Ainda não começámos a pensar
                                               We have yet to start thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #7: O elogio de Marker

Aos realizadores nem sempre se deve levar à letra (o que dizem). Têm coisas bem mais importantes em que pensar do que corresponder às nossas expectativas e incompreensões. E são, dos seus próprios filmes já concluídos, meros espectadores, tal como nós. Mesmo assim, há que receber as suas palavras com toda a humildade e, sobretudo, não as deixar esmagar o filme propriamente dito.
Mais difícil ainda é encontrar elogios à obra alheia, em particular se esta for contemporânea. Nisso são particularmente sucintos. Talvez os antigos mestres façam um tipo de sombra mais aprazível, apesar de toda a sua grandeza. Por isto queria mencionar novamente, depois de ter visto o filme, este elogio particular de Chris Marker a CHARLY de Isild Le Besco:

[... U]m filme, o de Isild, pelo menos tão misterioso quanto ela. Um filme de esfoladelas e de verdade, que recusa as maquilhagens da sedução para atingir esse ponto incandescente onde a dificuldade de estar com o outro já não é representação de papéis mas um salto no vazio, que rompe com todos os códigos cinematográficos bem-pensantes e que não se deixa esquecer.

À primeira leitura poderá parecer aquela conversa habitual dos críticos, e profusos émulos destes, que abusam da adjectivação entusiástica. E o entusiasmo dessas fórmulas tende a substituir, a mascarar a própria obra a que se referem. [Como quando (quase todos) os actores lêem poesia. Temos a impressão que, na sua dicção tão aperfeiçoada, estão a ouvir, a ler-se a eles próprios, não ao poema, que mal nos chega.]
Mas não. A verdade é que a frase de Marker é literalmente exacta por relação ao filme. Explicar porquê temo que esteja para além das minhas capacidades. Se o tentasse, limitar-me-ia a parafraseá-la, a mostrar como cada uma das suas frases, palavras mesmo, corresponde a algo que existe e vive no filme.
O melhor é simplesmente que o vejam. Se eu acabei por chegar até ele (como já tinha dito nas «antecipações cegas»), foi afinal apenas porque levei a sério o que disse este realizador sobre outro filme actual. Doutra forma, sem este seu gesto generoso, não chegaria lá. Que outros sinais apontavam para a subtileza e originalidade desta obra? Há que falar pouco e, quando se abrir a boca, dizer algo que valha a pena.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #6: Depreciação dos filmes medianos

Tenho ouvido dizer que há muitos espectadores de cinema que se recusam a sair da sala antes do filme acabar, por mais mau que o filme seja. Ou talvez por quererem confirmar, perversos, quão mau se pode ele tornar. Mas não será isto uma outra forma de retenção anal, que, como se sabe, é muito prazeirosa?
No contexto de um festival vivido intensamente, esses pequenos prazeres têm que deixar um pouco de lado, pois há tanta fruição por onde escolher. É por isso que os filmes bem intencionados, quantas vezes esforçados, mas apenas sumamente medianos, são, sem dúvida alguma, os piores de aturar.
Não nos permitem sair, não nos expulsam da sala, mas também não nos fazem render o tempo lá dentro. Saímos como entrámos, levando uma ou outra curiosidade no bolso, mas subtraídos do tempo (um bem escasso) lá passado.
À atenção dos programadores (e críticos). Não permitir que os festivais se acumulem na zona mediana, mantendo uma quantidade não negligenciável de, por assim dizer, merda líquida, que obrigará a uma evacuação bem mais rápida.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #5: tmn

Uma das mais fantásticas invenções deste festival, no nosso contexto, é o sponsoring de salas. Temos assim a Sala tmn no cinema São Jorge. Como sabem o azul é a cor da dita marca. Pois, feliz coincidência, encontraram logo uma sala com risquinhos luminosos azuis no chão que indicam os locais de passagem. Mas logo à entrada já uns grandes painéis nos anunciavam que estávamos a aceder a uma sala especial, “esponsorizada” ou lá como é que se diz.
Mas aquilo em que realmente nos apercebemos da presença da marca, lamentavelmente para nós mais do que queríamos, mas sendo isso precisamente o que interessa nestas coisas, para as marcas, é que em cada cadeira há um daqueles papelinhos que se colocam no topo dos assentos dos aviões, por exemplo, para o bedum do cabelo não sujar as cadeiras e outras coisas. Caindo para o lado do ocupante da cadeira e para trás, bem visíveis, estes papelinhos, têm, claro, o azulinho bem evidente. O problema é que comportam também umas generosas margens a branco, bem como as próprias letras do logotipo também a branco, aumentando em vários factores a luminosidade geral da sala.
Ora, na sala escura, sublinhado escura, não convém nada a branco no nosso campo de visão. Excepto, claro está, o próprio ecrã, onde a dita marca, por acaso, também nos massacrou antes do filme começar.
Não estando ninguém sentado à minha frente, afastei delicadamente com os meus pés descalços aqueles anúncios da minha frente. Achei que era um pouco demais...
Além disso, o filme romeno que estava a ver, de sugestivo título português CENAS E GUITO, envolvia o uso intensivo de telemóveis arcaicos, pois a acção passa-se no final da longínqua década passada, tanto quanto pude perceber. Sujeitos às intempéries dos humores dos aprendizes de mafiosos, os telemóveis, cujo uso era manifestamente diferenciado do de hoje, pois o tamanho sugeria uma gestualidade diferente, digamos, mais larga e denunciada, eram regular e generosamente maltratados. Ao pé daquele emprego, o meu afastar dos anúncios, no final da sessão cuidadosamente repostos por diligentes funcionários, já não tinha aquele tom revolucionário e anarquista que lhe tentei emprestar de pé descalço.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #4: O melhor dos festivais

