Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias


Luís Miguel Oliveira, Público-Ípsilon, 6.3.2009.

Ao pé da letra #38 (António Guerreiro)

«Há livros que aparecem como uma fraude editorial

Uma cláusula de prestígio e beneficência –ainda não completamente extinta, por inércia  protege os livros e a edição. No entanto, é preciso começar a contar cada vez mais com os livros que se apresentam ao leitor como uma fraude editorial. Um exemplo: A obra aberta que acaba de sair na Difel. Trata-se de um livro do núcleo mais duro e científico de Umberto Eco, de uma época em que o autor era um glorioso expoente da semiótica e da narratologia.


Este livro para universitários iniciados na linguística e na ciência do texto narrativo aparece ao leitor com uma capa que mente ao leitor por todos os lados: nos códigos gráficos, que remetem para uma outra espécie bibliográfica (o nome do autor muito ampliado, em letras verde-prateadas em relevo); na inscrição de uma frase, na capa, retirada do Diário de Notícias: “Uma obra-prima estimulante e inovadora, fundamental para a reflexão e compreensão da realidade em que vivemos.” Esta “obra-prima” não é absolutamente nada do que aqui se diz, não se destina a um público universal como se sugere e tem uma história que torna ridículo e fraudulento querer caucioná-la com citações de jornais.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra»,Expresso-Actual, 7.3.2009.




Cinema Quinta 12, Sexta 13, Sábado 14 e Domingo 15 de Março de 2009
Pequeno Auditório · 3,5 Euros (Preço único)


A crueldade depois do teatro Os filmes de Angela Schanelec

Programação: André Dias




Angela Schanelec em De Tarde



Filmes legendados em português

Classificação: M/12

Informações e reservas
21 790 51 55

culturgest.bilheteira@cgd.pt



Angela Schanelec é a voz mais singular do cinema alemão contemporâneo. Nascida em 1962 na Alemanha ocidental, estudou representação em Hamburgo e foi actriz em vários grupos de teatro importantes, como a Schaubühne de Berlim, até 1991. Desagradada com o modo de representação praticado, abandonou os palcos para voltar a estudar numa academia de cinema em Berlim - a dffb. Desde 1995, Schanelec escreveu e realizou as cinco longas metragens de ficção, exibidas nos festivais de Cannes, Veneza e Berlim, que compõem esta retrospectiva integral.
O cinema de Angela Schanelec define-se por uma atenção particular ao quotidiano das pessoas, em particular àqueles momentos em que elas reflectem sobre a sua vida. Não é, portanto, um cinema do mutismo. No seio de relações amorosas e familiares difíceis, as personagens lutam com as palavras, expondo-se constantemente aos limites do que conseguem expressar. Talvez por isso raie a crueldade, se a entendermos como algo que não tem por fim magoar, mas que se esforça por fazer emergir a verdade. Numa sociedade que selecciona de forma tão descarada os seus "momentos da verdade", Schanelec acolhe outros momentos plenos de subtileza e segredo, que são o oposto da confissão pública e da falsa familiaridade com a verdade.
Muito belos plasticamente, de um cuidado extremo com a luz natural, fruto da duradoura parceria com o director de fotografia Reinhold Vorschneider, estes filmes têm também o seu quê de autobiográfico e mesmo de feminista. Neles, mulheres emancipadas buscam uma vida com sentido. Mas tal nasce de dentro, da intimidade, sem um discurso social que o justifique. De resto, é abstraindo desse ambiente social, que daria as respostas em vez das pessoas, que estes filmes oferecem uma experiência emocional tão forte.
A realizadora, a quem foi dada igualmente uma carta branca para uma sessão, estará presente para orientar um workshop e partilhar das impressões dos espectadores.


Quinta 12, 21h30
A Sorte da Minha Irmã
Das Glück meiner Schwester, 1995, 35mm, 81'
Ao começo da noite, à saída de um parque da cidade, Ariane conversa com Christian enquanto aguardam pelo autocarro. Ariane receia ser deixada por ele, que se apaixonou pela sua irmã Isabel... Com a própria Angela Schanelec como Isabel, esta sua primeira longa metragem centra-se na passagem do tempo sobre um doloroso triângulo amoroso. Um filme também sobre o efeito do ruído urbano nas relações afectivas.

