Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Rulotes


Ao deus dará em todos os lugares,
em tendas velhas, em rulotes,
sabe-se lá onde vão cagar.
(Joaquim Manuel Magalhães)

Domingo de manhã. Saio para um pouco de sol e pequeno almoço na rua. A caminho do Príncipe Real, uma rulote de comes e bebes estacionada junto ao passeio, a funcionar. Algo de pouco habitual. A não ser que à rulote se sigam enormes camiões com geradores e equipamento de iluminação, etc. Percebe-se então que alguma equipa de cinema anda por ali a rodar. Haverá melhor imagem de um certo cinema do que esta rulote no meio de uma rua qualquer? Já Pedro Costa se queixava, há alguns anos, de como nas rodagens a primeira coisa que lhe perguntavam, logo pela manhã, era se queria carne ou peixe para o almoço...

Não sei ao certo porquê, mas isto relembrou-me duas coisas do discurso de apresentação de António Pinto Ribeiro, um dos comissários dos 6 novos filmes do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística, que me tinham ficado engasgadas. Dizia Pinto Ribeiro que estes novos filmes não correspondiam de todo ao cliché do cinema português. E dizia-o como se isso fosse uma coisa boa em si. Portanto, que estes novos filmes seriam diferentes e mais audazes, presume-se. Mas, como tentei começar a vislumbrar no texto sobre a relação entre Herman José e Manoel de Oliveira e a correspondente imagem do cinema português, talvez haja alguma verdade na composição desse cliché. Talvez a expressão mais singular deste cinema passe mesmo por uma correspondência à aparente lentidão e a um falso “não se passa nada”. Está mais que na altura de o assumir com frontalidade, para não sermos constantemente obrigados a uma postura defensiva forçada a aceitar as caracterizações dos seus detractores. Afinal, não são os maiores valores deste cinema, como Manoel de Oliveira, Paulo Rocha, António Reis, João César Monteiro e agora Pedro Costa, expoentes dessa aparente “lentidão”? E não cabem as suas melhores obras, de certa forma, ainda na parte verdadeira desse cliché?



António Pinto Ribeiro, ao desprezar o cliché da forma que o fez, está obrigatoriamente também, a desprezar o cinema que lhe corresponde. Não apenas adopta o cliché como verdadeiro, confirmando-o, como também está disposto, e é o mais grave, a preferir uma expressão cinematográfica quase inócua mas que consiga quebrar a correspondência ao cliché, numa fuga para a frente. Porque o problema está no facto de ser ainda preciso que os que fogem ao cliché alcancem a mesma força de expressão cinematográfica. E isso ainda está por vir, pelo menos, e ao contrário do que deu a entender, não é ainda nestes novos filmes que se a encontrará.
No entanto, a importância particular do filme AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO de Miguel Gomes talvez esteja, para além dos seus outros atributos, em ser essa primeira excepção (que, no entanto, ainda confirmará a regra?). Ou seja, existe, paralelamente à obra de Pedro Costa, que é a encarnação de que hoje se poderia alimentar o cliché, um primeiro filme português de particular relevância cinematográfica que não pode cair de maneira alguma na definição do cliché do cinema português.

Em paralelo, uma segunda afirmação de Pinto Ribeiro fez referência a uma outra escala de produção possível. No seu entender, os filmes que apresentou provam possível uma escala de produção menor, ou seja, com bastante menos dinheiro. Quer isto dizer que os filmes da Gulbenkian certamente não alugam rulotes de comes e bebes, o que não deixa de se saudar. Mas há também aqui algo de enganador. Não se trata apenas das obras apresentadas, em geral, denunciarem os seus baixos valores de produção, o que as limitará esteticamente e, posteriormente, no retorno comercial da sua distribuição. Em Portugal, e talvez ainda bem, a maior parte dos realizadores fará um filme com o dinheiro que lhe derem. A escala de produção pode sempre descer.



O que é enganoso é que se queira fazer passar a ideia de que se pode fazer descer essa escala de produção sem se pôr igualmente em causa a qualidade dos filmes. Não por acaso o programa Gulbenkian destina-se a jovens artistas, mais dispostos a aceitar essa precariedade. Não por acaso ainda não existem dados claros que permitam assegurar que desse programa resultaram (ou resultarão) cinematograficamente obras que fiquem. E sobre os filmes pobres há alguns enganos mais. Só por engano também se pode pensar que Pedro Costa faz filmes pobres em si. O que faz, e muito bem, é usar o muito dinheiro da produção dos seus filmes em extensão, em vez de intensamente no espaço de tempo de uma rodagem curta. Claro que não é apenas essa a diferença da economia de produção do seu cinema, sobre a qual aliás se debruça constantemente nas entrevistas. Mas trata-se, mais ou menos, do mesmo dinheiro que outros filmes financiados pelo Estado têm em Portugal, apenas sujeito a uma utilização muito diferente, eventualmente mais justa, e que corresponde sobretudo, ou é solidário, com o tipo de filmes que Pedro Costa deseja fazer. Essa ética da pobreza aplicada a filmes que não têm praticamente dinheiro nenhum não terá obviamente os mesmos resultados, ou apenas excepcionalmente por um qualquer gesto inaudito e extremamente precário. É aliás muito enganoso fazer corresponder qualidade dos filmes e dinheiro, pois para aquela contribuem muitos outros factores. Por isso, convém deixar claro que a escala de produção que defende Pinto Ribeiro não têm ainda expressão cinematográfica que a justifique.