O melhor dos festivais, já nem me lembrava, são as interrupções. No meio do exagero de tantos filmes, sair finalmente do escuro e apanhar a brisa, mesmo o ar quente da tarde. Que alívio sentir a vida lá fora! Confirmar que esta coisa mental que é o cinema não nos encerrou para sempre, abrigados nos seus consoladores fantasmas. E que se pode num jardim perto caminhar descalço sobre a relva e deitar ao sol ou à sombra, de preguiça e alegria.
O cinema seria absolutamente insuportável sem este sair para a rua, mesmo o da noite escura. O exterior, o que está lá fora, eis a essência do cinema. Mesmo lá dentro, e sobretudo para os que amam aquilo que só se pode passar lá dentro, é isso o mais importante, a única coisa importante. Ai de quem não o perceba! No fundo, o cinema não interessa nada.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #3: Citações

«Porque é que a compaixão não é mais funda?» — pergunta uma personagem de DOCH (But still), por não se conseguir conter e pontapear alguém que está no chão.

*

«Quando ele lhe disser “Você tem fome?”, você se volta, olha a câmara e diz: “Tenho!”» — grita Glauber Rocha em ANABAZYS.

*
«Maman, regarde! Les pauvres... Ils sont morts... Maman, les pauvres, ils sont fait de sable?» — assim começa PIC - NIC, com o off de uma criança francesa em fundo negro.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #2: O cansaço olha para a câmara

Quando já sentimos o fim aproximar-se, no documentário PIC - NIC de Eloy Enciso rodado na praia de Benidorm, e estamos bem avançados na observação dos velhos madrugadores em férias, a câmara fixa-se com uma insistência algo despudorada num velho distraído, que parece perdido nas suas ideias, contemplando derreado a rua. Um excessivo voyeurismo parece insinuar-se de repente, como que à beira de destruir a relativa reserva que até então nos tinha abrigado. A demora na face do velho não nos está a ajudar, e sentimos que perdemos o filme, todo aquele que passou, a nebulosa que ele começava a criar na nossa cabeça, porque não soube hesitar no momento necessário.
Mas eis que o velho, apesar de bastante apagado, por fim distrai o seu olhar para dentro e, continuando a deriva, acaba por fitar ele próprio a câmara, com a mesma paciência cansada.
Passado um pouco também a câmara se torna desmerecedora da sua atenção, e dela se despede para fitar de novo a rua com a placidez inicial.
Aquele olhar para a câmara, tão simplesmente denunciado, protege, não apenas este plano específico, com o velho capturado, mas todo o filme, de uma qualquer tendência para um voyeurismo caricatural que se pudesse estar a acumular. Está lá para nos tornar de repente conscientes que o olhar foi devolvido, que há um espelhamento reflexivo [indispensável ao documentário?]. E que ao cansaço que permeia todos aqueles corpos não escapa obviamente o do cinema, apenas um entre os demais.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #1: Antecipações cegas

Sobre a natureza dúbia deste jogo de adivinhação, quer dizer, deste olhar para as vísceras dos filmes por vir (as sinopses, as imagens, os trailers, as críticas, etc.) e nelas ler o futuro da experiência na sala escura, já me expliquei demasiado, por ocasião das anteriores edições do IndieLisboa e DocLisboa. Os resultados, para o adivinho, apresentam-se bastante aceitáveis. Mas serão partilháveis? O falhanço de uma intuição não será muito mais pesado para quem a seguiu sem auscultar as suas próprias vísceras? Bom, de qualquer maneira, aqui ficam as suspeitas, para os aventurosos.
Nestas contas não entram os documentários STAUB (Dust) de Hartmut Bitomsky e RESPITE (in MEMORIES) de Harun Farocki, que já foram vistos e, consequentemente, recomendados na rubrica (e agora também calendário) dos «Meros filmes».

