Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Meros filmes em Outubro


Yella
Christian Petzold

2007, 89’
estreia 5ª, dia 2
14h, 16h, 18h, 20h, 22h, (00h15)
Medeia King 1
, Lisboa

Alphaville
Jean-Luc Godard
1966, 98’
3ª, dia 7, 22h
Cinemateca*, Lisboa

Dans la ville blanche
Alain Tanner
1983, 104’
4ª, dia 8, 21h30
Instituto Franco-Português, Lisboa


Monsieur Klein
Joseph Losey
1976, 123’
5ª, dia 9, 19h – Cinemateca

Yi Yi
Edward Yang
2000, 173’
5ª, dia 16, 21h30 – Cinemateca

De Grote Vakantie /
As férias grandes
Johan van der Keuken
2000, 145’
Diários filmados e autoretratos
(prog. Augusto M. Seabra)

DocLisboa 2008*
6ª, dia 17, 11h Culturgest - GA, Lisboa
3ª, dia 21, 23h –Londres 2, Lisboa

Van Gogh
Maurice Pialat
1991, 158’
6ª, dia 17, 22h – Cinemateca

Aspen
Frederick Wiseman
1991, 146’
Retrospectiva Wiseman
(prog. José Manuel Costa)
DocLisboa 2008
Dom, dia 19, 11h Culturgest - GA

High school II
Frederick Wiseman
1994, 220’
Retrospectiva Wiseman
DocLisboa 2008
3ª, dia 21, 11h Culturgest - GA

La sirène du Mississipi
François Truffaut

1979, 120’
3ª, dia 21, 15h30 – Cinemateca

A caça
Manoel de Oliveira
1963, 21’
3ª, dia 21, 19h
2ª, dia 27, 19h30 – Cinemateca


Masterclass
Frederick Wiseman
Retrospectiva Wiseman
DocLisboa 2008
4ª, dia 22, 11h – Culturgest - GA

Milestones
Robert Kramer

1975, 206’
2ª, dia 27 – Cinemateca

[apenas filmes vistos, sem repetições]

Ao pé da letra #17 (António Guerreiro)

«A cotação do humanismo no mercado das ideias

Baudrillard, que nos seus tempos de glória deu nome a um modo de pensamento, gostava de usar uma palavra que transformou num conceito: “hipertelia”. Segundo ele, hipertélico – aquilo que vai para além dos seus próprios fins e se anula na sua funcionalidade – é o regime actual de manifestação dos acontecimentos e dos objectos, na sua “estratégia fatal”. O que está bem patente neste “fait-divers” que ele relatava: uma empresa americana, tendo de apresentar provas de uma contabilidade regular, entupiu a secção de finanças local com uma montanha de papéis que transportou em dois camiões.
Agora, que a crise dos mercados financeiros começou a suscitar um discurso de ordem moral (por todo o lado ouvimos falar de ganância, avidez, falta de escrúpulos), seria útil recuperar o poder analítico e interpretativo desse quase-conceito, em vez de continuarmos a procurar uma “face humana”: depois da “face humana do comunismo”, chegou a vez de reclamar a “face humana do capitalismo financeiro”. Com a noção de hipertelia, Baudrillard quis-nos libertar deste humanismo inerte que, no mercado das ideias, é o produto especulativo mais tóxico que existe.»
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 27.9.2008.

A mão na boca #1: Definição da censura

Um velho de barbas, sentado numa mesa de café com outros dois homens de um kolkhoze vizinho, procura vagarosamente contar como se deu o reencontro com a sua mulher, depois de passados muitos anos prisioneiro num campo, para onde tinha sido enviado “por nada” na União Soviética do pós-Guerra. No momento que se segue ao mencionar dos campos, mas sem qualquer precipitação, uma criança loura, que já conhecíamos doutras cenas anteriores, entra veloz pelo quadro adentro e pousa a mão na boca do velho, lançando um olhar sorridente para trás, para os que o escutavam, quase que para nós, ligeiramente embaraçada. Depois sai do quadro como entrou, e o velho continua a contar a sua lenta estória...
Trata-se de uma cena estranha e perturbadora do filme ISTORIYA ASI KLYACHINOY, KOTORAYA LYUBILA, DA NE VYSHLA ZAMUZH / A FELICIDADE DE ASSIA (1967) de Andrei Konchalovsky, incluído no agora findo ciclo da Cinemateca Eram os Anos 60. É possível que se trate mesmo de uma das cenas que motivaram cortes da censura soviética, e que só em 1987 o realizador pôde recuperar, segundo descreve a sinopse do programa. Por não saber definir esta cena, tentei primeiro descrevê-la. Não é fácil, pois o elemento que me chama a atenção é tão sintético, ao passo que a restante estória, mesmo que dela me recordasse, não ajudaria propriamente à sua compreensão.

O mais difícil de fazer passar na descrição é a simplicidade da entrada da criança em cena, o seu carácter não-denunciado, contra todas as probabilidades, e quase lúdico, perante a gravidade do que é contado. Mesmo o olhar que depois nos lança não é sem ambiguidade, mas não se descola da situação, e parece ainda algo que uma criança irrequieta poderia fazer. No entanto, a esta simplicidade e leveza do gesto não corresponde de todo um impacto inofensivo. Pelo contrário, o carácter infantil do gesto da criança, no sentido de aquém da linguagem, dá-lhe uma força tremenda. Trata-se de calar alguém sem conhecimento do que está a ser dito, da sua importância e eventuais efeitos nefastos, que podem apenas porventura ser intuídos pela criança na atmosfera do momento. Por uns segundos, ficamos suspensos nesse gesto, como que aprisionados por aquela imagem da censura mais inocente, mais terrível. Só depois podemos de novo voltar com calma ao relato do velho, que conta a sua dura vida, e que, apesar de numa ficção, nada nos diz não ser verdadeira. Depois daquela mão de criança na boca...

O espectador ocioso #9: Só na Cinemateca


1. Existem porventura várias escolas de pensamento sobre o projeccionismo. No entanto, um único critério permite talvez, do ponto de vista do espectador, destrinçar entre duas grandes tendências. Mais do que saber se os projeccionistas deixam o filme rolar desfocado por bastante tempo, o que acontece com frequência, quer-me parecer que a divisão reside hoje entre aqueles que defendem e executam a abertura das luzes na sala de cinema assim que se apaga a imagem e aparece o genérico final, que são a quase totalidade, certamente que motivados pela pressa dos espectadores em sair, e os restantes, que as acedem somente quando o filme todo se acaba. Creio que já só na Cinemateca se encontram exemplares destes últimos resistentes.
JE, TU, IL, ELLE (1974) de Chantal Akerman, um belíssimo filme que por ali passou a 8 de Setembro, contém apenas três grandes sequências, cada uma mais embaraçosa que a outra. Na primeira, a jovem Akerman, que dá o corpo aqui também como actriz, destila vagarosamente um desgosto amoroso num quarto que vai esvaziando, comendo açúcar de um saco até ao enjoo; na segunda, conversa e envolve-se sexualmente com um camionista que lhe confessa o quanto a sua própria filha infante lhe provoca desejo (Que filme hoje teria coragem de “mostrar” algo semelhante, sem diabolização? Conheço um, grego, mas o júri do IndieLisboa 2008 deixou-o passar...); na terceira sequência, a que termina o filme, Akerman envolve-se numa sessão de luta greco-romana de cariz sexual com outra mulher (Luís Miguel Oliveira dizia acertadamente, na folha, que aquilo mais fazia lembrar um documentário sobre a vida selvagem).



