Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Meros filmes em Maio b)

...
À bout de souffle
Jean-Luc Godard
1960, 90’
Eram os anos 60
5ª, dia 8, 21h30 – Cinemateca, Lisboa

Plein soleil
René Clement
1960, 110’
Eram os anos 60
2ª, dia 12, 21h30 – Cinemateca

L'avventura
Michelangelo Antonioni
1960, 132’
Eram os anos 60
3ª, dia 13, 19h – Cinemateca

Les parapluies de Cherbourg
Jacques Demy
1963, 90’
6ª, dia 16, 22h – Cinemateca

Wind across the Everglades
Nicholas Ray

1958, 90’
3ª, dia 20, 21h30 – Cinemateca

Pick-up on South Street
Samuel Fuller
1953, 80’
História permanente do cinema
Sáb, dia 24, 21h30 – Cinemateca


The night and the city
Jules Dassin
1950, 101’
2ª, dia 26, 21h30 – Cinemateca

Splendor in the grass
Elia Kazan
1961, 124’
História permanente do cinema
Sáb, dia 31, 15h30 – Cinemateca

[apenas filmes vistos, sem repetições]

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #12: Interferências passado-presente

Ao longo de PROFIT MOTIVE AND THE WHISPERING WIND de John Gianvito somos lentamente levados, por uma acumulação serial de planos, à presença perante inúmeros monumentos fúnebres e históricos evocativos de várias lutas progressistas na América do Norte, como as sindicais, dos camponeses, dos índios, dos mineiros, etc., intercaladas com o vento a bater nas árvores. Em certos momentos, a delicadeza da aproximação lembra-nos as derivas informadas de Sebald, por entre os campos onde a memória histórica vive enterrada.
No entanto, quase no final do filme, um corolário, que o realizador terá julgado necessário, que talvez até seja a verdadeira motivação de tudo o que o precedeu, irrompe pelo filme adentro, e destroça em parte a subtileza acumulada da aproximação. Esta, apesar de serial, era delicada e não panfletária. O final apresenta de rompante uma série de lutas contemporâneas para as quais nos tenta motivar, como a contra a Guerra do Iraque, pelos direitos das minorias, etc.
O modo como a interferência passado-presente se estabelece, entre a evocação lenta destas lutas passadas, que nos tinham sido duramente tornadas próximas, e a apresentação súbita daquelas lutas presentes, é muito problemático. É inevitável que, na construção do filme, sejam as lutas presentes que nos apareçam como um corolário distante, com uma evidência nada clara. O trabalho da sua composição baseava-se num passado, obviamente relevante para o presente, mas que não é passível, se calhar infelizmente, de tradução automática no presente.
Há uma não-relação significativa entre estas duas espessuras, mesmo que sentimental e politicamente seja legítimo aproximá-las. O ponto, por demais difícil, do estabelecimento desta relação é indefinível, como um laço invisível por descobrir, que não pode, por muito que nos custe (a nós, povo de esquerda), ser estabelecido à partida.
É preciso não pressupor o passado, que é pelo menos tão opaco, tão impossível de cingir como o presente. As coisas muito antigas, mas esquecidas, que a revolução tem que repor, de que fala Straub citando Péguy, não se dão facilmente. Não respondem a meros apelos comovidos ou comoventes. Principalmente, não se sabe precisamente quais elas são antes de começar a fazer a revolução. Por isso teremos que nos contentar com outras interferências passado-presente, mais subtis mas nem por isso duvidosas, que podem ser mais produtivas, pois o seu potencial de repercussão é imenso. Como as de Pedro Costa em A CAÇA AO COELHO COM PAU, por exemplo, em que dois homens verdadeiramente antigos, não apenas velhos – Ventura e Alberto, evocam a pobreza, enquanto olham por entre as frestas para a rua, num vão de escada arquitectonicamente sofisticado, mas traço de um presente inadequado, imposto por força, que não deixa ver a paisagem. De resto, talvez a paisagem não se dê a ver senão no passado.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #11: Denúncias, tiques

A figura da denúncia anunciou-se, logo no início do festival, aquando de PODUL DE FLORI (The Flower Bridge) de Thomas Ciulei, um «documentário-filmado-como-se-fosse-uma-ficção» (segundo Jorge Mourinha do Público). De facto, em certas cenas, o filme fazia mesmo questão em se denunciar quanto aos procedimentos de filmagem. Vemos o pai de família, que estava fora de casa, entrar de costas para a câmara; de repente, estamos à sua frente no corredor da casa, mas em plena continuidade temporal. Nada de especial, na verdade, mas trata-se de algo que, acentuado, cria um mal-estar, que não é específico ao procedimento, mas antes às condições concretas do filme em que aparece. O procedimento distrai-nos do filme. Assim, quando o pai se despede da filha, vemo-lo acenar de frente em grande plano; logo em seguida, estamos no morro adiante, bem longe, com a filha igualmente acenando-lhe adeus. Pior ainda, noutra cena em casa, essa mesma filha, que está de costas, pendura um desenho na parede e contempla-o, recuando um pouco. Pois imediatamente nos surge em grande plano, de frente, a levar a mão à cara, em gesto de contemplação pensativa. Estas denúncias merecem do espectador, pelo menos, o gesto semelhante, no escuro da sala, de levar a mão à cara, mas franzindo o sobrolho.
Ao identificarmos estas denúncias não procuramos proteger uma especificidade documental, identificada com um certo tipo de procedimentos de filmagem, seja apenas a utilização de uma câmara ou o que seja. Não é, aliás, crível que essa especificidade seja completamente irredutível ou diga somente respeito apenas aos elementos técnicos. É antes como se esses métodos, que associamos à ficção e à encenação que lhe corresponde, criassem uma mais-valia de sentido que é desconfortável, que bloqueia a fruição do filme, que o torna problemático e manipulador, pois parece querer dizer-se a si próprio e não responde a nada que o filme peça. Trata-se provavelmente de uma insinuação perante o público habituado à ficção (e não por acaso, o filme está na Competição Internacional).
Noutro documentário aparece novamente esta figura da denúncia. Mas ela ganha aqui outra forma, provavelmente mais esclarecedora. Esta nova forma é devida ao objecto particular de DOCH (But still) de Oleg Tcherny e Erwin Michelberger, que são os doentes atingidos com o Síndrome de Tourette. No filme estes ensaiam uma reflexão sobre a sua doença e os efeitos que tem na sua vida quotidiana, enquanto se evidenciam profusamente perante a câmara os tiques repetitivos e os reflexos involuntários de que padecem. Os saltos súbitos da montagem parecem ser uma espécie de demonstração de solidariedade cinematográfica para com eles, constantemente interrompidos por aquelas repetições inconvenientes. É assim que, ao observarmos de costas uma mulher sentada no meio de um bosque, rodeada dos seus parceiros de doença num momento de confissão pungente e tocante sobre aquilo que a doença a impede de viver a nível familiar e afectivo, de repente saltamos para a sua frente, sem justificação alguma. Sem justificação alguma que não seja a própria justificação do tique cinematográfico, uma solidariedade involuntária do filme para com os seus objectos de atenção. Aquilo que, ao início, nos surgia ainda com a dignidade de uma denúncia, revela-se afinal apenas um tique descontrolado.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #10: Aos leitores de Etty Hillesum