Sexta 13, 18h30
Primeiros filmes
Bela Cor Amarela / Schöne gelbe Farbe, 1991, 16mm, 5' ; Muito Longe / Weit entfernt, 1992, 16mm, pb, 9'; Praga, Março 92' / Prag. März 92, 1992, 16mm, 14'; Passei o Verão em Berlim / Ich bin den Sommer über in Berlin geblieben, 1993, 35mm, 49'
Realizadas no contexto escolar da dffb, estas primeiras curtas metragens, de natureza mais experimental, mostram a importância que o texto e a indagação dos lugares na cidade adquirirão na obra de Schanelec. Já a média metragem Passei o Verão em Berlim, que acompanha o percurso paralelo e acidentado de uma escritora e de um editor até ao seu encontro de final surpreendente, é uma obra portentosa em sim mesma. Matriz de tudo o que estava para vir, não deixava dúvida alguma acerca da singularidade do seu gesto cinematográfico.
A realizadora falará no início da sessão sobre as suas influências e o seu percurso.

Sexta 13, 21h30
Lugares nas Cidades
Plätze in Städten, 1998, 35mm, 117'
Mimmi, jovem de amores incertos e relação difícil com a mãe, termina o liceu. Durante uma excursão a Paris, conhece um rapaz e passa a noite com ele. Ao voltar à Alemanha descobre que está grávida. Volta para Paris, onde hesita longamente sobre o que fazer. Admirado por muitos como o melhor filme de Schanelec, é certamente um dos mais sinceramente bressonianos de todo o cinema contemporâneo. É também o que menos investe na palavra para expressar as hesitações das personagens.

Sábado 14, 18h30
Carta branca a Angela Schanelec
Rainha de ouros / Queen of diamonds de Nina Menkes, 1991, 35mm, 77'
Revelou-se deveras surpreendente a escolha de Schanelec para a apresentação de um filme de outro autor. Em vez de uma influência reconhecível, uma realizadora sua contemporânea. Este filme da independente americana Nina Menkes, completamente desconhecida em Portugal apesar de um certo culto de que goza nos Estados Unidos, centra-se na vida alienada de uma empregada de casino em Las Vegas. Foi comparado por um crítico dos Cahiers du Cinéma a Jeanne Dielman de Chantal Akerman.

Sábado 14, 21h30
De Tarde
Nachmittag, 2007, 35mm, 97'
Um retrato de família e de pessoas aprisionadas em si próprias nas tardes de Verão de uma casa de lago. Entre a beleza lancinante da imagem e da representação e a crueldade que nelas se inscreve, a obra mais recente e extrema de Schanelec é uma adaptação livre d'A gaivota de Tchékhov.
A realizadora falará no início da sessão sobre os seus projectos e filmes mais recentes.

Domingo 15, 18h30
A Minha Vida Lenta
Mein langsames Leben, 2001, 35mm, 85'
Duas jovens mulheres sentadas num café, uma família que chega ao aeroporto, uma mulher mais velha sentada sozinha num comboio, crianças adultas à espera em frente do hospital onde o seu pai está a morrer. Situações encontradas todos os dias, vezes sem conta. Uma tentativa de observar a vida de fora, em que a dispersão e a passagem entre personagens diferentes não impedem que se sinta a subtileza do que cada uma delas vive.

Domingo 15, 21h30
Marselha
Marseille, 2004, 35mm, 95'
Sophie, uma jovem fotógrafa, passa uma temporada em Marselha, atenta à cidade e aberta aos encontros simples. Quando retorna a Berlim fica imediatamente submersa pela sua antiga vida, pela sua paixão pelo marido da melhor amiga, uma actriz desesperada pela falta de talento. Sophie volta a Marselha... Um filme muito belo e com uma estrutura narrativa absolutamente invulgar e audaz.