Em primeiro lugar, porque sigo a ordem de projecção, antecipo cegamente o documentário WUYONG (Useless) de Jia Zhang-Ke, realizador interessante de que só me dei conta através de uma retrospectiva no Indie, precisamente, apesar de um filme seu ter estado em sala; também, embora com alguma hesitação para os mais delicados, o impossível ANABAZYS de Paloma Rocha e Joel Pizzini, uma corajosa (ou, mais provavelmente, inconsciente) continuação de um dos mais difíceis e excessivos filmes de sempre, A IDADE DA TERRA de Glauber Rocha; mais um exercício de curta duração de Pedro Costa, A CAÇA AO COELHO COM PAU, incluído no filme colectivo MEMORIES e provável antecipação do seu trabalho contínuo;
ROZ (Pink) de Alexander Voulgaris, porque gostei francamente dos bocados que vi; CHARLY de Isild Le Besco, por este elogio de Chris Marker: «[... U]m filme, o de Isild, pelo menos tão misterioso quanto ela. Um filme de esfoladelas e de verdade, que recusa as maquilhagens da sedução para atingir esse ponto incandescente onde a dificuldade de estar com o outro já não é representação de papéis mas um salto no vazio, que rompe com todos os códigos cinematográficos bem-pensantes e que não se deixa esquecer»; igualmente, PROFIT MOTIVE AND THE WHISPERING WIND de John Gianvito, porque é um autor conhecido do melhor programador português (não, não é Pedro Mexia; é um daqueles que podia e devia estar no lugar de Pedro Mexia); KILLER OF SHEEP de Charles Burnett, cineasta negro dos já longínquos anos 70, entrevisto em LOS ANGELES PLAYS ITSELF de Thom Andersen; MARFA SI BANII (Stuff and dough) de Cristi Puiu, incluído na sessão do Novo Cinema Romeno 4, pois é a primeira longa metragem do realizador do excelente A MORTE DO SR. LAZARESCU.

À medida das descobertas, a sua partilha será actualizada no calendário público «Meros filmes». A tempo, espera-se, da segunda passagem dos filmes.

Notas demasiado soltas (IndieLisboa 2008) #0: Estavam à espera de quê? De melhor?

Começa daqui a pouco a quinta edição do IndieLisboa, um daqueles momentos condensados de exercício de cinefilia ou simples prazer cinematográfico. Depois de uma grande desconfiança pessoal, que me fez perder alguns filmes importantes, aderi nos últimos anos ao festival, ainda que com prudência. É que, bem escondidas, sujeitas a um imenso trabalho de escavação, sempre se descobriam lá no meio uma ou outra pérola cinematográfica, que é o género que ando à procura. No entanto, este ano, a minha expectativa é manifestamente baixa. Algumas razões para isso.
Os directores do festival, talvez assolados com exigências de produção, mantêm a característica irritante obsessão com o crescimento do número de espectadores (que aliás partilham com o DocLisboa), como se os números fossem um fim em si. Para sublimar essa obsessão, contrataram uma campanha publicitária assoladora e inesperadamente cretina, que revelou a sua verdadeira face, a meu ver, num anúncio paralelo de uma marca de cosméticos que, usando o mesmo slogan, dizia descaradamente assim: «Estavam à espera de quê? Gente feia?» Benditos criativos! É que as gentes feias, no meu entender, também têm lugar no cinema. Diria mesmo, um lugar privilegiado. Um cinema que ainda mereça esse nome será aquele que hoje, entre outras coisas, não distinga entre gentes feias e bonitas, acabando por revelar outras coisas mais importantes, outras distinções mais relevantes.
Claro que isto não deveria surpreender, tal é a infeliz tendência do festival para o pop e o cool, sabores do momento a que não podem ou sabem fugir. Por isso faz igualmente sentido a aliança com o jornal Público, órgão oficial, que nos alimenta das mesmas obrigatoriedades nos seus suplementos culturais. É, portanto, um péssimo sinal, a todos os níveis, do cinematográfico ao político, esta interpelação desajeitada, que se toma por provocatória, do «estavam à espera de quê?».
Quanto ao que interessa mesmo, a programação, ela deixa, numa primeira análise, bastante a desejar, pelo menos em comparação com o ano anterior. Como se, para a consolidação do festival, optassem ao invés por uma programação mais conservadora. Até a secção «Herói independente», que guardava muito do melhor do festival, parece relativamente tépida, pouco arriscada. As retrospectivas de Johnnie To (que não conheço), de José Luis Guerín, e do Novo Cinema Romeno (que não estou ainda certo, apesar de Cristi Piui, que verdadeiramente exista) são escolhas cautelosas, conscienciosas.
Dito isto, e porque não faço contas à grande, mas à pequenez de um filme inesperadamente descoberto, de um autor revelado (como, por exemplo, a alemã Angela Schanelec, através de uma sua muito bem escondida média metragem no heterodoxo programa «Um cinema alemão» do ano passado), admito e espero surpreender-me com os filmes que resolveram oferecer-nos. Talvez a cinefilia dos programadores, apesar das aparências, passe por ser uma actividade secreta e envergonhada de colocação de armadilhas, de filmes inesperados, no meio do engano.
Não são esses, no entanto, os sinais. Gritantemente sintomática dessa tendência é a não selecção da importante curta metragem ESTAÇÃO de Luís Miguel Correia, sobre a qual já escrevi aqui*. Lamentavelmente, pois circunscreve em muito o número de gente que a poderá ver. E, entre outras infelicidades mais graves, perder-se-á assim a oportunidade de pôr João Nicolau, realizador de RAPACE, a reagir, enquanto júri das curtas metragens, a esta curta que pode, e talvez deva, ser vista em paralelo com a sua.
De resto, são muitos, quase demasiados, os filmes sobre os quais exercer a suspeita e a benevolência de quem ainda está à espera de alguma coisa do cinema.