O final do filme, depois desta cena sexual embaraçosa, ou pelo menos incómoda, chega com um cartão cinzento (o filme é a preto e branco) silencioso e ainda demorado. As luzes não se acedem e nenhum dos espectadores se levanta. Depois chega finalmente o genérico final. Luzes apagadas, ainda ninguém esboça qualquer gesto de sair. Continua o cinzento, expectativa pelo fim da película ou pelo aceder das luzes. Mas não. Começa uma canção infantil em off no filme, cujo refrão reza assim – Chantez, dansez, embrassez qui vous voulez... O espectador ocioso sente que acaba de assistir a um momento especial, não só no filme mas na própria sala. O particular poder do filme, a sua emoção, tinha-se acumulado naquela canção, os espectadores, que esgotavam a sala pequena da Cinemateca, não se tinham levantado porque estavam tolhidos, tocados no seu âmago, nos seus sentimentos, com a sua vida exposta àquela que Akerman lhes tinha dado de presente, já há tantos anos. Finda a canção, findo mesmo o restante cinzento da película, ninguém se tinha levantado. Só quando, feito escuro completo na sala, se acedem as luzes, a custo os espectadores se levantam e saem da sala. Só na Cinemateca.
Certamente que os mais cínicos, vulgo sociólogos, verão nesta situação, e com a sua razão, antes um exemplo de uma espécie de coacção inter-pares exercida num espaço comum. A atmosfera não era propícia a incomodar os outros. O constrangimento que causaria levantar-se naquele momento teria coarctado o impulso de certos espectadores em abandonar a sala. A emoção estética não era para ali chamada. Talvez.

Mas, na sala da Cinemateca, os espectadores parecem ter pelo menos a consciência de que algo, senão neles, se pode passar noutros, que levantar-se precipitadamente, revelando a pressa que têm em voltar a casa, ao seu casulo, poderia interferir nessa emoção alheia. É, aliás, a meu ver, para que serve ficar na sala acompanhando o genérico final até ao fim, para deixar pousar o filme em nós. Muitas vezes não chega e ficamos alienados ainda uns bons minutos, incapazes já na rua de qualquer diálogo social sofisticado. Pelo menos na Cinemateca podemos manter a ilusão, ainda que infelizmente alimentada pela autoridade, de que a emoção estética dada por um filme ainda suspende a normal precipitação das pessoas.


2. Mas só na Cinemateca também, no dia da Festa de Encerramento da comemoração dos seus 50 anos, a 29 de Setembro, não poderão a Vanda e o Ventura entrar (a não ser como convidados; ter-se-ão lembrado deles?). Doutro modo poderão apenas, como qualquer outra pessoa, espera-se, e é o mais importante, assistir à única sessão desse dia, a das 23h, «Uma noite de filmes» programada por Pedro Costa, realizador dado a interessantes gestos de programador, que (juntamente com BILLIE HOLIDAY SINGS FINE AND MELLOW e SO DARK THE NIGHT, este de Joseph H. Lewis) inclui por sinal o belíssimo THE EXILES de Kent MacKenzie, que Pedro Costa terá provavelmente descoberto ao ver LOS ANGELES PLAYS ITSELF de Thom Andersen (ambos programados anteriormente por Ricardo Matos Cabo).


Haverá igualmente uma sessão solene privada e mesmo uma festa propriamente dita, também ela privada, por convites, na Cinemateca pública, que se realizarão no mesmo dia, antes da sessão de cinema. Quem terá sido convidado? Talvez os que assinaram a petição ad hominem. Não terão sido as pessoas interessadas pelo cinema, dentro ou fora da Cinemateca, inclusive programadores, nem sequer os Amigos da Cinemateca, que eram quem verdadeiramente lá podia e devia estar. E não as ditas elites, essa corja, como diz uma amiga, que, seja por proximidade com o poder político ou pelas postas de pescada que vomitam nos jornais, sem que, no entanto, se dignem a lá ir ver cinema, podem aceder às doutas considerações sobre o que a Cinemateca deve e pode ser nos festejos dos seus 50 anos. Ou talvez se prepare a passagem de testemunho, e que esta seja privada não é todo inocente. Tudo demasiado controlado, demasiado sustentado, pois as ameaças rondam; um espírito de perseguição. Como se Bénard da Costa fosse anunciar a sua retirada despeitosa, ofendida, depois de cumprida a grandiosa obra.
E há igualmente um lado de classe, de aristocracia cultural, e mesmo de exclusão de classe, nesta festa secreta, privada, de que não se sabe rigorosamente nada a três dias de se realizar, que é repugnante. A bilheteira terá até um horário especial (14-19h e 22-23h) para evitar possíveis misturadas. Dá vontade de fazer como num Buñuel, de ir com o povão e entrar por ali adentro, escandalizando os burgueses no seu ambiente fechado, incomodando as elites, comendo os acepipes com fome e não por displicência, bebendo o vinho com sede, nessa festa de que, como eu e outros, a Vanda e o Ventura quaisquer também não podem participar.

O académico recalcitrante: Peixes fascistas!


Mesmo um académico novato, daqueles ainda não habituados às altas andanças da sapiência internacional, compreende rapidamente que, numa conferência que dura alguns dias, o momento alto é, sem dúvida, o beberete oferecido por uma qualquer editora de livros especializados. E não tanto pelos livros. Aqueles copinhos de vinho tinto ou branco, ou mesmo rosé nos casos mais extremos de míngua, contribuem sobremaneira para desanuviar o ambiente, tantas vezes demasiado solene entre pessoas que têm como defeito profissional, dificilmente evitável, é verdade, tomarem-se em grande conta. Nestas condições, um académico que deseje desabrochar, levado pelo doce embalo dos néctares engarrafados, pode sentir-se tentado a gracejar, conquistando a atenção alheia por uns breves segundos ou a promessa de simpatia de uma qualquer conferencista mais tímida. Ou mesmo, se for audaz, a explorar todas as cambiantes dos mal-entendidos em contexto internacional. Que, fica aqui a nota, não são assim tão poucos, em tempos de politicamente correcto anglo-saxónico. Este, surpreendentemente para um nativo dos países latinos, não só ainda sobrevive, como se tornou a norma implícita, a auto-censura mais insidiosa, e é sabido que mantém uma relação, no mínimo complicada, com o sentido de humor, a mais selvagem das extensões da inteligência.
Se por acaso este novato, trespassado pelo álcool ou apenas pelo desespero quotidiano, vulgo solidão, ouvir outros académicos, que estejam suficientemente perto para quem se possa intrometer sem se notado, começar a discutir, vá-se lá perceber porquê, o maravilhoso, horrível caso de Leni Riefenstahl, aquele, já um pouco tocado por não terem tomado em consideração todo o alcance das suas minúsculas objecções num anterior debate obscuro, poderá ser levado a afirmar:
Com a Leni Riefenstahl até os peixes eram fascistas!
Nada é mais triste que alguém que ri sozinho das suas próprias piadas. O encanto tétrico dos palhaços é somente o correspondente reverso disto. Ah, o riso e a morte, que ligações secretas! Claro que uma piada tem que possuir um contexto compreensivo. Peixes fascistas, mas que merda é essa? Nestas alturas, convém ter um parceiro, diferente em compleição, seja física ou intelectual, que dê, por contraste, saliência ao que acaba de ser dito, impedindo o vazio de devorar o novato. Um académico ancião, já gasto de anos e anos de arrastamento em alcatifas académicas por esse mundo fora, bondoso e tolerante com a ganância dos jovens lobos, à qual sorri com complacência e sobretudo pena, poderá ajudar, apesar do humor suportar muito mal, ou não suportar de todo, as notas de rodapé.


