Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Outros filmes de Outubro


On connaît la chanson
Alain Resnais
1997, 122’ 35mm
2ª, dia 8, 19h00
Instituto Franco-Português, Lisboa

Vale Abraão

Manoel de Oliveira
1993, 203’
2ª, dia 8, 22h
Cinemateca, Lisboa

Pasazerka / Passageira
Andrzej Munk
1963, 63’
5ª, dia 11, 19h30
Cinemateca

Estação ante-estreia
2007, 32’
O dedo
2005, 5’
Luís Miguel Correia
2ª, dia 15, 21h30
Cinemateca

Scénario du film ‘Passion’
Jean-Luc Godard
1982, 54’
«Centre Pompidou Arte Vídeo»
a partir de dia 19
Museu do Chiado, Lisboa

Le papier ne peut pas envelopper la braise
Rithy Panh
2006, 86’
doclisboa
Sáb, dia 20, 16h30
Londres 1

2ª, dia 22, 21h

Culturgest, Gr. Aud.


He Fengming
Wang Bing
2007, 184’
doclisboa
Dom, dia 21, 14h30
Culturgest, Gr. Aud., Lisboa
3ª, dia 23, 16h30
Londres 1


Le filmeur
Alain Cavalier
2005, 97’
«Diários filmados e autoretratos»
(prog. Augusto M. Seabra)
doclisboa

2ª, dia 22, 14h15
Culturgest, Pq. Aud.


La pudeur et l'impudeur
Hervé Guibert
1991, 58’ cor, vídeo
«Diários filmados e autoretratos»
doclisboa
2ª, dia 22, 22h45
Culturgest, Pq. Aud.

JLG/JLG: autoportrait de
décembre

Jean-Luc Godard
1994, 55’
«Diários filmados e autoretratos»
doclisboa
3ª, dia 23, 22h45
Culturgest, Peq. Aud.

News from home
Chantal Akerman
1976, 85’
«Diários filmados e autoretratos»
doclisboa

4ª, dia 24, 22h45
Culturgest, Pq. Aud.

Le samouraï
Jean-Pierre Melville
1967, 95’
5ª, dia 25, 15h30
Cinemateca

[esta rubrica contém exclusivamente, e desde o seu início, apenas filmes já vistos e sem repetições]

O espectador ocioso #3: Em Dvd?

Tomemos, como exemplo, este primeiro dia do mês de Outubro do ano de 2007 na cidade de Lisboa. Um espectador ocioso, talvez cinéfilo cultivador de raridades esquisitas, podia ser levado a dirigir-se ao Instituto Italiano de Cultura, ali para os lados do Rato, onde, num relativamente promovido ciclo de cinema chamado «O’Cinema – Rassegna sulla nuova cinematografia partenopea», estava programada a Morte di un matematico napoletano (1992) de Mario Martone pelas 19 horas. No dia anterior tinha havido inclusive uma apresentação pelo “director artístico” do ciclo, o Sr. Giulio Gargia, bem como do Juiz Luigi Mazzella sobre o tema «Cinema e empenho [?]», seguidas de um cocktail, a que lamentavelmente faltou. Ao chegar à sala, repara numa série de pessoas a ver televisão através de um projector vídeo. A projecção do filme seguir-se-ia, dizem-lhe. Mas, desconfiado, e não vendo à sua volta equipamento de projecção, o espectador dirige-se à jovem senhora italiana que o tinha anteriormente orientado para a sala. Pergunta-lhe se, por mero acaso, a projecção não será eventualmente em vídeo, quer dizer, pior ainda, de Dvd. A senhora demora um pouco a perceber a questão, como se nunca tivesse reparado na diferença que este espectador, talvez desactualizadamente, tentava estabelecer entre projecção de película e de Dvd. Que sim, que era de Dvd. Ah! O espectador esboça um sorriso, só acessível aos verdadeiramente ociosos, e sugere delicadamente à senhora italiana que talvez não fosse má ideia mencionar no programa, por sinal com uns tons de azul tão bonitos, que a projecção ia ser, precisamente, de Dvd. E que em português havia uma expressão muito gira, talvez a senhora italiana não conhecesse, que é a de «gato por lebre», que podia talvez ser usada para descrever a situação, apesar da generosa entrada gratuita. Ao descer as escadas, o exigente espectador pensa para si próprio que, se quiser ver um Dvd, ainda que raro mas, pelos vistos, provavelmente existente para empréstimo no Instituto Italiano, o vê em casa. Outros espectadores que estejam nas tintas para tais subtilezas fiquem informados que, para os dias seguintes, está mesmo prevista a presença de dois realizadores italianos que, presume-se, virão de propósito de Itália para apresentar os seus filmes... em Dvd? Viajar de tão longe para apresentar um Dvd. Hum, certamente mais um pequeno passo para o homem, mas outro grande passo para a humanidade. Enfim, uma questão de pequena resolução...
Ainda mal refeito da experiência, o espectador adiado encontra uns amigos numa café nessa mesma rua, a quem explica o ocorrido. O olhar que lhe lançam é o de quem também nunca tinha reparado na diferença entre película e projecção vídeo. E que é um pouco fazer uma tempestade num copo de água o abandonar da sessão por tal coisa. O espectador resmunga que é a mesma estória dos homenzinhos gorduchos a jogar à bola nos ecrãs panorâmicos. As pessoas preferem ver as jogadas bonitas e as subtilezas tácticas todas deformadas, ao invés de suportar umas listas pretas nas margens verticais ecrã. Porque, diz, hoje em dia já se perdeu todo o sentido das proporções...
Também muito recentemente, um projeccionista interrogado, por mera curiosidade póstuma, acerca do facto de uma série de curtas metragens terem passado todas deformadas, respondeu que tal era devido a se tratar de um “formato digital”. O espectador folgou muito em saber, e aquele palavrão tinha o inconfundível sabor de álibi perfeito para o, cito, “resize” que foi necessário fazer a todos aqueles filmes curtos. Senão dava uma trabalheira, imaginou o espectador...
Depois da experiência das 19 horas, um espectador demasiado crédulo podia ser levado a dirigir-se depois à Casa da América Latina, ali no meio da 24 de Julho, para rever Los olvidados (1950) de Buñuel, pelas 21 horas e 30 minutos mais ou menos. Mas este particular espectador resolveu desencantar o número de telefone da dita Casa e, ao fim de duas tentativas, foi-lhe dito, por uma senhora de expressão vocal latino-americana, que sim, que a projecção era (também) de Dvd. Pois, “gato por lebre” também para a senhora latino-americana...
Pergunto-me o que levará estes e outros institutos culturais de promoção estrangeira, que se querem respeitáveis, mas também outras associações culturais bem intencionadas, a passar filmes assim à bruta, por vezes até em ficheiros .avi com uma resolução miserável. Que a Videoteca o faça, mostrar filmes em vídeo, compreende-se, pois o próprio nome parece autorizá-la. Procedimento que, diga-se, até se justifica quando se trata de mostrar uma determinada raridade cinematográfica ou um filme que esteja danificano no seu formato original. Como, por exemplo, os filmes de Santiago Álvarez, que custaria trazer de Cuba por tão pouco, e alguns outros. Mas filmes que passam constantemente na televisão? Não é isso afinal o que estas programações, em geral tão pobres de programa, procuram? Uma experiência colectiva de televisão fora de casa? Cruz credo! Há coisas que só se devem fazer no recato do lar. No espaço público são manifestamente uma perversão. Imaginem agora o grau da dita no Metropolitano ou nos shoppings. Mas afinal quando é que acabam com as ruas, o céu, a chuva e as árvores e colocam uma cobertura multimédia impermeável em toda a cidade? Que quentinho que vai ser...
É por estas e por outras que, mesmo os que não o queriam, se vêem um dia com focinhos de rato, de ratos de Cinemateca. Pelo menos na Cinemateca, com a sua programação talvez não demasiado audaz, mas certamente sábia, sóbria e respeitadora, existe a regra escrita, e a autoridade (e o dinheiro) para a fazer cumprir, de passar as obras cinematográficas e videográficas no formato original. Regra quebrada apenas muito excepcionalmente, quando a raridade das obras o impõe, como foi o caso das séries para televisão de Rossellini.
A verdade é que, na generalidade destas programações avulso que se encontram por Lisboa, o filme em si, naquela que é a sua matéria específica, não interessa quase nada, submetido que está ao desejos de programação e promoção imprecisos.
Gostaríamos de crer que um dia estes (filmes) vencidos voltarão vitoriosos do olvido. Mas nada é menos certo. Aliás, cada vez parece mais que o que enterrado vivo foi, lá permanecerá. A não ser que alguns o arranquem da terra com raízes e tudo. E que outros lhes ganhem o gosto. Ora, é sabido que o Dvd, apesar de todos os extras, ainda não vem com raízes...