Não li ainda Etty Hillesum. Nem o diário nem as cartas, onde se encontram as suas reflexões sobre a vida na Holanda ocupada e no campo de Westerbork durante a Segunda Guerra Mundial. Conheço-a apenas do ensaio que Maria Filomena Molder publicou na revista Intervalo, bem como dos bonitos fragmentos partilhados e comentados pela Cristina nos dias felizes. Hesito em escrever estas breves notas, pois não possuem nem o rigor nem o tempo de maturação que deviam. E estou consciente que não é de todo suficiente proteger o seu risco com a profusão de “talvez”. Mas respondo à urgência da coincidência, no mesmo dia, da exibição do filme de Harun Farocki RESPITE/ADIAMENTO, incluído em MEMORIES, e de um artigo no jornal Público sobre Etty Hillesum, que vai ser publicada entre nós.
O filme de Farocki, mudo e com intertítulos, é composto estritamente das imagens que nos chegaram de um filme inacabado de divulgação (!) do Campo de Trânsito para Judeus de Westerbork, e delas constitui uma análise. Ao vê-lo, comecei a interrogar-me se pode a sombra de Etty Hillesum, a deixada pela sua vida e obra, que se confundem, ser parcialmente compreendida pelo conhecimento das condições de vida particulares em que se desenrolou.


Talvez estas condições na Holanda ocupada, e em Westerbork em particular, fossem substancialmente diferentes do que seria suposto esperar, e tenham assim permitido a singularidade do seu testemunho e reflexão, por relação aos outros testemunhos conhecidos. Será certamente uma pergunta inadequada de fazer, mas... Teriam as reflexões de Etty Hillesum sido possíveis em Auschwitz? Materialmente, não. E quanto à sua substância? Nunca saberemos o que diria Etty Hillesum perante Auschwitz, pois ela não restou para testemunhar. Sobre as condições de vida em Westerbork, o filme de Farocki está cheio de desagradáveis surpresas, cujo carácter apenas ilusório é difícil de aceitar. Embora, numa primeira leitura, explicável pela condição da sua feitura – uma encomenda do responsável militar do campo –, que possibilitaria uma encenação generalizada, as imagens acabam por cumulativamente ir desmentindo essa ilusão pacificadora. Ainda menos nos ilibam de as olhar com atenção. De Etty Hillesum, à luz destas imagens, ficamos com um testemunho que compreende apenas a expectativa do extermínio, não o próprio.
Tudo nos pertuba nestas imagens, desde as existências relativamente despreocupadas, ao trabalho não-escravo, à mera existência de sorrisos, ao espectáculo de cabaret e vaudeville (durante o qual os artistas em palco retiravam as estrelas amarelas), aos exercícios de ginástica em campo aberto, a um jogo de futebol, à pacatez inesperada, e ao culto do trabalho próprio, precisamente por não terem nada de perturbante. É assim que tudo nelas aponta para um horizonte diferente do que se esperaria de imagens de um campo, um horizonte do qual o extermínio está ausente, ou profunda e paradoxalmente escondido.
A ausência de perturbação que mais nos interpela, ou antes, que mais faz problema nestas imagens, é a partida filmada de um comboio para Auschwitz, numa data específica que foi possível estabelecer pela leitura detalhada de uma das imagens, posteriores à partida de Etty Hillesum para esse mesmo campo de concentração e extermínio, onde viria a morrer. Nessa partida sobressai a pacatez dos passageiros, a ausência de qualquer tipo de violência e, principalmente, esse gesto, do mais extremo, e de um humor macabro, de um vagão de mercadorias carregado de pessoas ser fechado com a ajuda solícita de um passageiro [conferir imagem]. Como escreve no seu filme Farocki, a 19 de Maio de 1944, “um comboio com 691 pessoas saiu de Westerbork”; “neste dia uma criança acenava adeus” de dentro de uma carruagem e “um homem ajudava a fechar a porta do vagão que o levava”.


Era este efectivamente o campo que Etty Hillesum visitava e onde depois ficou definitivamente retida, antes de ser enviada para Auschwitz. Ao vermos estas imagens, emerge um primeiro paradoxo, por confronto a elementos do testemunho dela. Como compreender o conhecimento que parece possuir do extermínio que lhe está reservado, a ela e aos outros judeus, ciganos e restantes detidos de Westerbork? Seria ela uma das excepções informadas? Estariam igualmente a generalidade dos outros detidos cientes do seu destino? Ou teriam os informados, num silêncio apenas aparentemente semelhante ao dos judeus dos comandos especiais que tinham chegado à conclusão da profunda inutilidade do contar, compassivamente suprimido a informação dos restantes?
Aquilo que se lê, que Farocki nos lê, nas imagens do filme de divulgação de Westerbork, é a impossibilidade, pelo menos a evidente improbabilidade, desse mesmo conhecimento do destino, dado o comportamento revelado tanto pelos que sobem para os vagões como pelos que os convidam a subir. O seu comportamento apaziguado ao entrarem para os vagões, para nós hoje pesadamente isento de quaisquer sinais de perturbação, não o indica de todo.
No Crematório IV de Auschwitz “trabalhava” Filip Müller, sobrevivente de cinco liquidações do Sonderkommando, com cujo testemunho, posterior ao extermínio, por oposição ao, em parte anterior, de Etty Hillesum, se deveria talvez comparar (não é a palavra adequada, bem sei), seja o publicado em livro seja o constante no filme SHOAH.
Maria Filomena Molder concerteza corrigir-nos-ia, salientando que não se trata de todo de esperança. Filip Müller, de dentro de uma câmara de gás, simultaneamente objecto e, ainda que pouco, sujeito-agente de uma das mais supliciantes experiências humanas, afirma, no entanto: «quem quer viver está condenado à esperança». Talvez, por relação a Etty Hillesum, o acento devesse ser posto na primeira parte da frase de Müller, na condição de «quem quer viver». Porque, se bem que a experiência dos campos se defina, aos nossos olhos de hoje, como a da irredutível sobrevivência, a história humana é fértil em casos de abdicação da vida, pelo menos da orgânica ou vegetativa, em prol de uma outra vida, mística ou íntima, que os sujeitos dessa abdicação entendem poder dispensar.