Poderá dizer, por exemplo, que o jovem inábil está somente a explorar à exaustão o que dizia Susan Sontag sobre as fotografias das tribos africanas por Leni Riefenstahl, que estas eram uma continuação da sua estética fascista. No documentário THE WONDERFUL, HORRIBLE LIFE OF LENI RIEFENSTAHL de Ray Müller (cujo título alemão é curiosamente «O poder das imagens: Leni Riefenstahl»), vemos como a pobre senhora, tão acossada por tanta gente que não queria esquecer, acabou os seus dias a fotografar peixinhos no fundo do mar, talvez por neles encontrar finalmente algo que não se prestasse à sua visão. Assim explicada, valha a verdade, a piada ainda tem menos piada.
Mas, como o pior pode sempre piorar, já dizia o Shakespeare, ao jantar, na continuação da alcoolização geral, a conversa pode rondar o mesmo assunto, com doutas opiniões sobre outros casos de cineastas nazis ainda piores. O académico novato poderá ser tentado, fazendo render o seu parco peixe, a repetir a sua piada, se necessário for várias vezes, até que alguém faça aquele assentimento gentil do “já chega que já ouvi”. Mas, se numa dessas mesas de jantar cheia de gente académica de nacionalidades e línguas diferentes, que se expressam num inglês nem sempre muito elaborado e se divertem a adivinhar de onde vêm as outras pelo seu sotaque, portanto, no domínio do cliché identitário mais penoso, estiver também uma compatriota da querida Leni, a coisa pode certamente azedar.


Diga-se de passagem, seja ou não relevante, que esta realizadora alemã, não a Leni mas a sua compatriota, teve um filme projectado no dia anterior que tinha expulso o académico novato da sala, numa cena em que duas adolescentes rebeldes alemãs lutam e uma delas pontapeia repetidamente a barriga da outra que estava no chão, ouvindo-se também repetidamente os sons abafados e uniformes, de timbres unívocos absolutamente falsos, mas não suficientemente falsos, lá está, dos pontapés da bruitage. Seja porque não bebeu o suficiente ou por qualquer outra ocorrência biográfica infeliz, esta realizadora alemã pode de repente, por causa da piada, começar a bufar para cima do académico novato, perdendo completamente as estribeiras no seu inglês carregado de fonética alemã, quase que o atingindo com os gafanhotos que lança do outro lado da mesa, ainda grande. Depois de brutalmente o interrogar se estava a querer ser irónico (é impressionante a quantidade de pessoas que confundem a ironia e o humor), grita:
A Leni era uma artista em busca do seu sonho!
Bem, o académico novato, apesar de novato e contra as expectativas legítimas do millieu onde se move, pode ter pêlo na venta e não gostar de se ficar perante tamanha coisa. Defender as suas piadas, mais do que os seus princípios, parece-lhe bom critério para uma política da convivência suficientemente saudável.
Pode sentir de repente, como nunca sentiu na vida, o nível do álcool descer de um momento para o outro no seu sangue. O afrontamento daquela mulher, também físico, a violência desencadeada por uma simples piada sobre a possibilidade de peixes fascistas, revelou-se um poderoso instrumento de desetilização. A irritação sobe em igual medida e os calores da retórica exaltada já fumegam por si acima. Do baixo da sua juventude e ignorância, o académico dá por si, já não a fazer humor mas a recalcitrar, a espigar-se de pêlo eriçado contra aquela mulherzona do outro lado da mesa. Credo! É isso que, pelo meio das suas bochechas avermelhadas, ela lhe chama, à Leni? Credo! “Em busca do seu sonho”? Àquela dança com os Nazis, àquele filme do Congresso de Nurenberga, àquela participação ansiosa e por demais zelosa, aquela cega e surda presunção de inocência posterior, chama esta de “sonho de artista”? Credo!
Já a violência descarrilada da discussão que se seguiu não tem muito que contar. Seria fastidioso e embaraçante descrever os pontos da confusão, as menções dos campos de concentração e extermínio, o inaudito dos mesmos, etc. Percebe-se assim como uma parte das novas gerações alemãs, incluindo realizadores, repele o peso do passado nacional alemão, que se recusam continuar a carregar. Mas não o fazem por ultrapassagem, porque o facto permanece inultrapassável, não é?, mas por rejeição, recalcamento, repulsa à simples menção do problema, que permanece actual e certamente não preocupação exclusiva dos alemães. No fim da conversa, que terminou quase aos gritos, num ambiente à volta de resto pacífico, ficou um silêncio de morte.


O académico recalcitrante não voltou a abrir a boca. O seu nível de alcoolemia tinha baixado tão drasticamente que ameaçava já as reservas duramente acumuladas ao longo dos anos. O seu embaraçoso silêncio não se estendeu naturalmente aos restantes convidas da mesa, que, por sugestão da realizadora, passados aqueles momentos desagradáveis, podiam agora deliciar-se com uma conversa decente sobre... trainspotting! Ao que parece, o dito transpotting é um hobby muito apreciado em Inglaterra (onde este triste episódio se desenrolou) e os ingleses fazem até, segundo a realizadora, excursões à Alemanha, onde os comboios são sempre rigorosamente pontuais. Ah, a alegria das nações, a sua saudável convivência! Nobres valores! Isso sim, dá que falar. Isso, pessoas que tiram nota dos horários dos comboios, comboios que chegam na hora precisa à estação determinada, comboios que independentemente do que levam não se atrasam, comboios que levam lá dentro pessoas, eventualmente algumas difíceis de acomodar, e mesmo assim não deixam ninguém insatisfeito por não chegarem a horas, comboios que podem até levar esses difíceis de acomodar em vagões de transporte de animais, para precisamente não perder tempo com arbítrios de locomoção individual e também para compressão de um maior número, tudo coisas que permitem que os comboios continuem a ser pontuais apesar do que se passa à sua volta, comboios que chegam a tempo, que divertidos que são, mesmo quando levam em vagões de animais pessoas e as entregam directamente ao poder evaporador dos fornos crematórios, milhões de pessoas, milhares de comboios que chegaram a tempo.


Felizmente, não consta que a paixão dos ingleses pelo cumprimento dos horários dos comboios tenha ido, até agora pelo menos, tão longe. Mas convém estar atento. Ainda assim, o mais impressionante é que esta conversa sobre a paixão da exactidão dos comboios tenha ocorrido a seguir à que envolvia os campos de concentração. O académico novato, no seu espanto silencioso e horrorizado, seria capaz de jurar que a nenhuma daquelas pessoas sentadas na mesa de bem jantar ocorreu a ligação entre os dois factos. Perante isto, sentiu-se de repente muito velho. De um desespero surdo com a idade do mundo. E foi-se deitar imediatamente, após ter ingerido a sobremesa.


Ao pé da letra #16 (António Guerreiro)

«A oposição entre forma e conteúdo legitima o pior

Burckhardt, nas suas “Considerações sobre a História Universal”, mostrou a impertinência da oposição civilização/barbárie para a análise histórica. Mais de um século depois, o seu esforço revela-se sem sucesso, e esta dicotomia segue o seu curso triunfante. Outro par ainda mais perene (pilar de uma metafísica) é o famigerado forma/conteúdo. Sob a sua caução, desenvolveram-se as estéticas dos regimes totalitários (sempre activas na repressão de todos os “formalismos”, sempre zelosas do “conteudismo”); sob a sua autoridade, esvaziou-se o discurso político.
Um programa de saneamento consistiria em invalidar qualquer raciocínio que opere com essa falsa oposição. Um dos efeitos seria o desmantelamento da chamada “indústria de conteúdos”, resultado supremo da operação manhosa que consiste em pôr de um lado o conteúdo e do outro a forma. A praga dessa indústria, baseada numa separação produtora da falsidade e do dogmatismo, acabou por invadir todos os “media”, incluindo o universo da edição livreira. O que é afinal uma “indústria de conteúdos”? É a expressão mais acabada do fascismo do entretenimento.»
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 20.9.2008, p. 47.

[Cito aqui integralmente a coluna «Ao pé da letra» de António Guerreiro porque me parece a coisa mais inteligente que se encontra na imprensa escrita, para o que contribui a sua brevidade. Como conheço bastantes pessoas que não lhes passa sequer pela cabeça comprar aquele saco de bugigangas e folhetos publicitários disfarçado de jornal, parece-me útil, até que o autor me peça para deixar de o fazer (ou o jornal me o impeça).]