* Declaração de interesses: o realizador é um amigo e o filme foi produzido por uma produtora de que sou sócio. Isto muda alguma coisa?

Quando se acende a luz...

«Era como quando, no cinema, diante dos olhos arregalados da multidão, desfilam ao ritmo triunfal e nostálgico da orquestra as grandes cidades e todas as suas riquezas, as paisagens longínquas, as aventuras, as mulheres mais belas e os homens mais afortunados. Ao ritmo apressado do seu coração iludido, o cinema das suas ambições corria cada vez mais rápido... no ecrã da sua fantasia as imagens perseguiam-se, encontravam-se, misturavam-se, ultrapassavam-se... era a corrida das esperanças, que tira a respiração, faz tremer a alma, ilude, e finalmente dissolve-se, deixando a medíocre realidade; exactamente como no cinema quando se acende a luz e os espectadores se entreolham com caras desencantadas e amargas.»
Alberto Moravia, Os indiferentes, trad. Álvaro de Almeida, Colecção Público Mil Folhas, Porto, p. 198

Meros filmes em Abril


Haut bas fragile
Jacques Rivette
1995, 170’
3ª, dia 1, 21h30
6ª, dia 4, 22h
Cinemateca
*, Lisboa

Ballade vom kleinen Soldaten /
A balada do pequeno soldado
Werner Herzog e Denis Reichle
1984, 45’ [projecção dvd ou pior]
Filmes com jantar

3ª, dia 1, 22h30 – Bacalhoeiro
Rua dos Bacalhoeiros, 125, 2º, Lx


Coeurs
Alain Resnais
2006, 120’
estreia dia 3
14h30, 17h, 19h30, 22h, (00h30)
Medeia King 1 e Monumental 4, Lisboa


The crowd
King Vidor
1928, 104’
Sáb, dia 5, 19h30
Cinemateca

Mahanagar / A grande cidade
Satyajit Ray
1963, 130’
Sáb, dia 5, 21h45
Cinemateca

Silvestre
João César Monteiro
1981, 118’
2ª, dia 7, 22h
Cinemateca

Les statues meurent aussi
1953, 30’
Toute la mémoire du monde
1956, 21’
Alain Resnais
Sáb, dia 12, 22h
Cinemateca

I vitelloni
Federico Fellini
1953, 100’
2ª, dia 14, 19h30
Cinemateca


True heart Susie
D. W. Griffith
1919, 83’
Sáb, dia 19, 19h30
Cinemateca

Der müde Tod / A morte cansada
Fritz Lang
1921, 100’
Sáb, dia 19, 22h
Cinemateca

Faust
F. W. Murnau
1926, 99’
5ª, dia 24, 19h
Cinemateca

Respite
Harun Farocki
2007, 40’ / in Memories
– Jeonju Digital Project 2007

IndieLisboa 2008* – Observatório
Sáb, dia 26, 19h15
(tb. 6ª, dia 2 Maio, 19h15)
Teatro Maria Matos 1, Lisboa

Staub /
Harmut Bitomsky
2007, 90’
IndieLisboa 2008 – Observatório
Dom, dia 27, 16h
(tb. 6ª, dia 2 Maio, 16h)
São Jorge 2, Lisboa

Il mistero di Oberwald
Michelangelo Antonioni
1981, 129’
4ª, dia 30, 21h30
Cinemateca

Pic - nic
Eloy Enciso
2007, 75’
IndieLisboa 2008 – Laboratório
2ª, dia 28, 21h15 – Londres 2, Lisboa