Com legendas

« C’est ainsi qu’on a envisagé...



[de memória]

O espectador ocioso #2: Sem legendas

(sem imagem)

Como quase sempre, naquela tarde em que me dirigia afogueado ao Instituto Franco-Português para ver um filme, estava atrasado. São tantas as vezes que isto me acontece que tenho até o projecto, daqueles que nos consolam apesar ou precisamente por serem ultimamente irrealizáveis, de escrever um livro chamado «5 minutos de atraso», que trataria apenas desses fulcrais primeiros planos que nunca vi nos filmes que amo. (Nos meus sonhos complacentes, o título do livro ficaria igualmente bem em inglês - «5 minutes late» - e em francês - «5 minutes de retard»).
Mas, daquela vez, a sessão, apesar do meu espectacular atraso, não tinha sequer começado. A sala estava ainda comummente iluminada. Na verdade, nem espectadores ansiosos se avistavam. Certo que era apenas um obscuro filme russo (aliás, soviético) num ciclo sobre os «Cahiers du cinéma» no IFP, o que convenhamos não tem o condão de atrair assim tanta gente quanto devia. Mas, nem mesmo alguém?
Reconheço um funcionário de passagem e pergunto abismado pelo que se passa. O gentil senhor explica-me que a cópia tinha chegado a tempo da França mas, surpreendentemente, sem qualquer tipo de legendagem e que, como a língua russa ainda não é compreensível para a população geral, tinham por isso decidido cancelar a sessão. Num daqueles gestos de evidência que um quase louco pode ter, (quase) implorei ao senhor que projectasse o filme mesmo assim, que não fazia mal que os demais espectadores já tivessem abandonado o local, que a um filme não faziam falta nenhuma aquelas letras que nos fazem perceber a estória, que há muita música no timbre apenas das vozes, nas imagens, e outras teorias esfarrapadas que encontrei para fazer vencer a minha urgente vontade, que era apenas a de ver aquele filme soviético, que mais ninguém queria ver assim, naquele preciso momento. Acossado ou piedoso, o funcionário cedeu, quando outra espectadora mais hesitante, embora ainda mais atrasada, juntou o seu olhar muito levemente suplicante à minha ladainha. Foi assim que vi, com mais dois ou três felizes inocentes, o belíssimo de chorar Alenka (1961) de Boris Barnet.
Ah, sim, conhecia aqueles camiões de caixa aberta que atravessavam a estepe soviética de alguma parte, rasgando as cores daquela singular película soviética. Não senhor, não era apenas vermelho comunista o que tinha de especial aquela película. Todas as outras cores pareciam vir de um mundo de fadas, que sabemos bem não o era. Donde conhecia eu aqueles camiões a passarem dum lado para o outro? Pois era, claro, das Histoire(s) du cinéma, que, antes de tudo o resto, são a mais generosa forma de rememoração cinematográfica, reinvestindo de esplendor cada pedaço de filme e tornando, pelo menos na minha confusa memória, inseparáveis os filmes originais e as suas evocações por Godard. (Veja-se o Duel in the sun de King Vidor, com a Jennifer Jones e o Gregory Peck, também na saturada maquinação rítmica de Godard, aos tiros e beijos até à morte num monte poeirento).
Por causa das coisas, uma vez no Porto, feito parvo, teimei em público com Raymond Bellour que o Godard utilizava um excerto do Pelechian nas Histoire(s). Claro que era ele que tinha razão, quando dizia “olhe que não!” Bem procurava cima abaixo nas minhas vhs copiadas das Histoire(s), o que deu cá um trabalho, mas nada encontrava daquele pedaço de Pelechian levado a órgão que conhecia tão bem. Mas, como depois mostrei, o Bellour só tinha razão na parábola, na realidade era eu que tinha razão (ou o inverso) , como se diz no Nouvelle vague a propósito de Kafka. O Menk (1969) de Pelechian é maquinado numa parte de Les enfants jouent à la Russie (1993), episódio russo preparatório das Histoire(s).
Assim, desta vez fui confirmar academicamente se estes camiões tinham realmente atravessado a tundra godardiana. A útil partitura das Histoire(s), feita por Céline Scemama, confirma que o episódio 1b Une histoire seule inclui, ao minuto 4’03, as seguintes imagens: «Voyage dans la steppe à l’arrière d’un camion dans Alenka (Barnet, 1961) : une femme et un enfant, la tête recouverte d’un foulard; sur la route poussiéreuse, l’ombre d’autres camions passant dans la perpendiculaire à l’horizon/ noir /». [Um amigo solicito fez-me notar (eu já não me lembrava) que um excerto de Alenka aparece igualmente aos 4'15'' da Origine du XXIème siècle (2000), de início misturada com um travelling de Shining e acompanhada a música de piano]. É certo que não percebi nada bem o que levava a pequena Alenka àquelas paragens, nem os diálogos tão pedagógicos que mantinham as personagens que viajavam em cima do camião, nem as subtilezas da estória tão imbricada naquela outra história soviética de kolkhozes e sovkhozes, hoje enterrada, mas um dia também ela por repensar, e que ainda aprendi nas longínquas aulas de “geografia”, ou “meio físico e social” ou outra qualquer coisa assim, da escola secundária.
Sobre ver filmes em línguas estrangeiras de fonética incompreensível, e sem legendas também elas compreensíveis, tem o Abbas Kiarostami uma estória gira, embora não inocente. Conta ele algures, não me lembro onde, que teria visto em Paris um filme de Bergman [corrige-me um amigo dizendo que é um filme de Fellini, mas gosto muito mais da coisa com Bergman; parece-me que a estória funciona melhor] e que não tinha percebido nada, construindo a estória do filme na sua própria cabeça (que é, na verdade, onde ela deve ser feita); e que, um dia mais tarde, teria visto o filme de forma normalmente compreensível e tinha achado que a sua versão era bastante melhor que a original. Como não haveria de ser? Trata-se sem dúvida de uma estória muito pedagógica sobre a construção da narração no cinema, por esse mestre da perversão que é Kiarostami.
Recentemente tive uma experiência aproximável com o filme Senhsucht (2006) de Valeska Grisebach, que vi numa cópia dvd sem quaisquer legendas. Como não compreendo a língua alemã, à natural ambiguidade deste perturbante filme juntou-se o acrescento da que foi criada pela minha própria imaginação, que tantas vez prefere ser alimentada pelos frutos da ignorância. Fiquei tão feliz por não saber se as personagens tinham ou não morrido, das motivações específicas de cada uma delas, que a própria manifestação do dilema se visse ou ouvisse para lá dos corpos e das paisagens, ou quem tinha acabado por ficar com quem afinal. Era tão mais justo! Para mais, o filme tem um epílogo com umas crianças a discutirem precisamente as versões míticas da estória narrada, sobre o que se teria realmente passado, etc., procurando fomentar a ambiguidade, num final em aberto, chamam-lhe assim. Pois eu acho que devia haver uma versão do filme para todos os não-falantes do alemão, que não incluiria este epílogo, pois a bendita confusão estava já completamente ganha. Aliás, cada vez que leio uma sinopse deste filme não consigo conter a minha desilusão perante a redução que operam naquilo que eu (não) entendi. Não tendo percebido nada, inclui afinal muito mais. Por isso, muito cuidado com o que desejam perceber.