«Certa aranha faz todas as manhãs na natureza e em qualquer lugar que a isso se preste uma teia admiravelmente regular. Depois da ingestão de um extracto de cogumelo alucinogénico que por argúcia lhe fizeram tomar – começa uma teia na qual a pouco e pouco as espiras já não se seguem umas às outras mas avançam de esguelha, e ainda mais quando a quantidade absorvida é mais considerável: uma teia de louca. As partes abatem-se, enrolam-se, Zygiella notata, de seu nome, não pára antes de ter obtido a dimensão habitual, mas tornada incapaz de seguir o seu plano, um plano que contudo não data de ontem, mas de há dezenas ou centenas de séculos, passando intacto e perfeito de mãe para filha, comete erros, reduplicações, além deixa buracos, ela, tão cuidadosa, e não repara.


As últimas espiras são um balbuciamento, uma vertigem, é como se tivesse tido um desvanecimento. Obra em ruína, falhada, humana. Aranha tão próxima agora de ti. Nada sobre a droga exprimiu mais exactamente, mais directamente, a perturbação dos encavalitamentos. Como uma irmã, observa as suas ruínas em fio. Mas que viu ela então, Zygiella?»

Henri Michaux,
Poteaux d'angle, Gallimard, Paris, 1980, pp. 65-66.

para a Margarida
, tradutora

As flores e a caneca | The flowers and the mug



«Recentemente fiz parte de um painel de selecção de realizadores na National Film and Television School. Ian Sellar, que estagiou nos filmes de Bill [Douglas] e na NFTS, era outro dos membros do painel. Ficámos ambos surpreendidos e impressionados com o número de candidatos que nomearam o Bill como inspiração e influência. Podia ser que tivessem feito a sua pesquisa, mas duvidei que conhecessem as nossas ligações, dado que não sou creditado [como produtor] em nenhum dos seus filmes (mas isso é uma outra história). Em todo o caso, desafiei-os a serem mais específicos acerca do que admiravam. Uma de entre eles, Ashleigh Irving, referiu apenas uma cena de My Childhood. Descreveu-a desta forma: “Havia este plano de umas flores numa caneca. Apesar de estarem murchas, eram a única coisa bonita naquele sítio. De forma chocante, Jamie entra, atira as flores fora, e deita água a ferver na caneca até que a água transborda para a mesa. Depois despeja a caneca e coloca-a entre as mãos em concha da sua avó. Segura-lhe nas mãos e afaga-as. Compreendi então que havia algo muito mais bonito do que as flores.” Ian Sellar inclinou-se para a frente, cativado. Os seus olhos bem abertos e húmidos. Vinte anos antes tinha encontrado estas mesmas papoilas. Bill tinha passado a chama por baixo das flores até elas encarquilharem e caírem. Depois arranjou-as na caneca.»

[Este é o último parágrafo do último texto de uma obra de homenagem ao realizador Bill Douglas; cf. também «A fixação autobiográfica»]
«Recently I sat on a selection panel for directors at the NFTS. Ian Sellar, who trained on Bill [Douglas'] films and at the NFTS, was another panel member. We were both surprised and impressed by the number of applicants who named Bill as an inspiration and an influence. It could be that they had done their research, but I doubted they'd known of my connection as I do not have a credit [as producer] on any of Bill's films (that's another story). In any case, I challenged them to be specific about what they admired. One of them, Ashleigh Irving, singled out a scene from My Childhood. She described it this way: “There was this shot of some flowers in a mug. Although they were droopy, they were the only thing of beauty in the whole place. Shockingly, Jamie comes in and throws away the flowers and pours boiling water into the mug until the water overflows on to the table. He then empties the mug and puts it between the cupped hands of his grandmother. He holds her hands and pats them. And then I realized that there was something much more beautiful than the flowers.” Ian Sellar leant forward transfixed. His eyes were wide open and moist. Twenty years earlier he had found these very poppies. Bill had played a flame under the flowers until they had wilted and dropped. Then he arranged them in the mug.»

Mamoun Hassan, «Working with Bill», in Bill Douglas - A lanternist's account, 1993, p. 231.


Meros filmes em Setembro


Five – Dedicated to Ozu
Abbas Kiarostami
2003, 74’
projecção contínua, 13h30-22h
Sala 6x2 Cinemateca*, Lisboa

A Ilha dos Amores
Paulo Rocha
1982, 172’
2ª, dia 1, 22h Cinemateca

10 on Ten
Abbas Kiarostami
2004, 120’
5ª, dia 4, 21h30 – Cinemateca

Je, tu, il, elle
Chantal Akerman
1974, 90’
2ª, dia 8, 19h30 – Cinemateca

The big parade
King Vidor
1925, 130’
3ª, dia 9, 22h – Cinemateca
os soldados avançam por entre as árvores...*

Muriel ou le temps d'un retour
Alain Resnais
1963, 115’
4ª, dia 10, 22h – Cinemateca

Prénom Carmen
Jean-Luc Godard
1984, 85’
5ª, dia 11, 19h30 – Cinemateca

Giorgobistve / Folhas caídas
Otar Iosseliani
1967, 100’
Eram os Anos 60
6ª, dia 12, 22h – Cinemateca

Robert Kramer
Scenes from the classe struggle
in Portugal
(co-real. Philip Spinelli)

1977, 96’
2ª, dia 15, 19h30 – Cinemateca

How green was my valley
John Ford
1941, 118’
5ª, dia 18, 15h30 – Cinemateca


Laura
Otto Preminger
1944, 85’
Sáb, dia 20, 22h – Cinemateca

Model shop
Jacques Demy

1968, 90’
Eram os Anos 60
, dia 25, 19h Cinemateca

The exiles
Kent MacKenzie
1961, 72’
2ª, dia 29, 23h – Cinemateca


[apenas filmes vistos, sem repetições]

Portrait of Jason (Shirley Clarke), uma antecipação


Portrait of Jason (1967) de Shirley Clarke (excerto vídeo de GarycomUK)
2ª, dia 1 de Setembro, 19h30 – Cinemateca, Lisboa

«É assim meu dever [...] não aceitar a honra do vosso prémio [do New York Film Critics Circle] por mais tempo. Aceitem, por favor, as seguintes razões incompletas para uma tão genuína e discreta afirmação:
JLG nunca conseguiu, ao longo da sua carreira de realizador/espectador de cinema: [...]
Convencer o New York Film Critics Circle a não se esquecer de Shirley Clarke. [...]»
Jean-Luc Godard

Julgo que PORTRAIT OF JASON é um filme raríssimo e quase de culto, por isso mesmo difícil de programar. Creio que permanece inédito em Portugal, embora conheça pelo menos uma tentativa anterior de o trazer. Aparece agora incluído no excelente ciclo Eram os Anos 60, uma ambiciosa panorâmica da década que não se esgota na dimensão cinematográfica.
Shirley Clarke é a realizadora de THE CONNECTION (1962) e, em particular, da pequena obra-prima THE COOL WORLD (1964), entre outros filmes. Num documentário a ela dedicado, pudémos há alguns anos entrever um fascinante e relativamente longo excerto deste PORTRAIT OF JASON.
Claro que é sempre potencialmente enganador antever um filme por um excerto brilhante (ainda mais por um trailer manhoso; embora muitas vezes aconteça o contrário, trailers manhosos que afastam de filmes afinal aceitáveis). Mas na altura em que vimos aquele bocado de PORTRAIT OF JASON cobrimo-nos de uma grande esperança. E pelo menos essa esperança de encontrar uma obra maior baseava-se em algo visto, e não apenas numa qualquer investida especulativa e desavergonhada de marketing em páginas da imprensa. (Estes outros excertos que encontrei no Youtube parecem reportar-se ao início do filme.) Na altura deixei aqui um pedido. Obviamente, não foi por isso o filme veio. Mas ainda bem que há pessoas atentas e que ainda vão encontrando condições de trabalho para expôr essa atenção.
Aliás, a Cinemateca, neste momento que parece simultaneamente de comemoração e de viragem, tem procurado colmatar alguma das suas lacunas no interior do seu ciclo de aniversário. Confiram o rico programa de Setembro, já disponível.