Raros filmes de Março


Okaasan / A mãe
Mikio Naruse

1952, 98’
Finalmente Naruse!
3ª, dia 10, 22h
Cinemateca*, Lisboa

Marnie
Alfred Hitchcock

1964, 129’
4ª, dia 11, 15h30 – Cinemateca

Mouchette
Robert Bresson
1967, 82’
5ª, dia 12, 19h – Cinemateca

Das Glück meiner Schwester
A sorte da minha irmã

Angela Schanelec

1995, 81’, 35mm
A crueldade depois do teatro
Os filmes de Angela Schanelec*
(prog. André Dias)
5ª, dia 12, 21h30 
Culturgest, Lisboa
com a presença da realizadora
 

Ich bin den Sommer über in Berlin geblieben / 
Passei
o Verão em Berlim
Angela Schanelec
1993, 49’, 35mm
A crueldade depois do teatro
6ª, dia 13, 18h30 – Culturgest
a realizadora falará no início da sessão sobre as suas influências e o seu percurso
 

Jaime
António Reis

1974, 35’ 
6ª, dia 13, 19h30 – Cinemateca

Plätze in Städten /
Lugares nas cidades

Angela Schanelec
1998, 117’, 35mm 
A crueldade depois do teatro
6ª, dia 13, 21h30 – Culturgest
com a presença da realizadora


Mein langsames Leben /
A minha vida lenta

Angela Schanelec

2001, 85’, 35mm
A crueldade depois do teatro
Dom, dia 15, 18h30 – Culturgest 
 

Paisà
Roberto Rossellini
1946, 128’
5ª, dia 19, 21h30 – Cinemateca

The man from Laramie
Anthony Mann
1955, 104’ 
6ª, dia 20, 21h30
5ª, dia 26, 19h30 –
Cinemateca


Nashville
Robert Altman
1975, 159’ 
História permanente do cinema

Sáb, dia 21, 21h30 – Cinemateca


Ukigumo / Nuvens flutuantes
Mikio Naruse
1955, 120’
Finalmente Naruse!
2ª, dia 23, 19h30 – Cinemateca



Letter from an unknown woman
Max Ophuls
1948, 90’
História permanente do cinema
Sáb, dia 28, 21h30 – Cinemateca


Nota I: Quando já pensava que esta rubrica estava condenada a desaparecer, devido à crescente escassez de “novos” filmes, eis que a Cinemateca programa porventura um dos seus melhores meses de sempre! Um Março fabuloso, do qual seleccionei para proveito pessoal imaginário, porque impossível de concretizar, quarenta e sete filmes!

Nota II: Não se incluem, obviamente, os filmes de Lucrecia Martel, de resto interessantes, porque projectados em formatos mais do que duvidosos. Mas para quando a apregoada estreia?


[apenas filmes vistos, sem repetições, em formatos originais]

Ao pé da letra #37 (António Guerreiro)


«O estetismo é tão pernicioso como a censura

Devemos a Robbe-Grillet esta definição: “A pornografia é o erotismo dos outros”. O escritor francês aniquilava assim uma distinção que sempre serviu para sossegar as boas consciências. A propósito do episódio policial que levou à apreensão de alguns exemplares de um livro que reproduzia na capa um quadro de Courbet, “A Origem do Mundo”, há algo de muito mais interessante para ser pensado do que a tentativa patética de censura.


A Polícia desfez o que tinha feito na véspera com o argumento de que a capa “reproduz uma obra de arte”, como se a arte fosse incompatível com a pornografia. Mas a caução artística seria, em si, insuficiente  não funcionaria da mesma maneira para uma obra de arte contemporânea e para um artista não consagrado – se não tivesse sido invocado o estatuto canónico do quadro, que lhe é concedido pelo nome do autor e pelo lugar onde se encontra exposto (o Museu d'Orsay). O olhar censório da Polícia – condenável, é certo – responde de maneira mais exigente ao quadro de Courbet e presta-lhe mais justiça do que o estetismo desta argumentação: “O artístico e o estético não podem ser confundidos com o pornográfico.”»
António Guerreiro, «Ao pé da letra»,Expresso-Actual, 28.2.2009.

Pressures of the unspeakable (Gregory Whitehead) !!!

«[... P]articularmente agora, num tempo em que uma coisa é mostrada vezes e vezes sem conta[,] não mostrar é uma espécie de objecção, uma objecção a esse enorme mostrar. Os filmes pornográficos não são a única representação do porno. Quando uma cirurgia de coração aberto aparece no nosso ecrã, trata-se de pornografia. Ver coisas que não são supostas ser vistas equivale à experiência da pornografia. 
Talvez seja uma forma de objectar, uma reacção aos filmes que mostram tudo.»
«[... P]articularly now, a time when something is shown again and again and again[,] not showing is a kind of objection, an objection to that amount of showing. Pornographic films are not the only representation of porn. When an open heart surgery is on your screen, it is pornography. Watching things which are not supposed to be watched amounts to the experience of pornography. 
Maybe it is a means to object, a reaction to films which show everything.»