Talvez seja esse o paradoxo de Etty Hillesum, mais um dos que Auschwitz produziu e que continuam a atormentar-nos, e aos quais não podemos virar os olhos: o da (quase) coincidência de uma abdicação mística da vida com o lugar e tempo da sua mais extrema aniquilação. E cumpre-nos tentar compreender se se trata de um gesto de uma recusa libertadora ou de uma profunda e penosa renúncia. Talvez estes dois gestos, que estamos habituados, que somos forçados a julgar incompossíveis no tempo de uma vida, sejam, na figura de Etty Hillesum, paradoxalmente confundíveis.

Meros filmes em Maio a)


Marfa si banni [Stuff and dough]
Cristi Puiu
2001, 90’
IndieLisboa 2008 – Novo Cinema Romeno
5ª, dia 1, 15h45Londres 1, Lisboa

Charly
Isild Le Besco
2007, 95’
IndieLisboa 2008 – Comp. Internacional
5ª, dia 1, 19h – Fórum Lisboa

Ai no yokan [The rebirth]
Masahiro Kobayashi
2007, 102’
IndieLisboa 2008 – Observatório
6ª, dia 2, 15h45 – Londres 2

A caça ao coelho com pau
Pedro Costa
2007, 21’ / in Memories
– Jeonju Digital Project 2007

IndieLisboa 2008 – Observatório
6ª, dia 2, 19h15 Teatro Maria Matos 1


Vertigo
Alfred Hitchcock
1958, 128’
6ª, dia 2, 21h30
Cinemateca, Lisboa

Killer of sheep
Charles Burnett
1977, 80’
IndieLisboa 2008 – Director's Cut
6ª, dia 2, 24h – Londres 1


Die klage der Kaiserin /
O lamento da Imperatriz

Pina Bausch

1990, 106’
Dom, dia 4, 22h Teatro São Luiz, Lisboa

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[apenas filmes vistos, sem repetições]

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #9: Tomates

«Talvez a cinefilia dos programadores, apesar das aparências, passe por ser uma actividade secreta e envergonhada de colocação de armadilhas, de filmes inesperados, no meio do engano» — dizia eu aqui, no início do festival. Era o que tinha de mais simpático para dizer na altura. Estava pessimista, confesso.
Mas e agora, como me posso retractar? Depois do choque e esplendor da visão de ROZ (Pink) de Alexander [ou Alexandros?] Voulgaris e CHARLY de Isild Le Besco, mesmo no meio da Competição Internacional, que tipo de flagelação devo sofrer?
Não devia ser a Competição Internacional, a vermelho no programa, note-se, a mais considerável catedral do respeito? Que fazem lá estas duas imensas bizarrias que parecem cuspir no chão da nobre arte cinematográfica, embora na verdade o beijem de luxúria? Nem uma pinta de pop nem de cool.
Vejam bem, a primeira projecção de ROZ, a lindíssima bizarria grega, tinha a Sala 1 do Londres quase cheia. Ena, tanta gente ao engano! Não sabiam o que os esperava! Que felicidade acidental! Pensavam que a senhora Competição Internacional era respeitável! Pois não é! E eu também não sabia.
Portanto, algo está claramente errado aqui... A menos que seja eu. Tenho que admitir que foram precisos tomates para colocar estes filmes na Competição Internacional (mesmo andando a bisbilhotar lá por fora). E os senhores programadores, sim senhor, tiveram-nos.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #8: O Anticrítico

Façamos o seguinte experimento de pensamento. Imaginemos que não é mais possível confiarmo-nos, como outrora ainda era, a um crítico cultural, por exemplo de cinema. Que aquela alegre e saudável entrega das nossas escolhas à mente iluminada de alguém que conhecia tantas coisas mais que nós, que viajava por esse mundo fora de festival em festival, que lia muitos livros grossos sobre coisas difíceis, entrevistas de realizadores, etc., que sabia muitas coisas raras, que, em suma, essa grande cabeça de cultura cinematográfica, esse maître à penser da sala escura, não existe lamentavelmente mais. Que estamos sós, e mal acompanhados, no mundo áspero da escolha cultural.
Obviamente, isto não quer dizer que não hajam já praticantes louváveis dessa nobre arte de mandar, que tenham desaparecido todos os aprendizes de “passadores”, que ninguém seja mais capaz de escrever umas frases aceitáveis e compreensíveis sobre um filme ou dois. Porque é mentira, ainda os há. E em actividade. Mas que diferença de tamanho para os nossos antigos guias! Estes de agora prometem-nos um filme tal e tal coisa, e pode ser que seja mesmo assim. Mas não nos vamos entregar às suas mãos, pois não? Não, porque fizemos da suspeita uma virtude e, para mais, já não fica assim tão bem fazer de filho. Como dizia Michaux, agora somos «filhos de filhos».
Neste contexto, neste ambiente geral de desconfiança que reina por toda a parte, julgo finalmente reunidas as condições adequadas, neste experimento de pensamento, para o surgimento de uma nova figura no planetário cinematográfico, para a irrupção do Anticrítico!
E que trará de novo o Anticrítico? Servirá igualmente de guia, mas ao contrário. À precariedade dos críticos positivos, que acertam de quando em vez nas nossas expectativas impossíveis de contentar, responde o surgimento do Anticrítico com o descontento absoluto dessas expectivas. Assim, se o Anticrítico vier e achar, deixa cá ver, que, por exemplo, o filme MADONAS de Maria Speth “é uma grande seca”, embora certamente por outras palavras mais sofisticadas e admissíveis na imprensa corrente, pelo seu fabuloso poder de inversão, esse filme revestirá aos nossos olhos encantos inauditos e do mais por demais subtil. É esse o singular poder do Anticrítico! A exactidão negativa absoluta, o enganar-se afinal sempre. Que boa nova! É toda uma outra confiança que ganhamos, com um desvio certamente, mas ainda uma certeza verdadeira.
Outro exemplo imaginário do seu poder: o filme ROZ (Pink) de Alexander Voulgaris (um grego bizarro) “é não sei o quê mas não vale a pena” [simplifico], zás!, esse filme transformar-se-á numa composição original de brilho comovente. Não duvidem do poder! Este, por enquanto ainda no reino fecundo da imaginação, não se limitará no vindouro ao valor geral do filme. Descerá ao detalhe, e elucidará, pelas virtudes da negação, as vantagens mais escondidas das obras. Eis como será em breve possível, assim o esperamos, que, no belíssimo (estado pós-negação) CHARLY de Isild Le Besco, a actriz surja como a única coisa que se safa de um filme apenas simpático (estado pré-negação). Quando a incrível potência do Anticrítico se nos antecipar, ao virar o mundo às avessas, a actriz, pela sua presença por vezes demasiado dura, fará, pelo contrário (ora aí está!), perigar o equilíbrio da obra. Todos entenderão assim a sua força! Bendito seja pois o escolhido que vier encarnar tal figura fulminante (e muito útil)!

