye cierta dimensión ética y, al discutir una película, se trata de esclarecer la posición del realizador frente a su obra. En cambio, es raro que en esas discusiones se elogie la actuación, la fotografía o el argumento, la típica conversación que identifica a los asnos cinematográficos en los festivales... Quintín, com a franqueza do costume, no excelente La lectora provisoria.

Ao pé da letra #22 (António Guerreiro)

«Sobre nadadores de terra firme e metáforas absolutas

Na versão de Durão Barroso, o “nous sommes embarqués”, de Pascal, declina-se assim: “Ou nadamos todos juntos, ou vamos todos ao fundo.” Passemos ao lado do pequeno desvio que ele imprime à metáfora náutica; mantém-se, ainda assim, o sentido existencial da metáfora do naufrágio. Trata-se de uma metáfora a que o filósofo alemão Hans Blumenberg chamou “metáfora absoluta”. As metáforas absolutas são, segundo Blumenberg, formas de pensamento que não podem ser redutíveis a conceitos, remetem para uma representação da realidade, para um pensamento, que não pode ser dito e reelaborado senão metaforicamente.


O expediente retórico de Durão Barroso é uma operação manhosa, e ilegítima: porque introduz a metáfora absoluta, que por definição exprime orientações que não podem ser desmontadas e regula o nosso juízo sobre as coisas, num campo que tem de estar sujeito à discussão e à crítica. Durão Barroso serve-se da metáfora absoluta para nos tornar a todos reféns de um pensamento que supõe uma Ordem do mundo e uma Certeza sobre ela. Eis em acção os mecanismos do pensamento totalitário em que estamos todos embarcados.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 1.11.2008.



Bye bye Youtube

Uma amiga interrompe a minha manhã de ressaca para me dizer que não consegue aceder a um dos vídeos que coloquei no Youtube. Acordo então para a notícia de que a minha conta foi “eliminada com carácter definitivo”. Tinha-a há bastante tempo para colocar os excertos de filmes que achava significativos, principalmente para depois os plantar neste blogue, acompanhando um texto ou assim. Não me interessava tanto o Youtube como armazém de vídeos e curiosidades, mas sim a possibilidade prática de aqui os inserir, fazendo conjugações várias com o texto e mostrando apenas o que achava relevante, exercitando a escolha. Foi assim que aprendi que, parafraseando Godard, a única questão verdadeiramente fundamental da cinefilia é a de onde e quando começar um excerto e onde o acabar.
Claro que esta prática pode ser considerada pirataria, e é portanto legítimo, ou melhor, legal, que apaguem a conta e os vídeos que lá estavam. Mas, do meu ponto de vista, esta actividade era inofensiva do ponto de vista comercial, pois não se substituia às obras e sempre recusei os pedidos para colocá-las no Youtube por inteiro. Infelizmente nunca consegui plantá-las apenas no blogue. Os excertos tinham que ficar públicos no Youtube para poderem ser aqui inseridos. Mesmo assim, para mim eram uma espécie de fair use, como os samples no rap ou as citações das obras literárias. Agora certos textos publicados deixarão de fazer sentido, pois foram escritos na base da presença dos excertos ao lado. Isto tem tudo que ver com o problema da descrição de que me tentei aproximar aqui.
Parece que o Youtube apaga as contas ao fim de algumas reclamações de “third parties”, ou seja, de detentores dos direitos sobre as obras cinematográficas ou algo de semelhante. A piada neste caso está em que não foram grandes distribuidoras de filmes muito conhecidos a queixarem-se, antes pelo contrário. Foram antes pequenas editoras, pelos visto mais que ciosas dos seus legítimos direitos autorais e pouco complacentes com o uso que deles podia ser feito e de eventuais vantagens na divulgação dessas obras assim.
A primeira queixa dizia respeito a um excerto de um filme de Pelechian, MENK/NÓS, cujas obras tinham sido editadas em DVD em Portugal. Usei esse excerto num post chamado «O que é um povo?» para o comparar com a utilização dessas mesmas imagens por Godard em LES ENFANTS JOUENT À LA RUSSIE. Era uma comparação que falava por si, extremamente elucidativa do brilhante método godardiano de maquinação rítmica baseada nos manípulos do vídeo analógico.

A segunda queixa foi feita pela Zipporah Films, Inc., a produtora de Frederick Wiseman, devido à utilização recente de LAW AND ORDER. Neste caso, a par do excerto, citava uma entrevista em que Wiseman descrevia a situação em que esteve mais próximo de parar de filmar devido ao que se estava a passar em frente à câmara. Este mesmo excerto foi apresentado pelo próprio Wiseman na sua masterclass do DocLisboa, embora com um corte diferente.

A terceira queixa, e provavelmente a decisiva, veio da Milestone Film & Video, a propósito da utilização de um excerto de THE EXILES de Kent MacKenzie. Neste caso não tinha escrito ainda nada sobre o filme e coloquei o meu excerto preferido do filme apenas com a intenção de divulgar a sua projecção recente na Cinemateca.