«Barry Keith Houve algum momento específico em que tenha pensado que alguém estava a ser tão maltratado que tinha que largar o equipamento e dizer alguma coisa?

Frederick Wiseman – Há uma sequência em LAW AND ORDER em que membros da brigada de costumes [vice squad] estrangulam uma mulher acusada de ser prostituta porque empurrou um polícia à paisana pelas escadas abaixo. O incidente deu-se no hotel para onde o polícia tinha levado a prostituta de forma a fazer a prisão. Para prender alguém por prostituição em Kansas City tem que haver um preço declarado e um “acto”, o que significa que o polícia da brigada de costumes teve que se despir pelo menos até ficar de camisola interior e, presumivelmente, no último momento, fazer a prisão. Nesta situação particular, o polícia fez a prisão e, quando levava a mulher descendo as escadas do hotel, ela empurrou-o, fugiu e escondeu-se na cave. Ele chamou a brigada de costumes, estes vieram e nós estávamos com eles no seu carro. O porteiro do hotel disse que a mulher tinha fugido para a cave e que não havia luzes lá em baixo. Era uma daquelas noites em que por sorte tinha um projector de luz [stun gun] comigo. Encontraram a mulher escondida debaixo de umas mobílias velhas na cave e um dos polícias começou a estrangulá-la em frente dos nossos projector, câmara e gravador de som. Libertou-a passados trinta segundos e ela virou-se para o outro polícia, que lhe estava a segurar as mãos, e disse – “Ele estava a tentar estrangular-me”. O polícia disse – “Não, isso és tu a imaginar”. No entanto, tínhamos acabado de gravar todo o incidente em película.

Pode considerar-se que os polícias teriam morto a mulher se a equipa de filmagens não tem estado lá, mas, duma maneira ou doutra, eles evidentemente acreditavam que o seu comportamento era apropriado. Pensei em intervir, e gosto de pensar que, se o incidente tem demorado mais outros vinte segundos, teria intervindo, mas não fui realmente posto à prova, porque o polícia parou de estrangular a mulher por sua vontade. Sabia que, se tenho intervindo, não significaria necessariamente o fim do filme, mas ter-se-ia espalhado pelo departamento de polícia que eu gostava de me armar em esperto e que pensava que conhecia o trabalho dos polícias melhor do que eles. O meu trabalho era fazer o filme.»


[Frederick Wiseman virá mais uma vez a Lisboa para uma pequena retrospectiva dos seus filmes, nomeadamente dos mais antigos, e uma masterclass, em Outubro no DocLisboa 2008.]
«Barry Keith Has there ever been a particular instance when you thought someone was being treated so badly that you wanted to put the equipment down and say something?

Frederick Wiseman – There is a sequence in LAW AND ORDER where some members of the vice squad strangle a woman accused of being a prostitute because she knocked an undercover policeman down a flight of stairs. The incident took place in the hotel that the policeman had taken the prostitute to in order to make an arrest. To book someone for prostitution in Kansas City, there must be a declared price and an 'act', which means that the vice squad policeman had to strip down at least to his undershirt and, presumably, at the last minute, make the arrest. In this particular situation, the policeman made the arrest and, as he was leading the woman down the stairs of the hotel, she knocked him down, fled and hid in the basement. He called the vice squad, they came and we were with them in the vice squad car. The bellhop of the hotel said that the woman had fled to the basement and there were no lights down there. It was one of those nights when fortunately I had a stun gun with me. They found the woman hiding under some old furniture in the basement and one of the cops started to strangle her in front of our stun gun, camera and tape recorder. He let her go after about thirty seconds and she turned to the other cop that was holding her hands and said, "he was trying to strangle me". The cop said "oh no, you're just imagining that". Yet we had just recorded the entire incident on film.

You could argue that the cops would have killed the woman if the film crew hadn't been there but, one way or other, they obviously believed that their behaviour was appropriate. I thought about intervening and I'd like to think that, had the incident gone on another twenty seconds, I would have intervened but I wasn't really put to the test because the cop stopped strangling the woman on his own accord. I knew, had I intervened, it wouldn't have necessarily been the end of the movie but word would have spread around the department that I was a wise guy and that I thought I knew the cops' business better than they did. My job was to make the movie.»


Frederick Wiseman, Documentary Filmmaker,
2002 Lifetime Achievement Award Recipient, Interviewed by Professor Barry Keith Grant



Law and order (1969) Frederick Wiseman

[Por queixa da Zipporah Films, Inc. ao Youtube, relativa a copyright infringement, o excerto de LAW AND ORDER, a que se refere a entrevista citada, deixou de estar disponível. As minhas desculpas à Zipporah por ter divulgado ilegalmente o filme, apesar de ter achado o uso justificado, e também aos leitores deste blogue, pelo mesmo já não estar disponível... Mas os primeiros nove sortudos podem descarregá-lo aqui.]

Meros filmes em Agosto


Aquele querido mês
de Agosto

Miguel Gomes
2008, 147’
estreia 5ª, dia 21
15h, 18h15, 21h30
Medeia King
, Lisboa
15h15, 18h15, 21h30, 00h20
UCI Cinemas – El Corte Inglés 2, Lisboa
(tb. Porto, Viseu, Coimbra, Castelo Branco)

[apenas filmes vistos, sem repetições]

Oh Ozu...

Oh Ozu... Também eu, fora de minha casa, encontrei Ozu há uns tempos. Algures perdido, lembrado, no estranho e delicado DIE LINKSHÄNDIGE FRAU/ A MULHER CANHOTA (1977) de Peter Handke, com a maravilhosa Edith Clever.
Filme dentro do filme, naquele preto e branco do mudo. Um casal japonês desavindo, sentado com as crianças, a mulher reticente, o marido opressivo. Ela, apesar da mágoa, forçada a integrar-se num jogo de mãos e cantilena, insistência das crianças...
No entanto, tratou-se de uma das piores projecções de sempre: uma sala de teatro (Trindade), cópia de 16mm (de um filme a 35mm), lâmpada do projector mais que gasta (a dada altura, a personagem de Bruno Ganz, já chegada à Alemanha, diz que «na Finlândia é que faz muito escuro» e nós não vemos rigorosamente nada!), cortes no som (metade do filme ouvido numas colunas traseiras distantes), trocas de bobines demoradas... Mesmo assim, o filme resistiu.

Meros filmes em Julho


Hiroshima mon amour
Alain Resnais
1959, 90’
, dia 4, 22h
Fundação Calouste Gulbenkian

Anfiteatro ao ar livre, Lisboa

Pierrot le fou
Jean-Luc Godard
1965, 110’
3ª, dia 8, 21h30
Cinemateca*, Lisboa


Psycho
Alfred Hitchcock

1960, 109’
4ª, dia 9, 21h30 – Cinemateca

Detour
Edgar G. Ulmer
1945, 67’
5ª, dia 24, 19h30 – Cinemateca

Der Verlorene
Peter Lorre
1951, 97’
6ª, dia 25, 22h – Cinemateca

The woman on the beach
Jean Renoir

1946, 71’
2ª, dia 28, 15h30 – Cinemateca

Only angels have wings
Howard Hawks
1939, 120’
2ª, dia 28, 19h30 – Cinemateca


[apenas filmes vistos, sem repetições]

Cronista falhado (Doc's Kingdom 2008 #1)

Contava fazer de (espécie de) cronista do Doc's Kingdom 2008 de Serpa, enviando sinais mais ou menos cifrados do que por cá se passa aos que por alguma razão não podem estar. Mas durante o seminário sobre cinema documental deste ano, dedicado à «Paisagem — O trabalho do tempo», não se consegue sequer dormir o suficiente, quanto mais ler e pensar por escrito sobre os filmes.
Mesmo o mais modesto alinhamento de dois ou três elementos, que pudesse constituir um pequeno esboço de texto, precisa de algum tempo e de descanso. Precisa de olhos desviados da tela. De olhos eventualmente parados na paisagem, mesmo que não vendo nada. Esses momentos em que não se vê, mas em que de algum modo se está com o filme são tão importantes...