Adenda: Já que estamos a debruçar-nos sobre o Programa Gulbenkian Criação e Criatividade Artística, cujo Curso de Vídeoarte termina esta Quinta-feira com a apresentação pública dos trabalhos, convém referir que, de entre os inúmeros monitores de relevo deste curso, como Jean-Pierre Gorin, Chantal Akerman, Colin MacCabe, Avi Mograbi, Madeleine Bernstorff, Françoise Parfait, apenas Harun Farocki apresentou uma masterclass aberta ao público. Infelizmente, desaproveitou-se assim a rara presença em Portugal destas pessoas, limitando severamente o impacto que o programa poderia ter para além da formação dos felizes alunos contemplados.

Ao pé da letra #28 (António Guerreiro)

«A metáfora do sangue presta-se a usos sinistros

Na semana passada ficámos a saber, através de um estudo relatado pelo Público, que os portugueses têm, em elevada percentagem, genes dos mouros e dos sefarditas. A ciência que pretende determinar as características genéticas de um povo, grupo ou comunidade é mais do que duvidosa e acaba geralmente na sinistra biologização da Cultura e da História e na procura do originário e incorrupto. Com base neste estudo, José Manuel Fernandes escreveu um editorial intitulado “O ADN deste país em que vivemos...”, que começava de forma eloquente:

“Deixem-se de peneiras, portugueses do Sul: 35 por cento do sangue que corre nas vossas veias é judeu.” J.M.F. até se regozija com esse facto, mas a sua apologia da mestiçagem recorre à mesma retórica do mito da raça. A metáfora do sangue é daquelas que não podemos ler sem sobressaltos, sobretudo quando serve para a figuração de um povo (veja-se a obsessão nazi da “Rassengestalt”) e para determinar a sua História com destino. Quando J.M.F. passa do sangue do “nosso destino como nação” estamos no campo da biopolítica total e da ideologia totalitária, que permite explicar o movimento da História como um processo único e coerente.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 13.12.2008.

Filmes sobre filmes




Os filmes precisam de um exterior para que remetam: a vida... Os filmes, aliás, todas as obras de arte, e mesmo as pessoas, sem esse exterior tornam-se sufocantes. Como se explica então que filmes sobre filmes nos cativem? Não seria o deles um exterior quase por delegação: um filme remete para outro que remete para um exterior? Ou é já esse exterior que os atravessa de par em par? Em todo o caso, é preciso muita fé no próprio cinema enquanto matéria viva do mundo, e não apenas reflexo deste, para fazer um filme sobre um filme. Quem tenha visto os filmes sobre filmes de Jean-Luc Godard, em particular as suas HISTOIRE(S) DU CINÉMA, terá reparado no curioso efeito que provocam. Reinvestem de esplendor cada pedaço de filme outro, tornando, na nossa memória alegremente confusa, inseparáveis os filmes originais das suas evocações. Assim DUEL IN THE SUN de King Vidor, com a Jennifer Jones e o Gregory Peck, aos tiros e beijos até à morte num monte poeirento. E outros que tais...

Se a programação é a arte de arranjar desculpas para programar bons filmes, os filmes sobre filmes, quando conseguidos, são os extremos da emancipação do cinema. No ciclo “Histórias do cinema por si próprio”, programado por Ricardo Matos Cabo, tivemos a oportunidade de conhecer um outro grande expoente dessa magia: o documentarista alemão Hartmut Bitomsky. Neste seu DAS KINO UND DER TOD / O CINEMA E A MORTE (1988), em que por oposição aos seus filmes sobre filmes seguintes, o dispositivo ainda é aparentemente rudimentar, baseado na passagem à mão de fotografias dos filmes, é incrível o exterior que passa. Como nos generosos livros de Deleuze, em que fica imediatamente a apetecer ler cada obra de literatura citada, cada filme em que Bitomsky toca, mesmo sob o tema pesaroso da “morte”, ganha um fascínio súbito, vital, e até, porventura, enganador. Poderemos comprová-lo hoje quando virmos o filme sobre o qual se exercita este excerto.