O pior de tudo foi perder os excertos já construídos, por exemplo a partir de fontes VHS, e ainda não tornados públicos, que estavam à espera de inspiração textual ou de uma projecção pública que os justificasse.
Um dos paradoxos destas pequenas ilegalidades, tantas vezes inerentes aos próprios novos media, é que ao mesmo tempo que este tipo de uso não comercial é combatido por estas pequenas distribuidoras, é possível encontrar todos estes filmes, completos e muitas vezes em formato de DVD, em ficheiros torrent fora do Youtube. É pena apenas que tenha deixado de os poder partilhar com vocês.

Desconfianças


«Todo o cinéfilo desconfia da famigerada “relevância sociológica” (ou “política”, ou nalguns casos “cultural”). Quando, a propósito de um filme, se destaca mais a intensidade com que ele reflecte certos assuntos que estão na ordem do dia e a quantidade de
discursos que sobre eles o filme (tornado transparente) permite engatilhar. “A Turma” corre esse risco de se dar a ver como mostruário, “self service” temático de menu “urgente”: a educação, a organização da escola, o multiculturalismo, a integração e a inserção, enfim, uma agenda facilmente confundível com as colunas de opinião na maioria dos jornais e revistas.»

Luís Miguel Oliveira, Público-Ípsilon, 31.10.2008

Todo o cinéfilo desconfia...
Luís Miguel Oliveira tem certamente razão no que diz. Mas o que é mais interessante é que leve suficientemente a sério o seu papel de crítico, no sentido forte da palavra, de modo a inserir algumas observações, que poderiam ser antes as de um ombudsman ou provedor dos leitores, no próprio local da recensão crítica de um filme. E, de facto, a mesma edição em que a sua crítica é publicada dá-lhe razões de sobra. Tanto a capa como oito páginas oito (!) deste suplemento são dedicadas ao referido filme. Claro está, essas páginas estão pejadas precisamente, nos comentários e nas reportagens que incluem, das temáticas que o crítico indica. Como não vi o filme, não é por aí que posso avaliar da justeza de tal destaque. Mas não é sequer essa a questão, pois é facilmente demonstrável que não há relação alguma entre a relevância cinematográfica dos filmes, mesmo medida nos termos pobres das estrelas, e a amplitude dos destaques que são dados.
Dá-se que sou ainda, e há muito tempo, leitor deste jornal e reconheço aqui um padrão. Por um lado, a atenção desmedida a certos objectos e acontecimentos culturais; por outro, a negligência absoluta com muitos outros. Por exemplo, capa e oito páginas para o último filme de Tim Burton; capa e oito páginas para o último DocLisboa, etc. Aliás, dos festivais de Lisboa o Público tornou-se mesmo o órgão oficial. Portanto, se todo o cinéfilo desconfia... há, no entanto, porventura outras coisas mais graves de que até mesmo um cinéfilo deve desconfiar.



A saber: até que ponto os critérios editoriais não estarão a mascarar outro tipo de critérios eventualmente menos legítimos. Custa a crer que seja por livre exercício do abrangente critério jornalístico, neste caso cultural, que se fomente esta desproporção.
Ainda recentemente, e em plena orgia suicida dos mercados financeiros, estreou YELLA de Christian Petzold, um filme precisamente “sobre” capital de risco, ou seja, sobre a especulação financeira. No entanto, o filme foi descartado rapidamente pelo Público com apenas duas menções críticas negligentes. Nada que se assemelhe a uma página, quanto mais oito. Tal discrepância justificar-se-á apenas com critérios editoriais? Ou haverá outras razões, relacionadas com o funcionamento próprio dos jornais e dos meios de comunicação em geral nas nossas sociedades? Tratam-se de perguntas que faço. Não sei as respostas de antemão. Nunca fui jornalista, não conheço os seus métodos de trabalho em pormenor. Mas há sinais evidentes de uma promiscuidade cada vez maior com as agências de informação e os dossiês de imprensa, em que já custa a distinguir o jornalismo cultural da publicidade. O informercial do cinema chega à imprensa escrita em força.
É verdade que o Público até é a excepção, dado que os restantes jornais há muito se demitiram de veleidades. Por exemplo, no moribundo suplemento Actual do Expresso o cinema parece algo de que se deve ter vergonha. Mesmo Francisco Ferreira, que até já entrevistou o realizador de YELLA e lhe teceu laudas então, quando era desconhecido em Portugal, agora que o filme estreia não quis ou foi impedido de escrever sequer uma linha. Depois admirem-se que alguns filmes fiquem apenas duas semanas em cartaz. A propósito, ENTRE LES MURS é distribuído pela Midas de Pedro Borges e YELLA foi-o pela Atalanta de Paulo Branco. Veremos se a cobertura que será feita ao Festival de Cinema do Estoril será igualmente entusiasmante, já que tem um programa no mínimo relevante, mas é organizado por este último, que parece ter gerado bastantes anticorpos ultimamente, a par das suas dificuldades financeiras.