Alenka (1961) de Boris Barnet
Sábado, dia 29, 19h, na Cinemateca perto de si, espero

Humor biopolítico

«Idealmente, a vigilância veterinária deveria incluir os animais selvagens, e não apenas os animais domésticos.»
de um artigo sobre epidemias animais no Le Monde


Dobragem | Doblage


Johnny Guitar (1954) Nicholas Ray
5ª, dia 20, 19h30 - Cinemateca
excerto de margaloca

JOHNNY How many men have you forgotten?
VIENNA As many women as you've remembered.
JOHNNY Don't go away.
VIENNA I haven't moved.
JOHNNY Tell me something nice.
VIENNA Sure, what do you want to hear?
JOHNNY Lie to me. Tell me all these years you've waited. Tell me.
VIENNA [without feeling] All those years I've waited.
JOHNNY Tell me you'd a-died if I hadn't come back.
VIENNA [without feeling] I woulda died if you hadn't come back.
JOHNNY Tell me you still love me like I love you.
VIENNA [without feeling] I still love you like you love me.
JOHNNY [bitterly] Thanks. Thanks a lot.

com Sterling Hayden (Johnny "Guitar" Logan) e Joan Crawford (Vienna)
Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988) Pedro Almodóvar
4ª, dia 26, 21h30 - Cinemateca corrigido

«El personaje de Carmen Maura debe ir a doblar escenas de Johnny Guitar, ella es la voz de la terrible Viena (Joan Crawford) y él la de Johnny Logan (el tierno Sterling Hayden). Mi intención no era rendirle homenaje a esa obra maestra de Nicholas Ray (aunque se lo merece, pero los homenajes gratuitos sobrecargan la narración) sino la de apropiarme de uno de los diálogos más románticos escritos para cine. Las célebres líneas: “Mentime y decime que me esperaste todos estos años... Decime que estarías muerto si yo no hubiera vuelto... Decime que todavía me amás como lo hago yo”...
Carmen debe grabar su parlamento sola, ya que Iván (su amante) dejó grabada su parte sin esperarla. Ella escucha en los audífonos el sonido de la voz de su antiguo amante que le dice que no la olvidó, que la ama tanto como ella a él. Pero ella sabe que no son más que palabras grabadas en una cinta y que Iván no se las dirá jamás personalmente.»
Pedro Almodóvar

com Fernando Guillén (Iván/Johnny) e Carmen Maura (Pepa/Vienna)

Johnny Guitar (1954) Nicholas Ray
excerto de GerardoGalan


JOHNNY
¿A cuántos hombres has olvidado?
VIENNA A tantos como mujeres tú, me imagino.
JOHNNY ¡No te vayas!
VIENNA Pero si no me he movido.
JOHNNY Dime algo bonito.
VIENNA Claro, ¿qué deseas oír?
JOHNNY Miénteme, dime que me has esperado estos cinco años. Dímelo.
VIENNA Todos estos años te he esperado.
JOHNNY Y que habrías muerto si no hubiese venido.
VIENNA Habría muerto si tú no hubieras venido.
JOHNNY Y que todavía me quieres, como yo te quiero a ti.
VIENNA Te quiero como tú me quieres a mí.
JOHNNY Gracias.