The killers (1964) Don Siegel
6ª, dia 12, 22h – Cinemateca, Lisboa

O cliché de Herman José. Homenagem falhada a Manoel de Oliveira


Das unanimidades, tanto positivas como negativas, é sempre de suspeitar. Manoel de Oliveira, agora que lhe comemoram o centenário, nunca esteve tão perto de ser unânime. É muito difícil, neste contexto, ter algo a dizer sobre a sua obra, porque se calam mesmo aqueles que nunca a puderam ver nem pintada. Não querem estragar a festa. Pois, mas sem inimigos a entronização ameaça, pese embora Oliveira, que conheceu desfeitas antigas, como bem lembra em alguns filmes, não pareça com vontade de se deixar levar. Mas fica algo por dizer, por compreender, então. Que foi feito de todo esse ódio disfarçado de paródia que lhe tinham? Mistério!

Por isso, a única homenagem que sou capaz de fazer, neste momento, a um realizador que muito admiro, é lançar a suspeita sobre essa unanimidade, procurando a contrapêlo perceber o que aconteceu entretanto para que a sua obra se tornasse tão mais dócil para o status quo. Parece-me que a melhor maneira de o fazer passa por indagar aquele que foi o modo como a maior parte das pessoas terá conhecido o cinema de Manoel de Oliveira. Ou seja, através dos sketches nos programas de Herman José. E digo “conhecido” com plena consciência, pois, como aqui escrevi há algum tempo, esse cliché humorístico da lentidão, que se estendeu depois dos filmes do Oliveira para uma caracterização geral do cinema português, captava então algo de verdadeiro. A languidão dos corpos, a fala arrastada e pausada, “cheia de silêncios”, sendo de facto um cliché de alguns filmes de Oliveira, era e é ainda, ao mesmo tempo, para quem veja os filmes, parte inextirpável da potência expressiva desses mesmos filmes, das sensações que ele permite.


A poderosa emoção de alguns dos seus melhores filmes, como AMOR DE PERDIÇÃO, FRANCISCA ou VALE ABRAÃO, decorre em grande parte do estado de quase transe em que essas cenas deixam o espectador. Por isso, se fosse programador da Cinemateca, e se me deixassem, claro está, teria incluído esses sketches de Herman José na retrospectiva integral da obra de Oliveira que agora decorre. Não são ofensas à obra, pelo menos os melhores não o são; pelo contrário, são quase parte integrante dela. Creio até que este assunto da eficácia do cliché humorístico na “imagem” do cinema português reveste-se de uma tal seriedade que era dos que mais justificava uma investigação académica. Tema para uma tese de mestrado bem fundamentada e tal, porque não?

E por uma daquelas coincidências espantosas, recebo finalmente, no próprio dia do aniversário de Manoel de Oliveira, a resposta que tanto esperava relativa a esta questão. Tinha feito uma pergunta por escrito sobre o assunto na página pessoal de Herman José. Respondeu-me o próprio [penúltima pergunta e resposta] (ou alguém a passar-se por ele, não interessa; como a resposta demorou dois meses e meio, vou partir do pressuposto que foi mesmo ele):

P: Caros, Gostaria de saber ao certo, para uma investigação que estou a fazer, quando começou o Herman José a fazer
sketches com os filmes do Manoel de Oliveira em particular, e sobre a lentidão do cinema português em geral, e em que séries é que os posso encontrar? Muito obrigado, André Dias

R: Caro André, do primeiro não me lembro. O melhor foi no Herman Enciclopédia !




Infelizmente, à alegria de ter obtido uma resposta à minha pergunta, de resto talvez demasiado factual e laudatória de menos, não correspondeu uma iluminação esclarecedora. Como puderam ler, a resposta de Herman é assim para o negligente. Custa-me a crer que não tenha melhor memória da sua obra, também ela com laivos de genialidade a seu tempo, e que afinal lhe deve ter custado bastante a criar, principalmente nos momentos iniciais. Duvido, portanto, que seja no Herman Enciclopédia, série bastante mais tardia (de 1997) e já decadente do seu humor, que tenham sido realizadosos os melhores sketches sobre Manoel de Oliveira e o cinema português.
A minha memória é ainda mais frágil que a de Herman, mas, e relembrando que o ponto extremo da comicidade FRANCISCA é de 1981, julgo bem mais provável que seja na série Hermanias (1984) ou Humor de perdição (1987) que se encontrará um fantástico sketch que, para mim, resume esta coincidência entre o cliché humorístico e a sensação estética. Gostava imenso de o rever. Quanto mais não fosse para verificar se, como quero acreditar, esse humor de Herman ainda hoje se sustenta por si, ou se era apenas o desdém que já então o aguentava. Talvez Herman (e os seus seguidores, incluíndo os Gato Fedorento) nunca se tenha conscientemente apercebido dessa coincidência, o que não é importante; mas, acompanhando a sua decadência como humorista, o cliché sobre o cinema português foi-se tornando cada vez mais amargo. Na ausência da visão desse sketch antigo, talvez fundador, este texto baseia-se numa pressuposição inverificável. Não pode por isso deixar de ser uma homenagem falhada a Oliveira (mas também a Herman, já agora).