Abbas Kiarostami, a propósito do seu novo filme  SHIRIN, na Offscreen

Ao pé da letra #36 (António Guerreiro)


«Falta à Esquerda pensar a questão do trabalho

Nas circunstâncias actuais, parece indiscutível a frase tantas vezes repetidas de que “o pior é não ter trabalho nenhum”. Razões pragmáticas justificam este realismo incondicional, mas no plano teórico é bem visível que a Esquerda, de quem se esperaria um pensamento sobre a questão do trabalho, não consegue ir além da visão marxista: o homem alienando-se num processo de produção que o reifica.

Sobre o trabalho, o que se escreveu de mais significativo no século XX devemo-lo a Weber e Hannah Arendt, que critica Marx por este não fazer a distinção entre trabalho e obra e por não ter reconhecido que o homem é, por necessidade, um animal laborans. Recentemente, André Gorz formulou o prognóstico do “fim da sociedade do trabalho”. Mas a esquerda não tem teoria sobre esta matéria e continua vinculada ao pragmatismo que se demitiu de pensar. Deveria prestar atenção ao conceito de ‘inoperância’, introduzido pelo filósofo Giorgio Agamben: a inoperância não como uma passividade mas como a actividade que torna inoperativas as operações económicas e sociais. A arte responde a esta condição e por isso ela é constitutivamente política.» 

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 21.2.2009.

O espectador ocioso #10: Cobertura fraterna

Prosseguindo as minhas modestas observações etológicas na sala de cinema... Devo instruir os mais distraídos acerca do facto de que a projecção de filmes mudos não musicados é dos contextos mais ricos para analisar as variantes embaraçosas do comportamento do espectador de cinema. O que é apenas natural, dado que, no assim exagerado silêncio da sala, todos os pequenos ruídos corporais ganham uma dimensão profunda, como se dissessem respeito aos veneráveis mistérios da existência, que como se sabe apenas se manifestam em tons graves.
 
Um mudo de 1933 do cineasta japonês Mikio Naruse foi o pretexto para um verdadeiro concerto, um acompanhamento extremamente elaborado, uma instrumentação requintada de ruídos de estômago ou da barriga, vá-se lá distinguir, do espectador sentado ao meu lado. É sabido que nunca se deve ir para uma sala de cinema com fome. E, se se tem o azar de ir para um filme mudo com fome, então está tudo perdido! Mas este espectador, de ar já maduro, de quem sabe por onde anda e o que é suposto fazer, estava ainda assim visivelmente embaraçado e não com aquele à-vontade desavergonhado que a sabedoria amnésica da idade concede aos que a mereceram.
O homem bem se contorcia ou se posicionava hirto, à vez, que nada suprimia aquele ronco do seu corpo insatisfeito com o desinteressado fruir estético. E o filme nunca mais acabava. Devo dizer que conheço bem aquela sensação, de ocasiões em que incauto caí na mesma circunstância de profunda vergonha com a expressão sonora involuntária. Foi por isso tão bom experimentar finalmente a solidariedade entre os homens, a comunhão fraterna no embaraço. Há muito que não me sentia entre irmãos políticos como nesta sessão. De cada vez que o ronco do espectador a meu lado se levantava, eu ou me contorcia ruidosamente na cadeira, ou suspirava bem alto, ou mesmo tossia sem vontade, o que um ouvido atento teria percebido facilmente. Nem sei se o espectador a meu lado terá ou não reparado no repetido gesto solidário da minha cobertura sonora. Também não lhe procurei fazer notar duplamente. Pouco importa essa consciência obediente, que seria meramente acessória, sem nada de fundamental acrescentar. A minha presença naquela sala era agora principalmente destinada a cobrir o embaraço do meu irmão espectador sentado ao meu lado. E o filme, qualquer que ele fosse, na sua imensa generosidade cinematográfica, não iria concerteza desprezar o seu embaraço e a minha cobertura fraterna, tornados inseparáveis e canto agora único da humanidade. Não é nestas coisas pequenas que se a encontra?