com as vozes de Ángel María Baltanás (Johnny) e Mari Ángeles Herranz (Vienna) em 1956 ou Sinón Ramírez (Johnny) e Matilde Conesa (Vienna) para a TVE em 1971


Outros filmes de Setembro


Le genou de Claire
Eric Rohmer
1970, 100’
3ª, dia 4, 21h30
Cinemateca, Lisboa

Ugetsu monogatari /
Contos da lua vaga
Kenji Mizoguchi
1953, 96’
4ª, dia 5, 15h30
Cinemateca


Une femme est une femme

Jean-Luc Godard
1961, 80’
4ª, dia 5, 19h
Cinemateca

Bonjour tristesse
Otto Preminger
1958, 94’
5ª, dia 6, 22h30
Cinemateca Esplanada

79 primaveras
Santiago Álvarez
1969, 25’
2ª, dia 10, 15h
O cinema encontra o arquivo
Videoteca, Lisboa

Recordações da casa amarela
João César Monteiro
1989, 119’
2ª, dia 10, 21h30
Cinemateca

Tian bian yi duo yun /
O sabor da melancia

Tsai Ming-liang
2005, 115’
14h15, 16h50, 19h25, 22h, (00h30)
Medeia King 1, Lisboa


Les cousins
Claude Chabrol
1959, 110’
3ª, dia 18, 21h30
Cinemateca

Metaal en melancholie /
Metal e melancolia
Heddy Honigmann
1994, 80’
3ª, dia 25, 19h30
Cinemateca

Pauline à la plage
Eric Rohmer
1982, 92’
5ª, dia 27, 22h30
Cinemateca Esplanada

Alenka
Boris Barnet
1961-62, 75’, cor e que cor!
Sáb, dia 29, 19h
Cinemateca

Outros filmes de Agosto


Torre Bela
Thomas Harlan
1975, 105’ nova versão
14h, 16h30, 19h, 21h45
Medeia King 2, Lisboa
cf. «O homem da enxada»

Professione: reporter
Michelangelo Antonioni
1975, 126’
dias 3, 4 e 6, 00h15
Medeia King 1, Lisboa

Blow up
Michelangelo Antonioni
1966, 111’
dias 3, 4 e 6, 00h30
Medeia King 3, Lisboa

Outros filmes de Julho


Ai no corrida / O império dos
sentidos

Nagisa Oshima
1976, 105’
2ª, dia 2, 22h
5ª, dia 5, 22h
Cinemateca, Lisboa

Les vacances de Mr. Hulot
Jacques Tati
1953, 96’
Sáb, dia 7, 22h30 Esplanada
Cinemateca

Kaagaz ke phool / Flores de papel
Guru Dutt
1959, 148’
4ª, dia 11, 15h30
Cinemateca

Pyaasa / Sedento
Guru Dutt
1957, 146’
2ª, dia 16, 15h30
Cinemateca

Såsom i en spegel / Em busca da
verdade

Ingmar Bergman
1961, 92’
3ª, dia 17, 19h
Cinemateca

To have and have not
Howard Hawks
1944, 99’
6ª, dia 20, 19h30
Cinemateca

Ohayo / Bom dia
Yasujiro Ozu
1959, 94’
Sáb, dia 28, 15h30
Cinemateca

Uma linha de pensamento, incapaz de ser retida...