É verdade que na Herman Enciclopédia um dos episódios se chama precisamente “Cinema”, e incluí dois sketches a que Herman se pode estar a referir. Mas não só estes não são muito inspiradores, como são isentos da generosidade necessária ao humor (embora o d“a tradutora” tenha alguma piada, por causa do linguajar; conferir o outro: sobre “salas de cinema portuguesas”). Já no Herman Sic se pode comprovar, sem dúvida alguma, como o desdém tomou conta do humor, quebrando a coincidência que outrora ele tinha sido tão capaz de apreender, quando sabia menos do que captava. Isso é prova da sua enorme falência, por comparação com Oliveira, certamente. Neste aspecto, a passagem do tempo foi bem cruel para Herman.
Convém dizer, no entanto, que a evolução da obra de Oliveira contribuiu igualmente para a dissolução da coincidência entre o cliché humorístico e a sensação estética, pois perdeu entretanto muita da sua radicalidade. Diluiu-se, por assim dizer. Ao que não será alheio o facto de a produção ter aumentado exponencialmente. Os seus inúmeros filmes recentes continuam imensamente livres, pois Oliveira é antes de tudo um intuitivo, ao contrário do que pensam os seus detractores, pseudo-intelectualizando-o. Mas nem todos os filmes se sustentam já por inteiro. As partes falhadas ferem o todo, o que não acontecia anteriormente. Talvez por isso já não sejam tão agressivos, disruptivos, inovadores, e, precisamente por isso, passíveis de humor. Podem enfim servir à comemoração.

P.S.: Luís Miguel Oliveira encontra uma outra genealogia, mais profunda, “uma espécie de mito fundador da repulsa”.


O Ípsilon, suplemento cultural do jornal Público, passou a estar online! Será isto motivo de regozijo? Ou será que passou a ter apenas 48 páginas em papel, que são menos 12 que na edição anterior de 5 de Dezembro? Espera-se que este emagrecimento seja meramente circunstancial.

O que é o contemporâneo? (Giorgio Agamben)


«[...] O poeta –
o contemporâneo – deve ter o olhar fixo no seu tempo. Mas que coisa vê quem vê o seu tempo, o sorriso demente do seu século? [... C]ontemporâneo é aquele que tem o olhar fixo no seu tempo, para nele se aperceber não das luzes mas da escuridão. Todos os tempos são, para quem neles experimenta a contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é aquele que, precisamente, sabe ver esta obscuridade, que está à altura de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente. Mas que significa “ver as trevas”, “aperceber-se da escuridão”?
Uma primeira resposta é-nos sugerida pela neurofisiologia da visão. O que acontece quando nos encontramos num ambiente privado de luz, ou quando fechamos os olhos? O que é a escuridão que então vemos? Os neurofisiologistas dizem-nos que a ausência de luz desinibe uma série de células periféricas da retina, ditas, precisamente, off-cells, que entram em actividade e produzem aquela espécie particular de visão a que chamamos escuridão. A escuridão não é, portanto, um conceito privativo, a simples ausência da luz, algo como uma não-visão, antes o resultado da actividade das off-cells, um produto da nossa retina. Isto significa, se voltarmos agora à nossa tese sobre a escuridão da contemporaneidade, que aperceber-se desta escuridão não é uma forma de inércia ou de passividade, antes implica uma actividade e uma habilidade particular, que, no nosso caso, equivalem a neutralizar as luzes que provêem da época para descobrir as suas trevas, a sua escuridão especial, que, no entanto, não é separável daquelas luzes.


Pode dizer-se contemporâneo somente quem não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue nelas distinguir a parte da sombra, a sua íntima obscuridade. Com isto, todavia, não respondemos ainda à nossa pergunta. Porque nos deveria interessar chegar a aperceber-nos das trevas que provêem da época? Não é talvez a escuridão uma experiência anónima e por definição impenetrável, algo que não nos é dirigido e que não pode assim dizer-nos respeito? Pelo contrário, o contemporâneo é aquele que se apercebe da escuridão do seu tempo como algo que lhe diz respeito e que não cessa de o interpelar, algo que, mais do que todas as luzes, se dirige directa e singularmente a ele. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o feixe de trevas que provêem do seu tempo.