Mise en abîme #6: «Conflito de gerações na RFA» por Sylvie Lindeperg (trad.)



«Na Alemanha Federal, Nuit et Brouillard foi associado mais cedo {do que em França}, e de maneira mais incisiva, à perseguição e ao extermínio dos Judeus. Aquando da estreia do filme em 1956, o jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung qualifica Nuit et Brouillard de documentário “sobre o extermínio dos Judeus” e o órgão da confederação dos sindicatos alemães, Welt der Arbeit, evoca a seu propósito o assassínio em massa de “nove milhões de Judeus [sic]”, retomando assim, e reintepretando, o número do comentário de {Jean} Cayrol. No mesmo espírito, o jornal social-democrata Vorwärts evoca a estreia do filme em Frankfurt em ligação com o destino trágico dos trinta e seis mil Judeus da cidade deportados e assassinados, de entre os quais a emblemática Anne Frank.
Muito rapidamente também, as associações e as autoridades federais vão fazer uso do filme como resposta a algumas afirmações ou actos antisemitas. Nuit et Brouillard é assim programado em Berlim a 10 de Janeiro de 1960, no seguimento dos incidentes antisemitas do Natal de 1959, no decurso dos quais a sinagoga de Colónia foi profanada. E a segunda difusão televisiva de Nuit et Brouillard é programada a 9 de Novembro de 1978 no segundo canal, para comemorar a “Noite de cristal”.


Mesmo se o texto de Celan cumpre talvez o seu papel nesta pregnância do genocídio dos Judeus, é sobretudo preciso procurar a sua origem nas questões de memória específicas da Alemanha Ocidental. Contrariamente à França, onde a visão do deportado patriota-resistente, ela própria integrada num modelo heróico dominante, se tinha totalmente imposto no decorrer do pós-guerra, a RFA sofria a concorrência da RDA, que se tinha apropriado dos heróis da resistência ao “fascismo”. Sob a era adenaueriana, os discursos comemorativos e as políticas de indemnização e de reparação puseram o acento sobretudo nas vítimas judias do nacional-socialismo. Esta evolução acidentada da memória reencontra-se nos usos do filme pela instituição escolar alemã ocidental.
Nas escolas da Alemanha Federal, Nuit et Brouillard conheceu um destino contrastado. Desde a estreia do filme que a imprensa alemã se questionava sobre a pertinência de projectar Nuit et Brouillard nos estabelecimentos escolares. As opiniões divergiam de um jornal para outro, expressas frequentemente de forma taxativa, o que denunciava a importância atribuída pelos adultos a esta espinhosa questão da transmissão.
O governo federal tinha preconizado a difusão do filme junto dos alunos com mais de dezasseis anos e dos estudantes universitários. E, por intermédio da Bundeszentrale für Heimatdienst, uma centena de cópias do filme foram postas à completa disposição de associações e estabelecimentos escolares (algumas tiradas a preto e branco, por razões de economia...). Mas as orientações federais foram aplicadas de forma muito diversa à escala dos Länder.
Os ministros de Bade-Wurtemberg e da Baviera, que tinham recomendado o filme como ferramenta pedagógica, confrontam-se então a duras resistências por parte das associações de pais e de alunos, dos sindicatos de professores e de alguns conselhos directivos. Em Göttingen, foi a municipalidade que se opôs à difusão de Nuit et Brouillard nas escolas da cidade, pelo motivo da “brutalidade crescente da demonstração” não poder ter “um objectivo pedagógico” e não vir a suscitar senão “nojo e repulsa”. Na Westfália do Norte, pelo contrário, o filme foi mostrado desde o fim dos anos 50 aos alunos dos últimos anos do secundário.

Os efeitos dessas projecções são difíceis de avaliar; alguns testemunhos evocam, no entanto, essa primeira confrontação da geração do pós-guerra com os crimes do período nazi. Em 1962, o ano da introdução da Segunda Guerra Mundial nos programas escolares alemães-ocidentais, um professor de história contemporânea refere no seu relatório pedagógico “a recusa manifesta” dos seus alunos finalistas aos quais tinha projectado Nuit et Brouillard. O professor relata as afirmações de um deles:
“Por exemplo, agora o filme Nuit et Brouillard que foi mostrado na nossa escola; provocou, digamos, um grande riso (risos do grupo), é mesmo verdade! Era demais! Fizemos brincadeiras por cima, em todas as turmas. Aquilo preocupou-nos, mas não estávamos assustados.”

Para Andréa Lauterwein, esta reacção pueril explicar-se-ia sobretudo por uma falta de enquadramento pedagógico; os professores alemães da época teriam tendência a remeter-se passivamente a Nuit et Brouillard, que impunham aos alunos sem qualquer preparação ou explicação. A autora apoia-se em particular no testemunho da poetisa alemã Anne Duden, nascida em 1942, que descobriu o documentário no fim da infância:


“Vi o filme Nuit et Brouillard de Alain Resnais onde se mostra como montanhas de cadáveres são removidas com escavadoras. Tivemos de ver este filme na escola, mas não nos foram dadas explicações.”

A poetisa acrescenta que essa projecção constitui um choque tanto mais violento por essas imagens depararem com o silêncio dos adultos sobre a questão dos campos: “Acabava por se falar daquilo de uma maneira ou doutra e, ao mesmo tempo, não se falava de todo. Depois vê-se este filme, criança. É uma mudança na vida. O que aí se vê é pura loucura.”
Esta tomada de consciência, que se opera num perturbação indistinta, é imediatamente minada pelo mundo dos adultos:
“Agora a Alemanha não era senão uma zona [...]; posto de espera e fossa de assassinos; terrenos de ruínas e colinas de escombros, central de comandos e fossa comum, mostrada secretamente para que a visitemos, uma vez, na escola, através de Nuit et Brouillard, o filme de Alain Resnais, seguida e perseguida pelos comentários dos adultos: mera propaganda.”

Esta ausência de confirmação dos factos históricos, que ia por vezes até à denegação, devia alimentar a rejeição dos pais e a contestação das gerações do pós-guerra, que tomou uma forma particularmente aguda durante os anos 60 e no decénio que se seguiu. Para evocar esse violento conflito de gerações, Michael Schneider recorre por sua vez à melancolia de Hamlet, engendrada por um objecto paternal duplo, cujas duas faces seriam “o espectro do pai e o tio paterno assassino ocupando o trono”:


“Foi como se de repente o espectro do seu pai, vestido de uniforme nazi, lhes tivesse aparecido e acusado o seu pai dos crimes colectivos mais terríveis que uma geração cometeu durante este século. Pouco a pouco, o pai fantasmagórico tomou o lugar daquele com quem se tinha gentilmente almoçado e jantado durante vinte anos. E, tal como Hamlet, não estavam muitas vezes certos desse fenómeno ser apenas um espectro produzido pela sua imaginação, pela sua súbita suspeita, ou se, bem real, fazia aparecer a verdadeira natureza, até então escondida, do seu pai. Inclinaram-se então a dar mais crédito à voz do fantasma nazi do seu pai do que ao pai presente tornado cristão, liberal ou social-democrata. Mesmo se, entretanto, esse pai se tinha tornado um democrata convicto, os filhos disso tinham que duvidar, porque tanto tempo tinha mantido a sua falha em silêncio. ”

No quadro deste retorno espectral do passado, Nuit et Brouillard parece ter tido um papel importante, como elemento de um duplo procedimento de acusação dos assassinos hitlerianos e do silêncio amnésico de toda uma geração. Para inúmeros professores alemães que começaram a leccionar no contexto do pós-68, em conjunto com a transmutação maior que estes acontecimentos representaram na consciência alemã-ocidental, o filme permitia empreender com os alunos o exame crítico do passado nazi que lhes tinha faltado na sua própria juventude. A partir dos anos 70, o documentário de Resnais foi largamente difundido nas escolas da Alemanha ocidental, por vezes ao nível do ensino primário.