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #7: O elogio de Marker

Aos realizadores nem sempre se deve levar à letra (o que dizem). Têm coisas bem mais importantes em que pensar do que corresponder às nossas expectativas e incompreensões. E são, dos seus próprios filmes já concluídos, meros espectadores, tal como nós. Mesmo assim, há que receber as suas palavras com toda a humildade e, sobretudo, não as deixar esmagar o filme propriamente dito.
Mais difícil ainda é encontrar elogios à obra alheia, em particular se esta for contemporânea. Nisso são particularmente sucintos. Talvez os antigos mestres façam um tipo de sombra mais aprazível, apesar de toda a sua grandeza. Por isto queria mencionar novamente, depois de ter visto o filme, este elogio particular de Chris Marker a CHARLY de Isild Le Besco:

[... U]m filme, o de Isild, pelo menos tão misterioso quanto ela. Um filme de esfoladelas e de verdade, que recusa as maquilhagens da sedução para atingir esse ponto incandescente onde a dificuldade de estar com o outro já não é representação de papéis mas um salto no vazio, que rompe com todos os códigos cinematográficos bem-pensantes e que não se deixa esquecer.

À primeira leitura poderá parecer aquela conversa habitual dos críticos, e profusos émulos destes, que abusam da adjectivação entusiástica. E o entusiasmo dessas fórmulas tende a substituir, a mascarar a própria obra a que se referem. [Como quando (quase todos) os actores lêem poesia. Temos a impressão que, na sua dicção tão aperfeiçoada, estão a ouvir, a ler-se a eles próprios, não ao poema, que mal nos chega.]
Mas não. A verdade é que a frase de Marker é literalmente exacta por relação ao filme. Explicar porquê temo que esteja para além das minhas capacidades. Se o tentasse, limitar-me-ia a parafraseá-la, a mostrar como cada uma das suas frases, palavras mesmo, corresponde a algo que existe e vive no filme.
O melhor é simplesmente que o vejam. Se eu acabei por chegar até ele (como já tinha dito nas «antecipações cegas»), foi afinal apenas porque levei a sério o que disse este realizador sobre outro filme actual. Doutra forma, sem este seu gesto generoso, não chegaria lá. Que outros sinais apontavam para a subtileza e originalidade desta obra? Há que falar pouco e, quando se abrir a boca, dizer algo que valha a pena.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #6: Depreciação dos filmes medianos

Tenho ouvido dizer que há muitos espectadores de cinema que se recusam a sair da sala antes do filme acabar, por mais mau que o filme seja. Ou talvez por quererem confirmar, perversos, quão mau se pode ele tornar. Mas não será isto uma outra forma de retenção anal, que, como se sabe, é muito prazeirosa?
No contexto de um festival vivido intensamente, esses pequenos prazeres têm que deixar um pouco de lado, pois há tanta fruição por onde escolher. É por isso que os filmes bem intencionados, quantas vezes esforçados, mas apenas sumamente medianos, são, sem dúvida alguma, os piores de aturar.
Não nos permitem sair, não nos expulsam da sala, mas também não nos fazem render o tempo lá dentro. Saímos como entrámos, levando uma ou outra curiosidade no bolso, mas subtraídos do tempo (um bem escasso) lá passado.
À atenção dos programadores (e críticos). Não permitir que os festivais se acumulem na zona mediana, mantendo uma quantidade não negligenciável de, por assim dizer, merda líquida, que obrigará a uma evacuação bem mais rápida.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #5: tmn

Uma das mais fantásticas invenções deste festival, no nosso contexto, é o sponsoring de salas. Temos assim a Sala tmn no cinema São Jorge. Como sabem o azul é a cor da dita marca. Pois, feliz coincidência, encontraram logo uma sala com risquinhos luminosos azuis no chão que indicam os locais de passagem. Mas logo à entrada já uns grandes painéis nos anunciavam que estávamos a aceder a uma sala especial, “esponsorizada” ou lá como é que se diz.
Mas aquilo em que realmente nos apercebemos da presença da marca, lamentavelmente para nós mais do que queríamos, mas sendo isso precisamente o que interessa nestas coisas, para as marcas, é que em cada cadeira há um daqueles papelinhos que se colocam no topo dos assentos dos aviões, por exemplo, para o bedum do cabelo não sujar as cadeiras e outras coisas. Caindo para o lado do ocupante da cadeira e para trás, bem visíveis, estes papelinhos, têm, claro, o azulinho bem evidente. O problema é que comportam também umas generosas margens a branco, bem como as próprias letras do logotipo também a branco, aumentando em vários factores a luminosidade geral da sala.
Ora, na sala escura, sublinhado escura, não convém nada a branco no nosso campo de visão. Excepto, claro está, o próprio ecrã, onde a dita marca, por acaso, também nos massacrou antes do filme começar.
Não estando ninguém sentado à minha frente, afastei delicadamente com os meus pés descalços aqueles anúncios da minha frente. Achei que era um pouco demais...
Além disso, o filme romeno que estava a ver, de sugestivo título português CENAS E GUITO, envolvia o uso intensivo de telemóveis arcaicos, pois a acção passa-se no final da longínqua década passada, tanto quanto pude perceber. Sujeitos às intempéries dos humores dos aprendizes de mafiosos, os telemóveis, cujo uso era manifestamente diferenciado do de hoje, pois o tamanho sugeria uma gestualidade diferente, digamos, mais larga e denunciada, eram regular e generosamente maltratados. Ao pé daquele emprego, o meu afastar dos anúncios, no final da sessão cuidadosamente repostos por diligentes funcionários, já não tinha aquele tom revolucionário e anarquista que lhe tentei emprestar de pé descalço.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #4: O melhor dos festivais

O melhor dos festivais, já nem me lembrava, são as interrupções. No meio do exagero de tantos filmes, sair finalmente do escuro e apanhar a brisa, mesmo o ar quente da tarde. Que alívio sentir a vida lá fora! Confirmar que esta coisa mental que é o cinema não nos encerrou para sempre, abrigados nos seus consoladores fantasmas. E que se pode num jardim perto caminhar descalço sobre a relva e deitar ao sol ou à sombra, de preguiça e alegria.
O cinema seria absolutamente insuportável sem este sair para a rua, mesmo o da noite escura. O exterior, o que está lá fora, eis a essência do cinema. Mesmo lá dentro, e sobretudo para os que amam aquilo que só se pode passar lá dentro, é isso o mais importante, a única coisa importante. Ai de quem não o perceba! No fundo, o cinema não interessa nada.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #3: Citações

«Porque é que a compaixão não é mais funda?» — pergunta uma personagem de DOCH (But still), por não se conseguir conter e pontapear alguém que está no chão.