No firmamento que olhamos de noite, as estrelas brilham circundadas por uma espessa treva. Dado que no universo há um número infinito de galáxias e de corpos luminosos, a escuridão que vemos no céu é algo que, segundo os cientistas, necessita de explicação. É precisamente acerca da explicação que a astrofísica contemporânea dá sobre esta escuridão que vos queria agora falar. No universo em expansão, as galáxias mais remotas distanciam-se de nós a uma velocidade tão grande que a sua luz não chega a alcançar-nos. Aquilo de que nos apercebemos como escuridão do céu é esta luz que viaja velocíssima em direcção a nós e que, no entanto, não nos pode alcançar, porque as galáxias de onde provêm distanciam-se a uma velocidade superior à da luz.



Aperceber-se, na escuridão do presente, desta luz que procura alcançar-nos e que não o pode fazer, eis o que significa ser contemporâneo. Por isso é que os contemporâneo são raros. E por isso é que ser contemporâneo é, antes de mais, uma questão de coragem: porque significa ser capaz não apenas de ter o olhar fixo na escuridão da época, mas também aperceber-se, nessa escuridão, de uma luz que, dirigida na nossa direcção, se distancia infinitamente de nós. Ou ainda: ser pontual ao encontro a que se pode somente faltar.
Por isso o presente de que a contemporaneidade se apercebe tem a espinha partida. O nosso tempo, o presente não é, na verdade, apenas o mais longínquo: não pode em caso algum alcançar-nos. As suas costas estão despedaçadas e nós situamo-nos exactamente no ponto da fractura. Por isso somos, apesar de tudo, contemporâneos. Compreendam bem que o encontro que está em questão na contemporaneidade não tem lugar simplesmente no tempo cronológico: é, no tempo cronológico, algo que urge dentro dele e que o transforma. E esta urgência é a intempestividade, o anacronismo que nos permite aferir o nosso tempo na forma de um
demasiado cedo que é, também, um demasiado tarde, de um que é, também, um “ainda não”. E, conjuntamente, reconhecer nas trevas do presente a luz que, sem nunca poder alcançar-nos, está perenemente em viagem na nossa direcção. [...]»

Giorgio Agamben, Che cos'è il contemporaneo? (2006),
nottetempo, Roma
, 2008, pp. 13-17.

Ao pé da letra #27 (António Guerreiro)

«Engenheiros, filósofos e a barragem como destino

Mira Amaral, ministro da Indústria dos governos de Cavaco Silva, garante que um dia será construída a barragem de Foz Côa, inevitavelmente, e por exigência das próprias populações, pondo-se assim fim à “fantochada de um grupo de paleolíticos”. Tal certeza, dir-se-á, tem um fundamento empírico. Eu prefiro pensar que Mira Amaral não se baseia na experiência e no saber de engenheiro, mas nas suas leituras de Heidegger, onde aprendeu que a “questão da técnica” é a de um destino ao qual não se pode deixar de obedecer.

Mira Amaral não é um engenheiro visionário; é um leitor de Heidegger que sabe muito bem que a técnica moderna tem um papel impositivo e provocante. Mas, ao contrário do filósofo, não está nada preocupado com o nihilismo dessa redução da natureza ao calculável e ao manipulável. Se em vez de Côa fosse o Reno, o engenheiro acharia que o hino de Hölderlin (“Der Rhein”) era uma manifestação paleolítica, uma nostalgia reactiva pelo mundo da “poiesis” grega. E pensaria que é preciso considerar como ampla visão o que Oswald Spengler entendia como redução: “Não podemos olhar uma cascata sem a transformarmos mentalmente em energia eléctrica.”»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 6.12.2008.

Meros filmes em Dezembro


Viagem ao princípio do mundo
Manoel de Oliveira
1997, 95’
3ª, dia 2, 19h30 Cinemateca*, Lisboa


Gentlemen prefer blondes
Howard Hawks
1953, 90’
5ª, dia 11, 15h30 Cinemateca


Il gattopardo
Luchino Visconti

1963, 185’
Sáb, dia 13, 21h30 – Cinemateca

Rear window
Alfred Hitchcock
1954, 102’
6ª, dia 19, 15h30 – Cinemateca

[apenas filmes vistos, sem repetições]

Ao pé da letra #26 (António Guerreiro)

«A “novilíngua” de Orwell é um idioma não extinto

Quem leu a notícia de que “o trânsito nas estradas sofreu uma degradação” terá ficado a saber não que aumentaram os engarrafamentos, mas que diminuiu o volume de tráfego; e, no mesmo dia, quem leu num jornal francês que “o comércio natalício está menos agressivo do que no ano passado” percebeu que a notícia se destinava a deplorar a insuportável doçura dos Campos Elíseos em tempo de crise. A degradação do trânsito é o circular melhor; a agressividade é uma benevolência.