Era necessário esclarecer como acontecem estas coisas, perceber em detalhe como se forma o critério editorial. Uma coisa tão simples como a de fazer um gráfico que relacionasse o número de páginas na imprensa e as semanas em cartaz já ajudava a perceber alguma coisa. Seria um dado para ajudar a um jornalismo de investigação também centrado no jornalismo, porque não? Ou estão os meios de comunicação num ponto cego e inatacável? Como dizia o documentarista americano Frederick Wiseman, muito pouco dado a queixumes, os meios de comunicação são das instituições menos transparentes que existem. Uma das poucas recusas que terá tido, para realizar um dos seus filmes “institucionais”, foi a de um jornal americano. Isto nos EUA, onde essa transparência, ao contrário do que poderíamos ser levados a crer e como provam os seus filmes, é transversal. Imaginem por cá. Também por isso, desconfiemos... mas de tudo.

A mão na boca #2: Mostrar/escrever


Um problema metodológico sério com que se confrontam aqueles que escrevem sobre cinema é o da descrição. Na ausência de imagens ou de excertos de um determinado filme, algo que tem vindo a ser colmatado com as novas combinações de texto-imagem fixa ou em movimento em blogues e revistas de cinema online, como fazer passar o importante para que haja uma apreensão suficiente daquilo que o filme ou a cena são? Como descrevê-la de forma a que a partir dela se estabeleça um terreno relativamente comum onde depois se possa inscrever a partilha da compreensão de um aspecto desse filme? Há o perigo desse terreno comum ser tão estreito, seja por a descrição ser afinal curta ou simplesmente desadequada, que nada possa ser acolhido. Mas o perigo oposto é ainda pior. Cair num cansativo relato de todos os pormenores da acção, da imagem ou do som, que se revelam afinal irrelevantes. Não é difícil pecar por defeito ou por excesso quando se tenta descrever um filme sem ter por fim a descrição. É precisamente no excesso que caem muitas vezes os “críticos” amadores ou os académicos menos inspirados, com relatos intermináveis da estória que, não aquecendo nem arrefecendo, servem apenas para tapar a ausência de algo a dizer.


Quando escrevemos a primeira vez sobre aquilo que nos tinha espantado em ISTORIYA ASI KLYACHINOY, KOTORAYA LYUBILA, DA NE VYSHLA ZAMUZH / A FELICIDADE DE ASSIA (1967) de Andrei Konchalovsky, em «A mão na boca #1: Definição da censura», não tínhamos nenhumas imagens disponíveis para acompanhar o texto. Aliás, mesmo que tivéssemos alguma imagem disponível, provavelmente não a teríamos usado, dado que tentavamos descrever/definir algo de tão particular que não serviria uma imagem qualquer, encontrada online, mesmo que correspondendo à cena a que nos referíamos. Tal uso podia até ser contraproducente, por desviar a atenção do particular em que nos concentrávamos. Por essa mesma razão muitas vezes não se usam imagens para acompanhar os textos, com prejuízo para a atractividade geral deste blogue.
Dizíamos então, nesse primeiro texto, que, confrontado ao que tínhamos visto numa cena particular do filme, e incapaz de logo a definir, nos víamos obrigados a tentar descrevê-la. Era como se estivéssemos a tentar repetir pelo texto o efeito que a visão da cena nos tinha provocado. Talvez seja essa uma das equívocas tentações da descrição.


Tendo apenas a memória de uma visão em sala, centravamo-nos naturalmente naquilo que nos tinha marcado, voluntária ou involuntariamente, pouco importa, nas imagens e nos gestos. Em particular nas que contribuíam para o que procurávamos descrever/definir, que era a forma mais extrema e inocente de censura, assentava então a descrição.
Na ausência da imagem (e quando se diz aqui imagem é num sentido lato, incluindo também o som e todo o bastante que o cinema comporta) corre-se um risco maior, para alguns incomportável, de se poder estar a levar demasiado longe a especulação no que dela ausente se diz. Cresce a suspeita de que possamos estar simplesmente a projectar coisas que não estão lá, e cuja presença só a imagem poderia provar ou desmentir. Esta prova em si parece-nos bastante desinteressante, já que é apenas uma confirmação (ou não) de algo que custou criativamente a formular. Mas há quem retire desses actos de gestão todo o seu entusiasmo. Como dizia um professor, “se contra factos não há argumentos, então que se lixem os factos!” Salvo que a imagem cinematográfica raramente se reduz a factos, o que não faz dela, contudo, algo de impreciso.
Algum tempo depois desse primeiro texto encontrámos uma cópia vídeo do filme, legendada em inglês, num daqueles ficheiros informáticos que circulam pela Internet e que constituem já, no seu conjunto babélico, o maior arquivo cinematográfico.