Roz [Pink]
Alexander Voulgaris

2007, 90’
IndieLisboa 2008 – Comp. Internacional
3ª, dia 29, 15h45
– Londres 1

[apenas filmes vistos, sem repetições]

«Instalações, acontecimentos, happenings, improvisações: tudo orienta a pesquisa para uma espécie de teatralidade generalizada [...]»
Alain Badiou, Le siècle, Seuil, Paris, p. 220 [sublinhado meu]


Aproximações à biopolítica

6ª, dia 14 de Março, 10h - Culturgest, Sala 2
Programa Espectros da vida nua

O medo da morte e a conservação da vida por António Bento
Sabe-se como é de uma determinada articulação entre o medo da morte violenta (a paixão mais poderosa) e o direito à conservação da vida (o direito mais sagrado) que Thomas Hobbes deduz o seu Leviathan. Sabe-se também como uma boa parte – a grande parte – da tradição da filosofia política moderna provém da racionalização deste «medo» e da naturalização deste «direito». A um medo «natural» racionalizado faz ela corresponder um direito «racional» naturalizado. O que isto imediatamente significa é que a economia política da vida moderna se define por um cálculo racional de riscos e de benefícios no qual o «medo» é disposto como o fundamento prático e a garantia especulativa do «direito». Mais: a naturalização do direito à conservação da vida só pode ter como corolário o aumento do medo da morte violenta e a consequente existência de um «direito» que deve modernamente apresentar-se – e justificar-se – como uma segurança – mítica, e, portanto, sagrada – contra o medo. Foi neste ponto que Thomas Hobbes nos colocou e do qual ainda hoje permanecemos cativos: a política concebida como fábrica de segurança e o direito como apólice universal contra o medo.

A biopolítica como sintoma do arcaico por José Bragança de Miranda
A ideia de biopolítica é proposto por Michel Foucault para conceptualizar um domínio detectado por Marx, mas por este deixado em suspenso. Trata-se da «vida», qualquer coisa que se jogaria entre o jurídico-político (Estado) e a economia política (o trabalho). Foucault visa-o directamente através de uma série de estudos sobre a prisão, a família ou a clínica, etc. – o famoso «arquipélago» institucional –, servindo a «biopolítica» para apreender o que há de comum em estratégias tão diversas, mas finalmente convergentes. Nesta comunicação procede-se a uma crítica desta concepção, mostrando que o biopolítico é um sintoma do retorno de algo bem mais arcaico e que atravessa subterraneamente toda a cultura desde os seus primórdios e que pode ser descrito como a «energologia» ocidental (a acumulação e o uso de energia animais e humanas de acordo como uma série de «formas» ou tipos). Estamos a assistir à crise desse modelo e à correspondente instauração de uma «extaseologia» geral (a economia geral dos «prazeres» e dos «terrores»). Defender-se-á a necessidade de retraçar politica e artisticamente o programa arcaico, dado o manifesto esgotamento por que está a passar.


O nacional-socialismo e a política sobre a vida
por Alexandre Franco de Sá
Autores como Michel Foucault ou Giorgio Agamben propõem-nos uma leitura do fenómeno nacional-socialista como uma experiência política resultante de a vida se constituir como o objecto de uma hiper-soberania, tornando-se puramente exposta a um poder que torna indiferente a vida e a morte. A presente comunicação pretende abordar o fenómeno nacional-socialista a partir não do objecto do poder mas do seu sujeito, problematizando a possibilidade da caracterização de um tal sujeito a partir do conceito de soberania.

Figuras contemporâneas do biopoder por José Caselas
Trata-se de analisar algumas formas de biocontrolo implicadas no governo de si e dos outros, que derivam da aplicação da medicina e da biologia à gestão das populações e à economia. Que modalidades éticas se constituem nestas formas emergentes de vida? Que tipo de subjectividade, que jogos de linguagem daí resultam? Importa problematizar a questão da liberdade e do determinismo nestas tecnologias biomédicas.

Autópsia in vivo por André Dias
Pode a biopolítica ser pensada como "autópsia geral in vivo do mundo"? Ensaiamos esta hipótese, ela própria paradoxal, como mera ilustração da expressão cinematográfica do pensamento no documentário PRIMATE de Frederick Wiseman, uma das "figuras da autópsia" que definem a biopolítica no cinema contemporâneo. Abordaremos, neste contexto, os problemas da relação ao animal, da insuficiência da compaixão, das invisibilidades necessárias, bem como, numa perspectiva mais cinematográfica, do esvaziamento do ponto de vista, da proximidade não enfática, procurando sugerir uma crítica da lógica paradoxal em prol de uma "ambiguidade livre" e o vislumbre de um horizonte biopolítico centrado na "produção da natureza".