O que isto faz lembrar? A “novilíngua” (o “newspeak”), a língua da Oceania no livro de Orwell 1984. Com o objectivo de tornar impossível qualquer outro modo de pensamento, o Partido tinha chegado a três “slogans” perfeitos, formulados na sua língua oficial: “A guerra é a paz”, “A liberdade é a escravatura”, “A ignorância é a força”. Tendo em conta a grande lição de Orwell, pior do que não termos dinheiro para circular é sermos submetidos a uma inversão do sentido das palavras. Aí começa a mais infame e mais perigosa das espoliações. E se quisermos falar de “alienação”, uma palavra caída em desuso, temos de nos referir à operação política de expropriação da linguagem.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 29.11.2008.


«Nunca se deve vestir as melhores calças para sair a combater pela liberdade e pela verdade», diz uma personagem de uma peça de Ibsen. Logo, as pessoas que se vestem bem demais...


«One should never put the best trousers if one goes out to fight for liberty and truth», says a character of a play by Ibsen. So, people who dress too well...


What is the word
Samuel Beckett

folly –
folly for to –
for to –
what is the word –
folly from this –
all this –
folly from all this –
given –
folly given all this –
seeing –
folly seeing all this –
this –
what is the word –
this this –
this this here –
all this this here –
folly given all this –
seeing –
folly seeing all this this here –
for to –
what is the word –
see –
glimpse –
seem to glimpse –
need to seem to glimpse –
folly for to need to seem to glimpse -
what –
what is the word –





and where –
folly for to need to seem to glimpse what where –
where –
what is the word –
there –
over there –
away over there –
afar –
afar away over there –
afaint –
afaint afar away over there what –
what –
what is the word –
seeing all this –
all this this –
all this this here –
folly for to see what –
glimpse –
seem to glimpse –
need to seem to glimpse –
afaint afar away over there what –
folly for to need to seem to glimpse afaint afar away over there what –
what –
what is the word –

what is the word

[«My work is a matter of fundamental sounds (no joke intended) made as fully as possible, and I accept responsibility for nothing else. If people want to have headaches among the overtones, let them. And provide their own aspirin.»]

Ao pé da letra #25 (António Guerreiro)

«A avaliação tornou-se uma sofisticada ideologia

Os professores contestam o modelo de avaliação; o ministro português das Finanças foi avaliado pelo “Financial Times” como o pior ministro europeu das Finanças; a universidade espanhola ficou em último lugar numa avaliação das universidades de 17 países desenvolvidos. Eis, num só dia desta semana, três notícias sobre avaliação. Escolas, ministros, funcionários públicos ou privados: todos estamos sujeitos a este regime generalizado de avaliação, compreensível à luz do que Deleuze designou como “sociedade de controle”.

A avaliação usa um aparelho sofisticado de medições, regras e tabelas para se munir de caução científica e denegar a sua dimensão ideológica. E, ao ser denegada, a ideologia emerge como sintoma violento. O linguista, filósofo e psicanalista francês Jean-Claude Milner escreveu sobre esta questão um livro interessante: “Voulez-vous Être Évalué?”. Que diz ele? Que os avaliadores são os sofistas do nosso tempo; que a sofística da avaliação resolve sumariamente as questões dos critérios e da legitimidade dos avaliadores; e que o regime evita acima de tudo que se coloque a pergunta: quem avalia os avaliadores?»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 22.11.2008.

Ao pé da letra #24 (António Guerreiro)

«Para a Fnac, literatura é sinónimo de sector livreiro

Quem, como eu, acha que a crítica literária é uma coisa do passado, não pode deixar de ver uma confirmação das suas convicções num convite da Fnac Vasco da Gama, dirigido a “António Guerreiro – Literatura/sector livreiro – Expresso”. Esta maneira de formular o endereço vale por um ensaio. Pode ser que os sábios da Fnac, altamente especializados, não conheçam outra linguagem; também pode ser que, na tribo de que fazem partem, “sector livreiro” seja a “palavra maná”, o “significante-mestre” estudado pelos antropólogos;

mas um céptico como eu vê aqui a prova de uma justiça imanente: o “sector livreiro” é o nosso destino, e ele cumpre-se hoje quase da mesma maneira quando escrevemos sobre livros nos jornais ou quando os doutos da Fnac os seleccionam e os arrumam nos escaparates segundo os princípios da sua ciência. Não tenhamos dúvidas: na evolução do “sector livreiro” da Fnac, nas rearrumações sucessivas, podemos ver um trabalho crítico impiedoso, quase de extermínio. Não é que, enquanto empresa, não tenha o direito de o fazer; mas por uma questão de “bienséance” convinha que não visse em todos os que se dedicam aos livros trabalhadores do mesmo ramo.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 15.11.2008.