«Já em Paris tinha pensado em coligir os meus estudos num livro, mas fui sempre adiando a sua redacção. As diversas concepções deste livro que fui acatando em diferentes épocas iam desde o plano de uma obra em vários volumes, sistemática e descritiva, até uma série de ensaios sobre temas como higiene e salubridade, arquitectura penitenciária, templos profanos, hidroterapia, jardins zoológicos, partir e chegar, sombra e luz, vapor e gás e outros mais. Claro que, à primeira vista, os papéis que trouxe do Instituto para aqui, para Alderney Street, mostravam não passar, na sua maior parte, de esboços que então me pareceram inúteis, falsos e deficientes. Comecei a separar e a ordenar tudo o que ainda servisse para recriar aos meus próprios olhos, como se nas páginas de um álbum, o aspecto da paisagem que o viandante atravessa já quase imersa no esquecimento. Mas quanto maior o esforço que ao longo de meses dediquei a esta tarefa, mais lamentáveis me pareciam os resultados e mais o mero abrir dos maços e virar das incontáveis páginas por mim escritas me invadia de um sentimento de relutância e de asco, disse Austerlitz. E no entanto ler e escrever tinha sido sempre a sua actividade favorita. Como gostava, disse Austerlitz, de me sentar com um livro ao cair da tarde até já não conseguir decifrar as palavras e o pensamento começar a andar em círculos, como me sentia protegido quando me punha à secretária, na minha casa às escuras, e via à luz do candeeiro a ponta do lápis correndo atrás da sua sombra, como se por vontade própria e com perfeita lealdade enquanto essa sombra se deslocava paulatinamente da esquerda para a direita, linha a linha, sobre o papel pautado. Contudo, tornou-se-me tão difícil escrever que precisava de um dia inteiro para uma só frase, e assim que essa frase, produzida com extraordinário esforço, ficava escrita, logo mostrava a penosa inautenticidade das minhas construções e a inadequação do conjunto de palavras que tinha usado. Quando por vezes, iludindo-me a mim próprio, sentia que apesar de tudo tinha ganho o meu dia, era certo que, ao lançar o primeiro olhar à folha na manhã seguinte, encontraria os piores erros, incongruências e dislates. Muito ou pouco que tivesse escrito parecia sempre, a uma leitura posterior, tão destituído de fundamentos que tinha que o destruir sem demora e começar de novo. Em breve se tornou desagradável dar sequer o primeiro passo. Como um equilibrista que deixa de saber como se põe um pé à frente do outro no arame, sentia apenas a plataforma instável por baixo de mim e via, aterrado, que as pontas reluzentes da vara de equilíbrio, bem no limite do meu campo de visão, já não eram como outrora a minha luz de guia, mas malignos incitamentos a que me atirasse para o vazio. Uma vez por outra desenhava-se com inteira clareza na minha cabeça uma linha de pensamento, embora eu soubesse, mal ela se formava, que seria incapaz de a reter, pois logo que pegava no lápis as infinitas possibilidades da linguagem a que antes podia abandonar-me com toda a confiança tornavam-se uma miscelânea de frases de tremendo mau gosto. Não havia pertinência das expressões que não se revelasse uma miserável muleta, nem palavra que não soasse a falso e a oco. E neste vergonhoso estado de espírito me mantive durante horas, dias a fio, de cara virada para a parede, a atormentar a alma, e gradualmente fui percebendo como é horrível descobrir que a mínima tarefa ou dever, por exemplo, a arrumação de uma gaveta com várias coisas, está para além das nossas forças. Foi como se uma doença em mim latente há muito procurasse declarar-se, como se se tivesse apossado de mim um aturdimento, uma prostração que lentamente acabaria por me paralisar todo. Sentia já na minha fronte o terrível torpor que anuncia a degradação da personalidade, que na realidade já não possuía memória nem capacidade de pensamento, nem sequer vida própria, que toda a minha existência tinha sido passada a extinguir-me e a apartar-me de mim e do mundo. Se alguém tivesse vindo então buscar-me para me levar para o local de execução ter-me-ia deixado ir calmamente, sem dizer uma palavra, sem abrir os olhos, como as pessoas que, ao atravessarem, por exemplo, o Mar Cáspio num vapor, sofressem de tão violento enjoo que não oferecessem a mínima resistência a quem viesse informá-las de que iam ser lançadas borda fora. Fosse o que fosse que se passava em mim, disse Austerlitz, o sentimento de pânico com que encarava o início da escrita de qualquer frase sem saber como começar essa frase ou qualquer outra não tardou a abranger essa outra ocupação em si mais simples que é a leitura, até que comecei a cair inevitavelmente num estado de maior desconcerto sempre que procurava abarcar uma página inteira. Se pudermos considerar a linguagem uma velha cidade com um emaranhado de ruas e praças, com bairros que remontam longe no tempo, com quarteirões demolidos, limpos e construídos de novo e subúrbios que se vão alargando ao campo circundante, eu serei uma pessoa que, após uma longa ausência, já não consegue encontrar o caminho neste aglomerado, já não sabe para que serve uma paragem de autocarro, o que é um saguão, um cruzamento, uma avenida ou uma ponte. Todo o articulado da língua, o ordenamento sintáctico de cada elemento, pontuação, conjunções e por fim até mesmo os nomes das coisas vulgares, tudo ficou mergulhado numa neblina impenetrável. Também eu próprio havia escrito no passado, isso particularmente, deixei eu de entender. Estava sempre a pensar: portanto, uma frase, uma coisa pretensamente cheia de sentido, é na verdade quando muito um expediente medíocre, uma espécie de excrescência da nossa ignorância com a qual tacteamos às cegas a escuridão que nos rodeia, do mesmo modo que muitas plantas e animais marinhos usam os seus tentáculos. Precisamente o que de costume contém a expressão de uma inteligência bem orientada, a exposição de uma ideia mediante certa competência estilística, não passava, parecia-me então, de uma empresa de todo arbitrária ou ilusória. Já não via coerência alguma, as frases diluíam-se em muitas palavras isoladas, as palavras numa série de conjuntos de letras aleatórios, as letras em sinais desmantelados e estes num rasto cor de chumbo com reflexos prateados aqui e além que alguma criatura rastejante tivesse segregado e deixado como rasto e cuja visão me enchia cada vez mais de sentimentos de horror e vergonha. Uma noite, disse Austerlitz, peguei em todos os meus papéis soltos ou em maços, nos blocos e cadernos de apontamentos, nas fichas e notas de leitura, tudo o que tivesse sido escrito por mim, tirei tudo de casa e levei para o extremo mais afastado do jardim, para o monte do composto, onde enterrei aquilo sob camadas de folhas podres e pazadas de terra alternadas. Nas semanas seguintes, enquanto arrumava as divisões da casa e renovava a pintura de chãos e paredes julguei-me aliviado do peso da minha vida, mas em breve me apercebi das sombras que iam pousando em mim. Sobretudo à hora do crepúsculo, que antes era a minha favorita, invadia-me uma angústia a princípio difusa, depois cada vez mais densa, com o que o belo espectáculo do empalidecer das cores se transformava numa lividez execrável e baça, me comprimia no peito o coração até um quarto do seu tamanho natural e na minha cabeça sobrava apenas uma ideia: ir a uma casa de Great Portland Street, onde, uns anos antes, a seguir a uma consulta com um médico, tivera o estranho capricho de subir ao patamar do terceiro andar, transpor a balaustrada e lançar-me no poço escuro da escada.»
W. G. Sebald, Austerlitz,
trad. Telma Costa, Teorema, Lisboa, 2004, pp. 114-118

Outros filmes de Junho


Je vous salue Marie
Jean-Luc Godard
1984, 107’
6ª, dia 1, 21h30
Cinemateca, Lisboa

Tini zabutykh predkiv /
Os cavalos de fogo

Serguei Paradjanov
1965, 95’
Sáb, dia 2, 19h
Cinemateca

Samma no aji / O gosto do saké
Yasujiro Ozu
1962, 112’
Sáb, dia 2, 21h30
Cinemateca

The magnificent Ambersons
Orson Welles
1942, 88’
Sáb, dia 9, 22h
Cinemateca

The birth of a nation
D. W. Griffith
1915, 189’
2ª, dia 18, 22h
Cinemateca

Utamaru o meguru gonin no onna /
Cinco mulheres em volta de Utamaru

Kenji Mizoguchi
1946, 92’
Sáb, dia 23, 15h30
Cinemateca

Moartea domnului Lazarescu /
A morte do Sr. Lazarescu

Cristi Puiu
2005, 153’
Mostra de Cinema Romeno
Dom, dia 24, 21h45
Quarteto, Lisboa