6ª, dia 14 de Março, 15h - Culturgest, Sala 2
Programa Concretudes do poder

A mais-valia do poder e a avaliação por José Gil
A partir das noções de bio-poder e biopolítica tal como Foucault as definiu e Toni Negri as retomou, procurou-se mostrar a pertinência da noção de "mais-valia de bio-poder". Procurou-se com estas noções caracterizar a natureza da "governação Sócrates" e descrever um dispositivo essencial das tecnologias biopolíticas dessa governação: a avaliação.

Modelos evolutivos e ideologia por António Bracinha Vieira
Desde as primeiras teorizações transformistas, e depois evolucionistas, da origem das espécies e das formas vivas, que as ideologias políticas, económicas e religiosas nelas têm procurado caução para os seus desígnios, como se lhes proporcionassem uma justificação dos objectivos ideológicos baseada em tendências inarredáveis inerentes à própria natureza. Por isso se tem assistido, nos últimos dois séculos de História, a apropriações e manipulações sistemáticas dos modelos evolucionistas por parte das diversas tendências do Poder que sucessivamente têm entrado em cena.

Criticar Negri, ignorar Foucault, tomar o poder por José Neves
A reflexão de Foucault sobre biopolítica é um elemento principal no pensamento de Negri nos últimos anos, momento em que a sua obra volta a suscitar as mais diversas críticas. Entre estas, encontramos a crítica de teóricos que se reclamam das tradições comunistas dominantes. Estes, contudo, têm criticado Negri sem se interessarem pela relação que o Império de Negri estabelece com a biopolítica de Foucault. À procura do que se joga neste desinteresse, esta comunicação debruçar-se-á sobre a história do comunismo no século XX.




A luta sem futuro de revolução por Eduardo Pellejero
Substituir as relações de produção pelo agenciamento da vida – como dimensão constituinte das formações de poder –, não implica uma mudança no quadro conceptual da análise sem implicar ao mesmo tempo uma profunda renovação das questões que contornam a prática militante. A partir da obra de Deleuze e Guattari, procuramos explorar o sentido de uma fidelidade ao marxismo que, reformulando os seus objectos e os seus instrumentos, pretende acolher a imponderabilidade de novos saberes, de novas técnicas, de novos dados políticos.

O inconsciente biopolítico do arquivo audiovisual por Susana Duarte
Uma incursão na obra do cineasta alemão Harun Farocki, a partir do que a aproxima do pensamento do filósofo Michel Foucault: não só o interesse pelas sociedades disciplinares e pela passagem às sociedades de controlo (trazendo à superfície os traços simultaneamente não visíveis, mas não escondidos, que permitem evidenciar a ordem biopolítica que nos governa hoje), mas também uma escrita cinematográfica indissociável de uma análise arqueológica dos discursos e das imagens na sua materialidade e mediatização.
6ª, dia 14 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Mitologia da Segurança
por Andrea Cavalletti


A fórmula de Hobbes «fora do Estado nenhuma segurança» exprime o paradoxo da política moderna. Ela define o perigo a partir do Estado (como o "seu" próprio fora) e, ao mesmo tempo, o Estado a partir do perigo. A fórmula torna assim desde logo evidente como o dispositivo estatal não pode nem deve anular alguma vez o risco, mas antes evidenciá-lo, procurá-lo continuamente e, não o encontrando, inventá-lo. É precisamente esta impossibilidade constitutiva que torna o Estado moderno capaz de tudo.




Andrea Cavalletti
ensina Estética e Literatura Italiana na Universidade Iuav de Veneza. Ocupou-se, entre outros, de Warburg, Benjamin, Bialik, de filosofia política, e da ciência do mito, com a edição da obra de Furio Jesi. Publicou, para além de vários ensaios, o livro La città biopolitica (Mondadori, Milão, 2005).

Sáb, dia 15 de Março, 11h - Culturgest, Peq. Aud.
Mesa-redonda Um desafio à política?

Mesa-redonda que procura avaliar a eventual relevância da biopolítica para a interpretação dos fenómenos políticos contemporâneos, com Rui Tavares, José Neves, Ivan Nunes e André Freire, moderada por António Guerreiro.


Sáb, dia 15 de Março, 15h - Culturgest, Sala 2
Programa A arte, a vida

O animal profundo por Maria Filomena Molder
Ó animal gracioso e benigno… assim se dirige Francesca da Rimini ao único vivo que atravessa a terra dos mortos, o poeta Dante. Maravilhamento, a que se mistura uma estranheza natural, é o que sentimos quando escutamos aquelas palavras, que servirão de mote para o que está em causa no reconhecimento do ser humano como "animal profundo". Concepção de Giorgio Colli que se cruza com concepções afins, em particular, em Wittgenstein e Guido Ceronetti.