*

«Quando ele lhe disser “Você tem fome?”, você se volta, olha a câmara e diz: “Tenho!”» — grita Glauber Rocha em ANABAZYS.

*
«Maman, regarde! Les pauvres... Ils sont morts... Maman, les pauvres, ils sont fait de sable?» — assim começa PIC - NIC, com o off de uma criança francesa em fundo negro.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #2: O cansaço olha para a câmara

Quando já sentimos o fim aproximar-se, no documentário PIC - NIC de Eloy Enciso rodado na praia de Benidorm, e estamos bem avançados na observação dos velhos madrugadores em férias, a câmara fixa-se com uma insistência algo despudorada num velho distraído, que parece perdido nas suas ideias, contemplando derreado a rua. Um excessivo voyeurismo parece insinuar-se de repente, como que à beira de destruir a relativa reserva que até então nos tinha abrigado. A demora na face do velho não nos está a ajudar, e sentimos que perdemos o filme, todo aquele que passou, a nebulosa que ele começava a criar na nossa cabeça, porque não soube hesitar no momento necessário.
Mas eis que o velho, apesar de bastante apagado, por fim distrai o seu olhar para dentro e, continuando a deriva, acaba por fitar ele próprio a câmara, com a mesma paciência cansada.
Passado um pouco também a câmara se torna desmerecedora da sua atenção, e dela se despede para fitar de novo a rua com a placidez inicial.
Aquele olhar para a câmara, tão simplesmente denunciado, protege, não apenas este plano específico, com o velho capturado, mas todo o filme, de uma qualquer tendência para um voyeurismo caricatural que se pudesse estar a acumular. Está lá para nos tornar de repente conscientes que o olhar foi devolvido, que há um espelhamento reflexivo [indispensável ao documentário?]. E que ao cansaço que permeia todos aqueles corpos não escapa obviamente o do cinema, apenas um entre os demais.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #1: Antecipações cegas

Sobre a natureza dúbia deste jogo de adivinhação, quer dizer, deste olhar para as vísceras dos filmes por vir (as sinopses, as imagens, os trailers, as críticas, etc.) e nelas ler o futuro da experiência na sala escura, já me expliquei demasiado, por ocasião das anteriores edições do IndieLisboa e DocLisboa. Os resultados, para o adivinho, apresentam-se bastante aceitáveis. Mas serão partilháveis? O falhanço de uma intuição não será muito mais pesado para quem a seguiu sem auscultar as suas próprias vísceras? Bom, de qualquer maneira, aqui ficam as suspeitas, para os aventurosos.
Nestas contas não entram os documentários STAUB (Dust) de Hartmut Bitomsky e RESPITE (in MEMORIES) de Harun Farocki, que já foram vistos e, consequentemente, recomendados na rubrica (e agora também calendário) dos «Meros filmes».

Em primeiro lugar, porque sigo a ordem de projecção, antecipo cegamente o documentário WUYONG (Useless) de Jia Zhang-Ke, realizador interessante de que só me dei conta através de uma retrospectiva no Indie, precisamente, apesar de um filme seu ter estado em sala; também, embora com alguma hesitação para os mais delicados, o impossível ANABAZYS de Paloma Rocha e Joel Pizzini, uma corajosa (ou, mais provavelmente, inconsciente) continuação de um dos mais difíceis e excessivos filmes de sempre, A IDADE DA TERRA de Glauber Rocha; mais um exercício de curta duração de Pedro Costa, A CAÇA AO COELHO COM PAU, incluído no filme colectivo MEMORIES e provável antecipação do seu trabalho contínuo;
ROZ (Pink) de Alexander Voulgaris, porque gostei francamente dos bocados que vi; CHARLY de Isild Le Besco, por este elogio de Chris Marker: «[... U]m filme, o de Isild, pelo menos tão misterioso quanto ela. Um filme de esfoladelas e de verdade, que recusa as maquilhagens da sedução para atingir esse ponto incandescente onde a dificuldade de estar com o outro já não é representação de papéis mas um salto no vazio, que rompe com todos os códigos cinematográficos bem-pensantes e que não se deixa esquecer»; igualmente, PROFIT MOTIVE AND THE WHISPERING WIND de John Gianvito, porque é um autor conhecido do melhor programador português (não, não é Pedro Mexia; é um daqueles que podia e devia estar no lugar de Pedro Mexia); KILLER OF SHEEP de Charles Burnett, cineasta negro dos já longínquos anos 70, entrevisto em LOS ANGELES PLAYS ITSELF de Thom Andersen; MARFA SI BANII (Stuff and dough) de Cristi Puiu, incluído na sessão do Novo Cinema Romeno 4, pois é a primeira longa metragem do realizador do excelente A MORTE DO SR. LAZARESCU.

À medida das descobertas, a sua partilha será actualizada no calendário público «Meros filmes». A tempo, espera-se, da segunda passagem dos filmes.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #0: Estavam à espera de quê? De melhor?