White dog
Samuel Fuller
1982, 90’
6ª, dia 29, 21h30
Cinemateca

O cinema é parte do mundo

Não é certo que a iniciação de um realizador se faça a partir da sua solidão acompanhada de câmara. Embora a amplitude da expressão cinematográfica passe igualmente pela experiência que cada um faz, nem que seja por uma vez, do acto de fazer um filme (e não apenas pelas obras maiores dos maiores cineastas). Para que alguém se possa confrontar à matéria cinematográfica de modo a vincular-se a ela, a encontrar nela vocação e trabalho, é essencial que seja bem limitada a quantidade de elementos com que tem de lidar. Por fundamental que seja a multiplicidade a enfrentar, importa que esta não seja aterradora, que permita um entendimento dos elementos. Um pouco, no fundo, como no malabarismo. Demasiados objectos cinematográficos no ar, não sujeitos à composição, acabam por cair no chão.
Esta série de pequenos filmes em torno da vida numa região rural do norte da Tailândia que constitui o filme ‘Reanglao jak meangnue / Stories from the North’ (2006) de Uruphong Raksasad começa precisamente por figurar essoutra multiplicidade demente que a grande cidade impõem e que podemos supor impeditiva do gesto que o realizador deseja. Não admira então que se tratem de esboços cinematográficos oriundos do país longínquo, tantas vezes imaginário, das memórias de infância campestre. É desse ambiente altamente controlado e reduzido, carregado também de uma sentimentalidade já presente e a estirpar, que o realizador tem de arrancar o seu esforço de composição. Assim, este conjunto de pequenos retratos de existências campestres, marcadas em geral pela solidão, tédio e pobreza, corresponde antes de mais ao próprio gesto cinematográfico de Uruphong Raksasad, que dá a entender ter procurado fugir da indústria cinematográfica tailandesa em prol de um cinema mais pequeno. Mesmo que o realizador o afirme, não é evidente que haja neste filme uma qualquer apologia da bucólica vida campestre que exceda as condições do próprio gesto cinematográfico. Precisamente, o contraste entre a calma da vida campestre e o rebuliço de tom citadino aparece quando a expressão cinematográfica é, por assim dizer, mais desajeitada. Quando, por incapacidade, se deixa figurar a intenção – La volonté, mort de l'Art (Michaux).

O realizador Uruphong Raksasad tinha, segundo creio, experiência de montagem e pós-produção prévia à feitura deste seu primeiro filme. Encontramos um bom virtuosismo de montagem em alguns dos episódios, embora nem sempre acompanhado pelos movimentos de câmara ou enquadramentos, que, apesar da reserva geral, se deixam cair uma vez ou outra na tentação de enfatizar. Como superior exemplo desse virtuosismo libertador da montagem, no episódio dedicado a um músico e ao seu duplo, a contraposição sucessiva entre este a tocar na solidão da sua cabana à noite, num preto e branco rugoso, e a sua sombra quieta e silenciosa, a cores. Ou a abstracção do episódio das crianças que quietas de noite contam estórias de meter medo em contraponto à lua. São de momentos assim simples, que se pressente serem ao mesmo tempo altamente encenados, que nasce muitas vezes o encanto dos episódios ou das personagens deste filme, e menos de uma qualquer veracidade documental contemplativa.
É sempre demasiado simplista interpretar o documentário como a acção cinematográfica estritamente não-interventiva. Parece-me muito salutar que o espectador se pergunte como foi a câmara parar aquele lugar e momento preciso, que sentido milagroso de oportunidade levou o realizador àquela presença cinematográfica. A consciência da complexidade e ambiguidade inerente à feitura dos filmes não tem de obstar à sua fruição, pelo contrário. (Se assim fosse, seríamos tentados a perseguir as ingenuidades do espectador como alvo de denúncia. Não é o caso). Obviamente que os híbridos cinematográficos entre a ficção e o documentário não são apenas interessantes porque jogam com as expectativas do público em relação ao género, mas sobretudo porque libertam novos procedimentos que vêm arejar a expressão cinematográfica. Pede-se a uma pessoa qualquer que se está filmar que repita uma acção. Encena-se o mundo sem código interpretativos demasiado rígidos. Promove-se uma confusão criadora e só secundariamente se confundem os registos.
No mais espantoso destes pequenos filmes – ‘The way / O caminho’ (de 2005, que terá passado em Vila do Conde), começamos por entrever, na escuridão da penumbra do anoitecer, a berrante t-shirt cor-de-rosa de um miúdo. Aquele corpo atravessa aos saltos um verde e cerrado canavial que tem mais do que a altura de um homem. Aos poucos reconhecemos que o miúdo à nossa frente é carregado às cavalitas por alguém (talvez o pai) vestido de escuro (propositadamente?) que assegura conhecer o caminho e nos indica o seu fim prestes. A câmara segue dificilmente a travessia, perdendo de vez em quando os que segue, por também ela enfrentar as dificuldades que as canas e demais vegetação oferecem, obrigando a cortes bruscos na montagem e estranhas suspensões do som ao silêncio, que dão à rapidez e dureza da travessia a sua justa e áspera expressão cinematográfica. Por fim vislumbra-se o fim do caminho, a saída do canavial, e o miúdo pode na terra retomar o caminho dos seus pés. E é a ele que a câmara segue...

O cinema é parte do mundo, não espelho dele ou seu representante. Por isso o cinema não se permite o tráfico de ideias “temáticas”. Estas rapidamente se desvanecem por não consolidadas, por serem afinal partes não necessárias da composição cinematográfica, meros excedentes. O “estado” a que o mundo se presta num filme como ‘Reanglao jak meangnue / Stories from the North’ é mais o de uma irredutibilidade de uma aceite solidão existencial, que corresponde à do gesto criativo, do que o de uma qualquer nostalgia por uma comunhão idealizada com a natureza. Não há, à partida, e por muito que isso nos custe, mais autenticidade na solidão, tédio e pobreza do campo que deixámos do que na solidão, tédio e pobreza da cidade a que estamos confinados.

(publicado originalmente em o Estado do Mundo a convite da gentil Sara Pais)


MNEMÒSINE   Non ti sei chiesto perché un attimo, simile a tanti del passato, debba farti d'un tratto felice, felice come un dio? Tu guardavi l'ulivo, l'ulivo sul viottolo che hai percorso ogni giorno per anni, e viene il giorno che il fastidio ti lascia, e tu carezzi il vecchio tronco con lo sguardo, quasi fosse un amico ritrovato e ti dicesse proprio la sola parola che il tuo cuore attendeva. Altre volte è l'occhiata di un passante qualunque. Altre volte la pioggia che insiste da giorni. O lo strido strepitoso di un uccello. O una nube che diresti di aver già veduto. Per un attimo il tempo si ferma, e la cosa banale te la senti nel cuore come se il prima e il dopo non esistessero piú. Non ti sei chiesto il suo perché?