O que é algo a que as cinematecas terão de aprender a confrontar-se, pois mesmo tratando-se de um acesso e de um visionamento completamente diferente, ainda assim coloca a questão da raridade das obras num outro ponto. Como as coisas estão, não faltará muito para que, em cópia boa ou má, esteja disponível online a quase totalidade da produção cinematográfica, em forma pirateada. Será esse o princípio em que terá de se basear a programação futura. Ou, pelo menos, contar seriamente com ele. E não o inverso, aquele que se aplica hoje, o princípio da raridade, em que a projecção de uma obra se considera a excepção.
Com a possibilidade de rever o filme, ainda que noutras condições, pudemos então confrontá-lo com o que escrevemos anteriormente. Mas esse novo visionamento não nos deu vontade alguma de reescrever o que estivesse incorrecto ou menos claro no texto anterior, mas antes suscitou a tentativa de outra aproximação. Uma aproximação que, em vez do par descrever/definir, tentasse mostrar/qualquer coisa. Ou seja, tentar perceber se ficou algo por dizer tendo as imagens fixas, os fotogramas, como matéria. E que natureza teria esse algo por dizer, se uma de pendor mais descritivo ou, pelo contrário, mais especulativo. Com as imagens perto, pode afinal ser mais difícil voar...



A cena geral que tentávamos definir tem, na verdade, quase dez minutos de duração. Mas aquilo que nos tinha criado perplexidade abrange em particular pouco mais que três minutos. E o seu centro é um gesto rápido de dois ou três segundos. O restante, o próprio relato do velho, não é acessório, no entanto. Cria um contexto, uma seriedade, que amplifica o gesto da criança, mesmo que a posteriori.

Ao rever, a primeira surpresa, aquilo que não nos lembrávamos de todo, era que o gesto da criança era afinal precedido, logo no início da cena, por um breve grande plano do rosto do velho em que a criança, ou melhor, as suas mãos já surgiam passando sobre o rosto dele. Os dedos da criança sentiam a cova do olho e afagavam a sua barba carinhosamente.

Que sentido pode Konchalovsky querer dar ao antecipar desta forma, partamos desse pressuposto, o gesto da censura? Mostrar a familiaridade da criança com o velho, com o seu corpo, estabelecendo desde o início que o outro gesto de censura não adviria da estranheza, da falta de conhecimento, mas antes pelo contrário? Talvez mais simplesmente que nem a simples proximidade corporal seria inédita na cena. A criança já teria ali estado, com as suas mãos naquele rosto enrugado, e repetiria a brincadeira doutra forma. Estabelecia assim uma continuidade, que contribuirá para a ambiguidade da cena, entre aquelas carícias de criança, no seu à-vontade e curiosidade pelo corpo de outrém, e o gesto de censura de que devia ser incapaz.


Depois disto a cena prossegue ainda longamente com o relato por parte de outra personagem de uma história de amor, bem como por outras considerações de carácter romântico. Talvez seja isso que motiva o velho a perguntar-lhes se querem ouvir como a mulher dele o encontrou quando saiu da prisão. O homem ao seu lado, apaixonado pela protagonista feminina que dá nome ao filme, pergunta-lhe porque cumpriu tempo na prisão. O velho responde que foi por nada e começa o relato neste plano mais aberto.




É aqui que a criança se aproxima sorrateira, pouco depois do velho começar a falar. Devagar, a criança atravessa de lado a mesa defronte à câmara e, quando o velho acaba de mencionar que tinha estado num campo, salta de repente com o braço estendido, a mão dirigida à boca do velho, para calá-lo. Era só uma brincadeira...

Vendo assim percebe-se a tremenda subtileza do gesto do realizador, talvez motivado pela argúcia de tentar circundar a censura, o que não terá conseguido, diga-se. De facto, este gesto da criança pode também ser apenas uma brincadeira. Uma criança que impede alguém de falar pelo simples prazer de cortar esse fluxo, de o interromper. Um contraponto à seriedade que antecipa, da qual não quer participar, que não percebe. Mas esta leveza não torna o seu gesto menos poderoso, menos terrível. A coincidência é ainda assim brutal.
Ou talvez fosse uma maneira de Konchalovsky tornar a censura imanente, explícita e interna ao filme. Não havia maneira de evitar aquele gesto inesperado, inofensivo, da criança. Não haveria maneira da censura se colocar fora do filme. A não ser talvez cortando a cena por inteiro, que no entanto se liga com outras. Seria curioso conhecer a versão censurada deste filme, para nos apercebermos do que mantiveram desta cena, de que magias de montagem a censura era capaz. Talvez escreva a Konchalovsky a perguntar...










Em seguida, a reacção dos presentes, inclusive do velho, é jovial, descontraída. A reacção normal perante a brincadeira de uma criança. E esta criança, mantendo a mão na boca, vira a face para trás e olha para os outros, procurando confidentes, solidariedade na brincadeira. A criança abre abrindo um sorriso malandro. Este olhar impressionou bastante na sala, pois sentimo-lo quase dirigido também a nós, procurando solidariedade também entre nós, espectadores. Bastava que ela se tivesse virado apenas mais um pouco e seria explícita essa solidariedade. Mas seria demais. Seria um olhar para a câmara terrível. E desnecessário, pois já estávamos implicados.