Começa daqui a pouco a quinta edição do IndieLisboa, um daqueles momentos condensados de exercício de cinefilia ou simples prazer cinematográfico. Depois de uma grande desconfiança pessoal, que me fez perder alguns filmes importantes, aderi nos últimos anos ao festival, ainda que com prudência. É que, bem escondidas, sujeitas a um imenso trabalho de escavação, sempre se descobriam lá no meio uma ou outra pérola cinematográfica, que é o género que ando à procura. No entanto, este ano, a minha expectativa é manifestamente baixa. Algumas razões para isso.
Os directores do festival, talvez assolados com exigências de produção, mantêm a característica irritante obsessão com o crescimento do número de espectadores (que aliás partilham com o DocLisboa), como se os números fossem um fim em si. Para sublimar essa obsessão, contrataram uma campanha publicitária assoladora e inesperadamente cretina, que revelou a sua verdadeira face, a meu ver, num anúncio paralelo de uma marca de cosméticos que, usando o mesmo slogan, dizia descaradamente assim: «Estavam à espera de quê? Gente feia?» Benditos criativos! É que as gentes feias, no meu entender, também têm lugar no cinema. Diria mesmo, um lugar privilegiado. Um cinema que ainda mereça esse nome será aquele que hoje, entre outras coisas, não distinga entre gentes feias e bonitas, acabando por revelar outras coisas mais importantes, outras distinções mais relevantes.
Claro que isto não deveria surpreender, tal é a infeliz tendência do festival para o pop e o cool, sabores do momento a que não podem ou sabem fugir. Por isso faz igualmente sentido a aliança com o jornal Público, órgão oficial, que nos alimenta das mesmas obrigatoriedades nos seus suplementos culturais. É, portanto, um péssimo sinal, a todos os níveis, do cinematográfico ao político, esta interpelação desajeitada, que se toma por provocatória, do «estavam à espera de quê?».
Quanto ao que interessa mesmo, a programação, ela deixa, numa primeira análise, bastante a desejar, pelo menos em comparação com o ano anterior. Como se, para a consolidação do festival, optassem ao invés por uma programação mais conservadora. Até a secção «Herói independente», que guardava muito do melhor do festival, parece relativamente tépida, pouco arriscada. As retrospectivas de Johnnie To (que não conheço), de José Luis Guerín, e do Novo Cinema Romeno (que não estou ainda certo, apesar de Cristi Piui, que verdadeiramente exista) são escolhas cautelosas, conscienciosas.
Dito isto, e porque não faço contas à grande, mas à pequenez de um filme inesperadamente descoberto, de um autor revelado (como, por exemplo, a alemã Angela Schanelec, através de uma sua muito bem escondida média metragem no heterodoxo programa «Um cinema alemão» do ano passado), admito e espero surpreender-me com os filmes que resolveram oferecer-nos. Talvez a cinefilia dos programadores, apesar das aparências, passe por ser uma actividade secreta e envergonhada de colocação de armadilhas, de filmes inesperados, no meio do engano.
Não são esses, no entanto, os sinais. Gritantemente sintomática dessa tendência é a não selecção da importante curta metragem ESTAÇÃO de Luís Miguel Correia, sobre a qual já escrevi aqui*. Lamentavelmente, pois circunscreve em muito o número de gente que a poderá ver. E, entre outras infelicidades mais graves, perder-se-á assim a oportunidade de pôr João Nicolau, realizador de RAPACE, a reagir, enquanto júri das curtas metragens, a esta curta que pode, e talvez deva, ser vista em paralelo com a sua.
De resto, são muitos, quase demasiados, os filmes sobre os quais exercer a suspeita e a benevolência de quem ainda está à espera de alguma coisa do cinema.

* Declaração de interesses: o realizador é um amigo e o filme foi produzido por uma produtora de que sou sócio. Isto muda alguma coisa?

Quando se acende a luz...

«Era como quando, no cinema, diante dos olhos arregalados da multidão, desfilam ao ritmo triunfal e nostálgico da orquestra as grandes cidades e todas as suas riquezas, as paisagens longínquas, as aventuras, as mulheres mais belas e os homens mais afortunados. Ao ritmo apressado do seu coração iludido, o cinema das suas ambições corria cada vez mais rápido... no ecrã da sua fantasia as imagens perseguiam-se, encontravam-se, misturavam-se, ultrapassavam-se... era a corrida das esperanças, que tira a respiração, faz tremer a alma, ilude, e finalmente dissolve-se, deixando a medíocre realidade; exactamente como no cinema quando se acende a luz e os espectadores se entreolham com caras desencantadas e amargas.»
Alberto Moravia, Os indiferentes, trad. Álvaro de Almeida, Colecção Público Mil Folhas, Porto, p. 198

Meros filmes em Abril


Haut bas fragile
Jacques Rivette
1995, 170’
3ª, dia 1, 21h30
6ª, dia 4, 22h
Cinemateca
*, Lisboa

Ballade vom kleinen Soldaten /
A balada do pequeno soldado
Werner Herzog e Denis Reichle
1984, 45’ [projecção dvd ou pior]
Filmes com jantar

3ª, dia 1, 22h30 – Bacalhoeiro
Rua dos Bacalhoeiros, 125, 2º, Lx


Coeurs
Alain Resnais
2006, 120’
estreia dia 3
14h30, 17h, 19h30, 22h, (00h30)
Medeia King 1 e Monumental 4, Lisboa


The crowd
King Vidor
1928, 104’
Sáb, dia 5, 19h30
Cinemateca

Mahanagar / A grande cidade
Satyajit Ray
1963, 130’
Sáb, dia 5, 21h45
Cinemateca

Silvestre
João César Monteiro
1981, 118’
2ª, dia 7, 22h
Cinemateca

Les statues meurent aussi
1953, 30’
Toute la mémoire du monde
1956, 21’
Alain Resnais
Sáb, dia 12, 22h
Cinemateca

I vitelloni
Federico Fellini
1953, 100’
2ª, dia 14, 19h30
Cinemateca


True heart Susie
D. W. Griffith
1919, 83’
Sáb, dia 19, 19h30
Cinemateca

Der müde Tod / A morte cansada
Fritz Lang
1921, 100’
Sáb, dia 19, 22h
Cinemateca

Faust
F. W. Murnau
1926, 99’
5ª, dia 24, 19h
Cinemateca

Respite
Harun Farocki
2007, 40’ / in Memories
– Jeonju Digital Project 2007

IndieLisboa 2008* – Observatório
Sáb, dia 26, 19h15
(tb. 6ª, dia 2 Maio, 19h15)
Teatro Maria Matos 1, Lisboa

Staub /
Harmut Bitomsky
2007, 90’
IndieLisboa 2008 – Observatório
Dom, dia 27, 16h
(tb. 6ª, dia 2 Maio, 16h)
São Jorge 2, Lisboa

Il mistero di Oberwald
Michelangelo Antonioni
1981, 129’
4ª, dia 30, 21h30
Cinemateca

Pic - nic
Eloy Enciso
2007, 75’
IndieLisboa 2008 – Laboratório
2ª, dia 28, 21h15 – Londres 2, Lisboa

Roz [Pink]
Alexander Voulgaris

2007, 90’
IndieLisboa 2008 – Comp. Internacional
3ª, dia 29, 15h45
– Londres 1

[apenas filmes vistos, sem repetições]

«Instalações, acontecimentos, happenings, improvisações: tudo orienta a pesquisa para uma espécie de teatralidade generalizada [...]»
Alain Badiou, Le siècle, Seuil, Paris, p. 220 [sublinhado meu]