Sobre o involuntarismo de esquerda (André Dias)

Com a 11ª das suas Teses sobre Feuerbach – «Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo» –, Marx produziu a fórmula infinitamente glosada do voluntarismo de esquerda, que sobrevive ainda nas mais heterodoxas reformulações do marxismo. O lugar comum “transformar a realidade é possível” é o enunciado elucidativo deste programa voluntarista, na medida em que nele se denuncia a predeterminação da acção como plano ou em função de uma meta. Foi o malogrado François Zourabichvili, naquele que é porventura o mais brilhante ensaio sobre a filosofia de Gilles Deleuze, que entreviu a força inaudita do involuntarismo político de esquerda. Este assenta numa profunda e persistente divergência sobre o esquema de actualização, em que o possível, cuja realização se toma como esgotada, tem de ser concebido diferentemente como algo a criar.
É nalgumas das melhores expressões cinematográficas do pensamento que encontramos esta impossibilidade de antecipação. Desde a matricial obra de Samuel Fuller, no cruzamento histórico do seu aparente reaccionarismo político com a apreensão formal pela cinefilia, passando pelo revolucionário traidor em fuga de TERRA EM TRANSE de Glauber Rocha, à cegueira ideológica sobre a expressão inédita da pobreza na TRILOGY de Bill Douglas ou ao “Homem da enxada” não integrável politicamente em TORRE BELA, e culminando nas novas figuras políticas criadas por Pedro Costa, o cinema, para quem quis ver, esteve sempre perto das limitações do voluntarismo de esquerda.

Conferência Internacional Karl Marx

Sáb, dia 15, 16h30
Painel 21: Representando a Emancipação: o Comunismo nas Artes
com Luís Trindade Representar o comunismo e José Filipe Costa O cinema do fazer acontecer

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Auditório 2, 3º andar, Torre nova
Avenida de Berna 26 C, Lisboa

Aforismo demasiado longo derivado da tentativa infrutífera de ficar até ao fim num filme insuportável

Para fazer cinema, aprender-se-á certamente mais a analisar em detalhe um filme mal feito do que um bom filme. A mediocridade é neutra e serve a todos. Já os gestos cinematográficos conseguidos, que são heterogéneos uns aos outros, servem integralmente a apenas um, ao seu autor.
Os jovens que pretendam fervorosamente ser realizadores, depois de esclarecida a sua vocação e antes de ganho o estilo próprio, portanto, durante esse longo intervalo de tempo que para muitos nunca termina, devem abster-se e manter uma dieta estrita de filmes mal feitos vistos atentamente.

Advertência (Giorgio Agamben)

«Quem tenha familiaridade com a prática da investigação em ciências humanas sabe que, contrariamente à opinião comum, a reflexão sobre o método muitas vezes não precede, antes sucede a tal prática. Trata-se assim de pensamentos de algum modo últimos ou penúltimos, para discutir entre amigos e especialistas, e que só um longo hábito de investigação pode legitimar.
Os três estudos aqui reunidos contém as reflexões do autor sobre três problemas específicos de método: o conceito de paradigma, a teoria das assinaturas [segnature] e a relação entre história e arqueologia. Se estas reflexões se apresentam a cada vez como uma indagação sobre o método de um estudioso, Michel Foucault, sobre o qual o autor teve ocasião
nos últimos anos de muito aprender, isto é porque um dos princípios metodológicos não discutidos no livro que o autor deve a Walter Benjamin – é que a doutrina pode ser exposta legitimamente apenas sob a forma da interpretação. O leitor atento saberá fazer a destrinça entre o que, nos três estudos, deve ser remetido a Foucault, o que deve ser tomado em conta do autor e aquilo que vale para ambos. Contrariamente à opinião comum, de facto o método partilha com a lógica a impossibilidade de ser completamente separado do contexto no qual opera. Não existe um método válido para todos os âmbitos, tal como não existe uma lógica que possa prescindir dos seus objectos.
Segundo um outro princípio metodológico também este não discutido no livro de que o autor faz uso frequente, o elemento genuinamente filosófico em cada obra, seja uma obra de arte, de ciência ou de pensamento, é a sua capacidade de ser desenvolvida, que Feuerbach definia como Entwicklungsfähigkeit. Precisamente quando se segue um tal princípio, a diferença entre o que é devido ao autor da obra e o que é atribuído àquele que a interpreta e desenvolve torna-se tão essencial quanto difícil de aferir. O autor preferiu por isso arriscar atribuir a textos doutros o que vinha elaborando a partir deles, em vez de correr o risco inverso e apropriar-se de pensamentos ou percursos de investigação que não lhe pertenciam.
De resto, toda a investigação em ciências humanas
e portanto também a presente reflexão sobre o método deveria implicar uma cautela arqueológica, ou seja, regredir no próprio percurso até ao ponto em que algo permaneceu obscuro e não tematizado. Só um pensamento que não esconde o próprio não-dito, mas incessantemente o retoma e o desdobra pode, eventualmente, ter pretensão à originalidade.»

Giorgio Agamben, «Avvertenza», Signatura rerum. Sul metodo,
Bollati Boringhieri, Torino
, 2008, pp. 7-8.