Os corpos inimagináveis por Jorge Leandro Rosa
Entre o "defeito de visibilidade" e a "imagem totalitária", quatro fotografias captadas no crematório V de Auschwitz-Birkenau continuam náufragas e inclassificáveis. Para além da polémica sobre o seu valor documental e imagético, essas imagens abrem-nos um lugar para a reflexão sobre uma fenomenologia da Shoa. O que aí se fecha, contudo, forma a própria experiência dessas imagens. Que fios da experiência encerram os corpos de Auschwitz?



Sobreviventes - O silêncio do corpo que cai
por Eugénia Vilela
A política contemporânea cria modos de silêncio onde os corpos singulares se transformam em espaços orgânicos de aniquilação. Homens, mulheres e crianças sobrevivem em espaços de abandono – campos de refugiados, espaços de deslocação, campos de detenção – onde a linguagem é suturada ao mutismo do corpo que se dobra sobre si mesmo, caindo num silêncio sem infância. E no entanto, no interior desses espaços outros, pressentimos a intimidade do silêncio entre o corpo e o tempo, num gesto que é a matéria da vida como uma obra de arte.

Na zona cinzenta por Nuno Lisboa Afonso
A partir da análise do filme-testemunho S21 – La Machine de Mort Khmère Rouge, em que Rithy Panh desenvolve uma autêntica microfísica dos gestos, procura-se interrogar o espaço aparentemente vazio onde se move a câmara do cineasta, na "zona cinzenta (descrita por Primo Levi), de contornos mal definidos, que liga simultaneamente senhores e escravos" no campo de concentração.
Sáb, dia 15 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Riscos e potencialidades da biopolítica global
por Roberto Esposito


A mudança de época no final dos anos 1980 levou ao uso e à difusão do paradigma de biopolítica, elaborado no decénio precedente por Foucault. A partir da sua definição, será necessário reconstruir a sua progressiva transformação, nos anos 30 do século xx, de uma política da vida numa política da morte. Esta incidência sobre a tanatopolítica nazi permitirá diagnosticar a fase actual da biopolítica global, com os seus riscos e potencialidades, e sugerir a possível relação entre biopolítica e prática filosófica.




Nascido em 1950, Roberto Esposito é professor de Filosofia na Università degli Studi de Nápoles, Itália. Através da análise das categorias políticas clássicas e modernas, o seu pensamento vai sublinhando os limites do político na época contemporânea. Entre as suas obras, ainda não editadas em Portugal, destacam-se Categorie dell'impolitico (Il Mulino, 1988) e Communitas. Origine e destino della comunità (1998), Immunitas. Protezione e negazione della vita (2002), Bíos. Biopolitica e filosofia (2004) e o recente Terza persona. Politica della vita e filosofia dell'impersonale (2007), publicadas pela Einaudi.

Survivor, entre aspas


The Survivor , episódio 39 da 4ª série de Curb your enthusiasm de Larry David (HBO)

[Lembrei-me desta imagem humorística, tão elucidativa dos tempos interessantes que nos fazem viver, enquanto via SHOAH de Claude Lanzmann no escuro da sala da Cinemateca;
dedico-a ao Yesterday Man; roubada a edenleviathan; para os curiosos mórbidos, eis o outro “survivor”]

«Quem quer viver está condenado à esperança.»
– Filip Müller (que sobreviveu a cinco liquidações do Sonderkommando em Auschwitz), no filme SHOAH

O que é a biopolítica? #5

3ª, dia 11 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Espaços de controlo
por Fernando Poeiras (ESAD Caldas da Rainha)

A expansão de tecnologias de vigilância e de segurança alterou o controlo social, introduzindo diferentes estratégias de biopoder. Como a distinção norma/desvio tende a ser substituída pela de normalidade/acidente e a coerção pela necessidade, o exercício do controlo social é reconfigurado.
Ciclo de conferências O que é a biopolítica?
12, 19, 26 de Fevereiro, 4 e 11 de Março - Culturgest, Lisboa


Ciclo de cinema Figuras da autópsia. A biopolítica no documentário contemporâneo
de 4 a 11 de Março - Cinemateca, Lisboa

Ciclo de conferências Aproximações à biopolítica
6ª 14 e Sáb 15 de Março -
Culturgest


Shoah (1985) de Claude Lanzmann /Figuras da autópsia #4
Sáb, dia 8, 15h30 1ª época: 149’+117’ / 21h 2ª época: 142’+142’ - Cinemateca [sala pequena]