Aproximações à biopolítica

6ª, dia 14 de Março, 10h - Culturgest, Sala 2
Programa Espectros da vida nua

O medo da morte e a conservação da vida por António Bento
Sabe-se como é de uma determinada articulação entre o medo da morte violenta (a paixão mais poderosa) e o direito à conservação da vida (o direito mais sagrado) que Thomas Hobbes deduz o seu Leviathan. Sabe-se também como uma boa parte – a grande parte – da tradição da filosofia política moderna provém da racionalização deste «medo» e da naturalização deste «direito». A um medo «natural» racionalizado faz ela corresponder um direito «racional» naturalizado. O que isto imediatamente significa é que a economia política da vida moderna se define por um cálculo racional de riscos e de benefícios no qual o «medo» é disposto como o fundamento prático e a garantia especulativa do «direito». Mais: a naturalização do direito à conservação da vida só pode ter como corolário o aumento do medo da morte violenta e a consequente existência de um «direito» que deve modernamente apresentar-se – e justificar-se – como uma segurança – mítica, e, portanto, sagrada – contra o medo. Foi neste ponto que Thomas Hobbes nos colocou e do qual ainda hoje permanecemos cativos: a política concebida como fábrica de segurança e o direito como apólice universal contra o medo.

A biopolítica como sintoma do arcaico por José Bragança de Miranda
A ideia de biopolítica é proposto por Michel Foucault para conceptualizar um domínio detectado por Marx, mas por este deixado em suspenso. Trata-se da «vida», qualquer coisa que se jogaria entre o jurídico-político (Estado) e a economia política (o trabalho). Foucault visa-o directamente através de uma série de estudos sobre a prisão, a família ou a clínica, etc. – o famoso «arquipélago» institucional –, servindo a «biopolítica» para apreender o que há de comum em estratégias tão diversas, mas finalmente convergentes. Nesta comunicação procede-se a uma crítica desta concepção, mostrando que o biopolítico é um sintoma do retorno de algo bem mais arcaico e que atravessa subterraneamente toda a cultura desde os seus primórdios e que pode ser descrito como a «energologia» ocidental (a acumulação e o uso de energia animais e humanas de acordo como uma série de «formas» ou tipos). Estamos a assistir à crise desse modelo e à correspondente instauração de uma «extaseologia» geral (a economia geral dos «prazeres» e dos «terrores»). Defender-se-á a necessidade de retraçar politica e artisticamente o programa arcaico, dado o manifesto esgotamento por que está a passar.


O nacional-socialismo e a política sobre a vida
por Alexandre Franco de Sá
Autores como Michel Foucault ou Giorgio Agamben propõem-nos uma leitura do fenómeno nacional-socialista como uma experiência política resultante de a vida se constituir como o objecto de uma hiper-soberania, tornando-se puramente exposta a um poder que torna indiferente a vida e a morte. A presente comunicação pretende abordar o fenómeno nacional-socialista a partir não do objecto do poder mas do seu sujeito, problematizando a possibilidade da caracterização de um tal sujeito a partir do conceito de soberania.

Figuras contemporâneas do biopoder por José Caselas
Trata-se de analisar algumas formas de biocontrolo implicadas no governo de si e dos outros, que derivam da aplicação da medicina e da biologia à gestão das populações e à economia. Que modalidades éticas se constituem nestas formas emergentes de vida? Que tipo de subjectividade, que jogos de linguagem daí resultam? Importa problematizar a questão da liberdade e do determinismo nestas tecnologias biomédicas.

Autópsia in vivo por André Dias
Pode a biopolítica ser pensada como "autópsia geral in vivo do mundo"? Ensaiamos esta hipótese, ela própria paradoxal, como mera ilustração da expressão cinematográfica do pensamento no documentário PRIMATE de Frederick Wiseman, uma das "figuras da autópsia" que definem a biopolítica no cinema contemporâneo. Abordaremos, neste contexto, os problemas da relação ao animal, da insuficiência da compaixão, das invisibilidades necessárias, bem como, numa perspectiva mais cinematográfica, do esvaziamento do ponto de vista, da proximidade não enfática, procurando sugerir uma crítica da lógica paradoxal em prol de uma "ambiguidade livre" e o vislumbre de um horizonte biopolítico centrado na "produção da natureza".

6ª, dia 14 de Março, 15h - Culturgest, Sala 2
Programa Concretudes do poder

A mais-valia do poder e a avaliação por José Gil
A partir das noções de bio-poder e biopolítica tal como Foucault as definiu e Toni Negri as retomou, procurou-se mostrar a pertinência da noção de "mais-valia de bio-poder". Procurou-se com estas noções caracterizar a natureza da "governação Sócrates" e descrever um dispositivo essencial das tecnologias biopolíticas dessa governação: a avaliação.

Modelos evolutivos e ideologia por António Bracinha Vieira
Desde as primeiras teorizações transformistas, e depois evolucionistas, da origem das espécies e das formas vivas, que as ideologias políticas, económicas e religiosas nelas têm procurado caução para os seus desígnios, como se lhes proporcionassem uma justificação dos objectivos ideológicos baseada em tendências inarredáveis inerentes à própria natureza. Por isso se tem assistido, nos últimos dois séculos de História, a apropriações e manipulações sistemáticas dos modelos evolucionistas por parte das diversas tendências do Poder que sucessivamente têm entrado em cena.

Criticar Negri, ignorar Foucault, tomar o poder por José Neves
A reflexão de Foucault sobre biopolítica é um elemento principal no pensamento de Negri nos últimos anos, momento em que a sua obra volta a suscitar as mais diversas críticas. Entre estas, encontramos a crítica de teóricos que se reclamam das tradições comunistas dominantes. Estes, contudo, têm criticado Negri sem se interessarem pela relação que o Império de Negri estabelece com a biopolítica de Foucault. À procura do que se joga neste desinteresse, esta comunicação debruçar-se-á sobre a história do comunismo no século XX.




A luta sem futuro de revolução por Eduardo Pellejero
Substituir as relações de produção pelo agenciamento da vida – como dimensão constituinte das formações de poder –, não implica uma mudança no quadro conceptual da análise sem implicar ao mesmo tempo uma profunda renovação das questões que contornam a prática militante. A partir da obra de Deleuze e Guattari, procuramos explorar o sentido de uma fidelidade ao marxismo que, reformulando os seus objectos e os seus instrumentos, pretende acolher a imponderabilidade de novos saberes, de novas técnicas, de novos dados políticos.