Neste aspecto, é significativo que Nuit et Brouillard abra, através do prelúdio de Eisler, o filme de Alexander Kluge, Die Patriotin (1979). A personagem principal é, com efeito, uma jovem professora de história que tenta actualizar diferentes episódios ocultos da história alemã. A heroína escava o passado nacional com uma pá, “objecto metafórico que deve servir para desenterrar o que foi escondido”, e elabora, a partir de fragmentos encontrados da história nacional, um outro “dispositivo memorial correspondente a um outro desejo de Alemanha, não a da RFA na qual ela vive e em que o passado nazi como se volatilizou, mas uma Alemanha em falta, por defeito, em sofrimento” (R. Robin).
Não é também por acaso que Margarethe von Trotta met en abîme
Nuit et Brouillard no seu filme Die bleierne Zeit (1981) que se inspira no percurso de Gudrun e Christiane Ensslin. A realizadora alemã explica:
“Queria demonstrar que o terrorismo, ainda assim, não nasceu do nada. Estava, ainda assim, ligado à nossa história. E toda a primeira geração de terroristas tinha pais que estiveram envolvidos [no] nazismo e [...] tinham antes recusado a sua culpabilidade. Portanto, Die bleierne Zeit {Os anos de chumbo} é para mim também um nome para os anos 50 em que nós – dado que sou da geração desses primeiros terroristas – [vivemos] como sob uma chapa de chumbo, em que sabíamos que havia qualquer coisa de grave no nosso passado, mas de que ninguém falava, mesmo nas escolas.”

No seu filme, a realizadora restitui, por intermédio de flash-backs, os momentos-chave da infância e adolescência das duas irmãs, Juliane e Marianne, a mais nova e menos revoltada mas que cairá no terrorismo.




Numa das sequências fulcrais, Margarethe von Trotta expõe, através de uma aula de literatura, a inadaptação do sistema escolar alemão, acantonado num recolhimento cauteloso nos valores de um passado longínquo. Juliane declara então ao seu professor que acha Rilke kitsch e que preferiria estudar Brecht e Celan. Ao professor, que lhe recrimina a estratégia de recusa, retorque ela assim: “E você, que procura evitar?”
A cena seminal, que parece determinar a trajectória da jovem Marianne, mostra-nos as duas irmãs assistindo, na companhia de outros adolescentes, a uma projecção de Nuit et Brouillard, aparentemente organizada pelo pai padre que vemos colocar-se como observador no fundo da sala. O filme de von Trotta conforma-se assim à história familiar de Gudrun Esslin: o seu pai Helmut era um pastor evangélico antimilitarista e antifascista que nunca se compremeteu com o regime nazi (aliás, como os pais de Andreas Baader e de Ulrike Meinhof). Assim, para estes três membros da Facção Exército Vermelho, a herança da culpabilidade foi legada socialmente, em vez de familiarmente; a sua violência dirigia-se colectiva e genericamente à geração “daqueles que tinham feito Auschwitz” e com os quais “não se podia conversar”. A propósito desta passagem ao acto e desta caída na violência, Michael Schneider assinala ainda:


“As acções espectaculares dos terroristas alemães lembram-me a célebre cena de Hamlet, em que este pede aos actores que representem perante o seu tio o assassínio do seu pai. Desde o seu início, a RAF não foi aquilo pelo qual se tomou (uma libertação por procuração das massas ainda adormecidas); foi antes uma acção assassina e suicidária visando o desmascarar dos assassinos.”

A escolha operada pela realizadora na sua longa citação de Nuit et Brouillard faz eco deste procedimento de desvelamento: o excerto começa na data de 1945, com a evocação do comprometimento dos industriais alemães, e inclui toda a meditação no presente, depois de kapos e oficiais terem negado a sua culpabilidade. Entretanto, as imagens de Belsen provocaram a saída de Marianne, seguida pela irmã, de lenço nos lábios, que vem reencontrar a mais nova chorando em frente aos lavatórios da casa de banho.
Esta citação de
Nuit et Brouillard pela realizadora alemã confere por sua vez ao filme de Resnais uma função similar àquela da pantomina shakesperiana. Esse dispositivo de espelhamento aparece como um distante relembrar daquele que foi o adoptado pelos Aliados em Nuremberga, com vista a ler a culpabilidade no rosto dos acusados; repetido no processo de Jerusalém, é doravante utilizado entre alemães no quadro de um conflito de gerações exacerbado.

Reencontramos o filme de Resnais em Die innere Sicherheit (2000) {cf. «Mise en abîme #1»}, realizado pelo cineasta alemão Christian Petzold. Esta ficção evoca o exílio, a fuga e, por fim, o retorno caótico à Alemanha de um casal de antigos terroristas e da sua filha Jeanne, de quinze anos de idade. Aqui o círculo parece fechar-se: a adolescente junta-se por acaso a um grupo de alunos do secundário e assiste com eles a uma projecção de Nuit et Brouillard. A sessão termina com uma diatribe do professor, amargo, que passa sermão aos jovens por causa do seu absentismo, enquanto Jeanne pega nas suas coisas e sai em silêncio. Assim, o único contacto da adolescente com a instituição escolar alemã faz-se por intermédio do filme de Resnais, aparecendo doravante como uma referência obrigatória e assinalando a institucionalização do filme na Alemanha. Piscadela de olho de Petzold ao jovem cinema alemão e a Os anos de chumbo, ao mesmo tempo que lembrança de infância de um cineasta nascido em 1960, a referência a Nuit et Brouillard revela uma ligação menos tensa com a história alemã. Como Margarethe von Trotta, Christian Petzold cita a última parte do documentário, mas limita o seu excerto ao epílogo a cores que se concluí estranhamente com um cartão de genérico de FIM... Com este palavra ENDE {cf. «Mise en abîme #5»}, uma página parece definitivamente virada.


Sinal dos tempos, com efeito, Nuit et Brouillard é hoje em dia recomendado no quadro do ensino escolar pela Bundeszentrale für politische Bildung, que o preconiza para a aquisição de conhecimentos cinematográficos de base. Nuit et Brouillard figura a esse título numa lista de trinta e cinco filmes recomendados, nomeadamente ao lado de Nosferatu, The Gold Rush, Bronenosets Potyomkin, Rashomon, The Wizard of Oz ou ainda Vertigo... Passado o tempo das cópias passáveis, tiradas por economia em preto e branco, administradas como um remédio amargo a alunos tetanizados, o olhar das novas gerações da Alemanha reunificada sobre o filme pode doravante debruçar-se sobre a sua vertente cinéfila.»

Sylvie Lindeperg, “Nuit et brouillard” – Un film dans l'histoire,
Odile Jacob, Paris, 2007, p. 230-234
[trad. minha, com a amável autorização da autora;
agradecimento a Nuno Lisboa, a quem devo o conhecimento da obra e o seu empréstimo].

Mise en abîme #5: “Ende”


Porque termina NACHT UND NEBEL, a versão alemã de NUIT ET BROUILLARD de Alain Resnais, pelo menos numa das cópias de distribuição, e a julgar por esta inserção em DIE INNERE SICHERHEIT aparentemente confirmada por Michael Baute numa cópia gravada da televisão alemã, com este inesperado cartão de “Ende”, que quer dizer “Fim”, quando a versão francesa original não o possui?