Mas Konchalovsky irá, e também nos tínhamos esquecido disto, marcar de forma bem menos subtil, mas provavelmente também necessária, o fim desta parte da cena com dois elementos que fazem absolutamente exceder o âmbito da simples brincadeira, ainda que sob a forma ligeira de uma piada e de um olhar.
O homem defronte ao velho, rindo-se, diz à criança para deixar o avô dizer a verdade. Não me lembro se já antes nos teríamos apercebido se era o seu avô ou não, mas pouco importa aqui. Precisamente, o grande plano do rosto do velho com as mãos da criança tinha estabelecido essa familiaridade, sem precisar de a denominar. E riem-se todos, menos o outro homem, que ficando sério, à piada reage com um olhar menos inocente, não sabemos se censório ou se cínico, e baixa imediatamente os olhos, pensativo.
De todas as formas, é um olhar que quebra o tom relativamente alegre com que a brincadeira da criança e os seus efeitos tinham tintado o relato do velho sobre a sua prisão. E que nos remete sem alternativa para a consciência de que mesmo aquele gesto, simples e tão bonito afinal, esconde algo de terrível, de pesado, de irremissível. Talvez seja esse o dom desta cena, a sua capacidade para mostrar como a censura se torna insidiosa, inescapável. Capaz de tornar até uma brincadeira de criança num gesto perigoso.

O humor colectivista (DocLisboa #14)

De entre os “clássicos e obras primas absolutas dos mais reconhecidos cineastas polacos”, traduzindo, por entre as manifestações algo assustadoras de realismo socialista do Wadja do início dos anos cinquenta e as ironias acinzentadas do Kieslowski dos anos setenta, do ciclo Curtas Polacas sobressaiu principalmente a vitalidade cómica do Marcel Lozinski do início dos anos oitenta.
Em especial com PROBA MIKROFONU/MICROPHONE TEST (1981) e EGZAMIN DOJRZALOSCI/MATRICULATION (1981), Lozinski explora bem o potencial humorístico das estruturas colectivistas dos países socialistas. Havia ali, naquelas experiências sociais gigantescas tornadas realidades concretas, quem sabe se por cínicos terríveis ou ingénuos crédulos, talvez pela combinação dos dois, um substrato tremendo para a comicidade. Era a própria realidade que era cómica. Um pouco como em TORRE BELA e em alguns outros filmes da Revolução ou do P.R.E.C., em que aquilo que é pungente, a espontaneidade popular, é também fonte de um humor que não tem de ser necessariamente azedo, que não se presume superior àquelas emoções colectivas. Está bem de ver que, com o tempo e o falhanço da concretização de algumas dessas tentativas, o humor não terá de todo diminuído, mudando também de cariz. Mas talvez o humor já então estivesse inscrito naqueles sistemas como válvula de escape. Na altura, o potencial disruptivo dos filmes de Lozinski na Polónia e em todo o Leste poderia ter sido assinalável, se estes tivessem sido efectivamente vistos e não censurados, como foram. >


Vejamos: em PROBA MIKROFONU um radialista de uma fábrica de cosméticos interroga os trabalhadores sobre a sua participação na gestão da fábrica, ao que eles respondem, destreinados ou despreocupados, que não têm nada a dizer e que a direcção da fábrica é que decide tudo. Politicamente incorrecto do momento auto-gestionário, claro está, e amplamente negado numa reunião muito democrática e concorrida em que a direcção colectiva da fábrica, através de fórmulas extremamente elaboradas e deliciosamente codificadas, mas muito claras também, dá a entender que não seria útil a emissão da dita reportagem.
No segundo, EGZAMIN DOJRZALOSCI, um conjunto de jovens aguarda por um exame oral de Ciência Política, onde, à medida que saem relatam as perguntas que lhes fizeram e o modo como desavergonhadamente repeteriram o vocabulário codificado do regime e do Partido a professores conscienciosos, de forma a poderem passar e aceder aos cargos do Estado. É toda essa passagem que é descrita, entre a consciência alegre dos jovens, acerca das insuficiências e puras mentiras que o regime faz circular como seu discurso oficial, e a aprendizagem do cinismo, que lhes permite dizê-las sem perder a face ou desatar a rir. Uma verdadeira prova de agregação!
No entanto, algo preocupa enquanto nos rimos destas tentativas sociais ou destas estruturas colectivistas. Não estará o nosso riso habilitado na exacta medida da cegueira que temos em relação às nossas tentativas e estruturas capitalistas, para as quais somos hoje quase insensíveis? Serão por essência as estruturas colectivistas, ou esforços voluntariosos semelhantes, particularmente cómicos? Talvez sejam. Agora rimo-nos um pouco daquele ridículo de outrora, como se já tivéssemos ultrapassado definitivamente tal estado. Mas o estado do ridículo é simplesmente inultrapassável. E se calhar ainda bem que o é. Aguardemos apenas que a nossa própria realidade capitalista e mediática seja também ela adequadamente descrita sob o eixo do humor. Apesar de algumas boas expressões, como a série inglesa The Office ou o cartoon Dilbert, esse eixo está ainda por explorar a fundo. A crise financeira, por exemplo, fornecerá material de sobra. Só então, quando o humor se apropriar do sublime espírito do capitalismo quotidiano, se revelará verdadeiramente aquilo que vivemos. Que bom será então, quando daqui a uns belos anos, alguém for capaz de mostrar que isto que vivemos, com tanta convicção ou apenas forçados pelas circunstâncias, era afinal um esforço do mais patético. Então mereceremos, da por sua vez inconsciente superioridade desse presente, um riso igualmente superior que nos reduzirá à insignificância.