O inconsciente biopolítico do arquivo audiovisual por Susana Duarte
Uma incursão na obra do cineasta alemão Harun Farocki, a partir do que a aproxima do pensamento do filósofo Michel Foucault: não só o interesse pelas sociedades disciplinares e pela passagem às sociedades de controlo (trazendo à superfície os traços simultaneamente não visíveis, mas não escondidos, que permitem evidenciar a ordem biopolítica que nos governa hoje), mas também uma escrita cinematográfica indissociável de uma análise arqueológica dos discursos e das imagens na sua materialidade e mediatização.
6ª, dia 14 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Mitologia da Segurança
por Andrea Cavalletti


A fórmula de Hobbes «fora do Estado nenhuma segurança» exprime o paradoxo da política moderna. Ela define o perigo a partir do Estado (como o "seu" próprio fora) e, ao mesmo tempo, o Estado a partir do perigo. A fórmula torna assim desde logo evidente como o dispositivo estatal não pode nem deve anular alguma vez o risco, mas antes evidenciá-lo, procurá-lo continuamente e, não o encontrando, inventá-lo. É precisamente esta impossibilidade constitutiva que torna o Estado moderno capaz de tudo.




Andrea Cavalletti
ensina Estética e Literatura Italiana na Universidade Iuav de Veneza. Ocupou-se, entre outros, de Warburg, Benjamin, Bialik, de filosofia política, e da ciência do mito, com a edição da obra de Furio Jesi. Publicou, para além de vários ensaios, o livro La città biopolitica (Mondadori, Milão, 2005).

Sáb, dia 15 de Março, 11h - Culturgest, Peq. Aud.
Mesa-redonda Um desafio à política?

Mesa-redonda que procura avaliar a eventual relevância da biopolítica para a interpretação dos fenómenos políticos contemporâneos, com Rui Tavares, José Neves, Ivan Nunes e André Freire, moderada por António Guerreiro.


Sáb, dia 15 de Março, 15h - Culturgest, Sala 2
Programa A arte, a vida

O animal profundo por Maria Filomena Molder
Ó animal gracioso e benigno… assim se dirige Francesca da Rimini ao único vivo que atravessa a terra dos mortos, o poeta Dante. Maravilhamento, a que se mistura uma estranheza natural, é o que sentimos quando escutamos aquelas palavras, que servirão de mote para o que está em causa no reconhecimento do ser humano como "animal profundo". Concepção de Giorgio Colli que se cruza com concepções afins, em particular, em Wittgenstein e Guido Ceronetti.

Os corpos inimagináveis por Jorge Leandro Rosa
Entre o "defeito de visibilidade" e a "imagem totalitária", quatro fotografias captadas no crematório V de Auschwitz-Birkenau continuam náufragas e inclassificáveis. Para além da polémica sobre o seu valor documental e imagético, essas imagens abrem-nos um lugar para a reflexão sobre uma fenomenologia da Shoa. O que aí se fecha, contudo, forma a própria experiência dessas imagens. Que fios da experiência encerram os corpos de Auschwitz?



Sobreviventes - O silêncio do corpo que cai
por Eugénia Vilela
A política contemporânea cria modos de silêncio onde os corpos singulares se transformam em espaços orgânicos de aniquilação. Homens, mulheres e crianças sobrevivem em espaços de abandono – campos de refugiados, espaços de deslocação, campos de detenção – onde a linguagem é suturada ao mutismo do corpo que se dobra sobre si mesmo, caindo num silêncio sem infância. E no entanto, no interior desses espaços outros, pressentimos a intimidade do silêncio entre o corpo e o tempo, num gesto que é a matéria da vida como uma obra de arte.

Na zona cinzenta por Nuno Lisboa Afonso
A partir da análise do filme-testemunho S21 – La Machine de Mort Khmère Rouge, em que Rithy Panh desenvolve uma autêntica microfísica dos gestos, procura-se interrogar o espaço aparentemente vazio onde se move a câmara do cineasta, na "zona cinzenta (descrita por Primo Levi), de contornos mal definidos, que liga simultaneamente senhores e escravos" no campo de concentração.
Sáb, dia 15 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Riscos e potencialidades da biopolítica global
por Roberto Esposito


A mudança de época no final dos anos 1980 levou ao uso e à difusão do paradigma de biopolítica, elaborado no decénio precedente por Foucault. A partir da sua definição, será necessário reconstruir a sua progressiva transformação, nos anos 30 do século xx, de uma política da vida numa política da morte. Esta incidência sobre a tanatopolítica nazi permitirá diagnosticar a fase actual da biopolítica global, com os seus riscos e potencialidades, e sugerir a possível relação entre biopolítica e prática filosófica.




Nascido em 1950, Roberto Esposito é professor de Filosofia na Università degli Studi de Nápoles, Itália. Através da análise das categorias políticas clássicas e modernas, o seu pensamento vai sublinhando os limites do político na época contemporânea. Entre as suas obras, ainda não editadas em Portugal, destacam-se Categorie dell'impolitico (Il Mulino, 1988) e Communitas. Origine e destino della comunità (1998), Immunitas. Protezione e negazione della vita (2002), Bíos. Biopolitica e filosofia (2004) e o recente Terza persona. Politica della vita e filosofia dell'impersonale (2007), publicadas pela Einaudi.

Survivor, entre aspas


The Survivor , episódio 39 da 4ª série de Curb your enthusiasm de Larry David (HBO)

[Lembrei-me desta imagem humorística, tão elucidativa dos tempos interessantes que nos fazem viver, enquanto via SHOAH de Claude Lanzmann no escuro da sala da Cinemateca;
dedico-a ao Yesterday Man; roubada a edenleviathan; para os curiosos mórbidos, eis o outro “survivor”]

«Quem quer viver está condenado à esperança.»
– Filip Müller (que sobreviveu a cinco liquidações do Sonderkommando em Auschwitz), no filme SHOAH

O que é a biopolítica? #5

3ª, dia 11 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Espaços de controlo
por Fernando Poeiras (ESAD Caldas da Rainha)

A expansão de tecnologias de vigilância e de segurança alterou o controlo social, introduzindo diferentes estratégias de biopoder. Como a distinção norma/desvio tende a ser substituída pela de normalidade/acidente e a coerção pela necessidade, o exercício do controlo social é reconfigurado.
Ciclo de conferências O que é a biopolítica?
12, 19, 26 de Fevereiro, 4 e 11 de Março - Culturgest, Lisboa


Ciclo de cinema Figuras da autópsia. A biopolítica no documentário contemporâneo
de 4 a 11 de Março - Cinemateca, Lisboa

Ciclo de conferências Aproximações à biopolítica
6ª 14 e Sáb 15 de Março -
Culturgest


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