Não termina igualmente NUIT ET BROUILLARD com “o grito não se cala”, aliás, na legendagem portuguesa ainda mais explícita, “os gritos sem fim”? Então, depois dos gritos sem fim, o “fim”? O fim do filme, claro! Era apenas um filme, afinal...
Como esclarecer este mistério alemão, esta originalidade? Talvez tenha sido só uma questão de pressa. Pressa em pôr-lhe fim.

Mise en abîme #4: Filmes-problema


Segundo excerto da entrevista a Christian Petzold
.

André Dias – Afirmou que não gostava de filmes-problema. O que quer dizer? Não deseja que as pessoas extraiam problemas dos filmes? Ou não percebe como podem as pessoas usar os filmes para pensar?
Christian Petzold – Do que não gosto são de problemas que antecedem os filmes. Tal como não gosto do mesmo em literatura. Gosto que tenham um tema, mas que durante a escrita se perceba que esse tema está a conquistar a sua estrutura, arquitectura e autonomia, e que o escritor se está a perder. Nos bons filmes vê-se a luta do filme para perder o seu controlo. Nos maus filmes vê-se tudo o que o produtor e o realizador queriam, as ideias realizadas. Por isso é que os westerns e os filmes policiais americanos, mesmo aqueles com final feliz e estruturas de género, são tão complexos. Mais complexos que os filmes alemães dos anos setenta, nada complicados; há o pai nazi e por aí em diante. Odeio este tipo de problemas, quando as imagens são apenas substitutos das palavras, ilustrações.

Mise en abîme #3: Não somos suficientemente fortes


Excerto de uma entrevista a Christian Petzold, realizador alemão do filme DIE INNERE SICHERHEIT (2000), sobre o excerto vídeo que mostrámos em baixo em «Mise en abîme #1». A entrevista completa
, realizada aquando da sua presença em Lisboa no ciclo «Nova Escola de Berlim», será publicada aqui na estreia do seu último filme YELLA.

André Dias – É interessante o que acontece na sequência de DIE INNERE SICHERHEIT em que a jovem personagem feminina à deriva acaba por ir dar a uma aula onde estão a mostrar NUIT ET BROUILLARD. O professor faz-lhe estranhas perguntas, uma espécie de lavagem ao cérebro...
Christian Petzold – Quando eu andava na escola, havia uma altura em que víamos filmes à tarde. Eram sempre muito chatos. Por vezes, havia um bom, como EFFI BRIEST (1974) de Fassbinder ou assim. Na maior parte dos casos, tratava-se de filmes com temas, que se podem discutir depois. Odeio este tipo de filmes! Ou seja, filmes com um problema.


Ilustrações...

Problemas ilustrados, com imagens. Tinha catorze anos e vimos NUIT ET BROUILLARD de Alain Resnais. Ficámos completamente chocados. E odiámos o professor que nos mostrou o filme, porque nos tinha tornado culpados de todos aqueles crimes. Penso que ele tinha um pouco de razão. Vivíamos nos anos setenta, tínhamos muito dinheiro, a Alemanha era um país rico, e as casas em que vivíamos eram fundadas sobre esses crimes. Sentíamos isso. Mas o professor também era culpado. Era muito duro: “Não conseguem perceber isso no filme? Não vêem o filme!” Como se estivéssemos no Processo de Nuremberga enquanto alunos. Disto lembro-me.
Mais tarde, quando comecei a ser um cineasta, um nerd ou algo assim, vi o filme pela segunda vez. E era um filme fantástico! E, quando percebi que o Georges Delerue tinha composto a música [na verdade, Hanns Eisler; Delerue fez apenas a orquestração], Alain Resnais era o realizador, Louis Malle tinha feito a câmara [apócrifo; a fotografia é oficialmente de Ghislain Cloquet e Sacha Vierny], que o Chris Marker tinha também trabalhado no filme [como assistente de realização], compreendi que este tinha sido, na verdade, o primeiro filme da Nouvelle vague. Por outro lado, sabemos que os alemães abandonaram o Festival de Cannes de 1955 por causa dele. Por isso, para mim, este filme é História, a história viva...
Depois, li nas biografias dos terroristas da RAF [Facção do Exército Vermelho] que este filme tinha constituido para eles uma linha de fronteira. A partir do momento em que o viram não podiam fazer parte da vida alemã normal. Há uma culpa que se tinha que retribuir, tinha que haver vingança. Nesta cena de DIE INNERE SICHERHEIT, queria mostrar todos estes aspectos num único momento.
Foi também uma situação muito dura, porque o homem que faz de professor tinha sido ele próprio professor anteriormente. Sabia exactamente o que eu estava a tentar fazer. Foi muito duro com os alunos, que eram verdadeiros alunos de Hamburgo. Quando estávamos a filmar, os mais jovens riam-se, porque sentiam-se um pouco envergonhados. Não tinham visto o filme anteriormente, viram-no ali do princípio ao fim, e a seguir começámos a filmar. Tinham ficado impressionados, e então o professor entra... Pode ver-se nas suas caras que estão chocados, como eu fiquei chocado vinte anos antes...


Mas conhecia a extensão daquilo a que chama de crimes?
Já tinha visto imagens antes. Conhecíamos imagens de Auschwitz e doutros sítios. Mas não foi por essa razão. Foi mais o comentário, as palavras, as da versão de Paul Celan, que dizem: “Que estamos a fazer agora? Onde estaremos quando os novos nazis chegarem? Seremos suficientemente fortes?” Se me perguntarem, digo que não o somos.

Mise en abîme #2: Comentário áudio

Barbara Auer – Como chegaste a este filme?
Christian Petzold – Quando tinha a mesma idade que Jeanne [a jovem personagem feminina de DIE INNERE SICHERHEIT], vi este filme [NUIT ET BROUILLARD]. Nessa altura, traumatizou-me profundamente.
Na escola?

Sim... Acho que é, ainda hoje, o único filme sobre Auschwitz. O único filme que não mostra apenas, mas permite conhecer Auschwitz.
Acho a voz estranhíssima, rude... daquele tempo. Fica-se a pensar que os nazis falavam assim, apesar do que é dito.
É a locução alemã, traduzida da locução francesa para alemão por Paul Celan em 1955. O filme esteve em Cannes nesse ano e os alemães abandonaram em protesto, porque este filme enfraquecia a história da Alemanha. Foi um enorme escândalo.
No início dos anos 60 voltou à Alemanha, através dos cineclubes, onde se o podia ver na versão original. Podemos dizer que foi um filme extremamente importante para 68. Nele percebe-se que 68 é uma reacção contra os pais nazis.
A primeira geração da RAF [Rote Armee Fraktion/Fracção do Exército Vermelho]...
A rapariga está a ser responsabilizada pelo professor por uma coisa que conhece demasiado bem [os pais dela são ex-militantes armados de esquerda]. Está a ser castigada por uma coisa que conhece de corpo inteiro. Acho a cena brutal.
Vejo este professor como um esquerdista desiludido. É assim que imagino aqueles professores dos finais dos anos 70, que acham que os alunos de hoje só querem portáteis, dvds, música americana...
Alguns sim, hoje estão mesmo desiludidos. Eram jovens quando vieram para a escola...
O irem para a escola acabou-lhes rapidamente com a juventude! É certamente um professor de esquerda, pelos filmes que mostra e por fazer perguntas relacionadas com um conhecimento de história. E então chateia naturalmente a rapariga, massacrando-a bem mais do que o necessário...




Comentário áudio de DIE INNERE SICHERHEIT, por Christian Petzold (realizador) e Barbara Auer (actriz que faz de mãe da rapariga), sobre as imagens do excerto que mostra NUIT ET BROUILLARD.


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