A ciência oculta do projeccionismo (DocLisboa #13)

Os leitores sabem do meu particular fascínio por essa actividade pouco exposta ao escrutínio público que é o projeccionismo. Quer dizer, há muita gente a projeccionar, e a projeccionar-se então nem se fala, mas conhece-se pouco das angústias do dia a dia escuro desses homens lá atrás na cabide de projecção, e ainda menos das contribuições que trazem regularmente à arte cinematográfica. Que os senhores projeccionistas sejam criaturas bizarras, entende-se. Não praticam eles uma ciência oculta? Como poderiam ser doutra maneira? Clãs outrora numerosos e respeitados, de tradições passadas de geração em geração, estão agora reduzidos a indivíduos experientes mas isolados, ou a jovens arrivistas sem a compreensão da grandeza do seu métier. Uma achega aos seus contributos, é o que proponho hoje...

No Cinema Londres, ali para os lados da agradavelmente decadente Avenida de Roma, para além da já referida dificuldade inultrapassável, como é próprio das grandes questões ontológicas, em projectar 16mm, ficámos a conhecer recentemente, graças aos esforços pedagógicos do seu projeccionista, a invenção de um novo modo de enquadrar, que teria sido perpetrado pelos cineastas polacos de curtas metragens. Apesar dos seus estilos assaz diferentes e de terem realizado os seus esforços em décadas diferentes, Andrzej Wajda, Marcel Lozinski e Krzysztof Kieslowski teriam partilhado uma inovação no modo de enquadrar que é muito sugestiva. Nesse novo modelo, as cabeças das pessoas eram cortadas constantemente pela testa, os corpos eram impulsionados para o topo do ecrã, criando uma dinâmica vertical assombrosa, como que sugerindo, certa e insidiosamente, a opressão do sistema comunista sobre as mentes dos cidadãos. >
Fomos depois informados, por nossa infeliz inquirição, que afinal é o Londres que não consegue projectar formatos em 35mm abaixo da lente de ampliação 1:1,66 que possui, o que deixa de fora muito do cinema clássico, entre outras raridades. Mas num festival de cinema quer-se sobretudo modernices actuais, portanto, que importa? Decepcionados e ainda um pouco desconfiados, pois quem prefere uma má ideia verdadeira a uma boa falsa, não é?, tivemos que aceitar a explicação. Na verdade, a nossa crença nesta inovação espectacular dos cineastas polacos tinha sofrido logo de início algumas dificuldades em estabelecer-se, pois a imagem no início da projecção andava de cima para baixo até acertar com as legendas dentro da tela, quase que parecendo que a única coisa que importava era se as letrinhas ficavam dentro ou fora. Privilégios infindáveis do texto! Na verdade, a inovação tinha sido do nobre e ambicioso projeccionista, que sob a involuntária preocupação de pôr pelo menos as legendas dentro da janela, tinha cortado as cabeças, tanto que ficava de fora na imagem. Mas, que não restem dúvidas, mesmo que involuntária, uma pequena “inovação” de um projeccionista em Lisboa pode mudar a História do Cinema Mundial. Ah, se eu tivesse sido menos inquiridor!
Também no Grande Auditório da Culturgest pudemos assistir ao nascimento, não de uma inovação no modo de enquadrar, mas de todo um novo formato. Frederick Wiseman, incitou mesmo o público a louvar a organização, por a projecção dos seus filmes merecer tal homenagem e baptizou na hora o novo formato de WobblyScope (de wobbly: tremido). De facto, os seus filmes em 16mm e, valha a verdade, pelo menos aqui projectados em 16mm, pareciam ter Parkinson, tal a tremideira que os afectava.