Ao pé da letra #35 (António Guerreiro)

«A história como narrativa Kitsch é algo anestesiante

A propósito da série da SIC sobre “A Vida Privada de Salazar”, poderíamos recordar uma frase de Gramsci – “A História é sempre contemporânea, isto é, política” – se o objecto em causa tivesse alguma coisa a ver com a História. Sabemos como a reificação do passado, isto é, a sua transformação em objecto de consumo, neutralizado e recuperado pela indústria do espectáculo, se tornou um filão que se manifesta nomeadamente na vaga do romance histórico que invadiu nos últimos anos as livrarias.

Mas esta série – nauseabunda, por um lado, e ridícula, por outro – poderia servir de pretexto para pensar o quanto falta, em Portugal, uma memória trágica das representações colectivas do passado, tais como elas se forjam no presente. Em contrapartida, abunda a memória épico-mítica. Esvaziada de todo o elemento trágico, nunca ela é ocasião para o trabalho de luto e para a catarse. Percebemos isto muito melhor se conhecermos um pouco da cultura dos países da Europa Central. Assim, “A Vida Privada de Salazar” acaba por ser, involuntariamente, uma paródia do uso público da nossa história, tal como ele tem sido feito. O trágico foi substituído pelo Kitsch.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 14.2.2009.

Image: [un]bound

«Há um realizador português de que gosto muito, o Pedro Costa, que tem um modo de filmar muito correcto. Uma vez, ele disse-me que eu filmava os ricos, ele filmava os pobres. Respondi-lhe que eu filmo as almas  e as almas tanto há nos ricos como nos pobres.»
Manoel de Oliveira citado no Público, 10.2.2009

Eu «creio que Luís Miguel Oliveira [esteve mesmo] muito feliz ao concluir o seu texto sobre Quem quer ser bilionário? com esta frase: “Danny Boyle não conseguiu sentir mais do que o cheiro a merda. Cada um tem o nariz que tem.”»

Ao pé da letra #34 (António Guerreiro)

«A ideologia irrompe onde parece mais improvável

Os relatórios meteorológicos, tais como os media os traduzem e difundem, estão longe de ser elementos de informação neutra. Pelo contrário, são peças carregadas de ideologia. Orientados pelo ponto de vista do indivíduo urbano que aspira ao lazer e acha que os astros devem rodar à medida de um hedonismo climático que o padrão turístico tornou universal, “bom tempo” significa sempre sol e calor, e “mau tempo” é sempre chuva e frio. Pode não chover há três meses, estarmos em pleno Inverno, mas a previsão de que no dia seguinte não há nuvens merece sempre um louvor ao “bom tempo”; podem as barragens estar vazias e os campos secos, mas o anúncio de que irá chover é sempre notícia de “mau tempo”.


Neste mundo climatizado de boletins meteorológicos permeáveis à ideologia, já ninguém sabe viver com as variações extremas do tempo, e é por isso necessária a intervenção da protecção civil sempre que chove com mais abundância ou caem uns flocos de neve. A protecção civil parece uma mãe zelosa que vigia e recolhe as suas crias irresponsáveis e indefesas. Para ela, todos os cidadãos são crianças que podem precipitar-se numa poça de água ou sair para a neve como se fossem para a praia. Faça o tempo que fizer, há sempre uma instância estatal que cuida de nós, trata da nossa saúde e nos protege dos elementos. E a isto se reduz hoje a esfera da política.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 7.2.2009.

O que é a loucura?










[As minhas desculpas pelas imagens de VHS antiga, muito saturadas, borradas, com varrimento em baixo, com margens, com as linhas entrelaçadas, com o horrível logotipo do canal de televisão... Ainda assim!]
Antigone / Antígona (1992) de Jean-Marie Straub e Danièlle Huillet
Die Antigone des Sophokles nach der Hölderlinschen Übertragung für die Bühne bearbeitet von Brecht 1948 (Suhrkamp Verlag) [título correcto]
5ª, dia 4, 19h30 [reservem ou cheguem cedo!] – Cinemateca, Lisboa

Dois ao quadrado synthetic remix com direito a texto explicativo e tudo!


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