Ao pé da letra #23 (António Guerreiro)

«Proteger os livros dos seus autores é, às vezes, urgente

Há um “book trailer” do último romance de António Lobo Antunes que é doloroso de se ver. O escritor, carregando todo o peso do mundo e torcendo-se sobre si, fala com voz lutuosa e diz: “Ninguém escreve como eu.” E daí passa a uma arte poética: “encher os livros de silêncio”; “os livros tratam todos de uma paisagem interior”; “a angústia do homem no tempo”; “a procura da natureza do homem”. Estes derrames de uma banalidade tão excessiva e tão enfática não podem, seguramente, ser interpretados em primeiro grau.

Ou o escritor representa diante de nós uma comédia ou há algo de indecifrável. Mas em nenhum caso aquele que fala assim sobre os seus livros pode ser o mesmo que os escreveu. Mas como esta dissociação é difícil de fazer, como é difícil evitar a contaminação recíproca dos dois planos, A. Lobo Antunes devia ser protegido de si mesmo, devia-se erguer um cordão sanitário entre o seu discurso público e a sua obra, entre os seus livros e o que diz sobre eles. Eu, que tenho sempre grandes hesitações quando leio os seus romances, e quando os acho maus não consigo deixar de pensar que talvez não os tenha sabido ler, gostaria de remover o obstáculo do “book trailer”.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual
, 8.11.2008.

Honras

Um cineasta ser convidado para uma bienal de arte contemporânea é mais ou menos o mesmo que ser homenageado na presença de ministros. O que parece uma honra, na verdade não é.

Meros filmes em Novembro


Masterclass
Harun Farocki
com projecção de Respite
Curso de Videoarte
3ª, dia 4, 18h30 Aud. 3, Fundação
Calouste Gulbenkian, Lisboa
[cf. «Aos leitores de Etty Hellisum*»
e
a pequena entrevista
«A interferência de Petzold-Farocki
*»]


Os canibais
Manoel de Oliveira
1988, 84’
4ª, dia 5, 19h
Cinemateca*, Lisboa

Necrology
Standish Lawder

1971, 11’
Cinematografia-coreografia
(prog. Pierre-Marie Goulet e
Teresa Garcia
com Ricardo Matos Cabo, Stéfani de
Loppinot e Cyril Neyrat)
Festival Temps d'images

5ª, dia 6, 19h30 – Cinemateca
com a presença de Cyril Béghin e Cyril Neyrat
[cf. «Necrologia*»]


Jean-Daniel Pollet
Le Horla
1966, 38’
Cinematografia-coreografia
5ª, dia 6, 22h – Cinemateca
com a presença de Alberto Seixas Santos,
Cyril Neyrat e Cyril Béghin


Iko shashvi mgalobeli / Era
uma vez um melro cantor
Ottar Iosseliani
1971, 93’
Cinematografia-coreografia
6ª, dia 7, 22h – Cinemateca
com a presença de Margarida Gil
[a obra-prima de Iosseliani,
um filme belíssimo a não perder]


Verj / Fim
1993, 10’
Kyanq / Vida
1994, 7’
Artavazd Pelechian
Cinematografia-coreografia
Sáb, dia 8, 15h30
Cinemateca
com a presença de Cyril Neyrat
e Maria Andresen


Mediterranée
Jean-Daniel Pollet
1963, 45’
Cinematografia-coreografia
Sáb, dia 8, 15h30 Cinemateca

Strategia del ragno
Bernardo Bertolucci
1970, 100’
Festival de Cinema do Estoril*
6ª, dia 14, 21h45 – Casino do Estoril

Le Stade de Wimbledon
Mathieu Amalric
2001, 80’
Festival de Cinema do Estoril
Dom, dia 16, 12h
Centro de Congressos, Estoril
com a presença de Mathieu Amalric


They live
John Carpenter
1988, 93’
2ª, dia 17, 19h Cinemateca
[cf. «Ironia ou ambiguidade*»]

Le papier ne peut pas
envelopper la braise

Rithy Panh

2006, 90’
3ª, dia 18, 21h30 Cinemateca
[cf. «Se o papel não pode...*»]

The desert people
David Lamelas

1974, 50’
David Lamelas* (prog. Jacqueline Holt,
sugerido por Ricardo Matos Cabo)
4ª, dia 19, 21h30
Culturgest, Peq. Aud., Lisboa

Tulpan
Sergei Dvortsevoy
2008, 100’
Festival de Cinema do Estoril*
5ª, dia 20, 17h – Casino do Estoril

The river
Jean Renoir

1951, 99’
Sáb, dia 22, 21h30 Cinemateca
[cf. «(o encantamento começa
e acaba no bosque)
*»]

[apenas filmes vistos, sem repetições]


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