Também aqui o projeccionista procurava inovar, não apenas ao estabelecer uma relação entre a idade de Wiseman e a doença que afecta tantas pessoas, num comentário sardónico pouco correcto, como sobretudo no sentido de evidenciar as dinâmicas instáveis que afectam contemporaneamente as instituições que Wiseman retrata.
Mas não se pense que os projeccionistas do Pequeno Auditório da Culturgest ficam atrás! Embora aqui seja toda uma outra escola, já não centrada nas relações dinâmicas, mas mais ambiciosa pedagogicamente no que respeita ao jogo subtractivo imagem-som. É sabido o quanto a análise das relações imagem-som constituem o zénite da cinefilia formalista e quanto o conhecimento íntimo dos filmes avançou pela subtracção à vez de um ou outro desses elementos. Foi nesse filão pedagógico mais avançado que se inseriu o projeccionista da sessão que incluía a curta-metragem documental GONG GONG CHANG SUO/IN PUBLIC de Jia Zhang Ke, aliás bem interessante e adequada a tal tipo de experimentação. É evidente que os projeccionistas mais ambiciosos lutam constantemente contra a incompreensão de uma quantidade de espectadores menos disponíveis para a aprendizagem, agarrados que estão às velhas maneiras estagnadas de ver cinema. Mas, por uma vez, este projeccionista pode contar com a credulidade generosa do público presente, a minha incluída, porventura levado ao engano pela expectativa de se tratar de uma inovação do próprio realizador, pois nunca se sabe e não se quer ficar mal. Pudemos assim assistir à inovadora projecção do filme inteiro sem som, sem por uma vez se ouvir alguém reclamar. Foi bom de ouvir!

Caixote do lixo (DocLisboa #12)

Uma das melhores formas, se não mesmo a melhor, de aferir o estado de saúde de um festival é vasculhar no seu caixote do lixo – a Videoteca. Nesse grande salão dos recusados encontra-se de tudo um pouco, como já o ano passado tinha referido. E pelas recusas, se conseguirmos ler nelas as intenções dos programadores, como os Antigos liam as vísceras, percebe-se alguma coisa. Claro que é dificílimo, pois, na esmagadora maioria dos casos, apenas pelo nome do filme e do realizador é muito complicado ter dados para sequer suscitar a curiosidade. A verdade é que este ano encontrei por lá muito menos substância, mas talvez bastante mais sintomática. Assim, que faziam por lá TULPAN de Sergei Dvortsevoy e NOW SHOWING de Raya Martin, filmes badalados do circuito dos festivais internacionais? E OF TIME AND CITY de Terence Davies, realizador ainda recentemente programado na Culturgest? Já para não falar de RAZZLE DAZZLE do experimental Ken Jacobs. O primeiro, confirmei depois, não foi propriamente recusado, e é um belo filme. Mas o segundo sim. É um direito que assiste aos programadores, fazerem recusas significativas, como fazem escolhas e impõem destaques. Para as pessoas atentas, trata-se apenas de os comparar a posteriori. Para mim, talvez injustamente, o DocLisboa 2008 transformou-se no festival que escolheu e destacou AFTERSCHOOL e HUNGER, ao mesmo tempo que “recusou” TULPAN e NOW SHOWING, com o que isso implica. Diga-se que este último filme acabei por não o ver, mas apenas porque a sua duração excessiva e má cópia me avisaram para uma experiência dolorosa. Mas de coisas sonantes era só isto. Um festival fora de circulação ou apenas ano de má colheita?
Ainda um lamento repetido. Claro que não é o mesmo ver um filme num televisor e numa sala de cinema. Mas, se o lixo é melhor do que as iguarias que nos servem na sala, que podemos nós fazer? E, por falar em lixo, já não se constróem televisores decentes? Os Sony da Videoteca faziam aquele efeito esborratado que tem o serviço digital da Tv Cabo devido ao sinal comprimido. Uma miséria! Sem falar nas opções de formato do ecrã que me deixam à beira da loucura. Não sei se já repararam, ou se não se importam de ver os filmes cortados a torto e a direito, mas nos televisores Sony existem cinco modos: o Expandido, o Inteligente (!), o 4:3, o 14:9 (sic! uma “invenção” da Sony), e o Zoom. Na maior parte destes modos a imagem fica ou completamente cortada ou estupidamente deformada. A preocupação das gentes é que encha as medidas. Horror ao preto do ecrã! Enquanto que na sala o preto está lá para alguma coisa e é muito bem-vindo. Mas, com certos filmes neste televisores, dá-se mesmo o caso de em rigorosamente nenhum dos modos se ter a certeza de simultaneamente se ver a integralidade da imagem e se estar a respeitar as proporções. Estou concerteza a pedir muito. Com tantas pessoas com vergonha do corpo com que vieram ao mundo e generalização da cirurgia estética, as proporções do corpo humano tornam-se finalmente acessórias.