Cesare Pavese, «Le Muse»,

Dialoghi con Leucò (1947)
MNEMÓSINE   Não te perguntaste porque é que um instante, semelhante a tantos outros no passado, deve de repente fazer-te feliz, feliz como um deus? Tu fitavas a oliveira, a oliveira na vereda que percorreste todos os dias durante anos, até que chega o dia em que o mal-estar te deixa, e tu acaricias o velho tronco com o olhar, como se fosse quase o amigo reencontrado e te dissesse justamente a única palavra que teu coração esperava. Outras vezes é o olhar de um passante qualquer. Outras vezes a chuva que insiste há dias. Ou o chio estridente de um pássaro. Ou uma nuvem que dirias já ter visto. Por um instante pára o tempo, e aquela coisa banal tu sente-la no coração como se o antes e o depois já não existissem. Não perguntaste o porquê disto tudo?

(tradução de José Colaço Barreiros)
MNEMOSYNE   Haven’t you wondered why an instant, similar to so many in the past, suddenly makes you happy, happy as a god? You were looking at the olive tree, the olive tree on the path that you take every day for years, and one day your annoyance goes away, and you caress the old trunk with your eyes, as though it were a refound friend who said to you just the one word your heart was waiting for. Other times it’s the glance of some passer-by. Other times the rain which goes for days. Or the sharp cry of a bird. Or a cloud you thought you’d already seen. For an instant time stops, and you feel the banal thing in your heart as though before and after no longer exist. Have you not wondered why?

(translated by Tag Gallagher)


tradução francesa e
legendagem de Danièle Huillet

Tu ne t'es jamais demandé
pourquoi un instant,

semblable à tant d'autres du passé

doive te rendre d'un coup heureux,
heureux comme un dieu?

Tu regardais l'olivier,
l'olivier sur le sentier

que tu as parcouru chaque jour
pendant des années et vient le jour

où l'ennui te quitte,

et tu caresses le vieux tronc du regard,

quasi comme s'il était un ami retrouvé
et te disait proprement la seule parole

que ton coeur attendait.

D'autres fois

c'est l'oeillade d'un passant quelconque.

D'autres fois la pluie

qui insiste depuis des jours.

Ou le cri bruyant d'un oiseau.
Ou un nuage

que tu dirais avoir déjà vu.

Pour un instant
le temps s'arrête et la chose banale

tu la sens dans le coeur
comme si l'avant et l'après

n'existaient plus.

Tu ne t'es pas demandé le pourquoi?

legendagem portuguesa

Não te perguntaste
porque é que um instante,

semelhante a tantos outros passados,

te tornou de repente feliz
feliz como um deus?

Olhavas a oliveira,
a oliveira na vereda

que percorreste todos os dias
durante anos e chega o dia

em que o tédio te deixa,

e acaricias o velho tronco com o olhar,

quase como se fosse um amigo reencontrado
que te dissesse gentilmente a única palavra

que o teu coração esperava.

Outras vezes,

foi o olhar de um qualquer viandante.

Outras, a chuva

intermitente durante dias.

Ou o grito ruidoso de um pássaro.
Ou uma nuvem

que dirias já ter visto.

Por um instante,
o tempo pára e a coisa banal

sente-la no coração
como se o antes e o depois

já não existissem.

Não te perguntaste porquê?


Quei loro incontri (2006) de Straub-Huillet
4ª, dia 23, 21h30 - Fundação Calouste Gulbenkian, Grande Aud.


Masterclass de Wang Bing
Realizador de Tie Xi Qu/West of tracks (2004)

Dom, dia 13 de Maio, 17h
Centro de Arte Moderna da FCG, Sala Polivalente - Lisboa

entrada livre, no limite dos lugares disponíveis | tradução simultânea

(cf.
encontro com Alan Bergala, entrevista)

Comissários dos lugares

«Se o século XIX e a primeira metade do século XX foram a época das narrações sobre a consciência infeliz à procura da sua libertação, vivemos hoje numa época em que a consciência mais ou menos satisfeita aprendeu a arte de acomodar o seu espaço. O homem moderno é uma espécie de “curador” [...], ou seja, um comissário de exposição do espaço que ele próprio habita. Cada homem tornou-se uma espécie de curador de museu. Criar a sua própria instalação é, por assim dizer, uma metaprofissão que toda a gente é obrigada a exercer. A inocência do habitat tradicional foi perdida para sempre. Depois da destruição real e da prova de destrutibilidade de todas as coisas, cada habitante de qualquer apartamento, de qualquer cidade, de qualquer país, tornou-se, ou foi forçado a tornar-se, numa espécie de comissário do seu lugar.»
Peter Sloterdijk,
«Comment Peter Sloterdijk révolutionne nos horizons de pensée»,
entrevista por Fabrice Bousteau e Jonathan Chauveau,
Beaux Arts, n.º 246, Novembro de 2004 [obrigado à Cristina]

Histeria anti-tecnológica e humanolatria | Anti-technological hysteria and humanolatry

«A histeria anti-tecnológica que segura partes substanciais do mundo ocidental entre as suas garras é um produto da decomposição da metafísica, pois agarra-se a falsas classificações do ser de modo a revoltar-se contra processos através dos quais estas classificações são ultrapassadas. É reaccionária no sentido essencial da palavra, porque expressa o ressentimento da bivalência ultrapassada por contraste com a polivalência que não consegue compreeender. Isto aplica-se sobretudo aos hábitos da crítica do poder, que são ainda inconscientemente inspirados pela metafísica. No esquema metafísico, a divisão do ser em sujeito e objecto é espelhada na diferença entre senhor e escravo, tal como na de trabalhador e material. Assim, dentro desta disposição, a crítica do poder pode apenas ser articulada como resistência do lado-objecto-escravo-material suprimido contra o lado-sujeito-senhor-trabalhador. Mas dado que a afirmação "existe informação", ou "existem sistemas", está no poder, esta oposição já não faz sentido, e está a desenvolver-se cada vez mais num simulacro de conflito. Esta histeria é efectivamente a procura de um senhor contra o qual se levantar: não pode ser excluído que o senhor enquanto efeito esteja em processo de dissolução, e mais do que qualquer outra coisa sobreviva enaquanto o postulado do escravo fixado na rebelião - como Esquerda historicizada ou um humanismo pronto para o museu. Por contraste, um princípio vivo da ala esquerda necessitaria de se reinventar constantemente através de dissidência criativa. Do mesmo modo, o pensamento do homo humanos pode apenas manter-se em resistência poética contra os reflexos metafísicos da humanolatria.»