Vinte e um anos depois da sua passagem na televisão (RTP), doze anos depois da sua última projecção na Cinemateca no âmbito do ciclo «Cinema e real», é possível voltar a ver, na sua integralidade, o monumento cinematográfico que é SHOAH de Claude Lanzmann. Trata-se de um longo filme documentário sobre o extermínio dos judeus pelos nazis, baseado nas imagens contemporâneas dos lugares do extermínio e nos testemunhos orais de sobreviventes, em particular dos chamados Sonderkommando, «grupos especiais» de judeus encarregues da aniquilação de outros judeus nos fornos crematórios.
Neste hiato temporal, houve toda uma geração de cinéfilos e interessados, na qual me incluo, que ficou limitada ao desconhecimento, ao ouvir falar, ou, mais recentemente, à edição em dvd estrangeira. Recentemente, tornou-se clara a necessidade de o voltar a projectar. Por ocasião da comemoração dos sessenta anos da libertação de Auschwitz, num debate na livraria Buchholz em Lisboa, os intervenientes pareciam obrigados a passar pela menção ao filme, que gerou muita e interessante literatura teórica e polémica, mas não integravam na sua reflexão o terem-no visto.
Essa visão não pode de todo ser considerada acessória. Tanto mais que, tratando-se apenas de um filme, é também uma experiencia de vida inesquecível. Paradoxalmente, é também uma experiência a que apenas uns quarenta e sete happy few terão direito neste próximo sábado.

P.S.: Não há, repito, não há cinquenta pessoas em Lisboa e arredores para (re)ver SHOAH. A Cinemateca tinha portanto mais do que razão para o programar na sua sala pequena. E a imprensa para sobranceiramente desprezar a sua passagem (bem como ao ciclo). Começaram quarenta e três espectadores às 15h30 e, já depois das 2h da madrugada, restavam apenas dezasseis espectadores.

Certos textos, tidos como sérios, cedo se percebe serem afinal inconsciente e simplesmente a gozar. Muito mais raro e difícil é o inverso, como neste exigente exemplo pós-PRIMATE.
Nem toda a cinefilia tem de ser adepta dessas listagens dos melhores em geral que abundam. Essa redução exclui os filmes que, não sendo talvez os melhores (mas que interessa isso?), ainda assim... Por esses, algumas listas valem bem a pena.

O que é a biopolítica? #4

3ª, dia 4 de Março, 18h30 - Culturgest, Peq. Aud.
Biotecnologia e novos mundos possíveis da vida
por Hermínio Martins (St. Antony's College, ICS)

As descobertas e invenções da biociência, biotecnologia, bioengenharia, convergindo com a nanotecnologia e as tecnologias da cognição, sugerem perspectivas de transformações radicais no mundo da vida. No da vida não-humana, um planeta geneticamente modificado, e mesmo redesenhado pela biologia sintética. No da vida humana, as transformações podem afectar os parâmetros fundamentais da sua condição.
Ciclo de conferências O que é a biopolítica?
12, 19, 26 de Fevereiro, 4 e 11 de Março - Culturgest, Lisboa


Ciclo de cinema Figuras da autópsia. A biopolítica no documentário contemporâneo
de 4 a 11 de Março - Cinemateca, Lisboa

Ciclo de conferências Aproximações à biopolítica
6ª 14 e Sáb 15 de Março -
Culturgest

Meros filmes em Março


Zui Hao De Shi Guang /
Três tempos
Hou Hsiao Hsien
2005, 139’
14h15, 21h45, (00h30)
Medeia King 1, Lisboa

Primate
Frederick Wiseman
1974, 105’
Figuras da autópsia. A biopolítica
no documentário contemporâneo #1
(prog. André Dias)

3ª, dia 4, 21h30
Cinemateca, Lisboa
debate com Hermínio Martins
e José Manuel Costa

Silverlake life: the view from here
Peter Friedman e Tom Joslin
1993, 99’
Figuras da autópsia #2
4ª, dia 5, 19h30
Cinemateca


La règle du jeu
Jean Renoir

1939, 110’
4ª, dia 5, 21h30
Cinemateca


Nuit et brouillard
Alain Resnais

1956, 31’
Figuras da autópsia #3a
5ª, dia 6, 19h
Cinemateca

Level five
Chris Marker
1997, 106’
Figuras da autópsia #3b
5ª, dia 6, 19h
Cinemateca

Shoah
Claude Lanzmann

1985, 544’
Figuras da autópsia #4
Sáb, dia 8, 15h30 1ª época: 149+117
Sáb, dia 8, 21h 2ª época: 142’+142
Cinemateca [sala pequena]

M
Fritz Lang
1931, 100’
Sáb, dia 8, 21h30
Cinemateca

S21, la machine de mort Khmère rouge
Rithy Panh
2003, 101’
Figuras da autópsia #5
2ª, dia 10, 19h30
Cinemateca

De l'autre côté
Chantal Akerman
2003, 103’
Figuras da autópsia #6
3ª, dia 11, 22h30
Cinemateca

Hurlevent
Jacques Rivette
1955, 98’
2ª, dia 17, 19h30
3ª, dia 18, 19h30

Cinemateca

[apenas filmes vistos, sem repetições]


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