Deterioração (DocLisboa #11)

Um dos filmes mais interessantes deste ano foi o raro VIDEOLETTER (1983) de Shuntaro Tanikawa e Shuji Terayama, programado por Augusto M. Seabra no seu Diários filmados e Autoretratos. Trata-se de uma série de subtis cartas-vídeo trocadas entre dois artistas japoneses. A sua projecção foi particularmente acidentada, mas não daquele modo que cria enervamento. É mais como se algo da fragilidade da composição da obra se tivesse estendido à projecção. Esta concordância é muito mais aceitável do que a negligência habitual. O formato vídeo em que estas cartas-vídeo terão sido filmadas é provavelmente o Hi8, que se caracteriza pelo desbotamento a cores berrantes. A projecção terá sido feita a partir de um formato vídeo também ele extremamente frágil, senão mesmo no original Hi8, pois a imagem era constantemente afectada pelas insuficiências técnicas, que, diga-se, têm plasticamente o seu quê de belo.
Num momento particularmente pungente, já não me lembro qual dos dois autores evocava a sua história familiar através da filmagem de algumas fotografias antigas a preto e branco da sua mãe. A falha arrastada que rompia o ecrã, atravessando-o de uma ponta quase à outra, tornou-se por momentos insustentável e o ecrã ficou neutro cinzento, como que desligado, sem fonte. O leitor ou o projector terão simplesmente recusado ler a informação deteriorada pelo tempo. Por um momento a técnica pôs-se de acordo, deteriorando a própria evocação. Senti aquele vazio como muito apropriado. E, mesmo que não constando originalmente da obra, ficará para mim sempre associado a ela.

Estatuto (DocLisboa #10)

A grande desvantagem de entre as consequências da política dos autores, não sou o primeiro a reparar nisso, é o empolamento constante que é feito de filmes menos conseguidos, mas realizados por autores reconhecidos, com o correspondente menosprezo de filmes mais interessantes, mas cujo realizador nunca (ou ainda não) chegou a atingir esse malfadado e, no entanto, ainda útil estatuto de autor. Muitas programações podem alimentar-se quase exclusivamente dessas obras falhadas, apelando sobretudo a esse reconhecimento. Um nome qualquer, mesmo que não primariamente do cinema, alimenta muito mais curiosidade para um filme do que o de um desconhecido, é natural. As obras não nascem mesmo todas iguais.
Esta fixação no estatuto é um pouco o espelhamento nos cinéfilos da experiência não-selectiva do espectador comum. Este, seja porque razão for, não escolhe em geral os filmes de acordo com a sua experiência acumulada e acaba por repetir muitos desgostos. A cinefilia é a meu ver, e antes de mais, o método de os impedir.
Nos cinéfilos, exerçam estes ou não a difícil e restrita arte da programação, este privilégio do estatuto acaba por empolar obras cujo esquecimento seria bem mais benéfico, elevando-as numa rede de referências biográficas ou históricas que apenas aparentemente justificam a sua recuperação. Claro que esta situação de empolamento é também, ao mesmo tempo, a maior esperança que um cinéfilo pode ter no contínuo abastecimento dos recursos de que precisa para alimentar a sua cinefilia devorante. Se fizermos contas ao mal conhecidas que são certas obras contemporâneas de primeira ordem, imaginem o que não poderá estar escondido, soterrado debaixo dos empolamentos de um século inteiro, em particular após a cisão a meio caminho entre o cinema popular e os outros. O acto de programar terá apenas que se tornar um pouco mais arqueológico, em vez de grandiloquente-historiográfico. E, principalmente, assentar no valor intrínseco, na potência particular interna de cada obra. Sem essa equivalência primária entre todas as obras, que destitua o estatuto, nada feito.

Boxe (DocLisboa #9)

Ver certos filmes é um pouco como levar porrada num ringue de boxe. Entramos dispostos a isso, mas com a esperança que tal não aconteça. Logo de início sujeitamo-nos aos golpes mais duros, alguns deles abaixo da cintura ou mesmo ilegais. Nada que se compare à selvajaria do kickboxing, no entanto. O nosso corpo debate-se cansado, esgotado, com as ideias confusas, tentando defender-se. Porque não desistir e cair no tapete? Seria, sem dúvida, mais saudável. E o cansaço prolongar-se-á muito tempo depois do combate terminado. Mas há algo de tortuoso que nos prende ali, que nos faz persistir no encontro contra aquele outro corpo maligno, desenhado para nos torturar ao máximo, para nos subjugar. São muito apreciados, certos filmes massacrantes.
Mas, assim ao de perto, enquanto notamos o prazer que tomam em nos magoar, em nos subjugar, em fazer dano, percebem-se melhor, bem melhor do que se tivéssemos abandonado antes, as suas limitações, a sua verdadeira pequenez, a sua miséria. Nem todos os dias nos sentimos capazes de contemplar a massacrante pequenez alheia, mascarada de grandeza estética. Queríamos era ser como Muhammad Ali no mítico combate contra George Foreman no Zaire em 1974. Aguentar os golpes dançando, iludindo o cansaço, e, bem no fim, experimentar a reviravolta impensável com uma simplicidade nunca vista. Mas que reviravolta pode experimentar um espectador de cinema sujeito aos filmes-George Foreman vestidos de artista? O que criar de toda a subjugação?


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