A técnica na sua relação com o humano
Conferência de Peter Sloterdijk
5ª, 3 de Maio, 21h30
Serralves, Porto
The anti-technological hysteria that holds large parts of the western world in its grip is a product of the decomposition of metaphysics, for it clings to false classifications of being in order to revolt against processes in which these classifications are overcome. It is reactionary in the essential sense of the word, because it expresses the ressentiment of outdated bivalence as contrasted with a polyvalence that it cannot understand. This applies above all to the habits of the critique of power, which are still unconsciously motivated by metaphysics. In the metaphysical schema, the division of being into subject and object is mirrored in the difference between master and slave, as well as that between worker and material. Thus within this disposition, critique of power can only be articulated as resistance of the suppressed object-slave-material-side against the subject-master-worker-side. But since the statement "there is information", alias "there are systems," is in power, this opposition no longer makes sense, and is developing ever more into a phantom of conflict. This hysteria is indeed the search for a master to stand up against: it cannot be excluded that the master as an effect is in the process of dissolving, and more than anything else lives on as the postulate of the slave fixated on rebellion - as the historicized Left or a humanism that is ready for the museum. In contrast a living left-wing principle would need to constantly reinvent itself through creative dissidence. Likewise, the thought of homo humanus can only maintain itself in poetic resistance against metaphysical reflexes of humanolatry.»

Peter Sloterdijk, «The Operable Man. On the Ethical State of Gene Technology», translated by Joel Westerdale and Günter Sautter

Outros filmes de Maio


Le amiche
Michelangelo Antonioni
1955, 104’
Sáb, dia 5, 19h
Cinemateca, Lisboa

Sanxia haoren / Natureza morta
Jia Zhang Ke
2006, 108’
14h30, 17h, 19h25, 22h, (00h30)
Medeia - King 1, Lisboa

Der blaue Engel / O anjo azul
Josef von Sternberg
1930, 110’
3ª, dia 15, 15h30
Cinemateca

Bambi
Walt Disney e David Hand
1947, 87’
Sáb, dia 19, 11h - Cinemateca Júnior
Salão Foz (Restauradores), Lisboa

L’année dernière à Marienbad
Alain Resnais
1961, 93’
Sáb, dia 19, 22h
Cinemateca

Nanguo zaijan, nanguo / Goodbye
South, goodbye

Hou Hsiao Hsien
1996, 112’
3xHHH
Dom, dia 20, 18h30
Culturgest, Lisboa

Quei loro incontri
Jean-Marie Straub e Danièle Huillet
2006, 68’
Todo o mundo é um filme
4ª, dia 23, 21h30
Gulbenkian, Lisboa

Stunde null / A hora zero
Edgar Reitz
1977, 108’
5ª, dia 24, 15h30
Cinemateca

Banshun / Primavera tardia
Yasujiro Ozu
1949, 108’
Sáb, dia 26, 21h30
Cinemateca

Filmes

O que acontece quando se acolhe um filme? Como se cria a vontade de o ver? Como abrimos em nós, seres fechados, um lugar quase emocional para que ele o venha ocupar? Quero acreditar que são as intuições, espécies microscópicas de saber, que mais nos guiam. Mas não intuições isoladas de tudo, meros palpites, antes miríades de pontos, de indicações sedimentadas pela nossa experiência selectiva de espectadores, do apelo das imagens, da estória, etc.; também, porque não, duma atenção prestada a certas recomendações alheias, com as quais estabelecemos relações, mesmo que desviadas. No fundo, uma promiscuidade útil, feita de alguma desconfiança, e que constitui um agregado muito confuso que procuramos esclarecer, fazendo uma espécie de desenho de crença num filme.
Quando se nos oferecem demasiadas hipóteses, este trabalho é tão mais difícil. Por vezes, quase preferimos a escassez e aterroriza-nos a vida que teríamos numa outra cidade, como Paris, por exemplo, onde se pudesse ver quase tudo. É mais um problema de construir uma aproximação e de a preservar. Num festival como o IndieLisboa, que agora começa, a situação normal é a de não se conhecer quase nada e os filmes aparecerem todos ao mesmo nível, sem relevo. Qualquer indício se torna relevante.
Por pudor, faço questão que as “recomendações” que aparecem neste blogue, sob a forma de saliência dos filmes do mês ou pequenos textos a propósito de filmes por vir, digam apenas respeito ao local concreto onde vivo e sejam sempre sobre obras que já vi e que me tocaram. São regras que criamos para nos diferenciarmos, certamente, mas sobretudo para definir aquilo que procuramos fazer. Não costuma, portanto, haver aqui lugar para demasiadas expectativas sobre filmes vindouros. Por uma vez, nas circunstâncias especiais de um festival que começa a dar trabalho, podemos fazer o inverso. Ninguém nos levará a mal, sabendo que as razões de um para ver um filme são as de outros para o evitar. Apenas se pede que se entre na sala, simultaneamente, de olhos fechados e cabeça aberta.


Alguns dos filmes que, não sabendo, quero ver: Fantasma de Lisandro Alonso, ainda que não tenha visto os aparentemente necessários, para este, filmes anteriores deste realizador; Be my star/Mein stern de Valeska Grisebach, confesso que pelo hype (a realizadora estará presente?); sobe, adensa, esgarça, desce de Ana Eliseu e Mathilde Neves, por saber e também por ter ajudado; Eureka de Shinji Aoyama, porque a percentagem dos filmes longos que são maus é muito menor; The state I am in/Die Innere Sicherheit de Christian Petzold, sobretudo por isto, e ainda pela Julia Hummer mais pequenina e pelos Baader-Meinhof revisitados em Portugal; Hamaca Paraguaya de Paz Encina, por algumas indicações de que é uma (boa) “grande seca”; Windows on Monday/Montag kommen die Fenster de Ulrich Köhler, porque para variar gostei do trailer e já ouvi a estória em algum lado; Wolfsbergen de Nanouk Leopold, pelas intrigantes imagens e por uma entrevista que vi com a realizadora não me ter afastado; I don’t want to sleep alone de Tsai Ming-Liang, porque me neither; Syndromes and a century de Apichatpong Weerasethakul, não apenas pelo nome impronunciável do realizador.

(Não se aceitam reclamações.)


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